Por João Zisman - 07/06/2026 09:16:48 | Foto: Autor/Imagem João Zisman
Não se trata de um limbo ideológico, político ou geracional. É algo mais profundo. Vivemos num espaço estranho entre aquilo que aprendemos a enxergar e aquilo que realmente acontece ao nosso redor. Talvez sejamos a última geração capaz de reconhecer a corrupção como um escândalo e a primeira incapaz de compreender a verdadeira escala que ela alcançou.
Crescemos acreditando que corrupção era o prefeito que desviava dinheiro da merenda, o funcionário que recebia propina, o parlamentar que superfaturava uma obra pública. Havia um autor, um fato, uma investigação e uma indignação coletiva. O fenômeno era grave, mas parecia compreensível.
Hoje já não tenho tanta certeza.
A corrupção deixou de ser apenas uma conduta para se transformar em ambiente. Não se manifesta apenas em atos isolados, mas em estruturas inteiras que aprenderam a conviver umas com as outras, a proteger umas às outras e, muitas vezes, a depender umas das outras. O que assusta não é mais a existência de um escândalo específico. O que assusta é a percepção de que as engrenagens se tornaram tão sofisticadas e tão amplas que o cidadão comum perdeu a capacidade de visualizar o mecanismo inteiro.
Talvez seja por isso que determinados episódios provoquem mais perplexidade do que revolta. Eles não revelam apenas um problema. Revelam um sistema. Mostram que a contaminação já não se restringe a um setor ou a um poder da República. Ela se espalha por ambientes que deveriam se fiscalizar mutuamente, criando a sensação de que a doença encontrou múltiplos vetores para se reproduzir.
E, no entanto, existe algo ainda mais intrigante do que a própria dimensão do problema.
O país continua funcionando.
As pessoas acordam cedo. Os caminhões cruzam estradas. Os agricultores produzem alimentos para centenas de milhões de pessoas ao redor do mundo. Universidades pesquisam. Cientistas inovam. Artistas criam. Empresários investem. Pequenos comerciantes abrem as portas sem saber exatamente como será o dia seguinte. Famílias seguem educando seus filhos e planejando o futuro apesar da insegurança econômica, jurídica e institucional que tantas vezes se apresenta diante delas.
Quanto mais observo o Brasil, mais me convenço de que ele não cabe nas explicações convencionais.
Em boa parte do mundo, a ausência de oportunidades formais produz apenas exclusão. Aqui ela produziu também adaptação. A informalidade, que deveria ser um sintoma de fracasso, transformou-se em muitos casos numa impressionante demonstração de criatividade humana. O brasileiro aprendeu a empreender por necessidade antes mesmo que o verbo empreender virasse moda nos manuais de gestão.
As ruas contam essa história diariamente.
O vendedor ambulante, a costureira que transformou a sala de casa em oficina, o mecânico improvisado, a cozinheira que começou vendendo marmitas, o artesão, o motorista de aplicativo, o pequeno produtor rural. Existe uma energia de sobrevivência circulando pelo país que raramente aparece nos discursos oficiais e quase nunca é compreendida por quem observa o Brasil apenas através dos gabinetes climatizados.
Talvez o brasileiro seja uma das mais fascinantes teses sociológicas em permanente construção.
Convive com dificuldades que seriam suficientes para paralisar muitas sociedades e, ainda assim, segue produzindo. Convive com desigualdades brutais sem perder completamente a capacidade de se indignar. Convive com a miséria sem abandonar a solidariedade. E talvez este seja o traço mais extraordinário de todos.
O brasileiro ajuda naturalmente.
Não porque uma política pública o obrigue. Não porque uma campanha institucional o convença. Não porque exista um protocolo para isso.
Ajuda porque reconhece no outro uma dificuldade que provavelmente já enfrentou ou teme enfrentar um dia.
A solidariedade, no Brasil, não costuma ser uma teoria. É uma prática cotidiana.
Talvez seja essa característica que explique por que o país continua de pé quando tantos indicadores sugeririam o contrário.
Às vezes me pergunto se não estamos olhando para o lugar errado quando tentamos compreender o Brasil. Durante décadas fomos ensinados a acreditar que as soluções viriam de cima para baixo. Que governos iluminados resolveriam nossos dilemas históricos. Que bastaria encontrar os líderes certos para que o país finalmente realizasse seu potencial.
A experiência parece sugerir algo diferente.
O que sustenta o Brasil não é a perfeição de suas instituições. Não é a qualidade de seus governos. Não é a genialidade de suas lideranças políticas.
O que sustenta o Brasil é a extraordinária capacidade de resistência do seu povo.
Talvez por isso minha geração tenha tanta dificuldade em compreender o momento que vive. Não porque desconheça a existência da corrupção, mas porque ainda não assimilou a sua verdadeira escala. Da mesma forma, talvez ainda não tenha compreendido a dimensão da força que existe na sociedade brasileira.
O país que aparece nos noticiários e o país que desperta todos os dias para trabalhar nem sempre são o mesmo país.
Um produz ruído.
O outro produz riqueza.
Um alimenta crises.
O outro alimenta pessoas.
Um frequentemente testa os limites da nossa esperança.
O outro insiste em renová-la.
E talvez resida aí a maior contradição brasileira: quanto mais as estruturas parecem falhar, mais a sociedade encontra meios de seguir adiante.
Não sei até quando esse equilíbrio resistirá. Nenhum povo é inesgotável. Nenhuma nação suporta indefinidamente que seus melhores esforços sejam consumidos para compensar os erros de quem deveria facilitar seu caminho.
Mas há uma constatação que se impõe.
Depois de tudo o que vimos, de tudo o que sabemos e de tudo o que ainda suspeitamos, o Brasil continua respirando.
E isso, por si só, talvez seja o maior mistério e a maior esperança deste país.























