A opinião pessoal do colunista João Zisman: Cadeiras podem ter bola, cocar ou tijolo
A opinião pessoal do colunista João Zisman: Cadeiras podem ter bola, cocar ou tijolo

Por João Zisman - 09/07/2026 08:01:12 | Foto: João Zisman - Editoria de Artes/IA

Durante boa parte dos últimos dois anos, a sucessão política no Distrito Federal parecia seguir um roteiro conhecido. O acordo construído entre os partidos da base governista era público, reiterado pelos seus protagonistas e parecia suficientemente sólido para atravessar o calendário eleitoral. Celina Leão disputaria o Governo do Distrito Federal, Ibaneis Rocha concorreria ao Senado e Michelle Bolsonaro ocuparia a segunda vaga da chapa majoritária. Mais do que uma expectativa, esse era o desenho sobre o qual os partidos passaram a organizar suas estratégias, distribuir espaços e conduzir suas articulações.

Nas últimas semanas, porém, esse roteiro começou a perder consistência. A desistência de Ibaneis da disputa pelo Senado não representa propriamente o início dessa mudança. Ela apenas tornou visível um processo que já vinha alterando, de forma gradual, o equilíbrio político da coalizão governista.

As razões apresentadas pelo ex-governador são compreensíveis e fazem parte da liturgia da política. Ao afirmar que está cansado, decepcionado e que pretende cuidar da vida, Ibaneis escolheu encerrar um ciclo sem alimentar novos conflitos e sem transformar sua saída em um episódio de confronto público. É uma narrativa politicamente elegante, mas dificilmente suficiente para explicar a decisão de quem estruturou sua sucessão justamente para disputar uma das duas vagas ao Senado.

A explicação parece estar menos nas declarações e mais nas circunstâncias. O primeiro elemento dessa mudança surgiu quando o PL passou a discutir a possibilidade de lançar também a deputada Bia Kicis ao Senado. Não se tratava apenas da entrada de mais um nome competitivo na disputa. O que mudou foi a lógica sobre a qual a chapa majoritária havia sido concebida. O acordo original acomodava lideranças de diferentes partidos dentro da mesma aliança. A partir do momento em que três candidaturas passaram a disputar, em maior ou menor medida, um eleitorado semelhante, a conta deixou de fechar com a mesma facilidade e obrigou todos os envolvidos a rever estratégias que pareciam consolidadas.

Ao mesmo tempo, outro movimento, menos visível, transformava o ambiente político do Distrito Federal. Com Celina Leão definitivamente à frente do Governo, o centro das decisões naturalmente mudou de lugar. Os deputados distritais, que durante anos construíram sua relação institucional com Ibaneis, passaram a concentrar sua interlocução com quem hoje conduz a administração. Não se trata de rompimento nem de deslealdade. A política costuma reorganizar suas maiorias em torno do exercício do poder, e esse talvez seja um dos fenômenos mais antigos da vida pública brasileira.

Foi nesse ambiente que Ibaneis deixou, gradualmente, de ocupar a posição central que exerceu ao longo de seus dois mandatos. Não porque tenha perdido relevância política, mas porque a sucessão passou a ser conduzida por uma nova liderança e por uma nova lógica de poder. O isolamento que se percebe hoje não decorre necessariamente de divergências pessoais, mas da própria dinâmica que acompanha toda transição de comando.

As pesquisas de opinião ajudam a compreender esse cenário, embora dificilmente sejam capazes de explicá-lo por completo. É verdade que os levantamentos recentes registram aumento da rejeição ao ex-governador. Mas também é verdade que poucos políticos do Distrito Federal conhecem tão bem quanto Ibaneis a dinâmica de uma campanha majoritária. Foi eleito governador quando ainda era tratado como azarão e conquistou a reeleição no primeiro turno. Não parece razoável imaginar que apenas uma fotografia das pesquisas fosse suficiente para fazê-lo abandonar uma candidatura construída ao longo de anos.

