Por João Zisman - 04/07/2026 10:54:53 | Foto: Divulgação João Zisman
Vou lhe contar uma história de Minas.
Ela começa numa exposição de gado, na cidade de Curvelo, e tem como personagem um dos maiores estrategistas que a política mineira já produziu: Benedito Valadares.
Se você não conhece o nome, vale uma rápida apresentação. Benedito Valadares governou Minas Gerais entre 1933 e 1945, levado ao cargo por Getúlio Vargas quando quase ninguém no estado sabia quem ele era. A dúvida virou até marchinha de carnaval: "Será o Benedito?" Era. E aquele desconhecido acabaria se transformando numa das maiores raposas da política brasileira, amigo de Vargas e responsável por impulsionar as carreiras de Juscelino Kubitschek e de Tancredo Neves.
Foi essa raposa que chegou a Curvelo para prestigiar a exposição de gado do município. Diante de uma plateia de fazendeiros, anunciou que o governo facilitaria a concessão de empréstimos agrícolas. Na hora da promessa, porém, trocou as palavras. Garantiu financiamentos com "prazos curtos e juros longos".
A plateia percebeu imediatamente que a conta estava invertida. Prazo curto e juro longo é exatamente o oposto do que deseja quem precisa de crédito. Um fazendeiro, sem cerimônia, corrigiu o governador em voz alta.
Valadares nem piscou. Olhou para o homem e respondeu com a serenidade de quem já atravessara desafios bem maiores:
"Desde que o dinheiro venha, os pronomes não têm importância."
A plateia caiu na risada. O episódio virou causo. O causo virou uma daquelas histórias que atravessam gerações porque dizem muito mais do que aparentam.
A resposta não era apenas espirituosa. Revelava uma maneira de compreender a política. Para Benedito Valadares, o essencial era que o benefício chegasse ao destinatário. A forma podia até tropeçar; o resultado era o que realmente importava. Talvez por isso tenha permanecido doze anos no comando de Minas Gerais, participado da fundação do PSD e ajudado a projetar lideranças que marcariam a história política brasileira.
Quase noventa anos se passaram. Mudaram os bancos, mudaram os palanques, mudaram até as formas de fazer campanha. Mas continua viva uma velha percepção da política brasileira: o eleitor costuma relevar um tropeço nas palavras quando acredita que a promessa será cumprida.
Os personagens mudam. Os métodos, nem sempre.
Nota de rodapé: Causo atribuído ao jornalista e escritor Sebastião Nery, publicado na coluna Porandubas Políticas, de Gaudêncio Torquato, no portal Migalhas.



























