Educação, ciência e inovação: Brasil que dá certo une formação e pesquisa científica
Educação, ciência e inovação: Brasil que dá certo une formação e pesquisa científica

Naief Haddad-são Paulo, Sp (folhapress) - 25/10/2026 07:28:42 | Foto: Diego Galba - ASCOM/MCTI

Educação, ciência e inovação foram áreas muito pouco abordadas pelos candidatos neste segundo turno. A sociedade brasileira sai perdendo quando esses temas ficam de lado, entre outras razões, porque ocupam espaço central em projetos bem-sucedidos do país.

A seleção a seguir mostra iniciativas amplamente admiradas que são ligadas ao poder público, como o Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais), e outras da iniciativa privada, como a Embraer.

O grupo inclui ainda o Impa (Instituto de Matemática Aplicada) e a Embrapa (Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária), ambos vinculados ao governo federal, e o Porto Digital do Recife, um projeto basicamente privado, impulsionado pelas administrações estadual e municipal.

O que têm em comum? "Muita ciência aplicada e liberdade para inovar e empreender", diz o economista Marcos Lisboa, que ressalta ainda o investimento na formação de profissionais e a abertura para o exterior. "O Brasil fica nesse debate de Estado versus mercado, e esses projetos mostram outro caminho, uma combinação de Estado e mercado."
RIGOR CIENTÍFICO GUIA TRBALHOS DO INPE E DO IMPA
Em julho de 2019, ao ser cobrado pela imprensa sobre os altos níveis de alertas de desmatamento da Amazônia indicados pelo Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais), o então presidente Jair Bolsonaro (PL) afirmou ter "convicção" de que os dados eram "mentirosos" e acusou Ricardo Galvão, diretor da entidade na época, de estar "a serviço de alguma ONG".

Galvão reagiu, criticando o presidente, e logo foi demitido. O trabalho de monitoramento do Inpe, porém, continuou mostrando que o desmatamento havia estacionado em um patamar alto.

O Inpe se dedica às pesquisas de ciências espaciais e atmosféricas, observação da Terra por imagens de satélite e estudos de mudanças climáticas, entre outras atividades. Fundado em 1961, acumulou prestígio, que serviu como blindagem diante da pressão vinda do Planalto nos anos Bolsonaro.

O instituto teve papel determinante na inserção do Brasil na comunidade científica internacional. "Nos primeiros anos de sua trajetória, o Inpe conseguiu atrair pesquisadores de renome de vários países. Além disso, muitos que tinham estudado no ITA (Instituto Tecnológico da Aeronáutica) vieram trabalhar aqui", diz Claudio Almeida, coordenador do Programa de Monitoramento dos Biomas Brasileiros da entidade.

As sedes do Inpe e do ITA ficam em São José dos Campos. Além da cidade do interior paulista, os cerca de 480 pesquisadores se dividem por 12 unidades espalhadas pelo país, de São Martinho da Serra (RS) a Belém (PA).

A boa formação das equipes se une a um outro fator relevante para a consolidação da credibilidade do instituto, a transparência, segundo Almeida. "Todos os dados do Inpe, como as imagens de satélite, são liberados na internet. Qualquer um, em qualquer lugar do mundo, pode baixar as informações e a metodologia, e depois testá-los."
Segundo ele, o Inpe foi a primeira instituição de pesquisas espaciais no mundo a disponibilizar gratuitamente imagens de satélite, o que aconteceu em 2004. São imagens de resolução média, voltadas para as políticas públicas.

A entidade, ligada ao Ministério da Ciência e Tecnologia, tem uma série de quase quatro décadas de observação da Amazônia por satélite. O projeto Prodes, que identifica anualmente as áreas onde a vegetação foi total ou parcialmente removida, foi criado em 1988. Hoje todos os biomas brasileiros são monitorados pelo Inpe.

Em sua face acadêmica, tem cursos de pós-graduação desde 1968. Desde então, foram concedidos 1.507 títulos de doutorado e 2.761 de mestrado.

Outro instituto de pesquisa, também ligado ao governo federal, também exibe números de respeito na pós-graduação. Fundado em 1952, o Impa (Instituto de Matemática Pura e Aplicada) passou a se dedicar ao ensino uma década depois. Foram até hoje 550 títulos de doutorado e 900 de mestrado. A entidade tem atualmente 46 pesquisadores fixos.

