Por João Zisman - 16/07/2026 10:54:41 | Foto: Vice-governadoria do DF
A nova tarifa de 25% anunciada pelos Estados Unidos contra produtos brasileiros chega cercada pela mesma instabilidade que passou a orientar as decisões do governo Donald Trump. Medidas são apresentadas como definitivas, ultimatos ganham aparência de ponto final e, poucas horas depois, novas exceções, condições ou possibilidades de negociação recolocam tudo em movimento.
Não seria diferente com o Brasil.
A lista inicial de produtos poupados da sobretaxa, o alcance ainda indefinido da medida e a expectativa de novas negociações mostram que a tarifa já produz consequências antes mesmo de se conhecer sua extensão completa. Exportadores precisam refazer cálculos, setores econômicos tentam medir os danos e o governo brasileiro é obrigado a preparar uma resposta para uma decisão que ainda poderá sofrer alterações.
Essa incerteza não é um efeito lateral. Ela integra o próprio método.
Ao incluir o Pix, a regulação das plataformas digitais, a propriedade intelectual, o etanol, as patentes, a pirataria e o desmatamento entre as práticas consideradas prejudiciais aos interesses americanos, Washington ampliou deliberadamente o campo da disputa. A controvérsia deixa de tratar apenas de comércio e passa a pressionar escolhas regulatórias, tecnológicas e institucionais do Brasil.
A tarifa, portanto, funciona também como instrumento político. O governo americano coloca vários temas sobre a mesa, eleva a tensão e cria um ambiente no qual cada recuo poderá ser apresentado como concessão obtida pela força. A instabilidade passa a produzir vantagem negocial.
O governo brasileiro acerta ao manter a diplomacia como primeira alternativa, mesmo preparando a aplicação da Lei da Reciprocidade. Uma reação precipitada poderia ampliar os prejuízos e aprisionar o país na lógica dos anúncios sucessivos, em que cada declaração exige outra resposta e cada resposta pode perder sentido no movimento seguinte.
O problema é que essa pressão externa encontra um ambiente doméstico igualmente atravessado por incertezas. O orçamento continua submetido a disputas entre Poderes, corporações e partidos. A aposentadoria especial dos agentes comunitários de saúde, com impacto estimado próximo de R$ 28 bilhões em dez anos, permanece sem solução definitiva. Ao mesmo tempo, pagamentos extrateto são autorizados para servidores do próprio sistema institucional responsável por fiscalizar as contas públicas.
A investigação do Supremo sobre a influência dos partidos na distribuição das emendas amplia essa percepção. A discussão já não se limita a casos isolados, mas alcança o funcionamento do sistema partidário e a forma como recursos públicos são negociados fora do alcance mais claro da sociedade.
O Brasil passa, assim, a enfrentar duas instabilidades simultâneas. A primeira vem de fora, produzida por um governo americano que governa por meio de ameaças, recuos e novos ultimatos. A segunda nasce internamente, numa disputa orçamentária em que responsabilidades se dissolvem enquanto despesas e privilégios ganham novos caminhos.
A pesquisa Genial/Quaest ajuda a compreender o efeito político desse ambiente. A melhora da avaliação do governo Lula e o avanço entre eleitores independentes e segmentos tradicionalmente mais resistentes sugerem que a capacidade de administrar crises começa a pesar mais do que a simples mobilização das bases. A dificuldade de Flávio Bolsonaro em sair do núcleo bolsonarista revela que a repetição do confronto pode ser insuficiente quando o eleitor passa a buscar alguma segurança.
A tarifa contra o Brasil ainda poderá ser revista, ampliada ou reduzida. Esse é justamente o ponto. Sob Donald Trump, nenhuma decisão parece suficientemente definitiva para produzir estabilidade, mas todas são suficientemente graves para produzir danos imediatos.
O tarifaço é o fato do dia. A instabilidade é a política.



























