Por João Zisman - 29/06/2026 18:06:56 | Foto: Divulgação
A política costuma ser apresentada como uma sucessão de disputas eleitorais, mas raramente é isso que acontece nos bastidores. Antes de enfrentar o adversário, partidos e lideranças são obrigados a administrar seus próprios riscos, proteger seus ativos e impedir que crises internas se transformem em passivos capazes de comprometer projetos construídos ao longo de décadas. A semana que termina oferece dois exemplos bastante eloquentes desse movimento e, curiosamente, eles ocorreram em campos políticos opostos.
A saída de Jaques Wagner da liderança do governo no Senado não encerra investigações, não antecipa qualquer juízo de culpa e tampouco altera a presunção de inocência que deve acompanhar qualquer cidadão. Sob o aspecto jurídico, praticamente nada mudou. Politicamente, porém, a decisão revela que o PT compreendeu algo que a experiência eleitoral costuma ensinar com frequência: determinadas crises não precisam produzir condenações para gerar estragos. Basta que passem a ocupar diariamente o noticiário até que a opinião pública estabeleça associações que, mais tarde, dificilmente conseguirão ser desfeitas.
Ao retirar um de seus principais articuladores da linha de frente, o partido não eliminou o problema nem interrompeu as investigações. Procurou apenas estabelecer uma linha de contenção para evitar que o caso Master deixasse de ser percebido como uma questão envolvendo um de seus dirigentes e passasse a contaminar diretamente a candidatura presidencial de Lula. Trata-se de uma decisão essencialmente política, tomada porque campanhas eleitorais são disputadas tanto pela capacidade de apresentar propostas quanto pela habilidade de impedir que determinados temas monopolizem a atenção do eleitor.
O curioso é que o alívio mais significativo para o governo não decorreu dessa estratégia de contenção. Ele surgiu porque o foco do noticiário acabou migrando para o outro lado do tabuleiro.
Até poucos dias atrás, a pré-candidatura de Flávio Bolsonaro percorria um caminho de consolidação. A conversa mantida com Jair Bolsonaro, da qual resultou sua autodeclaração como pré-candidato à Presidência, provocou desconforto inicial entre parte das lideranças conservadoras, mas, à medida que as pesquisas passaram a indicar desempenho competitivo, esse incômodo começou a ceder espaço ao pragmatismo. Governadores, parlamentares e dirigentes partidários passaram a considerar que a construção de uma candidatura nacional poderia ser mais vantajosa do que prolongar indefinidamente a espera por definições.
Esse ambiente começou a se modificar na exata medida em que uma sucessão de fatos rompeu a trajetória ascendente que parecia desenhar-se. As revelações sobre a proximidade com Daniel Vorcaro, os questionamentos envolvendo recursos destinados ao filme sobre Jair Bolsonaro, a viagem aos Estados Unidos que produziu resultados políticos muito inferiores aos esperados e terminou associada, no debate público, ao recrudescimento das ameaças tarifárias de Donald Trump contra o Brasil passaram a compor um mesmo enredo. Antes que esse conjunto pudesse ser absorvido, a crise pública envolvendo Michelle Bolsonaro deslocou definitivamente o centro das atenções e obrigou o bolsonarismo a dedicar boa parte de sua energia à administração de um conflito que nasceu dentro da própria família.
Talvez nenhum desses episódios, analisado isoladamente, fosse suficiente para comprometer uma candidatura que vinha demonstrando capacidade de crescimento. O problema é que a política raramente julga acontecimentos de forma isolada. Ela observa a sequência dos fatos, procura estabelecer nexos entre eles e, sobretudo, mede a confiança que uma liderança continua sendo capaz de transmitir aos seus aliados.
É justamente nesse ponto que reside a questão mais delicada. Tudo indica que Flávio Bolsonaro jamais imaginou que suas conversas, encontros e visitas a Daniel Vorcaro viessem a público com a intensidade que vieram. A impressão transmitida pelos acontecimentos é que essa confiança fez com que informações politicamente sensíveis sequer fossem compartilhadas com parte dos aliados mais próximos. O resultado foi um ambiente de surpresa generalizada entre aqueles que, de uma hora para outra, descobriram os fatos ao mesmo tempo em que a opinião pública. Na política, poucas situações produzem desconforto maior do que obrigar aliados a defender explicações para acontecimentos sobre os quais nunca haviam sido previamente informados.
A consequência desse tipo de episódio dificilmente aparece nas entrevistas ou nas manifestações públicas de apoio. Ela costuma surgir de forma silenciosa, por meio de cálculos que deixam de ser feitos com base apenas nas pesquisas eleitorais e passam a incorporar um novo elemento: o risco político da associação. Nenhum dirigente rompe uma aliança da noite para o dia, mas todos começam a reavaliar estratégias quando percebem que o custo de permanecer ao lado de determinado projeto pode crescer mais rapidamente do que os benefícios esperados.
Esse movimento tende a produzir reflexos especialmente importantes nos estados. O Paraná oferece um exemplo emblemático. Sérgio Moro aproximou-se novamente do bolsonarismo depois de protagonizar uma das rupturas mais ruidosas da política recente, iniciada com sua saída do Ministério da Justiça e alimentada, durante anos, por críticas contundentes dirigidas a Jair Bolsonaro e aos seus filhos. Recomposições fazem parte da vida política e o pragmatismo sempre desempenhou papel relevante na formação de alianças. Ainda assim, a sustentação dessa reaproximação depende da existência de uma narrativa suficientemente convincente para explicar ao eleitor por que circunstâncias que antes justificavam o rompimento passaram a recomendar a convergência.
Essa tarefa torna-se naturalmente mais complexa se a candidatura nacional em torno da qual essas alianças começaram a ser organizadas deixar de transmitir a mesma sensação de estabilidade observada algumas semanas atrás. Afinal, projetos estaduais raramente caminham indiferentes ao ambiente produzido pela disputa presidencial, sobretudo quando seus principais protagonistas compartilham o mesmo espaço político.
Talvez seja exatamente por isso que a principal pergunta surgida nesta semana não diga respeito apenas ao futuro da candidatura de Flávio Bolsonaro. A questão que começa a circular nos bastidores é muito mais ampla e talvez muito mais relevante. O que interessa mais ao bolsonarismo neste momento: insistir na construção de uma candidatura presidencial cercada por novas dificuldades ou preservar o patrimônio político representado por governadores, bancadas, senadores e lideranças regionais capazes de assegurar a continuidade do movimento, independentemente do resultado da disputa pelo Palácio do Planalto?
A resposta ainda não existe. O que existe é um fato político que merece atenção. O PT demonstrou estar disposto a sacrificar posições importantes para proteger seu principal ativo eleitoral. Resta saber se o bolsonarismo, caso perceba que o ambiente se tornou menos favorável do que imaginava, fará cálculo semelhante ou continuará apostando que a preservação de um projeto presidencial vale mais do que a preservação do próprio movimento.
Essa talvez seja a discussão mais importante aberta pela última semana. O conservadorismo brasileiro continuará existindo independentemente do destino político da família Bolsonaro. O que ainda precisa ser respondido é se o bolsonarismo conseguirá preservar identidade própria ou se, diante das circunstâncias que começam a se desenhar, acabará encontrando abrigo apenas no universo mais amplo do conservadorismo, deixando de ser um movimento organizado para transformar-se em mais uma de suas correntes.
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