Por João Zisman - 20/10/2026 11:14:07 | Foto: Divulgação
Tem uma diferença grande entre discutir mudanças numa política pública e deixar quem depende dela sem saber o que poderá acontecer. A poucos dias de uma eleição presidencial, essa diferença ganha uma dimensão que dificilmente cabe numa explicação técnica.
Foi isso que a entrevista de Daniella Marques à CBN Bahia produziu. Coordenadora econômica de Flávio Bolsonaro, ela falou de uma transição de dois anos para beneficiários do Bolsa Família que consigam emprego ou comecem a empreender, com possibilidade de retorno ao programa se a renda não se sustentar. A declaração passou a ser associada a cortes no benefício, interpretação que ela e o candidato rejeitaram. Os esclarecimentos importam, mas surgiu uma pergunta que não estava na agenda da campanha.
E a pergunta é legítima. Quem depende do Bolsa Família, depois de ouvir compromissos de manutenção do programa, quer saber se continuará contando com ele. Não está obrigado a acompanhar uma entrevista inteira ou distinguir, de imediato, uma proposta de aperfeiçoamento de uma possível restrição. Cabe a quem pretende governar explicar isso com clareza.
Não há nada de errado em rever uma política pública. Programas sociais precisam ser avaliados, corrigidos e adaptados à realidade, inclusive para ajudar quem conquista emprego a não perder de uma vez a proteção que recebia. Governar envolve ajustes, mas existe uma distância considerável entre discuti-los e permitir que pareçam colocar em dúvida a continuidade de um benefício. Numa campanha, essa distância precisa ser calculada palavra por palavra.
Foi uma grande infelicidade política, independentemente da qualificação de quem concedeu a entrevista ou da intenção da proposta. Conhecimento técnico é indispensável, mas não substitui a sensibilidade para apresentar decisões que atingem diretamente a vida das pessoas. Na reta final, o cuidado precisa ser maior, porque já não há tempo sobrando para reconstruir uma mensagem que saiu do rumo.
É aí que um fato isolado pode mudar o ambiente eleitoral. A campanha de Lula passou a explorar a declaração, enquanto a de Flávio precisou explicar por que ela não significaria um corte geral no programa. O espaço reservado às propostas passou a ser ocupado por uma disputa sobre o significado da entrevista. Não sabemos quantos eleitores serão influenciados, e seria imprudente transformar repercussão política em pontos perdidos nas pesquisas.
O tempo é um dado concreto. A propaganda gratuita no rádio e na televisão termina na sexta-feira; a votação será no domingo. Restam poucos dias para que uma explicação alcance quem ouviu apenas a versão mais curta, principalmente quando o assunto já circula pelas redes sociais.
Campanhas se preocupam com o que o adversário fará, mas também precisam cuidar das dúvidas que criam por conta própria. Uma eleição será decidida por muitos fatores, não por uma frase isolada. Isso não torna menor o peso de uma palavra fora de hora, sobretudo quando falta tempo para recolocá-la no lugar.
























