A opinião pessoal de João Zisman sobre politica nacional: Renan Santos já não é voto de protesto
A opinião pessoal de João Zisman sobre politica nacional: Renan Santos já não é voto de protesto

Por João Zisman - 25/05/2026 09:17:41 | Foto: Divulgação João Zisman

Durante muito tempo, candidaturas alternativas dentro da direita brasileira foram tratadas quase como peças decorativas do debate político. Serviam para produzir frases de efeito, movimentar redes sociais, tensionar o ambiente e, no máximo, negociar algum espaço futuro dentro do próprio ecossistema conservador. O protagonismo real permanecia concentrado ao redor do sobrenome Bolsonaro, transformado numa espécie de eixo emocional obrigatório para boa parte do eleitorado anti-PT desde 2018.

Talvez seja justamente isso que começa lentamente a mudar.

A ascensão de Renan Santos nas pesquisas entre os eleitores mais jovens já não parece compatível com a velha ideia de candidatura meramente performática ou voto de protesto sem densidade política. Os levantamentos mais recentes passaram a revelar algo mais relevante: existe uma parcela crescente do eleitorado conservador, sobretudo entre 16 e 24 anos, disposta a ouvir uma direita que não esteja emocionalmente subordinada ao bolsonarismo tradicional.

Seria um erro reduzir esse fenômeno apenas ao domínio da linguagem digital ou à estética agressiva de comunicação que lembra, em alguns momentos, a forma como Javier Milei ocupou espaço no debate argentino. A força de Renan parece nascer também de outra percepção: ele fala com convicção, demonstra articulação política e transmite a sensação de que entrou na disputa para tensionar o sistema, e não para aguardar disciplinadamente eventual convocação do banco de reservas.

Talvez esteja aí a principal diferença em relação a nomes como Zema e Caiado.

Ambos preservam densidade administrativa e capital político importantes, mas frequentemente transmitem a sensação de que continuam aguardando uma definição superior do próprio campo conservador. Como se permanecessem permanentemente disponíveis para assumir protagonismo caso sejam chamados, mas igualmente confortáveis se terminarem acomodados em posições estratégicas num eventual governo de direita liderado por outro nome mais competitivo eleitoralmente.

Renan não parece funcionar assim.

Existe nele uma disposição evidente de romper com aquilo que considera o coronelismo que se apropriou da direita brasileira através do clã Bolsonaro e de seu entorno político mais fiel. E talvez seja exatamente nesse ponto que sua candidatura começa a despertar atenção para além do universo das redes sociais, porque o país já viu movimentos parecidos em outros momentos da vida política nacional.

Guardadas todas as diferenças históricas e de contexto, existe algo no discurso de Renan que lembra a energia política de um Ciro Gomes mais jovem quando decidiu desafiar estruturas tradicionais de poder no Ceará, enfrentando oligarquias políticas que pareciam intocáveis naquele período. Não se trata de comparar trajetórias, muito menos ideologias. Trata-se apenas de perceber a força que certos movimentos adquirem quando conseguem transmitir ao eleitorado a sensação de enfrentamento contra estruturas excessivamente fechadas de poder.

Talvez por isso a candidatura de Renan desperte simultaneamente entusiasmo, curiosidade e desconforto.

Porque existe ali uma espécie de “cangaço novo” da comunicação política, não associado à violência ou ruptura institucional, mas à disposição de percorrer o país confrontando hierarquias que durante anos se apresentaram como proprietárias naturais da direita brasileira. Há irreverência, provocação, enfrentamento e um certo desprezo pelas liturgias tradicionais do poder que costuma atrair parcelas mais jovens do eleitorado cansadas de candidaturas excessivamente ensaiadas, cautelosas e previsíveis.

Isso não significa que o bolsonarismo tenha perdido força. Seria precipitado afirmar algo dessa natureza. O que parece estar surgindo é outra coisa: uma direita mais fragmentada, menos hierarquizada emocionalmente e mais aberta à disputa interna de protagonismo.

O próprio MBL talvez tenha papel importante nesse processo. Independentemente das críticas que se possa fazer ao movimento ao longo dos últimos anos, é impossível ignorar sua capacidade de mobilização, organização e comunicação política. O grupo soube acender, ou reacender, um sentimento de inconformismo em parcelas importantes da juventude brasileira, utilizando linguagem simples, ocupação inteligente das redes e mobilizações que conseguiram produzir impacto sem mergulhar em violência ou descontrole institucional.

Renan é filho político direto desse ambiente.

E talvez por isso desperte simultaneamente entusiasmo e desconfiança.

Porque, embora demonstre coragem política, articulação e enorme capacidade de comunicação, permanece no ar uma dúvida legítima: Renan conseguiria montar uma equipe capaz de conduzir um país conflagrado, complexo e institucionalmente tensionado como o Brasil? Conseguiria transformar energia de oposição em capacidade efetiva de governo?

Essa talvez seja hoje a principal interrogação sobre sua candidatura.

Ainda assim, parece cada vez mais difícil tratá-lo apenas como personagem folclórico das redes sociais ou fenômeno passageiro de internet. Aos 42 anos, Renan Santos entrou no jogo presidencial não apenas para aprender política. Entrou também para ensinar muita gente, inclusive adversários muito mais experientes, sobre comunicação, ocupação narrativa e capacidade de dialogar com uma geração que parece cada vez menos disposta a aceitar lideranças políticas por herança emocional automática.

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