A opinião pessoal do colunista João Zisman: A fotografia saiu. O filme continua inédito
A opinião pessoal do colunista João Zisman: A fotografia saiu. O filme continua inédito

Por João Zisman - 17/06/2026 10:35:24 | Foto: Roberto Stuckert Filho/PR

As pesquisas eleitorais cumprem duas funções. A primeira é medir o humor do eleitor. A segunda, nem sempre reconhecida, é influenciar o próprio debate político. Por isso, tão importante quanto observar os números divulgados é compreender os limites do que efetivamente foi revelado.

A pesquisa Correio/Opinião sobre a sucessão de 2026 no Distrito Federal organizou o tabuleiro. Mas deixou perguntas importantes sem resposta.

Embora o levantamento tenha sido regularmente registrado no Tribunal Superior Eleitoral, ao acessar o sistema do TSE o leitor encontra a seguinte informação: "Relatório completo com o resultado da pesquisa não foi fornecido pela empresa."

Isso significa que conhecemos os percentuais principais, mas não tivemos acesso aos cruzamentos capazes de explicar os movimentos do eleitorado. Não sabemos como homens e mulheres responderam. Não conhecemos o comportamento por faixa etária, escolaridade, renda ou regiões administrativas. Não temos elementos para identificar limites de crescimento, migração de votos ou os diferentes níveis de rejeição de cada candidatura.

Em outras palavras: a fotografia saiu. O filme continua inédito.

Ainda assim, a imagem disponível permite algumas conclusões relevantes.

A governadora Celina Leão lidera a disputa pelo Palácio do Buriti com 27,8% das intenções de voto e confirma sua condição de protagonista da sucessão. O resultado demonstra capacidade de transformar a exposição administrativa em competitividade eleitoral. Liderar uma pesquisa tão distante da eleição não representa garantia de vitória, mas oferece o ativo mais valioso de qualquer pré-campanha: largar na frente.

Logo atrás aparece José Roberto Arruda, com 23,5%. Independentemente das dúvidas que ainda cercam sua situação jurídica e eventual elegibilidade, o dado político é incontornável. Arruda continua sendo uma força eleitoral relevante no Distrito Federal. Depois de anos afastado do centro da cena, permanece capaz de mobilizar uma parcela expressiva do eleitorado. Se poderá ou não disputar é uma questão para os tribunais. Que segue vivo politicamente é algo que os números autorizam afirmar.

Leandro Grass, com 9,2%, reafirma a existência de um eleitorado progressista estruturado no DF. Ainda distante dos dois primeiros colocados, mantém-se como a principal referência do seu campo político.

Izalci Lucas, Paula Belmonte, Ricardo Cappelli, Samara Mineiro e Kiko Caputo aparecem em patamares mais modestos. Isso não os transforma em figurantes. Em eleições majoritárias, candidaturas menores podem influenciar alianças, composições partidárias e o próprio desenho final da disputa.

Se a corrida ao Buriti trouxe confirmações, o Senado talvez tenha apresentado as histórias mais interessantes da pesquisa.

Michelle Bolsonaro lidera com 38,8% e deixa de ser um fenômeno episódico para se consolidar como tendência. Quando um desempenho se repete em diferentes levantamentos e cenários, passa a representar algo mais sólido do que uma oscilação estatística. Michelle tornou-se referência obrigatória em qualquer análise sobre as duas vagas em disputa.

Leila Barros surge com 30,2% e talvez seja a principal confirmação desta rodada. Frequentemente tratada como coadjuvante nas leituras políticas, demonstra musculatura suficiente para disputar a reeleição em condições reais de competitividade.

Ibaneis Rocha registra 22,6% e reforça sua viabilidade eleitoral. Às vésperas do encerramento do mandato, mostra que preserva patrimônio político relevante e potencial concreto para ocupar uma das cadeiras do Senado.

Érika Kokay, com 25%, reafirma a resiliência do eleitorado de esquerda no Distrito Federal. Seu desempenho mostra que esse segmento permanece organizado e capaz de sustentar candidaturas competitivas.

Mas talvez a surpresa mais intrigante da pesquisa esteja em outro nome.

Bia Kicis aparece com 14,4%.

Isoladamente, não é um percentual desprezível. Trata-se de uma disputa ainda distante, com múltiplos candidatos e apenas duas vagas em jogo. No entanto, o dado chama atenção quando confrontado com as expectativas construídas até aqui.

Deputada federal mais votada do Distrito Federal em 2022, pré-candidata lançada ao Senado com pompa e circunstância pelo PL e figura de grande visibilidade no campo conservador, Bia era frequentemente incluída entre os nomes naturalmente posicionados na disputa direta pelas duas vagas.

A fotografia atual sugere outra realidade.

Bia permanece relevante, mas deixa o pelotão dos imediatamente competitivos para ocupar uma posição intermediária, atrás de Michelle Bolsonaro, Leila Barros, Érika Kokay e Ibaneis Rocha.

O que aconteceu?

Michelle está concentrando o voto conservador? O eleitor diferencia desempenho proporcional e potencial majoritário? Os 14,4% representam um teto ou apenas um piso inicial para uma candidatura que ainda dispõe de mandato, estrutura partidária e forte presença digital?

Sem os cruzamentos do relatório completo, não há respostas definitivas.

E talvez essa seja a principal lição desta pesquisa.

Ela mostra posições, mas não explica movimentos.

Sabemos quem aparece melhor colocado na largada. Não sabemos quais segmentos sustentam cada candidatura, onde estão seus limites de crescimento, quais são suas rejeições efetivas ou para onde os votos podem migrar quando a campanha começar de verdade.

Temos a imagem do momento. Faltam as cenas que expliquem como ela foi construída.

Pesquisas eleitorais servem para iluminar tendências, não para decretar destinos. A do Correio/Opinião cumpre bem o papel de revelar quem ocupa hoje o centro da cena política do Distrito Federal.

Mas a prudência recomenda evitar certezas apressadas.

Porque, em política, quase sempre é o filme — e não a fotografia — que explica o final da história.

E, desta vez, o filme ainda não foi exibido.