Em meio a enxurrada de críticas a plano da Fifa, Conmebol mantém silêncio
Em meio a enxurrada de críticas a plano da Fifa, Conmebol mantém silêncio

São Paulo, Sp (uol/folhapress) - 31/07/2026 15:56:55 | Foto: Bnews - Divulgação Divulgação/Fifa

LUCAS BOMBANA-SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Após divulgar os planos de vender as ações de uma nova empresa que ficaria responsável por gerenciar as atividades comerciais da Copa do Mundo, a Fifa conseguiu atrair uma reação negativa histórica dos principais atores do futebol mundial.

Desde que o plano veio à tona, na terça-feira (28), a Uefa (entidade responsável pelo futebol da Europa) foi a crítica mais contundente, ameçando boicotar o Mundial caso a Fifa não reconsidera sua posição.

Na mesma linha, a Concacaf (Confederação das Associações de Futebol da América do Norte, Central e Caribe) também rejeitou a proposta, citando "profunda preocupação com a falta de devido processo legal em torno da proposta", assim como a AFC (confederação asiática), que disse que a proposta "não pode, realisticamente, alcançar o amplo consenso e a unidade necessários para avançar".

Diante da repercussão mundial, a Conmebol (Confederação Sul-Americana de Futebol) mantém o silêncio. A organização ainda não manifestou qualquer posição a respeito do projeto.

Procurada pela reportagem, a entidade informou que aguarda um posicionamento formal vindo de Assunção, no Paraguai, onde fica sua sede.

A CBF (Confederação Brasileira de Futebol), por sua vez, respondeu por meio de sua assessoria de imprensa que, por ora, não teria posicionamento oficial a ser divulgado.

O presidente da Conmebol, Alejandro Domínguez, é visto como um aliado político histórico de Gianni Infantino, o presidente da Fifa no centro das críticas por conta da forma como o plano foi apresentado ao público.

Desde que Infantino assumiu o cargo, em meados de 2016, Domínguez já manifestou diversas vezes seu apoio irrestrito ao dirigente ítalo-suíço, tendo recentemente sinalizado inclusive apoio a uma eventual reeleição.

A próxima edição da Copa também terá jogos na Argentina, no Paraguai e no Uruguai, em celebração aos 100 anos do torneio de seleções, o que pode contribuir para um alinhamento entre as entidades.

Pouco depois do término da Copa do Mundo, no dia 19 de julho, a Fifa anunciou sua intenção de criar uma empresa para gerenciar suas atividades comerciais e atrair investidores externos, prometendo um aporte de US$ 10 bilhões (cerca de R$ 50,8 bilhões na cotação atual) para financiar o desenvolvimento do futebol.

Gianni Infantino defendeu seu projeto na quarta-feira, mas insistiu que se trata de "uma oportunidade, não uma obrigação".

Uefa anuncia boicote a torneios da Fifa após proposta de venda de ações

A Uefa anunciou um boicote às competições organizadas pela Fifa após a proposta de criar uma empresa para organizar competições e gerir as operações comerciais da entidade, com captação de recursos e vendas de ações.

A decisão foi divulgada após reunião de emergência nesta quinta-feira (30). A nota oficial foi publicada no site da Uefa, entidade que comanda o futebol europeu, e exige que a Fifa abandone a proposta.

"A UEFA e suas 55 associações-membro permanecem unidas. Rejeitamos de forma unânime e inequívoca a proposta da FIFA de transferir participações de propriedade na Copa do Mundo e em outras competições da FIFA para investidores privados", disse comunicado oficial da Uefa.

Nesta semana, a Fifa propôs a criação da "SAF". O presidente da entidade, Gianni Infantino, disse que a proposta é, por ora, uma oferta e só será concretizada se for aprovada pela maioria das 211 nações filiadas e pelo conselho da entidade.

A Uefa tem 55 seleções associadas e disse que não participará das competições Fifa enquanto a proposta estiver em vigor. A entidade afirmou que a "Copa do Mundo não pode ser tratada como um produto de investimento".

"A Copa do Mundo não pode ser tratada como um produto de investimento. Ela é um dos maiores legados esportivos do futebol. Foi construída ao longo de gerações por jogadores, seleções nacionais e torcedores em todos os continentes. Nenhuma parte dela jamais deve ser entregue a investidores privados. A Copa do Mundo não está à venda", disse comunicado oficial da Uefa.

"Como resultado da discussão de hoje, nenhuma seleção nacional da UEFA participará de qualquer competição da FIFA enquanto essas propostas permanecerem em vigor, a menos que essa proposta tenha sido abandonada em sua totalidade e garantias vinculantes tenham sido dadas de que a FIFA jamais voltará a abrir sua governança ou suas competições à propriedade privada", disse comunicado oficial da Uefa.

LEIA A NOTA COMPLETA:
A UEFA e suas 55 associações-membros permanecem unidas. Rejeitamos de forma unânime e inequívoca a proposta da FIFA de transferir participações de propriedade na Copa do Mundo e em outras competições da FIFA para investidores privados.

