Por João Zisman - 30/08/2026 08:15:00 | Foto: João Zisman - Divulgação
A série de entrevistas dos candidatos à Presidência no Jornal Nacional terminou deixando uma impressão curiosa. A Globo ofereceu aos seis concorrentes algo cada vez mais raro numa campanha dominada por cortes de redes sociais, respostas cronometradas e debates em que quase ninguém consegue concluir um raciocínio: cerca de 40 minutos diante do eleitor. Era tempo suficiente para perguntar, confrontar, insistir e, principalmente, deixar responder. Nem sempre foi isso que aconteceu.
Em alguns momentos, a sabatina se aproximou mais de um exercício de media training em condições adversas. A pergunta vinha, o candidato começava a desenvolver a resposta, surgia o repique, depois outra intervenção e, não raramente, uma mudança brusca de assunto.
Naturalmente, interromper uma evasiva faz parte do trabalho jornalístico, assim como impedir que o entrevistado transforme a bancada do Jornal Nacional em palanque. O excesso, entretanto, produz outro tipo de teste: em vez de revelar apenas o que pensa um presidenciável, passa a medir sua capacidade de preservar mensagem, controlar reação e sobreviver à pressão.
Com Lula, essa fronteira ficou particularmente exposta. Lulinha, Roberta Luchsinger, investigações e outros assuntos incômodos consumiram parcela importante da entrevista, com sucessivos repiques diante das respostas do presidente. Quando finalmente a conversa caminhou para outro terreno, o próprio Lula ironizou que estava parecendo estar diante do Ministério Público. Pode-se atribuir a frase ao desconforto natural de quem preferiria falar de emprego, renda e realizações do governo, mas seria simplista ignorar que ela também descrevia a temperatura alcançada pela entrevista. As perguntas eram pertinentes; a questão está na proporção, no ritmo e no espaço efetivamente concedido para que fossem respondidas.
É justamente aí que a discussão sobre equilíbrio precisa escapar da contabilidade primária de quem recebeu a pergunta mais difícil. César Tralli e Renata Vasconcellos estavam diante das câmeras, mas representavam ali uma concepção editorial da Globo, razão pela qual seria injusto transformar os dois colegas em responsáveis individuais pelo desenho das sabatinas. O que merece avaliação é se a emissora aplicou aos seis candidatos uma equivalência de rigor e, além disso, se o modelo escolhido ajudou o eleitor a conhecê-los melhor. São perguntas diferentes.
Na primeira, a Globo parece ter preservado uma régua razoavelmente equilibrada, embora evidentemente não tenha produzido entrevistas iguais. Nem deveria. Lula e Flávio Bolsonaro carregam passivos políticos e familiares incomparáveis aos de Augusto Cury, assim como Zema e Caiado chegaram à bancada trazendo administrações estaduais que precisavam ser confrontadas. Renan Santos, menos conhecido, tinha propostas e declarações controversas a explicar. Equilíbrio jornalístico não consiste em perguntar a mesma coisa, mas em não oferecer a ninguém uma zona artificial de conforto.
Na segunda pergunta, a resposta é mais incômoda. A busca permanente pelo confronto, as interrupções e a alternância rápida de temas por vezes sacrificaram justamente aquilo que 40 minutos poderiam oferecer de melhor. Há uma diferença entre impedir o candidato de escapar e não permitir que ele desenvolva a resposta. O primeiro movimento é obrigação jornalística; o segundo pode empobrecer a própria entrevista. Às vezes, deixar um candidato falar é a maneira mais eficiente de mostrar que ele não sabe exatamente do que está falando.
Augusto Cury ofereceu talvez o melhor exemplo. Sem investigações, governos anteriores ou um sobrenome politicamente carregado para explicar, recebeu mais espaço para apresentar ideias. E então surgiu sua principal fragilidade. Bets tributadas acima de 50%, redução drástica dos ministérios, inteligência artificial, robótica, telemedicina e reorganização do BNDES formavam um cardápio abundante até que apareceram perguntas sobre execução, financiamento e desenho administrativo. Cury conseguiu apresentar Cury; teve muito mais dificuldade para demonstrar como funcionaria um governo Cury. Nesse caso, menos interrupção e mais corda talvez produzissem um resultado ainda mais revelador.
