A opinião pessoal do cientista de política nacional João Zisman: Por que hoje é sabado
A opinião pessoal do cientista de política nacional João Zisman: Por que hoje é sabado

Por João Zisman - 19/09/2026 07:59:48 | Foto: Divulgação João Zisman

Talvez porque hoje seja sábado, possamos olhar o noticiário sem a obrigação de decidir qual assunto merece mandar em todos os outros. O Distrito Federal amanheceu com uma porção de coisas acontecendo ao mesmo tempo e, curiosamente, é quando elas são colocadas lado a lado que o dia começa a fazer algum sentido.

Faltam exatamente quinze dias para o primeiro turno e o calendário eleitoral registra isso à sua maneira. A partir de hoje, candidatos não podem ser presos ou detidos, salvo em flagrante delito, uma dessas regras que parecem distantes da vida cotidiana, mas funcionam como aviso de que a eleição entrou definitivamente na reta final. Daqui para a frente, cada semana ficará mais curta, as agendas mais apertadas e provavelmente os discursos também menos pacientes.

No Distrito Federal, essa reta final ainda carrega uma situação pouco comum. José Roberto Arruda continua fazendo campanha com o registro indeferido e recurso a caminho do Tribunal Superior Eleitoral, onde o caso ficará sob a relatoria de Dias Toffoli. Seu nome e sua fotografia estarão na urna, enquanto a discussão jurídica sobre a validade da candidatura ainda não terminou. Não é preciso antecipar o que fará o TSE para perceber o desconforto de uma eleição que se aproxima das urnas mais rapidamente do que a Justiça consegue encerrar algumas de suas dúvidas.

Talvez mais incômodo seja outro movimento, este bem distante dos tribunais. O Ministério Público do Trabalho já recebeu 17 denúncias de possível assédio eleitoral nas relações de trabalho no Distrito Federal neste ano, quase três vezes o número registrado no mesmo período de 2022. Parte importante dos relatos envolve trabalhadores terceirizados, justamente aqueles que muitas vezes ocupam a parte mais frágil da relação entre emprego, salário e poder.

Denúncia não é condenação e conversa sobre política no ambiente de trabalho evidentemente não virou crime. A fronteira aparece quando o cargo, o emprego ou a dependência econômica começam a ser usados para empurrar uma escolha eleitoral, seja por ameaça, promessa, constrangimento ou aquela sugestão aparentemente inocente que deixa de ser inocente quando vem de quem pode decidir se alguém continuará recebendo salário no mês seguinte.

Enquanto a campanha vai entrando nesses espaços, a cidade continua acontecendo do lado de fora. A chuva que durante meses foi quase implorada chegou com violência nesta semana, derrubou árvores, destelhou casas, deixou famílias fora de suas residências e expôs fragilidades que continuarão no mesmo lugar depois que o céu abrir. Na noite de ontem, uma colisão entre um carro e um ônibus na BR-080, na entrada de Brazlândia, matou uma criança e um adulto e deixou quatro pessoas feridas. As causas ainda estão sendo apuradas e não há razão para procurar explicações antes que elas existam.

Há ainda cinema, música, gente procurando emprego, comércio abrindo as portas, ônibus rodando e famílias tentando aproveitar o fim de semana. O Festival de Brasília atravessa estes dias lembrando que existe uma cidade culturalmente inquieta por trás daquela imagem que quase sempre reduz o Distrito Federal às suas instituições e aos personagens da política.

Talvez seja isso que o sábado permita enxergar melhor.

Depois de uma semana em que banco, Supremo, eleição e disputas políticas ocuparam quase toda a conversa pública, o noticiário volta a se espalhar. Não porque esses assuntos tenham desaparecido ou perdido importância, mas porque uma cidade nunca cabe completamente na manchete que escolhemos para ela.

Daqui a quinze dias haverá urnas abertas, votos sendo contados, vencedores, derrotados e provavelmente algumas disputas que ainda continuarão nos tribunais. Até lá, a temperatura política vai subir e a tentação será interpretar cada movimento do Distrito Federal a partir da eleição.

Hoje podemos fazer diferente. Talvez porque seja sábado e exista um pouco menos de pressa, seja possível olhar para Arruda esperando o TSE, para trabalhadores tentando preservar a liberdade do próprio voto, para uma cidade ainda recolhendo os sinais deixados pela chuva, para a tragédia de uma estrada e também para quem simplesmente vai ao cinema, ao parque, ao comércio ou fica em casa.

Não há uma única história costurando tudo isso, nem precisa haver. Existe apenas o Distrito Federal vivendo um sábado a quinze dias de uma eleição importante, com a política fazendo muito barulho e a vida, como sempre, recusando-se a esperar que ela termine.