Por João Zisman - 08/10/2026 08:14:13 | Foto: © Foto / Paulo Pinto / Fotos Públicas
No Distrito Federal, bilhões de reais entram na conversa política com uma facilidade impressionante. Nesta quinta-feira, enquanto se discute a necessidade de proteger os recursos do Fundo Constitucional, aparece também a possibilidade de buscar aproximadamente R$ 6 bilhões no exterior para ajudar a recuperar o BRB. E convenhamos que há uma diferença considerável entre defender o dinheiro que mantém os serviços públicos funcionando e procurar dinheiro novo para enfrentar os problemas de um banco. O curioso é que, nos dois casos, a discussão parece começar pelo tamanho dos valores, quando talvez devesse começar por uma pergunta bem mais incômoda: afinal, quem assume os riscos, quem responde pelas decisões e quem acaba pagando a conta quando alguma coisa não sai como foi prometido?
O Fundo Constitucional é um bom exemplo disso, porque muita gente sabe que ele existe, ouve falar dos valores envolvidos e acompanha as disputas políticas em torno de sua preservação, mas nem sempre percebe o tamanho de sua importância para o funcionamento da cidade. Estamos falando de recursos federais que financiam a segurança pública e contribuem para os serviços de saúde e educação, numa estrutura que decorre das responsabilidades especiais da União com a capital do país.
É uma situação diferente daquela enfrentada pela maioria dos estados brasileiros, e talvez por isso o fundo apareça tantas vezes nas negociações entre o governo local, o Congresso e a Presidência da República. Qualquer alteração em suas regras pode produzir consequências importantes sobre o orçamento do DF, independentemente de quem esteja no Buriti ou no Planalto, o que deveria ser suficiente para afastar a ideia de que sua preservação depende apenas de afinidade partidária.
O BRB apresenta um problema de outra natureza, embora também envolva dinheiro público e responsabilidades que ultrapassam o mandato de um governador. A possibilidade de buscar aproximadamente R$ 6 bilhões no mercado internacional, mencionada no noticiário desta quinta-feira, abre uma discussão que não pode ficar restrita ao tamanho do empréstimo. Antes de comemorar a eventual chegada desses recursos, seria interessante saber quem estaria disposto a emprestar, em quais condições, com quais garantias e, principalmente, como a operação contribuiria efetivamente para recuperar a instituição.
Porque uma coisa é conseguir dinheiro e outra, bem diferente, é resolver o problema que tornou esse dinheiro necessário.
Quem já administrou uma empresa, por menor que seja, conhece essa diferença. Um empréstimo pode aliviar uma dificuldade imediata, permitir a reorganização das contas e dar tempo para corrigir problemas, mas também pode acrescentar uma obrigação pesada a uma situação que já não era confortável. No caso de um banco, a conversa fica mais complexa, porque entram questões de capital, liquidez, qualidade dos ativos, supervisão e capacidade de cumprir compromissos, além da necessidade de recuperar a confiança de clientes e investidores.
Não estou dizendo que buscar financiamento seja uma decisão equivocada, até porque seria precipitado avaliar uma operação cujos detalhes ainda não foram apresentados. O que me parece importante é não confundir a notícia de que existe uma alternativa em estudo com a demonstração de que essa alternativa resolverá a situação, sobretudo depois de uma crise que trouxe o BRB para o centro de investigações, questionamentos institucionais e preocupações sobre sua governança.
Também convém não colocar o Fundo Constitucional e o banco público dentro da mesma conta, como se fossem recursos intercambiáveis. O fundo possui finalidades e regras próprias, ligadas ao financiamento de serviços essenciais, enquanto a recuperação do BRB exige uma solução financeira e institucional específica. O ponto de contato entre eles está na responsabilidade de administrar recursos, proteger o patrimônio público e explicar à sociedade os compromissos assumidos em seu nome.
E aí chegamos a uma particularidade do Distrito Federal que nem sempre recebe a atenção devida. A capital possui uma estrutura administrativa que reúne atribuições estaduais e municipais, depende de uma relação permanente com a União e, ao mesmo tempo, mantém instituições próprias com peso relevante na economia local. Essa combinação oferece condições especiais de financiamento, mas também cria responsabilidades que não podem ser resolvidas apenas com uma boa relação política ou com a promessa de encontrar novos recursos.
O segundo turno, naturalmente, coloca tudo isso dentro da disputa eleitoral, embora os problemas não tenham começado com a campanha e tampouco desaparecerão quando as urnas forem fechadas. Quem assumir o governo em janeiro terá de lidar com o Fundo Constitucional, com a situação do BRB e com as consequências das decisões financeiras tomadas agora, independentemente das alianças que estejam sendo construídas neste momento.
Talvez seja essa a parte da discussão que mais me interessa, porque estamos acostumados a ouvir anúncios de bilhões de reais como se o tamanho do número fosse suficiente para demonstrar a importância ou a qualidade de uma decisão. Quando se fala em preservar recursos, é preciso saber quais serviços dependem deles e como serão utilizados. Quando se fala em tomar dinheiro emprestado, precisamos conhecer o custo, as garantias e o caminho previsto para pagar a dívida.
Há uma diferença grande entre defender o patrimônio público e simplesmente afirmar que ele será protegido, assim como existe uma distância considerável entre anunciar uma fonte de financiamento e demonstrar que ela oferece uma solução sustentável.
Como economista, sempre achei curioso o fascínio que números muito grandes exercem sobre a política, especialmente quando aparecem acompanhados de promessas de recuperação, investimento ou expansão de serviços. O valor impressiona, ganha manchete, produz uma sensação de movimento e muitas vezes acaba ocupando o espaço que deveria ser reservado às explicações.
No caso do Distrito Federal, eu preferiria uma conversa menos preocupada em descobrir quem conseguirá abrir as portas para determinado financiamento e mais interessada em conhecer o que será feito depois que essas portas se abrirem. Afinal, preservar o Fundo Constitucional é uma responsabilidade institucional, recuperar o BRB é um desafio financeiro e administrativo, e nenhum dos dois deveria depender da habilidade de transformar uma questão complexa numa frase de campanha.
Dinheiro ajuda a resolver problemas, evidentemente, mas não substitui uma boa decisão. E, quando se trata de recursos públicos ou de compromissos que podem alcançar o patrimônio da sociedade, a pergunta sobre quem paga a conta deveria aparecer antes, e não depois, de alguém anunciar que encontrou a solução.

