A Copa do Mundo não pode ser tratada como um produto de investimento. Ela é um dos maiores legados esportivos do futebol. Foi construída ao longo de gerações por jogadores, seleções nacionais e torcedores em todos os continentes. Nenhuma parte dela jamais deve ser entregue a investidores privados. A Copa do Mundo não está à venda.

É tanto irresponsável quanto indefensável que uma proposta de tamanha importância para o futebol tenha sido concebida em segredo e levada à beira da aprovação sem qualquer consulta significativa àqueles encarregados de administrar o jogo. Isso não é apenas uma profunda falha de liderança, mas uma abdicação do dever da FIFA como guardiã do futebol mundial.

As associações nacionais ao redor do mundo agora são apresentadas a um ultimato: aceitar a captura irreversível das maiores competições do futebol ou arcar com as consequências. Isso não é uma "decisão democrática", mas uma governança por intimidação - um ato de coerção indigno de uma instituição encarregada da administração do jogo global.

Mas nossa oposição vai muito além do processo.

No momento em que investidores externos adquirirem participações de propriedade nas competições da FIFA, o futebol mudará para sempre. O retorno comercial se tornará uma obrigação permanente. As expectativas dos investidores se tornarão uma pressão diária. A partir desse momento, toda decisão sobre o calendário internacional, toda decisão sobre os formatos das competições e toda decisão que molda o futuro do futebol deixará de ser guiada pelo que melhor serve ao jogo e passará a ser guiada pelo que melhor serve aos acionistas.

Esse modelo não tem lugar no futebol mundial. O futuro do futebol não pode ser ditado pelas expectativas daqueles cujo primeiro dever é maximizar o retorno financeiro. Tampouco os interesses das associações nacionais, ligas, clubes, jogadores e torcedores podem se tornar subordinados aos retornos dos investidores. O futebol não pode hipotecar seu futuro por ganho financeiro.

A posição da Europa é clara. Nunca emprestaremos nossa legitimidade a esse modelo. Ninguém tem autoridade moral para vender aquilo que apenas detém em confiança para a próxima geração.

Como resultado da discussão de hoje, nenhuma seleção nacional da UEFA participará de qualquer competição da FIFA enquanto essas propostas permanecerem em vigor, a menos que essa proposta tenha sido abandonada em sua totalidade e garantias vinculantes tenham sido dadas de que a FIFA jamais voltará a abrir sua governança ou suas competições à propriedade privada.

Ninguém deve ter qualquer dúvida: a UEFA e suas associações nacionais se oporão a esses planos com absoluta determinação.

Há momentos em que as instituições são julgadas não pelo que estão preparadas para aceitar, mas pelo que se recusam a comprometer. Este é um desses momentos.

Algumas coisas são simplesmente importantes demais para serem vendidas. A Copa do Mundo da FIFA pertence ao futebol. Sempre pertencerá. E, enquanto a Europa tiver voz, ela jamais estará à venda.

Entenda a proposta de venda de ações da Fifa que gerou boicote da Uefa

SÃO PAULO, SP (UOL/FOLHAPRESS) - A Fifa publicou nesta quinta-feira (30) uma nota para explicar o que é o Fifa Forward Enterprise (FFE), a proposta de venda de ações da entidade, boicotada em texto divulgado pela Uefa e todas suas nações representantes.

A criação dessa "SAF", segundo o presidente Gianni Infantino, só será concretizada caso aprovada pela maioria das 211 associações-membro da Fifa.

O que é a proposta?
A FFE será uma subsidiária de propriedade controlada pela Fifa, consolidando os direitos comerciais e as operações de eventos da entidade, segundo a nota. A empresa se somaria a outras subsidiárias da Fifa já existentes.

Pelo que a empresa se responsabilizaria?
A "SAF" da Fifa administraria os direitos comerciais e operações de eventos da entidade, entre eles todas as competições, como com patrocínios, transmissões, licenciamento e outros empreendimentos.

Segundo a Fifa, com o valor adquirido com o projeto, a ideia é aumentar o valor de todas essas propriedades a fim de beneficiar as 211 associações-membro da entidade e, portanto, do futebol.

Que benefícios a Fifa vê na proposta?
O objetivo da proposta é que, com o possível aumento de receita, os valores arrecadados cheguem a todos os setores do futebol de maneira adequada, diz a Fifa. Segundo a nota, embora o valor comercial do esporte tenha crescido, o dinheiro não chegou às áreas que mais necessitam dele.

A Fifa perderia funções?
A Fifa afirma que, caso a proposta fosse aprovada, seguiria responsável por governar e desenvolver o futebol, inclusive regulamentando, definindo e organizando competições.

O que a Fifa precisa para aprovar a proposta?
Para que a proposta da Fifa Forward Enterprise seja aprovada, é preciso que a maioria das 211 associações-membro aprovem a medida.