Gilberto Carvalho traçou rota que evitou naufrágio de Lula
Gilberto Carvalho traçou rota que evitou naufrágio de Lula

Por João Zisman - 01/11/2026 07:51:25 | Foto: Por João Zisman

Encerrado o primeiro turno da eleição presidencial, um grupo de pessoas se reuniu em um barco ancorado no Lago Paranoá, em Brasília. Entre elas, petistas ligados ao movimento evangélico, profissionais de marketing, produtores de conteúdo e especialistas em comunicação digital, todos empenhados em encontrar caminhos para diminuir a vantagem de Flávio Bolsonaro sobre Lula entre os eleitores evangélicos.

Mas, ao examinar os resultados da votação, o grupo encontrou dois dados que mereciam atenção especial. O primeiro era a elevada abstenção em municípios onde Lula havia vencido, chegando a 40% em algumas localidades. O segundo dizia respeito aos eleitores com mais de 70 anos, dos quais aproximadamente metade não havia comparecido às urnas, um contingente estimado em 8 milhões de pessoas.

A conclusão foi relativamente simples, embora colocá-la em prática exigisse uma operação de grandes proporções. Antes mesmo de tentar conquistar novos eleitores, era preciso convencer aqueles que já demonstravam preferência por Lula a sair de casa e votar. E havia um universo considerável de votos a recuperar, especialmente entre os idosos e nos 1.333 municípios identificados pelo grupo.

A estratégia começou com uma gravação do próprio presidente, em formato de selfie, que serviu de base para a produção de 1.333 vídeos, um para cada município. A comunicação era direta, personalizada e procurava estabelecer uma relação de proximidade com o eleitor, especialmente com os maiores de 70 anos, para quem o voto é facultativo.

Os diretórios municipais do PT foram mobilizados para distribuir o material e, sem grandes anúncios ou exposição pública, uma operação de comunicação digital começou a alcançar localidades onde a campanha enxergava possibilidades concretas de ampliar o comparecimento às urnas.

Durante as três semanas que separaram os dois turnos, aquele barco no Paranoá acabou se transformando em uma espécie de central de trabalho político e de marketing, sob o acompanhamento e a coordenação de Gilberto Carvalho e o comando de Wanderley Tavares, ex-presidente do Republicanos no Distrito Federal.

Naturalmente, a virada de Lula não pode ser atribuída a uma única iniciativa. As manifestações espontâneas que ganharam as ruas, a mobilização do chamado Exército do Janones, as medidas de apelo popular anunciadas pelo presidente, as mudanças na coordenação da campanha e os ajustes na propaganda de rádio e televisão também tiveram seu peso. Sobretudo porque, numa disputa marcada pela rejeição aos dois candidatos, não bastava convencer o eleitor de que Lula era a melhor escolha, mas também de que valia a pena comparecer às urnas para impedir a vitória do adversário.

O trabalho desenvolvido a partir daquele barco acrescentou uma dimensão importante a esse esforço. Enquanto boa parte das atenções estava concentrada na conquista dos indecisos, havia quem procurasse identificar os eleitores que não precisavam mudar de opinião, mas simplesmente comparecer à votação.

A vitória de Lula certamente continuará sendo objeto de estudos e interpretações, tanto pela dimensão da virada quanto pelas circunstâncias políticas em que ocorreu. E, entre as muitas histórias que ainda serão contadas sobre aquela eleição, talvez mereça um capítulo especial a de um barco ancorado no Lago Paranoá, de onde partiu uma operação que procurou transformar abstenção em votos.