Por João Zisman: Quando o Supremo precisa ser salvo de si mesmo
Por João Zisman: Quando o Supremo precisa ser salvo de si mesmo

Por João Zisman - 11/09/2026 10:34:50 | Foto: Antonio Augusto/STF

O Supremo Tribunal Federal chegou a um ponto que seria irresponsável tratar como mais uma crise entre ministros. Os últimos dias expuseram algo mais perigoso: uma divisão interna que já não parece apenas jurídica e começa a ganhar contornos politiqueiros, quando o país entra na reta sensível do processo eleitoral.

A sequência importa. Alexandre de Moraes usou o inquérito das fake news e relatórios produzidos pela Polícia Federal para reagir contra André Mendonça, lançando sobre o colega acusações gravíssimas a partir de material que a própria PF classificava com baixa confiabilidade e sem valor probatório. Mendonça respondeu de maneira igualmente dura: provocado pelo Partido Novo, afastou o diretor-geral da PF, Andrei Rodrigues, e o diretor de Inteligência, Leandro Almada, sob alegação de monitoramento irregular. A Segunda Turma chegou a formar maioria para sustentar a medida.

Então entrou Flávio Dino. Por outro processo, sob sua relatoria, reintegrou os dois delegados, criticou a decisão de Mendonça e, na prática, desfez uma medida que já tinha maioria formada na Turma. Não é preciso dominar processo constitucional para entender a anomalia. Moraes atacava Mendonça usando um inquérito que comandava havia anos; Mendonça reagia atingindo a cúpula da PF; Dino encontrava outra porta processual para neutralizar Mendonça. O Supremo começava a se comportar menos como Corte e mais como centros de poder concorrentes.

É aí que a palavra implosão deixa de ser exagero. O problema não estava apenas em saber quem tinha razão nos autos, mas em perceber que ministros da principal Corte do país começavam a responder uns aos outros com o poder das próprias decisões. Tudo isso sob a sombra de uma eleição polarizada, em que cada despacho vira vitória de um campo, derrota do outro e munição para torcidas que já escolheram seus ministros preferidos.

Edson Fachin interrompeu essa escalada. Fez o que se espera de um magistrado, embora a sobriedade tenha se tornado rara em tempos de exposição permanente: não procurou microfone, não fez live, não disputou narrativa. Decidiu nos autos. Suspendeu as decisões de Mendonça e Dino, retirou de Moraes a relatoria do inquérito das fake news, concentrou na Presidência os procedimentos envolvendo ministros e chamou o plenário para assumir aquilo que jamais deveria ter virado guerra de gabinetes.

Chegou a tempo. Não resolveu a crise, nem absolveu ninguém, mas puxou o freio antes que o Supremo perdesse a capacidade de falar como instituição. O gesto de Fachin também revelou o tamanho do estrago: um presidente não precisaria intervir dessa maneira se estivesse diante de mera divergência jurisprudencial.

Na terça-feira, dia 15, virá o teste real. Fachin devolveu o conflito ao plenário; falta saber se os ministros envolvidos entenderam o recado ou se transformarão a sessão numa continuação televisionada do acerto de contas. Divergir faz parte de uma Suprema Corte. Usar o plenário como palco para ressentimentos, projetos políticos ou discursos destinados às próprias torcidas é outra coisa.

O risco de ruptura começa quando uma instituição continua aberta e decidindo, mas perde por dentro a capacidade de reconhecer uma autoridade comum. Fachin conteve a primeira explosão. Agora terá de impedir o espetáculo. E os demais ministros terão de decidir se ainda querem ser integrantes de uma Corte ou protagonistas de onze Supremos disputando entre si quem fala em nome do país.

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