A opinião pessoal do cientista político João Zisman: O balanço que falta
A opinião pessoal do cientista político João Zisman: O balanço que falta

Por João Zisman - 20/08/2026 09:34:54 | Foto: Divulgação TCDF

Durante meses, a ausência do balanço do BRB foi tratada como uma peça importante para conhecer a dimensão dos problemas enfrentados pelo banco. Nesta semana, ela passou a produzir uma consequência adicional: o Tribunal de Contas do Distrito Federal decidiu que não concluirá a análise das contas de 2025 do governo enquanto não receber as demonstrações financeiras definitivas, completas e auditadas da instituição.

A mudança parece burocrática, mas altera bastante a situação. O balanço deixou de interessar apenas a quem tenta avaliar a saúde do BRB, negociar uma operação financeira ou entender os prejuízos associados às operações com o Banco Master. Agora sua ausência interfere formalmente na prestação de contas do próprio Distrito Federal.

O TCDF foi além. Deu 30 dias para que governo e banco esclareçam se existe uma ordem formal determinando que as demonstrações financeiras sejam divulgadas somente depois da obtenção do financiamento de até R$ 6,6 bilhões. Também quer saber se houve multa pelo atraso.

Esse talvez seja o ponto mais importante da decisão. Até aqui, a relação entre a publicação do balanço e a obtenção do dinheiro apareceu em declarações públicas. O Tribunal quer saber se existe uma decisão administrativa que estabeleceu essa condição e, caso exista, quem a tomou.

A pergunta faz sentido porque o impasse financeiro contém uma dificuldade que vai ficando mais evidente. Quem pode participar de uma solução precisa conhecer a situação financeira do banco; ao mesmo tempo, a divulgação dessas informações aparece associada à construção prévia de uma solução. Na audiência realizada no Supremo, o Fundo Garantidor de Créditos afirmou que precisava das demonstrações auditadas para avaliar qualquer assistência ao BRB.
O Tribunal de Contas introduziu agora um terceiro elemento nessa equação: também precisa dos números.

Isso aumenta a pressão por uma definição e reduz progressivamente o espaço para que a divulgação das demonstrações continue sendo tratada apenas como uma etapa da negociação financeira. O balanço é documento necessário para que instituições de controle consigam avaliar os efeitos patrimoniais da situação do BRB sobre o Distrito Federal.

A coincidência com o início da campanha eleitoral acrescenta sensibilidade política ao assunto, embora seja importante não inverter a relação entre as coisas. A pesquisa Real Time Big Data divulgada nesta semana mostra Celina Leão liderando a disputa pelo governo, com 34%, seguida por José Roberto Arruda, com 22%, e Leandro Grass, com 18%. O levantamento também registra aprovação de 60% da atual gestão.

Esses números sugerem que, pelo menos até agora, os problemas do BRB não produziram uma erosão eleitoral capaz de retirar da governadora a vantagem na corrida pelo Buriti. Seria precipitado concluir que o assunto não terá efeito sobre a campanha. Também seria igualmente precipitado interpretar cada novo episódio do banco como uma ameaça automática à candidatura governista.

O que mudou nesta quinta-feira pertence antes ao campo institucional.

O TCDF vinculou duas coisas que até então caminhavam em processos diferentes: a situação financeira do BRB e a avaliação das contas do governo de 2025. A partir daí, a demora deixa de produzir apenas incerteza sobre o banco e passa a atrasar uma obrigação relevante de controle das finanças públicas.

Outros problemas importantes aparecem no noticiário desta quinta-feira. Quase uma em cada cinco escolas públicas ficou sem resultado individual no Ideb 2025; duas mortes envolvendo serviços públicos estão sob investigação; o Distrito Federal ultrapassou 50 dias sem chuva e entrou na fase mais crítica dos incêndios em vegetação. São questões que exigem respostas administrativas próprias e ajudam a evitar que o debate público local seja capturado integralmente pelo calendário eleitoral.

No BRB, porém, a pergunta desta quinta-feira ficou mais simples. Antes de discutir novamente quem colocará R$ 6,6 bilhões na operação, o Distrito Federal precisa apresentar os números que permitam saber exatamente o que está sendo financiado.