Por João Zisman - 18/05/2026 11:05:57 | Foto: Torre de TV, em Brasília. Roberto Castro/ MTur
Depois de semanas em que praticamente toda conversa política em Brasília desembocava inevitavelmente no BRB, no Banco Master, em Daniel Vorcaro ou em investigações financeiras, o Governo do Distrito Federal começou esta segunda-feira tentando empurrar o debate público de volta para a vida concreta da cidade.
A agenda da governadora Celina Leão foi desenhada exatamente para isso. Samambaia virou o centro político do dia com mais uma edição do GDF na Sua Porta, assinatura de dezenas de ordens de serviço, ações de qualificação profissional e presença territorial do governo. O movimento parece ter um objetivo claro: recolocar obras, serviços urbanos, infraestrutura e cotidiano administrativo na frente de um ambiente político que há meses opera sob o peso quase exclusivo da crise do BRB.
A própria declaração de Celina sobre o banco seguiu essa lógica. Ao afirmar que a solução financeira “está encaminhada”, sem abrir detalhes da operação, a governadora procurou encerrar o assunto sem alimentar novamente a espiral de tensão que passou a dominar parte do noticiário local. O recado foi muito mais político do que financeiro: o governo quer reduzir a centralidade do tema.
Só que Brasília ainda não conseguiu sair completamente dessa órbita.
O noticiário nacional manteve o caso Master vivo após novas informações divulgadas pelo Poder360 e aprofundadas pelo UOL mostrarem que Daniel Vorcaro chegou a discutir diretamente com Lula, ainda em 2024, alternativas para o futuro do banco, incluindo a possibilidade de venda ao BTG Pactual. Mais do que a conversa em si, o dado relevante é perceber o tamanho que a crise já possuía nos bastidores muito antes de se tornar pública.
Ao mesmo tempo, a prisão em Dubai do hacker Victor Sedlmaier pela Polícia Federal manteve o caso em evidência e reforçou o caráter internacional que parte da investigação passou a assumir. Ainda assim, o comportamento do governo local nesta segunda-feira indicou outra prioridade: impedir que a política do Distrito Federal continue funcionando apenas em torno da crise financeira.
Por isso, o GDF passou o dia tentando deslocar o eixo do debate.
O feminicídio de Cláudia da Silva Nascimento, a sétima vítima deste tipo de crime no DF em 2026, recolocou segurança pública e violência doméstica no centro das preocupações sociais. A ampliação da cessão de máquinas agrícolas para produtores rurais reforçou a aproximação do governo com o setor agrícola. E até a proposta de criação de um complexo de lazer na Prainha do Lago Norte entrou nesse esforço de reconstrução de uma agenda menos contaminada pelo ambiente bancário e judicial.
Brasília também começou a sentir o efeito político da Marcha dos Prefeitos, que transforma a capital novamente numa grande feira de articulações, encontros partidários e conversas eleitorais. Com milhares de prefeitos circulando pela cidade ao longo da semana, o ambiente político naturalmente muda de frequência. Ministérios, Congresso, hotéis e restaurantes passam a operar como extensões informais das negociações de 2026.
Talvez por isso o anúncio da pré-candidatura de Joaquim Barbosa à Presidência tenha produzido mais curiosidade do que impacto real imediato. O movimento ajuda menos a reorganizar o jogo eleitoral e mais a demonstrar como o sistema político brasileiro continua aberto a tentativas de construção de alternativas fora dos polos tradicionais.
No fundo, o que Brasília parece viver hoje é uma tentativa de retomada de normalidade. O BRB continua presente, as investigações continuam avançando e o ambiente político ainda permanece contaminado pelo caso Master. Mas o governo local começa a demonstrar que compreendeu um risco importante: se continuar deixando a crise monopolizar completamente o debate público, a própria cidade desaparece da conversa política.