Renan Santos viveu situação quase inversa e, considerando apenas o proveito eleitoral, provavelmente foi quem mais ganhou com a série. Não porque tenha oferecido as respostas mais consistentes. A defesa de uma bomba atômica brasileira, suas posições sobre o Supremo e a inspiração no modelo de segurança de Nayib Bukele são suficientemente controversas para impedir qualquer confusão entre bom desempenho televisivo e qualidade programática. Seu ganho foi outro: entrou precisando ser conhecido e saiu sendo discutido. Para um candidato com pouco tempo de propaganda e alguns pontos nas pesquisas, 40 minutos de exposição nacional capazes de continuar repercutindo no dia seguinte valem muito mais do que para quem já ocupa diariamente o centro da eleição.
Caiado também mostrou por que é um adversário difícil quando a conversa chega à segurança pública. Tem experiência, conhece o assunto e transmite autoridade. O problema apareceu quando a entrevista se afastou desse território. A Presidência é maior do que a especialidade em que um candidato se sente confortável, e Caiado ainda precisa demonstrar com a mesma desenvoltura qual país pretende governar fora da agenda que se tornou sua principal marca. Foi bem, mas quem precisa romper a polarização talvez não possa se contentar em ir bem.
Zema perdeu mais do que ganhou, não por ter produzido algum desastre, mas porque desperdiçou parte de uma oportunidade rara. Dois mandatos em Minas fornecem currículo e números para apresentar, mas uma eleição presidencial exige a transição entre governador conhecido regionalmente e personagem capaz de ser imaginado no Planalto. Ela não aconteceu durante aqueles 40 minutos. Zema entrou candidato à Presidência e saiu ainda excessivamente governador de Minas, exatamente quando precisava utilizar a maior vitrine individual da campanha para nacionalizar sua candidatura.
Flávio Bolsonaro, como Lula, enfrentou uma entrevista na qual o sobrenome ocupou uma cadeira invisível ao seu lado. Dark Horse, Daniel Vorcaro, rachadinhas, Adriano da Nóbrega e episódios ligados à trajetória familiar obrigaram-no a trabalhar defensivamente. Demonstrou disciplina e não produziu o desastre que seus adversários certamente gostariam de recortar para as redes sociais, mas também não conseguiu encerrar algumas questões. Há uma diferença importante entre resistir à pressão e convencer, assim como existe diferença entre terminar uma resposta e terminar um assunto.
É aí que Lula e Flávio revelaram uma ironia da polarização que ambos têm interesse em preservar. Os dois concentram atenção, estrutura política e parcelas enormes do eleitorado, mas pagam por isso carregando para dentro da campanha histórias familiares que insistem em disputar espaço com suas próprias candidaturas. Lula gostaria de transformar a eleição num julgamento de seu governo; Flávio, num julgamento do governo Lula. A Globo conseguiu fazer com que ambos passassem uma parte considerável de seus 40 minutos julgando ou explicando coisas diferentes.
No conjunto, portanto, Renan foi quem proporcionalmente mais ganhou, porque partiu de muito menos. Caiado confirmou atributos sem resolver sua limitação temática; Zema deixou escapar a oportunidade de parecer maior do que Minas; Cury mostrou uma candidatura mais fértil em ideias do que em mecanismos para executá-las; Lula e Flávio sobreviveram à pressão, mas saíram lembrados de que os sobrenomes que lhes oferecem enorme capital eleitoral também cobram juros.
A Globo merece crédito por colocar os seis diante de perguntas incômodas e não oferecer entrevistas protocolares. A ressalva é que contundência não se mede pela quantidade de interrupções, e uma sabatina presidencial não precisa produzir permanentemente a sensação de interrogatório para ser rigorosa. Há momentos em que o silêncio do entrevistador é uma ferramenta jornalística muito mais poderosa do que o repique, porque permite ao eleitor descobrir sozinho onde termina a resposta e começa a evasiva.Talvez tenha faltado um pouco mais disso. Os 40 minutos foram suficientes para testar reflexos, preparo, domínio emocional e treinamento de comunicação. Em alguns momentos, entretanto, descobrimos mais sobre a capacidade dos candidatos de enfrentar um bom media training ao vivo do que sobre o que fariam com quatro anos de Presidência pela frente.



























