Por João Zisman - 28/08/2026 09:20:41 | Foto: Divulgação
A eleição ainda não chegou, mas a urna já começou a trabalhar no Congresso, não exatamente contando votos, tarefa que ficará para outubro, mas escolhendo prioridades e devolvendo vitalidade a pautas que atravessaram meses à espera de ambiente, acordo ou oportunidade. Quanto mais o calendário eleitoral avança, mais alguns assuntos parecem adquirir uma urgência que não encontravam quando o voto ainda estava confortavelmente distante.
O encontro de Lula com Hugo Motta e Davi Alcolumbre tornou essa capacidade de seleção quase didática. No esforço concentrado da próxima semana, devem ganhar passagem o fim da escala 6×1, a chamada taxa das blusinhas, a PEC da Segurança, minerais críticos e incentivos a data centers, formando um pacote sem grande parentesco temático, mas unido por uma credencial bastante poderosa neste momento: são pautas que podem produzir decisões capazes de chegar ao eleitor antes que os parlamentares cheguem até ele para pedir voto.
Nenhum desses assuntos amanheceu urgente nesta quinta-feira. A escala 6×1 já mobilizava trabalhadores e empresas, a Segurança Pública não precisava esperar agosto para ser reconhecida como problema nacional, minerais críticos não se tornaram estratégicos porque começou a campanha e os data centers tampouco descobriram agora que a inteligência artificial depende de energia, infraestrutura e investimento. O país é essencialmente o mesmo; o que mudou foi a distância entre o Congresso e a urna.
A taxa das blusinhas talvez ofereça o retrato mais acabado dessa elasticidade política. A cobrança foi aprovada, chegou ao consumidor, tornou-se impopular e agora sua retirada ganha tratamento de prioridade, num percurso em que a mercadoria fez uma viagem internacional bem menos interessante do que a própria ideia. O imposto entrou como solução, encontrou resistência no bolso e pode sair como inconveniência eleitoral.
É nesse ponto que a urna assume a função de curadora, porque não escreve projetos, não escolhe relatores nem participa das reuniões de líderes, mas possui extraordinária capacidade de separar aquilo que pode continuar esperando daquilo que, diante da proximidade da eleição, subitamente precisa acontecer. A política sempre soube administrar o tempo; o período eleitoral apenas altera o preço da demora.
Não há necessidade de procurar conspiração ou escândalo nesse movimento, porque buscar votos faz parte da natureza da atividade política e eleições existem também para aproximar representantes das demandas de quem os escolhe. A provocação está em outro lugar: se a proximidade da urna consegue reorganizar prioridades, facilitar acordos e devolver movimento a questões que pareciam condenadas a longas negociações, talvez alguns obstáculos apresentados anteriormente como quase incontornáveis fossem apenas obstáculos que ainda não custavam votos.
Lula tem razões evidentes para apreciar a nova seleção. Depois de semanas em que as investigações envolvendo o filho ajudaram a empurrar o governo para uma posição defensiva, discutir jornada de trabalho, redução de cobrança, Segurança Pública e investimentos oferece uma agenda eleitoral muito mais confortável. Motta e Alcolumbre também ganham ao ocupar a fotografia de um Congresso capaz de decidir, enquanto deputados e senadores se aproximam daquele momento do mandato em que precisam traduzir anos de atividade parlamentar para um eleitor que dificilmente será conquistado com explicações sobre comissões, requerimentos, relatórios e negociações de líderes.
É quando o regimento começa a conversar com a propaganda, e talvez seja mais interessante observar não apenas aquilo que entrou na vitrine, mas também o que continuará fora dela. Toda curadoria pressupõe escolha, razão pela qual cada pauta ressuscitada pela proximidade da eleição inevitavelmente deixa outras aguardando o momento adequado, a construção de consenso, a oportunidade política ou alguma das muitas expressões que o vocabulário parlamentar oferece para explicar por que uma decisão importante ainda pode esperar.
A diferença é que a urna tem pouca paciência para esse vocabulário. Conforme outubro se aproxima, fica mais difícil explicar falta de tempo, acordo ou oportunidade, não porque os problemas tenham se tornado mais simples ou as divergências desaparecido, mas porque adiar passou a custar politicamente mais do que decidir.
Talvez esteja aí o aspecto mais revelador dessa súbita reorganização da agenda. A urna não oferece horas adicionais ao Congresso, não simplifica projetos e muito menos fabrica consensos, mas consegue estabelecer um prazo que nenhum deputado ou senador precisa consultar no Diário Oficial para compreender.
Depois de outubro, haverá bastante tempo para que algumas urgências voltem a descobrir a complexidade.
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