Por João Zisman - 05/10/2026 08:19:42 | Foto: Gil Ferreira STF
Talvez uma das coisas mais interessantes desta eleição esteja justamente naquilo que não apareceu de maneira tão evidente durante a campanha. Flávio Bolsonaro teve comícios, manifestações, gente na rua, bandeira, militância, nada disso faltou, mas fora desse núcleo mais engajado houve um eleitor diferente daquele que a gente viu nas duas eleições de Jair Bolsonaro, menos disposto a dizer em quem votaria, a vestir a camisa, a entrar em discussão e fazer do voto quase uma declaração de identidade. Não quer dizer que esse eleitor tenha desaparecido ou ficado em casa, muito pelo contrário, ele apenas se mostrou menos, guardou mais o voto para si e, quando chegou domingo, estava lá.
Acho que é justamente daí que começa uma parte importante da leitura do que aconteceu. O resultado de Flávio é uma coisa, o movimento da direita pelo país é outra, bem maior, e o Senado talvez seja a melhor medida disso porque ali apareceu uma força que durante a campanha nem sempre esteve escancarada. Dá para discutir economia, segurança, governo, costumes, rejeição a Lula, fidelidade a Bolsonaro e mais uma dúzia de coisas que entram na cabeça do eleitor na hora de votar, só não dá para fingir que o Supremo Tribunal Federal ficou fora dessa mistura.
Porque o Supremo passou dos limites, e esse incômodo deixou de ser há muito tempo uma conversa exclusiva de bolsonarista ou de gente do PL. Foi se espalhando, às vezes meio silenciosamente também, entre pessoas que começaram a olhar para a Corte e perguntar se era mesmo normal ministro estar metido em quase toda grande discussão política do país, dando entrevista, respondendo politicamente a adversários, tomando decisões com enorme repercussão fora dos processos e aparecendo no noticiário quase com a frequência de quem recebeu voto para estar ali.
Durante algum tempo foi relativamente fácil responder a qualquer crítica desse tipo dizendo que se tratava de ataque às instituições, ameaça à democracia ou reação de quem não aceitava determinadas decisões. Só que essa explicação foi ficando curta, porque o desconforto aumentou e chegou a um ponto em que já não cabia mais dentro do bolsonarismo, embora tenha sido a direita quem melhor soube transformar esse sentimento em discurso político e, agora, em voto.
No Senado isso ficou particularmente claro. Impeachment de ministro, limite para decisões individuais, mudança nas relações entre os Poderes, coisas que durante bastante tempo pareciam conversa de internet ou bravata de campanha, passaram a ser assunto de candidato competitivo e encontraram eleitor disposto a ouvir. Não estou dizendo que o brasileiro saiu de casa no domingo com a lista de ministros do Supremo na cabeça, seria uma bobagem reduzir uma eleição desse tamanho a isso, mas tenho dificuldade de acreditar que tanta irritação acumulada com a Corte simplesmente evaporou diante da urna.
E há uma diferença importante agora, porque quem recebeu esse voto não vai para qualquer lugar, vai também para o Senado, justamente a Casa que participa da escolha dos ministros do Supremo e que dispõe dos instrumentos constitucionais para controlar excessos que, durante anos, ficaram praticamente guardados na gaveta. Isso não significa que janeiro começa com uma fila de pedidos de impeachment sendo votados nem que o Congresso vai colocar o STF de joelhos, até porque política não funciona desse jeito, mas muda o ambiente, muda o tamanho da resistência e, principalmente, acaba aquela sensação de que a Corte pode avançar sobre o espaço político sem que ninguém tenha força suficiente para responder.
Talvez esteja aí uma ironia que a esquerda ainda precise digerir, porque durante muito tempo o Supremo foi tratado quase como uma espécie de proteção institucional contra Bolsonaro e contra aquilo que ele representava, e pode ter acontecido o contrário do que se imaginava. Quanto mais a Corte se expôs politicamente, mais ajudou a dar forma a uma reação contra ela, e quanto mais alguns de seus ministros viraram personagens da disputa cotidiana, mais facilitaram para a direita a construção de um adversário comum, com nome, rosto e decisões que todo mundo já conhecia.
E não vejo nada de estranho no eleitor responder dessa maneira. Se ele entende, certo ou errado, que uma instituição avançou além do que deveria, numa democracia a maneira mais natural de reagir é procurar quem prometa colocar algum limite nisso, ainda mais quando durante anos ouviu que não havia muito o que fazer porque certas decisões eram simplesmente decisões do Supremo e ponto final. Agora esse mesmo eleitor ajudou a escolher um Senado que pode começar a colocar alguns pontos de interrogação onde antes parecia haver apenas ponto final.
Lula pode vencer o segundo turno, Flávio Bolsonaro pode perder, essa história presidencial ainda está aberta, mas há uma outra história que domingo praticamente fechou: a direita saiu maior das urnas, ganhou musculatura no Congresso e, sobretudo no Senado, passou a ter instrumentos para apertar uma relação com o Supremo que já vinha ficando ruim havia bastante tempo.
No fim das contas, talvez esteja aí uma das maiores contradições desta eleição. O STF, que durante anos foi visto por boa parte do campo progressista como uma barreira contra o bolsonarismo, pode ter ajudado a devolver força justamente ao campo político que mais prometeu enfrentá-lo.
Se a intenção era ajudar a proteger Lula e a esquerda, o resultado ficou meio atravessado, porque o pior cabo eleitoral desse campo talvez tenha sido, sem querer e sem perceber, o próprio Supremo Tribunal Federal.






















