Por João Zisman - 20/06/2026 09:57:14 | Foto: Por João Zisman
Em 1952, um repórter da revista O Cruzeiro saiu do Recife rumo a Serrita, no sertão. Na época, a pequena cidade ficava a cerca de trinta quilômetros de Salgueiro.
Pelo caminho, em cada parada, alguém fazia a mesma pergunta:
— O senhor vai mesmo a Serrita?
Não era curiosidade.
Era espanto.
Serrita era o território do coronel Francisco Romão Filgueira Sampaio, o Chico Romão.
Ele não andava com revólver à mostra nem precisava desfilar com peixeira no cangote.
Naquela cidade, autoridade era outra coisa.
O hotel pertencia a uma irmã.
A mercearia em frente era do irmão Filinto.
Os cargos públicos eram ocupados pelos afilhados.
O antigo grupo escolar havia virado hotel, administrado por mestre José, que confessou ao repórter cuidar do lugar mais para agradar ao padrinho do que pelo dinheiro.
Quando o governo decidiu mudar nomes de municípios pernambucanos, como fez em várias cidades, Chico Romão mandou avisar:
Podia mudar.
Mas, no máximo, duas letras.
Serrita continuou sendo Serrita.
Porque Chico Romão assim queria.
Nas eleições, as urnas da cidade tinham a previsibilidade de um relógio suíço.
Governadores e deputados dormiam tranquilos quando contavam com os votos do coronel.
Chico Romão não era homem de partido.
Era homem de si mesmo.
E quem quisesse seu apoio sabia que apoio não vinha de graça.
Mas a história que melhor explica o tamanho daquele poder é a do juiz.
Um magistrado foi nomeado para Serrita.
Homem da lei.
Toga, carimbo e tudo o que o cargo exigia.
Chegou disposto a trabalhar, sem comprar briga com ninguém.
Queria apenas cumprir sua função.
Chico Romão não fez discurso.
Não ameaçou.
Não precisou.
No sertão, certas ordens chegam antes das palavras.
Ninguém alugou uma sala para o fórum.
Ninguém ofereceu hospedagem.
Ninguém serviu um copo d'água.
Ninguém puxou conversa.
O representante oficial do Estado brasileiro não encontrou onde instalar o juizado.
Não encontrou acolhida.
Não encontrou água.
Voltou para Salgueiro.
Com sede.
Anos depois, quando o repórter chegou à cidade, Chico Romão estava foragido, acusado de participar de um crime que chocara o Nordeste.
Trinta policiais cercavam Serrita.
Tinham veículos, rádio portátil e contato direto com a Secretaria de Segurança, no Recife.
Ainda assim, o tenente responsável fez uma observação que atravessou o tempo:
— Não encontro uma só pessoa que preste depoimento. É um cerco inverso que a população exerce sobre nós.
Chico Romão estava ausente.
Mas era, paradoxalmente, a pessoa mais presente da cidade.
A lei dizia que ele não estava ali.
A realidade dizia outra coisa.
O juiz havia ido embora com sede.
Depois vieram trinta homens armados e equipados com a tecnologia mais moderna da época.
Nada mudou.
Certas geometrias do poder no Brasil não dependem de cargo, farda ou eleição.
Dependem de quem controla a água.
E de quem faz a cidade inteira acreditar que ela só corre quando ele permite.


























