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Viva a UnB, pioneira da nova capital

Viva a UnB, pioneira da nova capitalFoto: CBPoder

A UnB permanece porque é patrimônio do povo e deve ser símbolo da síntese fraternal da população brasileira, de sorte que seja uma instituição entrosada com Brasília e com sua sociedade, inclusive com a iniciativa privada — não se deve jamais recear o diálogo.

Correio Braziliense - 02/03/2020 - 10:51:00

A Universidade de Brasília (UnB) é ainda uma das principais instituições de ensino superior do país. Nascida com a inauguração da nova capital, em 21 de abril de 1960, ela seria implementada, no entanto, dois anos depois. O sonho de seus três idealizadores, o mineiro Darcy Ribeiro, o baiano Anísio Teixeira e o cearense Heron de Alencar, foi o de Brasília ter a primeira universidade federal de fato do Brasil, não uma reunião de faculdades e institutos, como havia ocorrido até então. Ela seria a síntese do esforço de modernização intelectual da sociedade brasileira, tendo como cenário global a bipolaridade extrema (Estados Unidos x União Soviética).


O projeto pioneiro e audaz foi interrompido com o golpe militar de 1º de abril de 1964. Exonerações ou demissões em massa de professores qualificados ocorreriam, a liberdade de expressão e de cátedra seria limitada e a instituição assistiria a mais de uma invasão por forças do Estado antidemocrático.

A esperança voltaria com o fim da ditadura em 1985, após o esforço de muitas lideranças, tanto das internas bem como das exiladas, de restaurar a democracia via árduas negociações em busca do estabelecimento do perfil do novo regime cuja face visível seria a Constituição de 1988, rejeitada naquela época por segmentos minoritários de teor autoritário.


Por meio dela, em seu artigo 207, garantiu-se às universidades a “(...) autonomia didático-científica, administrativa e de gestão financeira e patrimonial” e estabeleceu-se a “(...) indissociabilidade entre ensino, pesquisa e extensão”. Decorridas mais de três décadas de promulgação da carta constitucional, nenhum dos governos federais, por meio dos quais passaram os partidos políticos mais representativos do país, regulamentou isso.


Nos dias atuais, o quadro geral das universidades federais é temerário e preocupante porque a longa crise econômica do país — responsabilidade de todas as grandes agremiações, enfatize-se — tem tido efeitos deletérios sobre seu cotidiano. Além disso, não houve planejamento de longo prazo do Ministério da Educação (MEC) para assegurar a sustentabilidade do funcionamento adequado das instituições federais de ensino.


O balanço atual das universidades são servidores — professores e técnicos — com a remuneração média mais baixa do Poder Executivo; infraestrutura insuficiente, de maneira que estudantes não conseguem usufruir de laboratórios, bibliotecas, salas de aula, refeitórios etc. à altura de suas necessidades e orçamento, apesar de, à primeira vista, parecer grande, é incapaz de garantir a manutenção com qualidade à população do trinômio ensino, pesquisa e extensão.


A UnB não seria exceção nesse contexto, embora tenha melhor potencial que as demais em função da presciência dos seus fundadores, bem cientes da necessidade de garantir a ela uma estrutura mais apropriada: o patrimônio imobiliário, aproveitado abaixo do potencial ao longo do tempo pela administração superior. Hoje, próxima a completar 60 anos de nascimento, a UnB passa por momento difícil do ponto de vista político, em função da polarização interna e externa que tem como resultado o crescente desgaste da instituição perante a sociedade.


Por conseguinte, tal radicalismo é sem dúvida excludente e contribui para corroer a identidade da própria comunidade universitária, pouco afeita ao extremismo em vigor e inclinada por formação humanística ao debate constante, pluralidade contínua e respeito à democracia.


Nesse sentido, a sociedade deseja a Universidade de Brasília identificada com sua concepção de fundação, ou seja, a do acolhimento de todos os cidadãos, independentemente de religião, etnia, gênero, preferência partidária, origem geográfica, condição social etc. Afinal, a UnB é cidadania, não partidarismos ou particularismos.


A UnB permanece porque é patrimônio do povo e deve ser símbolo da síntese fraternal da população brasileira, de sorte que seja uma instituição entrosada com Brasília e com sua sociedade, inclusive com a iniciativa privada — não se deve jamais recear o diálogo.


Deve estar ela habilitada para continuar a formar os melhores quadros institucionais tanto do setor público bem como da iniciativa privada e com manutenção dos laços, de modo que a instituição seja capaz de se renovar também a partir das necessidades constantes da sociedade. Por último, uma Universidade que possa manter pesquisa de qualidade, a qual reverbere no desenvolvimento socioeconômico de Brasília e do país.

VIRGÍLIO CAIXETA ARRAES
Professor associado (HIS)

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