Adrielly Souza-são Paulo, Sp (folhapress) - 19/09/2026 10:31:09 | Foto: Juliana Didone e Tainá Müller vão viver, respectivamente, Hortência e Paula, nos cinemas — Reprodução/Instagram
Antes de dividirem a quadra como Magic Paula e Hortência, Tainá Müller e Juliana Didone perceberam que seria importante construir uma relação fora das câmeras para que a dinâmica da famosa dupla do basquete nacional aparecesse na tela.
Deu certo. "Tivemos uma ligação", afirma Tainá sobre a parceria com Juliana durante as filmagens de "Paula e Hortência - A Última Chance". O longa, dirigido por Joca Guerra-Peixe, encerrou as gravações e tem previsão de estreia para 2027, com distribuição da O2 Play.
A produção parte de um episódio ocorrido antes dos Jogos Olímpicos de Atlanta, em 1996. Hortência já havia se aposentado e acabara de ser mãe quando recebeu o chamado para voltar à seleção brasileira. A história é contada pelo ponto de vista de Paula e usa o reencontro das duas como caminho para revisitar os conflitos e afetos que atravessavam aquela geração.
Para Tainá, o que torna a relação das duas particularmente interessante é justamente a dificuldade de colocá-la em uma categoria. "Esse é o fio da navalha por onde percorremos e, para mim, é onde está a grande pérola, a beleza desse filme", afirma.
Segundo ela, Paula e Hortência "competem explicitamente", mas também reconhecem a admiração que sentem uma pela outra.
A atriz conta que a rivalidade entre as duas não é apresentada apenas como uma disputa. Existe uma espécie de cumplicidade construída a partir do próprio enfrentamento. "Elas mesmas falam que não são exatamente amigas, mas se respeitam e se admiram profundamente. E quando estiveram unidas com um objetivo em comum, fizeram o impossível."
A dinâmica precisou funcionar também fisicamente. Para interpretar Magic Paula, Tainá, claro, teve de aprender a jogar basquete e passar por uma preparação intensa no esporte.
"Foi o maior desafio físico da minha vida para viver uma personagem", afirma. Além dos treinos com bola, a atriz fazia musculação diariamente para se aproximar do corpo de uma atleta de alto rendimento.
O começo, segundo ela, foi especialmente difícil. "A parte mais difícil foi justamente o início, quando me vi tendo que criar uma habilidade inédita em um curto espaço de tempo."
A experiência acabou fazendo com que Tainá percebesse que o desempenho de uma atleta não depende apenas da força física. "Também descobri que grande parte de ser atleta acontece no mental", afirma. "Quando comecei a 'acreditar' que era mesmo a Magic Paula, passei a acertar mais."
A atriz descobriu, por exemplo, a relação da ex-jogadora com a música e chegou a fazer aulas de canto e violão para reproduzir uma habilidade que fazia parte da vida da personagem. "Ela não é nada óbvia", diz Tainá. "De repente me vi tendo que ensaiar canto e violão porque, além de genial no basquete, ela também canta e toca, é muito ligada à música."
A pesquisa também ajudou a construir uma personagem que não se resume ao desempenho esportivo. Para Tainá, Paula tem um senso coletivo muito forte e é uma mulher guiada por diferentes dimensões de sua personalidade.
"Ela carrega seus traumas e trabalha duro para curá-los, pois é puro fluxo, é guiada pelo coração, dentro e fora da quadra", afirma.
O filme também se detém sobre a situação vivida por Hortência naquele período. Ela decidiu retornar aos treinos e se preparar para uma Olimpíada pouco tempo depois de dar à luz. A situação é vista por Tainá como um dos elementos que ajudam a dimensionar o esforço daquela geração.
"A Hortência vivia um momento delicado. É inacreditável pensar que foi para uma Olimpíada pouquíssimo tempo depois de uma cesárea, com um bebê de meses nos braços", diz.
A história também é uma oportunidade de recuperar a dimensão daquelas atletas para uma geração que talvez conheça apenas os resultados. Tainá acredita que parte do público mais jovem não tenha ideia do tamanho das conquistas de Paula, Hortência e das demais jogadoras daquela seleção.
"Elas abriram espaço em um país que não incentiva o basquete e, muito menos, o praticado por mulheres", afirma.
HORTÊNCIA
Do outro lado da dupla está Juliana Didone, escolhida para interpretar Hortência. A atriz conta que recebeu o papel com uma mistura de entusiasmo e receio diante do peso de representar uma pessoa tão conhecida.
"Foi uma mistura grande de euforia e medo", afirma. "Hortência não é uma personagem que eu poderia inventar do zero. Ela tem uma história, uma voz, um corpo, uma memória e uma legião de pessoas que a viram jogar."
O desafio, para Juliana, era escapar da imagem já conhecida pelo público. A atriz diz que não queria reproduzir apenas a campeã, a mulher competitiva e jogadora.
"Minha maior preocupação era não fazer uma caricatura", afirma. "Eu queria encontrar as frestas. O que acontecia quando ela saía da quadra? Quem era aquela mulher quando não precisava provar nada para ninguém?"
A preparação também envolveu aprender basquete e entender a lógica corporal de uma atleta de alto rendimento. "Não bastava parecer uma jogadora. Eu queria deixar de sentir a bola como um objeto e sim que ela fizesse parte do corpo", afirma.
O trabalho aproximou as duas atrizes também fora das cenas. Juliana conta que ela e Tainá perceberam rapidamente que a relação entre Paula e Hortência precisaria ser construída a partir das contradições.
"Existe amor, admiração, competição, ciúme, generosidade, irritação. Às vezes você quer muito que a pessoa ao seu lado brilhe, mas também quer ser você quem está brilhando."
Para ela, a química entre as duas precisava aparecer principalmente nos momentos em que o diálogo não era suficiente. "Na quadra, o olhar entre as duas dizia muita coisa. Às vezes uma pequena troca de olhar tinha mais história do que uma fala inteira."
O roteiro é de Patricia Corso, e o filme é produzido pela Café Royal em coprodução com Trema e a norte-americana Belladonna.



