Em 2005, o Impa se tornou mais conhecido ao criar a Olimpíada Brasileira de Matemática das Escolas Públicas, que teve participação de mais de 18 milhões de estudantes na primeira fase de sua edição mais recente. "É a maior competição escolar do mundo, de longe", diz Marcelo Viana, diretor do Impa.

Segundo ele, ter uma carga mais leve de amarras burocráticas em comparação com a maior parte das instituições de pesquisa e ensino do Brasil contribui para a boa reputação do Impa. "Damos mais importância à substância do que às regras formais e proibições."
Artur Avila obteve seu doutorado no Impa com apenas 21 anos e, 14 anos depois, recebeu a medalha Fields, considerada o Nobel da Matemática. Foi o primeiro latino-americano a conquistar a maior honraria da área. Hoje, além de conduzir pesquisas na entidade carioca, é professor do departamento de pós-graduação da Universidade de Zurique, na Suíça.

EMBRAER APOSTA EM INOVAÇÃO E SE EXPANDE
Assim como impulsionou o Inpe, os engenheiros formados pelo ITA tiveram papel determinante na expansão da Embraer, fundada em 1969. "A escola é o instrumento de transformação da sociedade", afirmou o engenheiro Ozires Silva, criador da empresa, ao receber o título de doutor honoris causa do ITA, em 2021.

Entre os momentos determinantes desses quase 60 anos, está "a privatização, em 1994, que uniu a visão empresarial com a sólida base tecnológica", segundo diz a Embraer em email enviado à reportagem. A decisão de transferi-la para a iniciativa privada se deu no governo de Itamar Franco.

A empresa sediada em São José dos Campos já entregou mais de 9.000 aeronaves, comercializadas com mais de cem países, o que a levou ao posto de principal exportadora de bens de alto valor agregado do Brasil. É ainda a líder mundial na fabricação de jatos comerciais de até 150 assentos.

Na sexta, dia 23, a companhia anunciou que sua carteira de pedidos havia atingido um recorde no terceiro trimestre deste ano, R$ 179,8 bilhões, um crescimento de 14% na comparação com igual período de 2025.

"A Embraer construiu seu sucesso combinando excelência em engenharia, inovação, pessoas altamente qualificadas, metodologia Lean, voltada para melhoria contínua e atuação global", afirma a empresa. Esse método, que ficou famoso com a fabricante de automóveis Toyota, prevê a organização de processos para evitar desperdícios e atividades que não agregam valor ao produto, tornando o trabalho mais eficiente.

Entre os novos projetos da Embraer, estão as versões mais recentes dos jatos de porte médio Praetor 500E e Praetor 600E, apresentados ao mercado em fevereiro deste ano. No início de outubro, o Gripen E, parceria da companhia brasileira com a fabricante sueca Saab, fez seu voo inaugural em Gavião Peixoto (SP). É o primeiro caça supersônico produzido no Brasil.

Mas o que mais chama a atenção é o eVTOL (veículo elétrico de decolagem e pouso vertical), conhecido como carro voador. Desenvolvido pela Eve, subsidiária da Embraer, o eVTOL deve chegar ao mercado em 2028.

Porto Digital une tecnologia e renovação urbana
No final dos anos 1990, dois problemas aparentemente distantes um do outro preocupavam o poder público e o meio acadêmico do Recife. Um deles era a degradação da área antiga da capital pernambucana, um fenômeno comum nas grandes cidades brasileiras. O outro, a incapacidade de manter os profissionais recém-formados nos cursos de ciência da computação devido à inexistência de bons empregos.

Para enfrentar esses impasses, integrantes do governo do estado, sob o comando de Jarbas Vasconcelos, acadêmicos e empresários criaram em 2000 o Porto Digital, um distrito voltado à inovação no centro histórico de Recife. A prefeitura contribuiu com incentivos fiscais para que as empresas de produção de softwares se instalassem na área.

Dois nomes são vistos como os principais responsáveis pela concepção do projeto, o urbanista Cláudio Marinho, então secretário de Ciência, Tecnologia e Meio Ambiente de Pernambuco, e o cientista Silvio Meira, na época professor da UFPE (Universidade Federal de Pernambuco).

Tudo começou com duas empresas, que juntas chegavam a 50 funcionários. Não demorou, porém, para que o interesse do setor privado crescesse. Em meio a esse processo, surgiu uma entidade sem fins lucrativos chamada NGPD (Núcleo de Gestão do Porto Digital), hoje dirigida por Pierre Lucena.

