Por João Zisman - 10/06/2026 12:04:12 | Foto: Joédson Alves/Agência Brasil
Durante semanas, quase toda conversa política no Distrito Federal terminava no mesmo lugar: o BRB. A compra do Banco Master, as investigações, os questionamentos sobre a gestão anterior, as discussões envolvendo o Fundo Garantidor de Créditos, os embates na Câmara Legislativa e as repercussões nacionais acabaram consumindo boa parte da energia política do governo e da oposição.
Nesta quarta-feira, o assunto continuou dominando o noticiário. A aprovação do projeto que autoriza a operação de até R$ 6,6 bilhões para recompor o banco era necessária para o governo e acabou acontecendo. Nelson de Souza prestou esclarecimentos no Senado, anunciou mais de vinte apurações internas, confirmou ações de responsabilidade contra ex-administradores e procurou transmitir a imagem de uma instituição disposta a investigar os próprios erros para recuperar credibilidade.
O problema é que a aprovação do projeto resolve uma etapa importante da crise, mas não encerra a crise. A votação apertada na Câmara Legislativa mostrou que o tema continua dividindo opiniões dentro e fora do ambiente político. A oposição já anunciou que pretende recorrer à Justiça, as investigações continuam produzindo novos elementos e o banco ainda precisará responder a muitas perguntas que seguem sem solução definitiva.
Talvez por isso o movimento mais interessante do dia tenha acontecido fora do BRB.
Depois de anos sendo lembrado como uma obra inacabada e um símbolo de desperdício de recursos públicos, o antigo Centrad voltou ao noticiário com outra função. O início da ocupação do CAD-DF oferece ao governo uma oportunidade de falar de gestão, economia de recursos, reorganização administrativa e descentralização de serviços públicos. A promessa de transferir secretarias, reduzir gastos com aluguéis e dar utilidade a uma estrutura que permaneceu subutilizada durante mais de uma década cria uma agenda capaz de disputar espaço com o desgaste provocado pelo caso BRB.
Não se trata apenas de comunicação política. Trata-se de uma necessidade de governo. Nenhuma administração consegue permanecer indefinidamente concentrada numa única crise. Em algum momento surge a obrigação de voltar a falar de obras, serviços, investimentos e entregas.
Mas a quarta-feira também lembrou que a vida do Distrito Federal não se resume às agendas construídas dentro dos gabinetes.
O caso de Samuel Oliveira, jovem autista que vive em situação de rua em Sobradinho, expôs uma realidade que atravessa assistência social, saúde mental, sistema de Justiça e estrutura familiar. É uma história que chama atenção justamente porque reúne várias fragilidades ao mesmo tempo e mostra o quanto determinadas situações exigem respostas articuladas do poder público.
No mesmo dia, a Polícia Civil anunciou a prisão de uma quadrilha especializada em furtar medicamentos de alto custo em farmácias do Distrito Federal. O prejuízo financeiro é expressivo, mas o aspecto mais preocupante talvez seja outro. O crescimento de mercados clandestinos envolvendo medicamentos afeta diretamente a segurança sanitária da população e amplia riscos para pessoas que compram produtos sem qualquer garantia de origem, armazenamento ou transporte adequados.
A pauta da saúde também apareceu de forma positiva com a mobilização permanente de incentivo à doação de sangue anunciada pelo GDF. Pode parecer um tema menor diante da repercussão do BRB, mas basta uma queda nos estoques para que toda a rede pública sinta os efeitos. Muitas vezes, os assuntos mais importantes da gestão pública são justamente aqueles que só recebem atenção quando começam a faltar.
A agenda do dia ainda incluiu ações de prevenção às queimadas, projetos de inclusão social, atividades de capacitação profissional e a chegada da Liga das Nações de Vôlei a Brasília, movimentando esporte, turismo e serviços.
O conjunto desses fatos ajuda a compreender melhor o momento vivido pelo Distrito Federal. O BRB continua sendo o principal problema político da atual conjuntura e continuará produzindo desdobramentos. Mas a cidade não parou à espera do desfecho dessa crise. A administração pública segue enfrentando desafios permanentes na saúde, na assistência social, na segurança, na infraestrutura e na prestação de serviços.
A aprovação do projeto na Câmara deu ao governo uma vitória que era necessária. O desafio agora é outro. A gestão precisará demonstrar que consegue avançar simultaneamente em duas frentes: concluir o processo de recuperação institucional do BRB e recolocar temas ligados à administração da cidade no centro do debate público.
Porque a crise do banco continua exigindo respostas. Mas o Distrito Federal continua exigindo governo.
























