Por João Zisman - 11/10/2026 11:06:38 | Foto: João Zisman - Imagem
Fico pensando no trabalho danado que a humanidade teve para chegar até aqui, nas barbaridades que precisou superar, nos direitos que conquistou e, principalmente, na quantidade de mulheres que enfrentaram o mundo inteiro para conseguir coisas que hoje parecem tão naturais, como estudar, votar, trabalhar, escolher o próprio destino e até dizer aquilo que pensam sem precisar pedir licença a algum homem. Aí aparece uma moça de 23 anos, eleita deputada estadual por São Paulo com nada menos que 1.956.238 votos, e me dá aquela sensação incômoda de que alguém apertou o botão errado da máquina do tempo e nos mandou de volta para a Idade Média, só que com Wi-Fi, Instagram e iluminação de estúdio.
Sempre admirei as pessoas que nasceram antes do seu tempo, especialmente as mulheres que tiveram coragem de desafiar o que parecia impossível. Bertha Lutz enfrentou uma sociedade que considerava perfeitamente natural impedir as mulheres de votar e ajudou a conquistar esse direito no Brasil. Mais recentemente, Mayana Zatz se tornou referência internacional nas pesquisas genéticas, enquanto Tatiana Sampaio, depois de décadas de trabalho, desenvolveu com sua equipe a polilaminina, uma esperança ainda em estudo para pessoas com lesões na medula espinhal. Mulheres que ajudaram a empurrar o mundo para a frente, muitas vezes quando a sociedade lhes recomendava ficar quietinhas, de preferência em casa, sem incomodar ninguém.
Mas talvez um dos exemplos mais bonitos seja o de Irmã Dulce, uma religiosa que viveu sob os dogmas e as regras rigorosas da Igreja Católica, sem que isso a impedisse de enxergar muito além das convenções de seu tempo. Não precisou se declarar feminista, contestar sua religião ou abandonar a fé para demonstrar um humanismo extraordinário. Fez justamente da fé a razão de sua inconformidade com a miséria, acolheu doentes, transformou até um galinheiro em abrigo para necessitados e deixou uma obra que continua atendendo milhares de brasileiros. Poderia ter passado a vida recolhida às orações, mas preferiu mostrar que a compaixão, quando é verdadeira, precisa sair para a rua. E olha que estamos falando de uma freira nascida em 1914, que parecia compreender a humanidade de maneira muito mais generosa do que muita gente que veio ao mundo um século depois.
E agora, em pleno século XXI, surge uma jovem eleita que faz do antifeminismo uma bandeira, se opõe à criminalização da misoginia e questiona até a tipificação do feminicídio. Veja bem, ninguém precisa gostar de feministas ou concordar com todas as suas reivindicações para reconhecer que existe uma diferença enorme entre discutir ideias e hostilizar conquistas. Quando uma moça de 23 anos resolve abraçar posições que, aos meus olhos, se aproximam desse fundamentalismo de costumes, começo a desconfiar de que a cápsula do tempo em que ela viajou ficou fechada por séculos e ninguém se lembrou de avisá-la de que o mundo mudou.
Aliás, essa história me fez lembrar de The Walking Dead, aquela série em que multidões de zumbis aparecem caminhando sem rumo, como se a morte fosse apenas um pequeno inconveniente. Confesso que, quando vi a votação paulista, imaginei uma versão brasileira da série, com quase dois milhões de pessoas saindo de casa, atravessando ruas e entrando nas seções eleitorais para dar vida política a uma personagem que parece ter desembarcado de algum manual medieval de bons costumes. A diferença é que, na televisão, os mortos-vivos assustam porque continuam andando, enquanto aqui o espanto vem da vitalidade com que certas ideias antigas conseguem circular entre os vivos.
E antes que alguém se ofenda, não estou dizendo que quase dois milhões de eleitores sejam zumbis, embora a imagem seja tentadora para uma crônica. O que impressiona é essa capacidade de ressuscitar pensamentos que imaginávamos superados, dar a eles uma embalagem novinha, contratar uma boa equipe de redes sociais e vendê-los como se fossem a última novidade da política. O fundamentalismo também aprendeu a usar algoritmo e percebeu que uma provocação bem calculada pode render muito mais do que uma discussão séria.
O mais curioso é a idade da moça, porque aos 23 anos a gente costuma imaginar alguém querendo descobrir o mundo, questionar autoridades, experimentar ideias e até cometer os exageros próprios da juventude, mas não necessariamente reivindicar valores que fizeram tanta gente sofrer. Naturalmente, juventude nunca foi garantia de pensamento avançado, assim como cabelo branco não é certificado de sabedoria, mas é difícil não estranhar uma representante dessa geração tão confortável com posições que lembram tempos em que as próprias mulheres precisavam lutar para ter voz.
Há também uma ironia que não consigo deixar passar. A moça foi eleita para ocupar uma cadeira no Parlamento beneficiada por direitos que muitas mulheres ajudaram a construir, inclusive aquelas cujos movimentos ela hoje combate. Imagino o espanto de Bertha Lutz diante dessa história, depois de tanto trabalhar para que as brasileiras pudessem votar e ser votadas, descobrir que uma jovem resolveu fazer da guerra ao feminismo uma espécie de cartão de visitas. Claro que ninguém conquista um direito para obrigar as gerações seguintes a pensar da mesma maneira, mas convenhamos que há alguma ingratidão histórica nessa disposição de aproveitar a porta aberta e, logo depois de entrar, começar a reclamar de quem ajudou a construí-la.
E é aqui que o exemplo de Irmã Dulce ganha ainda mais significado, porque sua vida mostrou que religiosidade não precisa desembocar no fundamentalismo, muito menos na intolerância. Uma pessoa profundamente religiosa, comprometida com a disciplina de sua Igreja, conseguiu fazer da solidariedade uma forma de enfrentar as injustiças, sem transformar suas convicções pessoais numa régua para medir os direitos e a liberdade dos outros.
Talvez o que mais me incomode nem seja a personagem, mas o tamanho da plateia que a acompanha. Estamos falando de São Paulo, um estado que gosta de se apresentar como locomotiva do Brasil, concentra universidades, tecnologia, indústria e uma produção intelectual extraordinária, mas que também consegue produzir um resultado eleitoral capaz de nos fazer perguntar para que lado, afinal, essa locomotiva está andando. Porque desenvolvimento econômico e avanço tecnológico não significam, necessariamente, que a cabeça das pessoas tenha embarcado no mesmo trem.
Volto, então, aos meus zumbis de The Walking Dead, com a impressão de que os roteiristas perderam uma bela oportunidade ao não ambientar uma temporada no Brasil. Por aqui, certas ideias nem precisam sair da sepultura, pois basta abrir uma conta nas redes sociais, descobrir os assuntos que provocam mais indignação e esperar que o algoritmo faça o serviço.
E pensar que conseguimos ensinar as máquinas a avançar numa velocidade extraordinária, mas ainda não descobrimos como impedir que certas ideias humanas continuem caminhando para trás, e o pior é que agora elas fazem isso com uma desenvoltura impressionante, milhões de votos e sinal de internet excelente.

























