Por João Zisman - 23/09/2026 11:51:15 | Foto: © LUIZ ROBERTO/TSE
A pesquisa para deputado federal tem uma característica curiosa. Todo mundo olha, mas ninguém deveria olhar da mesma maneira que observa uma pesquisa para governador, presidente ou senador. Quando o eleitor responde espontaneamente em quem pretende votar para uma das oito cadeiras do Distrito Federal na Câmara dos Deputados, o instituto captura alguma coisa importante, embora esteja longe de capturar a eleição inteira.
A rodada Correio/Opinião publicada nesta quarta-feira ajuda a entender isso. Fábio Félix aparece na frente, com 3,98%, seguido por Rafael Prudente, com 2,74%, Júlio César, com 2,21%, Izalci Lucas, com 2,03%, e Alberto Fraga, com 1,94%. Mais abaixo estão Fred Linhares, Rodrigo Rollemberg, Reginaldo Veras, Agnello Queiroz, Thiago Manzoni e outros nomes conhecidos da política do Distrito Federal.
Seria tentador transformar essa ordem numa prévia da bancada de 2027, mas eleição proporcional é uma conta muito mais complicada. Depende do desempenho individual, do partido ou da federação, do quociente eleitoral, da votação dos companheiros de chapa e da distribuição dos votos entre dezenas de candidaturas. Some-se a isso o fato de estarmos diante de uma pesquisa espontânea, quando boa parte do eleitorado ainda está muito mais preocupada em escolher governador, presidente ou senador do que em guardar o nome e o número de seu candidato a deputado.
Os próprios movimentos entre uma rodada e outra recomendam prudência. Fábio Félix estava com 2,3% e agora aparece com 3,98%; Rafael Prudente passou de 3,7% para 2,74%, enquanto Izalci saiu de 0,5% para 2,03%. Com margem de erro de 3,1 pontos percentuais para a amostra geral, não há segurança estatística para transformar décimos de diferença entre candidaturas proporcionais em uma ordem rígida de chegada.
Isso não diminui a utilidade do levantamento, apenas muda a maneira de utilizá-lo. Para quem está em campanha, uma espontânea dessas funciona como uma bússola: mostra quem conseguiu fazer o próprio nome atravessar a bolha dos militantes, assessores e cabos eleitorais, permite observar tendências entre rodadas e oferece elementos para orientar rua, comunicação e concentração territorial. Às vezes, serve também para revelar que determinada campanha está mais forte, ou mais fraca, do que imaginava.
É nesse pedaço da fotografia que Luiz França chama atenção. Jornalista e advogado, dirigente nacional do Podemos e candidato a deputado federal, ele aparece com 0,62% na espontânea, numa relação povoada por parlamentares no exercício do mandato, senador, ex-governadores e distritais com exposição pública permanente. França integra a direção nacional do Podemos e conhece por dentro tanto a política partidária quanto a administração pública.
França tem uma característica que pesquisa nenhuma consegue medir direito. É uma figura querida no meio político, de trato fácil e capacidade de conversar com grupos bastante diferentes sem carregar para cada mesa as brigas da mesa anterior. Já passou pela direção do Na Hora e sua campanha vem concentrando presença em Ceilândia e aproximação com lideranças locais. Num pleito proporcional, em que voto ainda se constrói muito na rua, na conversa e nas relações acumuladas ao longo do tempo, não é uma qualidade desprezível.
Seu 0,62% evidentemente não permite dizer que esteja eleito, perto disso ou em qualquer situação semelhante. Permite uma leitura mais simples: França apareceu espontaneamente numa disputa congestionada e diante de concorrentes com exposição muito maior. Para uma candidatura sem mandato parlamentar, é um sinal positivo de lembrança, daqueles que servem menos para comemorar posição em tabela e mais para indicar que há um caminho sendo aberto.
Existe ainda outra eleição acontecendo por baixo dos nomes. Quando as citações são agrupadas por partidos e federações, o PL soma 21,4% e, na simulação apresentada pelo levantamento, ficaria com três das oito cadeiras; Republicanos teria duas, enquanto PSol/Rede, MDB e PT/PCdoB/PV obteriam uma cada. O Podemos, nessa fotografia específica, ainda não alcançaria uma vaga.
Talvez esteja aí a melhor demonstração de por que eleição proporcional não pode ser acompanhada como corrida de cavalos. Um candidato pode aparecer individualmente bem e depender do desempenho coletivo de sua legenda; outro pode estar abaixo na lista nominal e encontrar mais adiante uma situação partidária favorável. Até outubro, essas duas engrenagens continuarão se movimentando ao mesmo tempo.
Pesquisa proporcional não entrega resultado antecipado nem autoriza distribuir as oito cadeiras do Distrito Federal antes de o eleitor votar. Mas tampouco deve ser desprezada. Para quem olha de fora, ainda é uma fotografia com bastante névoa. Para quem está dentro da campanha, serve como uma boa indicação de onde está, de onde imaginava estar e, principalmente, de quanto caminho ainda precisa percorrer.
*Pesquisa Correio/Opinião Inteligência Política. Registro DF-03622/2026. Foram entrevistados presencialmente 1.132 eleitores com 16 anos ou mais, em 31 regiões administrativas do Distrito Federal. Margem de erro de 3,1 pontos percentuais, para mais ou para menos, e nível de confiança de 95%.*

