O que efetivamente mudou foi o cenário sobre o qual essa candidatura havia sido planejada.

Curiosamente, sua saída não simplifica a disputa. Ao contrário, torna a eleição para o Senado ainda mais interessante, porque devolve imprevisibilidade a uma corrida que parecia parcialmente definida.

Existe uma característica própria das eleições para o Senado que costuma receber menos atenção do que merece. Quando duas vagas estão em disputa, o eleitor nem sempre repete o mesmo raciocínio nos dois votos. Com frequência, procura compor sua representação, distribuindo as escolhas entre perfis distintos. Não se trata de uma regra absoluta, mas de um comportamento recorrente, especialmente entre os eleitores menos identificados com posições ideológicas rígidas. A lógica é simples: se há duas cadeiras em jogo, muitos preferem que elas não sejam ocupadas por representantes com trajetórias e posições exatamente iguais.

Essa característica ajuda a compreender por que algumas candidaturas conseguem dialogar para além de suas bases tradicionais.

A senadora Leila Barros é, talvez, o exemplo mais evidente desse fenômeno. Sua trajetória lhe permitiu construir uma imagem menos associada às disputas ideológicas e mais vinculada à gestão, ao esporte e à atuação parlamentar. Isso lhe oferece uma capacidade rara de disputar o segundo voto de eleitores que, no primeiro, podem perfeitamente optar por um candidato de centro-direita. Sua competitividade decorre justamente dessa transversalidade.

Érika Kokay percorre um caminho diferente. Sua candidatura se apoia em um eleitorado fiel, organizado e fortemente identificado com o campo progressista. Trata-se de uma base consistente, suficiente para mantê-la competitiva em qualquer cenário. Até aqui, porém, sua capacidade de expansão para além desse universo parece mais limitada, o que faz com que as duas principais candidaturas do campo progressista cheguem à disputa por estratégias eleitorais bastante distintas.

No campo conservador, a reorganização está apenas começando.

Se Michelle Bolsonaro confirmar sua candidatura, permanecerá aberta a disputa pelo segundo voto de um eleitor que nem sempre demonstra disposição para concentrar suas duas escolhas no mesmo segmento político. É nesse espaço que uma eventual candidatura de Paulo Octávio pode ganhar relevância, dialogando com um eleitorado moderado que, até poucos dias atrás, encontrava em Ibaneis uma referência natural.

Se Michelle optar por não disputar, a equação muda mais uma vez. O senador Izalci Lucas tende a buscar a reeleição e passa a ocupar um espaço importante nesse novo desenho. Mas essa hipótese também traz desafios próprios. Izalci vem construindo um projeto político que conversa com José Roberto Arruda e não necessariamente coincide com a estratégia conduzida por Celina Leão. Em outras palavras, a saída de Ibaneis não elimina as tensões da base governista. Apenas desloca o foco para um novo conjunto de negociações que ainda precisará ser administrado.

No fim das contas, talvez a principal consequência da decisão anunciada nesta semana seja justamente essa. A desistência de Ibaneis Rocha não representa apenas a retirada de um candidato competitivo. Ela encerra um roteiro que parecia consolidado e obriga todos os atores políticos a refazerem suas contas. A eleição para o Senado deixou de ser apenas uma disputa por duas vagas e voltou a ser aquilo que sempre foi nas grandes transições políticas: um exercício de composição, equilíbrio e capacidade de construir maiorias.

É por isso que a nova pergunta da sucessão distrital já não é apenas quem serão os próximos senadores do Distrito Federal. A questão realmente decisiva passa a ser quem conseguirá compreender, antes dos adversários, a nova conta que o eleitor começará a fazer quando estiver diante da urna. Na política, como na matemática, basta alterar uma única variável para que o resultado da equação deixe de ser o mesmo. E foi exatamente isso que aconteceu no Distrito Federal.