Por João Zisman - 27/06/2026 16:22:23 | Foto: Divulgação João Zisman
Muita gente acredita que a política brasileira já foi um ambiente mais elegante, mais civilizado e mais respeitoso. Talvez fosse na aparência. Porque, em determinados momentos da nossa história, honra, poder e vingança caminhavam de mãos dadas.
Essa história aconteceu em Maceió.
Em fevereiro de 1950, João Cardoso Paes foi assassinado dentro do Hotel Aurora, estabelecimento que ele próprio havia construído no centro da capital alagoana. Morreu no lugar que era seu. O crime jamais foi esclarecido oficialmente.
A reação das autoridades também dizia muito sobre aquele tempo. Em telegrama enviado ao ministro da Justiça, o governador Silvestre Péricles informou que João Cardoso era um "conhecido matador e roubador" e acrescentou que a sociedade alagoana recebera a notícia de sua morte "com indiferença". Era uma forma elegante, ou talvez brutal, de dizer que o Estado não perderia o sono por aquele homicídio.
João Cardoso deixou um filho chamado Oséas Cardoso. Deputado estadual, homem de plenário e de articulação política, ele passou a carregar também outra condição: a de filho de um homem morto sem que a Justiça apontasse um responsável.
Guardou no bolso um retrato do pai no necrotério. Não era uma lembrança. Era um compromisso consigo mesmo.
Vieram quinze meses de espera. Tempo suficiente para que os jornais mudassem de assunto, para que Maceió voltasse à rotina e para que o assassinato entrasse na longa lista de crimes que o tempo se encarrega de empurrar para o esquecimento. Oséas, porém, não esqueceu. Tinha sua própria convicção sobre quem havia mandado matar o pai, e ela não dependia de investigação policial para produzir consequências.
Na tarde de 30 de maio de 1951, encontrou Luís Campos Teixeira na calçada em frente à Assembleia Legislativa de Alagoas. Campos Teixeira conversava tranquilamente com outro deputado quando Oséas se aproximou por trás, tocou-lhe o ombro e anunciou em voz alta:
— Vira pra cá, cabra da peste, que você vai morrer.
Em seguida, sacou a arma e atirou até vê-lo cair.
Luís Campos Teixeira ainda foi levado ao hospital, mas morreu poucas horas depois. Oséas foi preso em flagrante. Na delegacia, um policial perguntou por que havia cometido o crime.
Sem alterar a voz, ele retirou do bolso o retrato do pai e respondeu apenas:
— Pai é pai.
A frase dispensava qualquer explicação.
Tudo indicava que a carreira política de Oséas Cardoso havia terminado ali. Afinal, tratava-se de um homicídio cometido em plena luz do dia, diante da sede do Poder Legislativo.
Mas a política brasileira, como tantas vezes acontece, seguia regras que nem sempre estavam escritas nas leis.
Como deputado estadual, Oséas só poderia ser processado criminalmente se a Assembleia Legislativa autorizasse.
Seis dias depois, os parlamentares se reuniram para decidir.
Por 17 votos a 13, negaram a autorização.
Uma comissão de deputados foi pessoalmente à penitenciária comunicar o resultado. Ao receber a notícia, Oséas chorou. Depois deixou a prisão.
Aquela votação dizia muito mais sobre a política da época do que sobre o próprio crime. A Assembleia não absolveu um homicídio. O que ela reconheceu foi um código de honra que, para muitos daqueles parlamentares, tinha peso suficiente para justificar a vingança de um filho.
É fácil olhar para essa história com os olhos de hoje e enxergar apenas um crime. Mas ela também revela um aspecto importante da cultura política brasileira de meados do século passado: durante muito tempo, relações pessoais, lealdades e acertos de contas conviveram com as instituições de maneira muito mais natural do que gostaríamos de admitir.
A política brasileira sempre foi assim.


























