A opinião pessoal do colunista de politica João Zisman: Utilidades das perguntas inúteis viram história
A opinião pessoal do colunista de politica João Zisman: Utilidades das perguntas inúteis viram história

Por João Zisman - 05/07/2026 11:29:14 | Foto: João Zisman - Imagem

Nunca imaginei que um arquivo em PDF pudesse me levar de volta à sala da casa dos meus pais, num domingo à noite de quase cinquenta anos atrás.

Enquanto lia, no notebook, uma reportagem da revista Piauí sobre um pesquisador brasileiro que dedicou a vida ao estudo das aranhas, bastaram algumas linhas para que a tela diante de mim desaparecesse e desse lugar a outra, muito menor, muito mais pesada e infinitamente mais importante para a minha infância: a televisão da sala de casa.

Naqueles anos, havia apenas um aparelho para toda a família. Curiosamente, nunca me lembro de disputarmos o controle remoto. Talvez porque ele ainda nem existisse. Existia, isso sim, um hábito que hoje se tornou raro: pais, filhos e irmãos compartilhavam o mesmo programa, riam das mesmas piadas, se emocionavam com as mesmas histórias e, sem perceber, construíam uma memória comum.

Entre os programas que mais me fascinavam estava o 8 ou 800?, apresentado por Paulo Gracindo. O formato era simples e, para a época, extraordinariamente inovador. Especialistas eram desafiados com perguntas de altíssimo nível sobre um único assunto, enquanto milhões de brasileiros acompanhavam, da sala de casa, um espetáculo em que o conhecimento ocupava o lugar normalmente reservado ao entretenimento. Hoje parece difícil imaginar um programa daquele gênero disputando audiência num domingo à noite. Naqueles tempos, porém, ele fazia parte da nossa rotina.

Eu era menino demais para compreender a maior parte das respostas. O que realmente me impressionava não era o conhecimento daqueles participantes, mas a constatação de que existiam pessoas capazes de dedicar uma vida inteira a um tema que, para quase todos nós, passava despercebido. Com o tempo, minha memória embaralhou personagens, misturou nomes e fundiu lembranças diferentes numa única imagem. Durante anos tive certeza de que um daqueles especialistas era Augusto Ruschi e que falava sobre formigas. Descobri depois que minha lembrança havia confundido cientistas, programas e até épocas distintas. A memória traiu os detalhes, mas permaneceu rigorosamente fiel ao essencial.

Ela preservou o espanto.

A reportagem da Piauí despertou exatamente essa sensação adormecida. Não porque falasse de aranhas, mas porque me fez recordar que há pessoas que atravessam uma existência inteira perseguindo uma única pergunta, enquanto a maioria de nós mal consegue permanecer interessada pelo mesmo assunto durante alguns meses.

Foi então que me ocorreu uma dúvida que jamais havia formulado na infância: em que momento deixamos de valorizar as perguntas que aparentemente não servem para nada?

As crianças não perguntam porque esperam alguma vantagem prática. Perguntam porque descobrir o mundo já lhes basta. Querem saber por que a Lua acompanha o carro durante a viagem, para onde vai o vento quando deixa de soprar ou por que as estrelas nunca caem. A utilidade não faz parte da equação. O encantamento, sim.

A vida, entretanto, vai substituindo o encantamento pela urgência. Há crianças que deixam de perguntar cedo demais porque a sobrevivência ocupa todos os espaços. Outras crescem cercadas de conforto e acabam acreditando que qualquer resposta está a poucos segundos de distância, escondida em algum mecanismo de busca. Por caminhos diferentes, ambas correm o risco de perder a mesma capacidade: a de se maravilhar diante daquilo que ainda não compreendem.

Talvez por isso aqueles especialistas tenham permanecido na minha memória muito mais do que as respostas que davam. Eles haviam conseguido preservar uma qualidade rara. Permaneciam fiéis a uma curiosidade que provavelmente nascera ainda na infância e jamais foi abandonada. Enquanto muitos de nós aprendemos a fazer apenas perguntas úteis, eles continuaram fazendo perguntas aparentemente inúteis.

Pensando bem, foi exatamente assim que a humanidade avançou. Antes de transformar o mundo, quase toda grande descoberta começou com alguém disposto a investigar um detalhe que os demais consideravam irrelevante. O tempo encarregou-se de revelar a utilidade daquilo que, no início, parecia não servir para absolutamente nada.

Quando fechei o notebook, percebi que a reportagem nunca havia sido, para mim, uma história sobre aranhas. Ela apenas despertara uma lembrança adormecida havia quase cinquenta anos e me fizera compreender que meus pais jamais poderiam imaginar que, ao reunir a família diante da televisão numa noite de domingo, estavam plantando no filho sentado ao lado deles uma pergunta que continuaria florescendo por toda a vida.

Talvez seja esse o verdadeiro destino das boas histórias. Elas não terminam quando desligamos a televisão, fechamos um livro ou encerramos um arquivo em PDF. Permanecem silenciosas dentro de nós, aguardando o momento certo para despertar uma pergunta que parecia esquecida.

E talvez seja justamente essa a maior utilidade das perguntas aparentemente inúteis.