Por João Zisman: País do imprensado, Brasil vai naufragando com o tempo perdido
Por João Zisman: País do imprensado, Brasil vai naufragando com o tempo perdido

Por João Zisman - 19/07/2026 10:31:24 | Foto: Por João Zisman - Imagem

Existe uma instituição brasileira que nunca foi criada por lei, não aparece na Constituição, não tem sede, diretoria ou CNPJ. Ainda assim, funciona com uma eficiência invejável e mobiliza milhões de pessoas todos os anos.

Seu nome é imprensado.

O brasileiro não olha primeiro para o feriado. Olha para o dia da semana em que ele caiu. Se vier numa quinta-feira, a sexta imediatamente entra em observação. Se aparecer numa terça, a segunda começa a perder a razão de existir. Quando o descanso resolve pousar numa quarta-feira, instala-se um debate quase metafísico. Trabalha-se antes ou depois? Emenda dos dois lados? Ou seria um desperdício deixar um dia útil abandonado entre tantas possibilidades?

Ninguém convoca uma reunião para decidir. O país simplesmente sabe o que fazer.

Costuma-se dizer que o Brasil é o país dos feriados. Acho injusto. Muitos países têm tantos quanto nós. O que eles não têm é o imprensado, essa contribuição genuinamente brasileira à administração do tempo. O feriado dura um dia. Nós nos especializamos em cuidar do entorno.

O ponto facultativo é outro fenômeno digno de estudo. Oficialmente, pertence ao serviço público. Extraoficialmente, passa o dia inteiro tentando convencer a iniciativa privada de que trabalhar talvez não seja tão urgente assim. Nem sempre consegue, mas raramente fracassa por completo. Basta um cliente viajar, um fornecedor fechar as portas, um órgão público interromper o atendimento ou um escritório esvaziar para que a ideia comece a parecer perfeitamente razoável.

O mais curioso é que tudo acontece sem liderança, decreto ou campanha publicitária. É uma inteligência coletiva. Um acordo tácito transmitido de geração em geração. Alguns povos preservam receitas de família. Nós preservamos a arte de descobrir uma ponte onde o calendário enxergava apenas um dia útil.

E não nos contentamos com os feriados nacionais. Vieram os estaduais, os municipais, o aniversário da cidade, o dia do padroeiro, a festa da colônia, a exposição agropecuária, a cavalgada, o São João, a Oktoberfest, a Festa da Uva, a Festa da Polenta, o Círio e tantas outras celebrações que fazem cada região viver um calendário próprio. Enquanto uma cidade desperta para mais uma segunda-feira, outra já está convencida de que hoje é domingo.

Quando nem isso resolve, a criatividade entra em cena. Copa do Mundo, Olimpíadas, visita do Papa, greve, enchente, calor demais, frio de menos. Sempre aparece um acontecimento capaz de reorganizar a rotina e provar que o relógio pode até marcar as horas, mas quem manda no calendário brasileiro é o bom senso… ou a falta dele.

O curioso é que vivemos repetindo que o país precisa ganhar produtividade, acelerar a economia, aumentar a competitividade e correr atrás do tempo perdido. Concordo com tudo isso. Mas basta um feriado cair na quinta-feira para que milhões de brasileiros façam exatamente a mesma pergunta, quase ao mesmo tempo.

“Dá para emendar?”

Talvez essa seja a maior demonstração de unidade nacional que ainda nos resta. Podemos discordar sobre política, futebol, economia, religião e até sobre qual é o melhor churrasco do Brasil. Mas, diante de um feriado cercado por dois dias úteis, desaparecem as diferenças. Surge um consenso raro, sólido e praticamente inabalável.

O imprensado, afinal, talvez seja a única política pública que nunca precisou ser aprovada para conquistar adesão quase unânime.

E, pensando bem, ainda há quem diga que o brasileiro não sabe construir pontes.