A opinião pessoal do colunista de politica João Zisman: Um homem de alta periculosidade
A opinião pessoal do colunista de politica João Zisman: Um homem de alta periculosidade

Por João Zisman - 18/07/2026 09:34:34 | Foto: Divulgação João Zisman

No começo dos anos 1980, Gustavo Krause era prefeito da capital pernambucana. Entre tantas inaugurações, havia uma de que ele realmente se orgulhava: a urbanização de uma comunidade carente, com escola, posto de saúde e creche, financiados pelo antigo Banco Nacional da Habitação.

O lugar tinha uma curiosidade. Nos tempos da Revolução Cubana, a comunidade havia sido apelidada de "Cuba", e seu líder comunitário ficou conhecido como "Fidel Castro". Depois de 1964, os nomes mudaram discretamente. A memória, não.

Para a inauguração, Krause preparou uma grande cerimônia. Convidou vereadores, deputados, o governador Marco Maciel e lotou o palanque de autoridades.

A apresentação ficou por conta do lendário locutor Hildebrando Hidelfonso, dono de uma voz poderosa e de um entusiasmo ainda maior.

O problema é que ele começou a distribuir elogios sem economia.

Cada autoridade era anunciada como impoluta, honesta, trabalhadora, sincera, grande oradora. Um desfile interminável de adjetivos.

Krause havia combinado entrar por último.

Quando chegou sua vez, Hildebrando já tinha gastado praticamente todo o dicionário.

O locutor respirou fundo e anunciou:

"É ele... o prefeito... um homem... um homem..."

Fez uma pausa dramática.

E concluiu, em alto e bom som:

"Um homem de alta periculosidade!"

O silêncio durou apenas um instante antes que o público caísse na gargalhada.

Décadas depois, o próprio Gustavo Krause contou esse episódio num artigo sobre humor e política. Dizia que o homem público precisa aprender a rir de si mesmo, porque quem se leva a sério demais acaba prisioneiro da própria solenidade.

A política brasileira continua produzindo palanques, discursos e autoridades cercadas de elogios. O que continua raro é encontrar alguém capaz de rir quando o improviso revela mais do que o protocolo gostaria.

Fonte: Gustavo Krause, "O humor e a política", artigo publicado no Blog do Noblat, reproduzido pelo Metrópoles em 1º de outubro de 2023.