O NGPD não produz nada, explica Lucena. "Somos o agente fomentador, que organiza essa política pública de atração de mais empresas."
Atualmente são 541 companhias, como Accenture, que encerraram o ano de 2025 com um faturamento de R$ 7,4 bilhões. Há ainda os centros de inovação, como o Cesar (Centro de Estudos e Sistemas Avançados do Recife) e o hub do Bradesco.

Mais de 24 mil pessoas trabalham no Porto Digital. "A contratação no setor de tecnologia no Brasil está estagnada, mas continua crescendo em Recife", diz Lucena.

Para o diretor, a iniciativa se tornou bem-sucedida, entre outras razões, porque ganhou a torcida da população de Recife. "O Porto Digital foi para um lugar ligado à memória afetiva da cidade e que estava abandonado."
Outro fator, segundo ele, é a aposta na formação de profissionais. Cita o Embarque Digital, uma parceria da prefeitura com o Porto Digital voltada para alunos de escolas públicas. Mais de 3.000 estudantes já passaram pelo programa, que prepara técnicos especializados em tecnologia.

Lucena ressalta ainda outro aspecto, não menos relevante que os anteriores. O Porto Digital reúne empresários, professores e integrantes das administrações estadual e municipal, mas, de acordo com o diretor, "tem uma governança que não se deixa capturar por nenhum dos interesses específicos. Prevalece o interesse global."
Há pouco mais de um ano, o Porto Digital ganhou um braço no agreste pernambucano, com instalações em um edifício histórico de Caruaru. O processo de interiorização continua: no ano que vem, abre uma unidade em Petrolina, no sertão do estado.

EMBRAPA TRANSFORMOU AGROPECUÁRIA BRASILEIRA
Como lembra o economista brasileiro José Alexandre Scheinkman, professor da Universidade Columbia, em Nova York, o Brasil importava 30% dos alimentos que consumia no início dos anos 1960. A balança comercial de produtos, como cereais ou carne de frango, era deficitária.

Isso só mudou, em grande parte, devido à Embrapa (Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária), fundada em 1973.

Um estudo liderado por Guilherme Dias, economista do setor agrícola, pesou na decisão da ditadura militar de criá-la. O pesquisador concluiu que o conhecimento existente na época poderia municiar os agricultores do país por mais dois ou três anos apenas. Era urgente, portanto, que as pesquisas sobre a agricultura nas regiões tropicais se intensificassem.

Uma figura-chave para entender a relevância adquirida pela entidade é o engenheiro agrônomo Eliseu Alves, que havia se especializado poucos anos antes na Universidade Purdue, em Indiana, nos EUA.

Um dos criadores da Embrapa, ele foi o primeiro diretor de recursos humanos e, como tal, enviou em torno de 2.000 pesquisadores brasileiros para se aprimorar no exterior, especialmente nos EUA. Foi o maior programa de capacitação do Brasil na década de 1970, segundo o economista José Eustáquio Vieira Filho, autor de vários livros sobre a entidade ligada ao Ministério da Agricultura e Pecuária.

Mais tarde, de 1979 a 1995, Eliseu Alves presidiu a Embrapa, período em que fortaleceu o programa de pós-graduação da entidade. Hoje, ele tem 95 anos e vive em Brasília.

Além desse investimento maciço em pesquisa, capaz de adaptar a soja para o clima tropical, entre tantas outras inovações, a Embrapa se beneficiava de um modelo jurídico que lhe dava mais autonomia do que outros órgãos públicos daquela época, de acordo com Vieira Filho, pesquisador do Ipea (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada).

As descobertas feitas pela empresa, como a tecnologia para melhorar o solo do cerrado, foram responsáveis por um aumento de 110% na produtividade de toda a agricultura brasileira desde os anos 1970, de acordo com estudo recente do economista Jacob Moscona, do MIT (Massachusetts Institute of Technology), e coautores.

Sob a liderança da Embrapa, décadas de investimento em pesquisa contribuíram para tornar a agricultura brasileira competitiva. O país é hoje o maior exportador mundial de sete produtos, como soja, café e suco de laranja.

Com orçamento anual de R$ 4,8 bilhões, a empresa reúne hoje mais de 2.000 pesquisadores, que atuam na sede em Brasília ou nos 43 centros espalhados pelo país. Entre eles, está a microbiologista Mariangela Hungria, que recebeu no ano passado a láurea concedida pela World Food Prize Foundation, dos EUA. Ela trabalha na Embrapa há 43 anos.