A opinião pessoal do colunista de politica João Zisman: A pauta que não muda
A opinião pessoal do colunista de politica João Zisman: A pauta que não muda

Por João Zisman - 06/08/2026 09:33:48 | Foto: João Cardoso/ Agência Brasília

O noticiário desta quinta-feira tem uma característica curiosa. Quase nenhuma de suas principais notícias começou hoje.

Os resultados do Ideb revelam dificuldades conhecidas no ensino médio. A situação financeira do BRB volta à mesa do Judiciário. A população em situação de rua permanece exigindo novas ações do poder público. O Festival de Brasília do Cinema enfrenta mais um momento de incerteza. O sistema prisional mobiliza uma operação especial para acompanhar a saída temporária de detentos.

São fatos diferentes. Mas todos têm algo em comum: fazem parte de uma agenda que atravessa governos.

Na política existe uma tendência natural de concentrar atenções sobre aquilo que muda. Mudam os candidatos, mudam os secretários, mudam as prioridades, mudam os discursos. O noticiário acompanha esse movimento porque a novidade sempre chama mais atenção do que a continuidade.

A administração pública, porém, funciona de outra maneira.

Boa parte do trabalho diário dos governos não consiste em criar problemas novos, mas em administrar aqueles que insistem em permanecer. Alguns se repetem porque são complexos. Outros porque dependem de recursos, mudanças legislativas ou articulação entre diferentes órgãos. Há ainda aqueles que simplesmente não admitem soluções rápidas.

O Ideb divulgado nesta semana ilustra bem essa realidade. O desempenho do ensino médio não piorou da noite para o dia. Ele expressa um processo acumulado, resultado de fatores pedagógicos, sociais e econômicos que se desenvolvem ao longo de muitos anos. Nenhuma gestão recebe esse cenário em branco, assim como nenhuma conseguirá transformá-lo integralmente em apenas um mandato.

O mesmo raciocínio vale para o BRB. A audiência marcada pelo Supremo não representa o início da discussão sobre a capitalização do banco, mas mais um capítulo de uma negociação que envolve interesses financeiros, segurança jurídica e patrimônio público. O debate continua porque a solução ainda não foi construída.

A situação da população em situação de rua talvez seja o exemplo mais evidente dessa lógica. Operações de acolhimento são realizadas com frequência, envolvendo assistência social, saúde, segurança e ordenamento urbano. Ainda assim, o problema retorna à pauta porque sua origem vai muito além da ocupação dos espaços públicos. Moradia, saúde mental, dependência química, vínculos familiares rompidos e vulnerabilidade econômica fazem parte de uma equação que não se resolve em uma única ação.

O mesmo acontece na cultura. O risco de interrupção de um festival tradicional não nasce apenas de uma dificuldade momentânea. Ele expõe como atividades culturais permanentes dependem de planejamento, financiamento, previsibilidade e capacidade de articulação entre poder público e iniciativa privada.

Alguns problemas têm um tempo próprio. Não acompanham o calendário eleitoral nem começam com um governo específico. Permanecem atravessando administrações porque dependem de continuidade, recursos, coordenação institucional e, muitas vezes, de mudanças sociais que não acontecem no ritmo da política. O desafio de cada gestão não é fingir que eles nasceram ontem nem prometer que desaparecerão amanhã. É conseguir fazer com que, ao final de alguns anos, ocupem um espaço menor na agenda pública do que ocupavam quando chegaram.

Talvez seja essa a principal leitura do noticiário desta quinta-feira. Mais do que anunciar novidades, ele lembra que governar também significa lidar com questões que resistem ao tempo. Elas não rendem manchetes todos os dias, mas são justamente aquelas que acabam definindo, com mais justiça, o legado de uma administração.