Por João Zisman: O que sustenta um destino turístico além dos cartões-postais
Por João Zisman: O que sustenta um destino turístico além dos cartões-postais

Por João Zisman - 13/01/2026 07:32:08 | Foto: Divulgação João Zisman

A consolidação de um destino turístico não é um ponto de chegada. É um estado de equilíbrio dinâmico. O destino que se consolida não é aquele que cresce sem parar, mas o que aprende a administrar o próprio sucesso, ajustando rota, qualificando a experiência e mantendo relevância ao longo do tempo. Turismo maduro não vive de explosões. Vive de constância.

No Brasil, essa distinção ainda é pouco compreendida. Confunde-se consolidação com visibilidade, ocupação hoteleira pontual com sustentabilidade, marketing com política pública. O resultado são destinos que brilham intensamente por um período e depois entram em ciclos de desgaste, banalização ou estagnação. Outros, mais raros, encontram um método e passam a evoluir sem perder identidade.

Alguns exemplos ajudam a entender quando o caminho dá certo. Gramado é frequentemente lembrada não por possuir um ativo natural excepcional, mas por ter tratado o turismo como política pública contínua. Identidade clara, calendário previsível, eventos autorais e uma coerência quase obsessiva entre o que se promete e o que se entrega. O visitante sabe o que vai encontrar. E encontra. O turismo vira hábito, não surpresa.

Bonito seguiu um caminho diferente, mais técnico e igualmente eficaz. Optou por controlar o próprio sucesso. Regulou o acesso, ordenou o fluxo, preservou o ativo central antes de expandir. Consolidar, ali, significou impor limites para garantir permanência no tempo. O resultado foi estabilidade, reputação e previsibilidade.

Há também exemplos que ajudam a compreender os riscos. Jericoacoara tornou-se desejo internacional em poucos anos, mas conviveu com as tensões de um crescimento mais rápido do que a capacidade de ordenamento urbano e ambiental. O destino continua belo e procurado, mas o equilíbrio entre preservação, experiência do visitante e vida local passou a exigir ajustes constantes. Porto Seguro, por sua vez, mostra como o turismo de massa, quando não dialoga continuamente com planejamento urbano, impõe desgaste estrutural à cidade. Não é fracasso. É um alerta permanente.

Esses casos ajudam a delimitar o conceito central. Consolidar um destino não é apenas atrair visitantes. É reter valor, distribuir benefícios, reduzir dependência de picos e transformar fluxo em experiência.

É a partir desse marco que se chega a Foz do Iguaçu.

Foz ocupa uma posição singular no turismo brasileiro. Diferentemente da maioria dos destinos, ela não luta por reconhecimento. As Cataratas do Iguaçu são um ativo de escala planetária. Itaipu Binacional é referência mundial em engenharia e ciência. A tríplice fronteira confere uma dimensão simbólica e cultural rara. Foz é conhecida antes mesmo de ser explicada.

Nos últimos anos, a cidade avançou de forma consistente na qualificação da sua estrutura turística. O parque hoteleiro se modernizou, os resorts ampliaram capacidade, a cidade consolidou-se como destino relevante para eventos, congressos e convenções. Trata-se de um turismo não sazonal, previsível e de alto valor agregado. Um avanço concreto, mensurável e estratégico.

Esse ponto é fundamental. Foz não discute consolidação a partir da escassez. Discute consolidação a partir do sucesso.

Quando um destino chega a esse estágio, o desafio muda de natureza. Deixa de ser apenas como atrair e passa a ser como integrar. O visitante de eventos já está presente, ocupa hotéis, participa de congressos, movimenta a economia formal. O passo seguinte, típico de destinos maduros, é transformar esse visitante funcional em visitante envolvido, alguém que circula pela cidade, consome fora do eixo do evento, amplia a permanência e cria vínculo.

É nesse contexto que entra um dos instrumentos mais poderosos da consolidação turística: o calendário público de grandes eventos. Festivais, festas tradicionais, encontros culturais, eventos esportivos e gastronômicos não existem apenas para animar a cidade. Eles existem para organizar o fluxo turístico, reduzir a sazonalidade e criar motivos recorrentes para voltar. Gramado não se sustenta apenas pelo clima ou pela paisagem. Sustenta-se por uma agenda que se repete, se renova e cria previsibilidade para o mercado e para o visitante. Destinos maduros sabem que evento não é exceção. É política pública.

