Por João Zisman: A arte do brasileiro de dizer o ‘vamos ver’
Por João Zisman: A arte do brasileiro de dizer o ‘vamos ver’

Por João Zisman - 06/09/2026 09:13:59 | Foto: Divulgação João Zisman

“Vamos ver” é uma dessas expressões que servem para quase tudo. Para a previsão de chuva, para o almoço de domingo, para a promessa de começar a dieta na segunda-feira e para aquele convite que a gente não quer recusar, mas também não pretende aceitar. Alguém pergunta se você vai e a resposta vem pronta: “vamos ver”. Não é sim, não é não, não chega a ser talvez. É uma pequena sala de espera da língua portuguesa.

Pais conhecem bem sua utilidade. “Pai, posso dormir na casa do meu amigo?” Vamos ver. Casais também. “Você acha que a gente precisa mesmo trocar o sofá?” Vamos ver. Há ainda a modalidade profissional. Quando alguém apresenta uma ideia e o chefe responde “vamos ver isso”, existe uma possibilidade razoável de que aquilo jamais volte a ser visto por ninguém. O “vamos ver”, nesse caso, não adia uma decisão. Apenas providencia para ela um enterro discreto.

Talvez por isso tenha sido curioso acompanhar o noticiário desta semana. Vivemos cercados por certezas numa época em que quase tudo recomenda alguma cautela. Sai uma pesquisa eleitoral e, antes que os números terminem de aparecer na tela, já sabemos quem cresceu, quem morreu, quem vai para o segundo turno e, dependendo do entusiasmo do comentarista, quem tomará posse em janeiro. No dia seguinte aparece outra pesquisa e uma nova coleção de certezas substitui a anterior. Um simples “vamos ver” pouparia bastante trabalho.

Augusto Cury cresceu e imediatamente virou fenômeno, ameaça, terceira via ou acontecimento eleitoral. Pode ser tudo isso. Pode crescer mais, pode parar onde está. Pode também descobrir uma velha lei da política: subir nas pesquisas é a maneira mais rápida de fazer os adversários encontrarem defeitos que até então não haviam percebido. Vamos ver.

No Supremo, a expressão seria ainda mais útil. A cada dia, o caso Master parece produzir a revelação definitiva. Surge uma mensagem, depois outra, um encontro, uma explicação, a contestação da explicação e, quando parece que finalmente entendemos quem está acusando quem, alguém acusa quem estava acusando. Daniel Vorcaro está preso, mas seu telefone continua tendo uma vida pública bastante movimentada. Qual será o desfecho? Vamos ver.

A política, aliás, possui maneiras mais sofisticadas de dizer a mesma coisa. “O cenário permanece aberto.” “As negociações prosseguem.” “A matéria será apreciada no momento oportuno.” Esta última é especialmente bonita. O Senado decidiu que o fim da escala 6×1 será analisado depois das eleições. Traduzido para o idioma usado em casa quando uma criança pede alguma coisa inconveniente: vamos ver depois.

Nem o resto do mundo oferece muita segurança aos apressados. Há negociações sobre paz na Ucrânia enquanto drones continuam atravessando o céu. Estados Unidos e Irã trocam ataques enquanto se discute até que ponto aquilo deve ser chamado de guerra. E o clima já produz alertas sobre a possibilidade de um El Niño excepcionalmente forte. Em todos os casos há especialistas, projeções e previsões. Algumas estarão certas. Vamos ver.

O problema é que “vamos ver” adquiriu uma reputação injusta. Parece resposta de quem não quer decidir, não sabe o que pensa ou está apenas ganhando tempo. Muitas vezes é exatamente isso. O amigo que responde “vamos ver” ao convite para jantar provavelmente já decidiu ficar em casa. E qualquer criança aprende cedo que existe uma enorme distância entre “vamos ver” e “claro”.

Mas há também alguma sabedoria nessas duas palavras, principalmente numa época em que a velocidade da opinião se tornou muito maior que a velocidade dos fatos. Temos pesquisas antes da eleição, projeções antes da economia acontecer, prognósticos antes do jogo começar e análises definitivas de acontecimentos que ainda estão acontecendo. Quase ninguém ganha audiência dizendo que não sabe.

Hoje é domingo. Amanhã começa outra semana e, com ela, chegará uma nova coleção de certezas. Algumas durarão até terça-feira. Outras talvez cheguem à quarta. E haverá certamente quem saiba, com absoluta convicção, o que acontecerá nas eleições, no Supremo, na economia, nas guerras e até no próximo domingo.

Pode ser. Vamos ver.