A opinião pessoal do cientista político João Zisman: A campanha encontra a cidade
A opinião pessoal do cientista político João Zisman: A campanha encontra a cidade

Por João Zisman - 18/08/2026 10:27:51 | Foto: Divulgação

A campanha eleitoral começou oficialmente no domingo, mas talvez tenha começado de verdade agora. Caminhadas, carreatas e panfletagens cumprem sua função, produzem fotografias e mostram alguma capacidade de mobilização. A partir do momento em que os candidatos começam a dizer o que pretendem fazer, surge uma etapa mais interessante: descobrir o que cada promessa significa fora do palanque.

Nesta terça-feira já aparecem bons exemplos.

A segurança pública entrou no debate com a proposta de unificação das polícias Civil e Militar, acompanhada de desmilitarização e criação de mecanismos de controle social. Na educação, voltou à cena a ideia de uma carreira nacional para professores. São discussões legítimas e podem perfeitamente integrar uma campanha local, mas carregam uma peculiaridade importante: nenhuma delas depende apenas da vontade de quem estiver sentado no Buriti.

Essa distinção deverá acompanhar boa parte da eleição. Governadores influenciam discussões nacionais, pressionam o Congresso, articulam mudanças e podem liderar debates. Ainda assim, existe uma distância entre defender uma transformação e possuir os instrumentos institucionais para executá-la.

O eleitor do Distrito Federal talvez tenha razões adicionais para prestar atenção nisso. Segurança, saúde e mobilidade aparecem entre suas principais preocupações e são também áreas em que a experiência cotidiana costuma ser bem menos abstrata do que os programas de governo.

A terça-feira ofereceu exemplos suficientes.

Uma adolescente denunciou importunação sexual dentro de um ônibus que fazia o trajeto entre São Sebastião e a W3 Norte. A empresa anunciou investigação. No Mané Garrincha, quatro homens foram presos por suspeita de tráfico durante um grande evento, enquanto participantes precisaram de atendimento médico. No Lago Norte, a Saúde acompanha animais que tiveram contato com uma cadela diagnosticada com raiva e mantém vigilância epidemiológica na região.

Nenhum desses episódios definirá uma eleição. Juntos, entretanto, ajudam a dimensionar uma parte menos vistosa da administração de uma cidade.

Transporte público envolve ônibus, tarifa e tempo de viagem, mas alcança também a fiscalização das empresas e a segurança de quem utiliza o serviço. Segurança pública passa por efetivo, viaturas e tecnologia e inclui o controle de grandes eventos e a qualidade das abordagens policiais. Na saúde, as filas ocupam naturalmente grande parte do debate eleitoral, enquanto uma estrutura menos visível precisa funcionar rapidamente quando uma doença ausente dos registros caninos do DF por mais de duas décadas volta a aparecer.

É nesse terreno que as propostas começarão a ser testadas.

Ricardo Cappelli, por exemplo, já apresentou a ideia de um aplicativo público para motoristas e estabeleceu como meta reduzir para até uma hora o deslocamento entre casa e trabalho. Também prometeu zerar filas na saúde, ampliar o metrô, valorizar professores e recompor o efetivo policial. Outros candidatos começam a colocar suas próprias propostas na mesa.

A campanha ficará mais interessante à medida que essas ideias forem submetidas a perguntas bastante concretas. Quanto custam, quanto tempo exigem, quais dependem diretamente do governador e quais precisam da União, do Legislativo ou de mudanças na legislação?

Política envolve escolhas, prioridades e capacidade de construir apoio para executá-las. O problema aparece quando a dimensão da promessa esconde a distância entre aquilo que um candidato gostaria de fazer e aquilo que o cargo efetivamente permite entregar.

O terceiro dia de campanha começa a mostrar essa mudança. As regiões administrativas continuam recebendo candidatos, bandeiras e material eleitoral, enquanto sabatinas e entrevistas passam a exigir conteúdo e as primeiras propostas já permitem comparações.

Até outubro, a própria rotina do Distrito Federal ajudará a fazer essa avaliação. O transporte, a espera por atendimento, a segurança nas ruas e o tempo gasto diariamente nos deslocamentos continuarão oferecendo ao eleitor referências bastante concretas para comparar com aquilo que ouvirá durante a campanha.

João Zisman
Economista | Jornalista | Cientista Político