Foz já reúne todas as condições para operar nesse patamar. A infraestrutura está instalada, o parque hoteleiro é robusto, a vocação internacional é clara. O passo natural é consolidar, ao longo do tempo, um calendário autoral de eventos públicos que dialogue com a identidade da cidade, com sua diversidade cultural e com sua posição única de fronteira. Não se trata de competir com o que o mercado privado já faz bem, mas de criar uma cadência pública que transforme a cidade em palco contínuo, reforçando o turismo, a autoestima local e a vida urbana.

Há exemplos ainda mais eloquentes de como eventos bem construídos deixam de ser programação e passam a ser identidade. Os São Joãos de Caruaru e Campina Grande talvez sejam os casos mais emblemáticos do Brasil. Não se trata apenas de festas juninas. Trata-se de marcas urbanas. Cada cidade disputa, de forma inteligente e saudável, o título de maior e melhor São João do país. Essa rivalidade deliberadamente cultivada virou ferramenta de marketing, mobilização da população e indução de fluxo turístico. As cidades não apenas recebem visitantes. Elas vivem o evento. A população participa, se reconhece, se orgulha. O calendário organiza a economia local, ativa o comércio, ocupa hotéis, gera notícia e cria um motivo anual para voltar.

Esse tipo de competição simbólica é parte do jogo dos destinos consolidados. Quando duas cidades disputam quem faz melhor, ambas ganham visibilidade, relevância e densidade cultural. O evento deixa de ser entretenimento e passa a ser política de cidade.

É nesse momento que entram fatores menos tangíveis, mas decisivos. Entre eles, a autoestima coletiva e a consciência de que hospitalidade e excelência em bem servir são tarefas de todos.

Destinos verdadeiramente consolidados não dependem apenas de atrativos ou infraestrutura. Dependem da forma como a população se reconhece no lugar onde vive e do prazer que sente em receber. Quando o morador fala bem da própria cidade, orienta com naturalidade, acolhe com orgulho e entende o turismo como parte do seu cotidiano, a experiência do visitante muda de patamar.

Hospitalidade não se decreta. Ela se constrói culturalmente.

Não se trata de transformar o cidadão em prestador de serviço, nem de impor cordialidade artificial. Trata-se de compreender que o turismo é uma relação. E que a cidade também comunica o tempo todo, por meio de gestos simples, informações espontâneas, disponibilidade e sensação de pertencimento.

Quando a população tem autoestima urbana, o destino ganha autenticidade. Quando há prazer em receber, o turista percebe. E quando percebe, volta. Esse é um dos segredos mais bem guardados dos destinos que se mantêm relevantes por décadas.

Nesse aspecto, o cosmopolitismo de Foz é um ativo poderoso. A convivência cotidiana entre culturas, idiomas e nacionalidades não é exceção. É rotina. A fronteira não é obstáculo. É identidade. Poucas cidades brasileiras oferecem, de forma tão orgânica, essa experiência de diversidade viva. E isso reforça a vocação de Foz como cidade aberta, plural e contemporânea.

Explorar esse cosmopolitismo não significa criar uma narrativa artificial. Significa reconhecer, valorizar e comunicar melhor aquilo que já existe. Significa estimular o orgulho local, reforçar o senso de pertencimento e transformar a convivência multicultural em valor percebido pelo visitante.

Nesse processo, o papel do poder público é claro e institucional. Cabe articular políticas, integrar atores, sustentar estratégias de longo prazo e estimular uma visão compartilhada de cidade. Não como imposição, mas como construção coletiva.

Foz do Iguaçu chegou a um estágio em que pode discutir turismo em nível mais sofisticado. Não mais sob a lógica do como atrair, mas sob a lógica do como aprofundar, qualificar e permanecer.

O mundo já conhece as Cataratas.

A consolidação definitiva passa por fazer com que ele reconheça, cada vez mais, uma cidade que tem orgulho de si, prazer em receber e excelência em bem servir.