A opinião pessoal do colunista João Zisman sobre politica nacional: Tudo começa na Bahia
A opinião pessoal do colunista João Zisman sobre politica nacional: Tudo começa na Bahia

Por João Zisman - 18/06/2026 08:43:28 | Foto: Rovena Rosa/Agência Brasil

Todo grande escândalo tem um momento curioso. Depois de avançar em linha reta, acumulando personagens, novos fatos e sucessivas revelações, ele parece parar, dar alguns passos para trás e voltar ao ponto onde tudo começou.

A nona fase da Operação Compliance Zero talvez represente exatamente esse movimento.

A manchete desta quinta-feira será a busca e apreensão contra o senador Jaques Wagner, líder do governo Lula no Senado e um dos nomes mais influentes do PT. E ela é, sem dúvida, relevante. Wagner não é um parlamentar periférico nem um coadjuvante ocasional. Foi governador da Bahia por dois mandatos, ministro em diferentes governos petistas e integra o círculo mais próximo do presidente da República.

Mas talvez a notícia mais interessante esteja alguns anos antes, longe de Brasília e antes mesmo de Daniel Vorcaro se transformar em personagem frequente das páginas policiais e políticas.

Ela começa na Bahia.

Foi ali que Augusto Ferreira Lima, conhecido como Guga Lima, construiu o modelo de negócio que ajudaria a impulsionar o crescimento do Banco Master. Em 2017, ele adquiriu a antiga Ebal, estatal responsável pela tradicional rede Cesta do Povo. Daquele ambiente surgiria o Credcesta, um cartão consignado inicialmente destinado aos servidores públicos baianos.

A ideia parecia simples. Desconto em folha, renda previsível e um público gigantesco à disposição. Funcionou tão bem que deixou de ser apenas um produto financeiro. Virou modelo de expansão.

E foi exportado.

O Credcesta chegou a outros estados, multiplicou receitas e abriu portas. Cada nova operação exigia diálogo com governos, estruturas administrativas, sindicatos e lideranças locais. O que começou como crédito consignado passou a produzir algo ainda mais valioso em Brasília: relações.

A ascensão de Guga Lima e, posteriormente, do próprio Master está profundamente ligada a essa trajetória.

Por isso, a chegada da investigação ao entorno de Jaques Wagner produz um efeito político que vai além da diligência desta quinta-feira. Não porque uma busca e apreensão signifique culpa. Não significa. O devido processo existe justamente para separar suspeitas de responsabilidades.

O ponto é outro.

Até aqui, o PT aparecia no caso Master quase sempre pela tangente. O banco transitava com desenvoltura entre personagens do mercado financeiro, integrantes do Centrão, figuras ligadas ao BRB e interlocutores de diferentes governos. Era o típico escândalo brasiliense: sem dono ideológico definido e com amigos espalhados por todos os lados.

A operação muda parcialmente essa fotografia.

Não transforma o Master em um "escândalo do PT". Seria precipitado, injusto e intelectualmente desonesto sustentar essa conclusão. Mas também impede que o partido seja tratado apenas como espectador de uma história protagonizada pelos outros.

Talvez o aspecto mais interessante dessa nova fase seja justamente esse retorno às origens.

Escândalos complexos raramente nascem prontos. Antes de virarem alvo de operações policiais, costumam ser apresentados como boas ideias. Surgem como soluções criativas, inovações financeiras, modelos eficientes de gestão ou oportunidades de mercado. Geram resultados, conquistam apoiadores, atraem investidores e ampliam sua rede de relacionamentos. Só mais tarde alguém começa a perguntar se, junto com o crescimento, prosperaram também atalhos incompatíveis com o interesse público.

A política brasileira costuma se apaixonar pelo último capítulo. O personagem do dia ocupa as manchetes, as redes sociais e os programas de televisão. Mas investigações maduras fazem o caminho inverso. Tentam descobrir quem estava presente quando tudo ainda parecia apenas um negócio promissor.

A Bahia talvez não explique sozinha o caso Master.

Mas a operação desta quinta-feira sugere que talvez seja impossível compreender plenamente essa história sem voltar ao lugar onde ela começou.

Porque, às vezes, o que parece uma novidade é apenas a primeira visita ao capítulo inicial de um livro que o país acreditava já conhecer de cor.