Por João Zisman - 31/07/2026 09:41:10 | Foto: Agência Brasil
Há um detalhe curioso no noticiário desta sexta-feira. As duas notícias que mais chamam a atenção não tratam de grandes obras, nem de investimentos bilionários, tampouco de disputas eleitorais. Elas falam de ausências.
Em um caso, Conselhos Tutelares passaram a funcionar com equipes reduzidas porque não havia suplentes disponíveis para substituir profissionais afastados. Em outro, uma farmácia de unidade básica de saúde interrompeu o atendimento porque dependia de um único farmacêutico. Bastou que esse profissional deixasse de estar presente para que o serviço deixasse de existir.
À primeira vista, parecem episódios independentes. Talvez não sejam.
Os dois revelam uma característica pouco debatida da administração pública: a capacidade de continuar funcionando quando as coisas deixam de acontecer exatamente como foram planejadas.
A rotina do Estado costuma ser organizada para o funcionamento normal. O problema é que a normalidade quase nunca permanece intacta por muito tempo. Servidores adoecem, aposentam-se, pedem exoneração, entram em licença, morrem. A pergunta, portanto, não deveria ser apenas quantos profissionais existem em determinada estrutura. Talvez a pergunta mais importante seja outra: o que acontece quando um deles falta?
Essa parece ser uma discussão silenciosa, mas cada vez mais relevante.
Quando um serviço essencial depende de uma única pessoa, a fragilidade já está instalada muito antes da primeira ausência. Ela apenas permanece invisível enquanto tudo funciona como previsto. O problema aparece no momento em que a exceção se transforma em realidade.
Essa lógica não se limita aos Conselhos Tutelares ou às unidades de saúde. Ela ajuda a compreender por que determinados serviços públicos resistem melhor às crises do que outros. Existem estruturas capazes de absorver imprevistos sem alterar significativamente o atendimento. Outras trabalham permanentemente no limite da sua capacidade operacional. Nessas situações, qualquer afastamento produz um efeito em cadeia que acaba chegando ao cidadão.
Talvez seja esse um dos desafios menos visíveis da gestão pública. Costuma-se discutir orçamento, concursos, novas leis e inaugurações. Tudo isso é importante. Mas existe uma dimensão menos aparente, relacionada à continuidade dos serviços. Não basta que eles existam. É preciso que consigam permanecer funcionando quando surgem os inevitáveis imprevistos da vida administrativa.
Essa talvez seja uma boa definição de planejamento.
Planejar não é apenas organizar o funcionamento quando tudo dá certo.
É preparar o Estado para continuar funcionando quando alguma coisa dá errado.
























