Por Lucas Ferreira E Ludmila Zeger - Agência De Notícias Sputnik Brasil - 03/10/2026 06:23:40 | Foto: © Foto / Pedro Souza / Atlético-MG Brasil
O futebol brasileiro está em meio à pausa da Superdata FIFA, mas, mesmo assim, Gustavo Scarpa, meia do Atlético-MG, virou assunto em diferentes portais de notícia. O jogador do Galo, que se acostumou a estampar manchetes com assistências e gols, desta vez foi procurado pela imprensa para falar sobre... livros.
Scarpa, que usa as redes sociais com mais de 1 milhão de seguidores para fazer resenhas literárias, viralizou após uma de suas indicações, " A Morte de Ivan Ilitch", do autor russo Lev Tolstói, alcançar o primeiro lugar no ranking de livros mais vendidos no Brasil em um importante marketplace.
Se para a maioria das pessoas o hábito da leitura de Scarpa é uma novidade, o meia faz questão de destacar aos seus seguidores desde 2018 quais livros já leu, mesmo que não tenha compreendido a obra, como " O Processo", de Franz Kafka.
Em entrevista à Sputnik Brasil, o jogador do Galo disse que seus fãs já conheciam parte de sua biblioteca, mas que conseguiu furar a bolha do futebol ao indicar Tolstói.
"Estou feliz porque ser uma referência no mundo literário é algo um pouco aleatório, mas é uma honra. Tem sido um momento bem legal."
Convertido ao cristianismo, Scarpa conta que a Bíblia foi seu primeiro livro. A partir da escritura sagrada cristã, uma tia o presenteou em 2018 com a biografia de Steve Jobs, fundador e o mais conhecido dentre os CEOs da Apple. Esse mimo coincidiu com a época em que o atleta chegou ao Palmeiras, na qual uma aposta abriu de vez as portas do mundo da literatura.
Scarpa relembra que ficou amigo de Pedro Janete, estagiário do departamento de futebol do Verdão à época, que, entre desafios de gols e assistência, começou a indicar livros ao meia. Pedro, que tinha formação em direito, mas atuava como preparador físico do clube, presenteou Scarpa com " O Médico e o Monstro", de Robert Louis Stevenson.
Não demorou muito para que o atleta conhecesse a literatura russa e um de seus maiores nomes, Fiódor Dostoiévski.
"Acho que meu quarto ou quinto livro, no comecinho, li "Crime e Castigo", do Dostoiévski. Eu já era familiarizado com o título, mas não sabia que era tipo um livro considerado acadêmico, uma leitura difícil, sabe? Então não me preparei, simplesmente li "Crime e Castigo", que foi, acho, o primeiro livro de literatura russa que li. Gostei demais!"
Após "Crime e Castigo", veio " O Idiota", assim como " Os Irmãos Karamazov", também de Dostoiévski. E o interesse pelos autores russos não parou por aí: " Uma Confissão", de Tolstói, logo entraria na biblioteca do meia, embora Scarpa tenha viralizado agora com "A Morte de Ivan Ilitch".
"'A Morte de Ivan Ilitch' não foi meu primeiro livro de literatura russa, inclusive acho que foi o menor [em número de páginas] que li até hoje, mas tem sido uma repercussão muito positiva. Não esperava de forma alguma."
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'Peixinho fora d’água'
Scarpa admite que era da turma do fundão na escola, mas acabava tirando boas notas. O meia brinca que tentava fazer as lições o mais rápido possível para "aproveitar o tempo para bagunçar".
Agora, aos 32 anos, e fã de literatura, o jogador do Atlético-MG conta que não vê muitos jogadores de futebol lendo, embora cite dois companheiros de Galo como leitores assíduos: o zagueiro Léo Duarte e o volante Victor Hugo.
"Desde que cheguei no Galo, já vi alguns jogadores lendo. No Palmeiras também. Acho que a galera não posta por, não sei, receio, algo assim. Acho que esse movimento de agora talvez seja um pouco encorajador para que outros jogadores se manifestem e publiquem suas leituras."
Com passagens por Nottingham Forest, da Inglaterra, e Olympiacos, da Grécia, Scarpa admite não ter visto companheiros estrangeiros lendo, seja no vestiário, nas viagens ou nas concentrações.
Esse hábito, diferente dos demais colegas, causa uma sensação de "peixe fora d’água", explica o jogador. Em meio às zoações de colegas de time, Scarpa conseguiu fazer algo difícil em um esporte tão passional quanto o futebol: torcedores de clubes rivais, como o Cruzeiro, criaram grupos de leitura inspirados naqueles idealizados pelos fãs do Atlético-MG.
"Às vezes, por me sentir um pouco um peixinho fora d’água, lendo livro e, às vezes, nas brincadeiras, os caras zoando, poder ver um movimento tão grande de várias torcidas, principalmente torcidas de times rivais, é um negócio marcante, revolucionário. Para realmente ficar feliz e valorizar."
Aos leitores da Sputnik Brasil, Scarpa não deixou acabar a entrevista sem indicar ao menos três obras: " Flores para Algernon", de Daniel Keyes ; " O Sol é para todos", de Harper Lee ; e o já citado "Os Irmãos Karamazov", de Dostoiévski.



















