Aléxia Sousa Rio De Janeiro, Rj (folhapress) - 17/09/2026 11:05:07 | Foto: Matheus Lemos - Ascom Sema/Inema
O avanço do peixe-leão (Pterois volitans) no litoral da Bahia levou Porto Seguro a adotar uma estratégia de retirada dos animais do mar que envolve pescadores, pesquisadores, órgãos ambientais e diferentes áreas da administração municipal. Uma das medidas é o pagamento de R$ 10 por exemplar capturado e entregue à colônia de pescadores Z-22, no município.
Nativo da região indo-pacífica, o peixe-leão é uma espécie invasora que não tem predadores naturais no litoral brasileiro, ameaçando o ecossistema local. O peixe também representa risco para seres humanos: seus espinhos inoculam uma toxina que pode provocar dor, vermelhidão, febre e, em casos mais graves, convulsões.
No Extremo Sul baiano, a preocupação ganha dimensão adicional pela diversidade de habitats marinhos e pela importância ecológica da região. Porto Seguro está em uma área de plataforma continental mais extensa, associada aos bancos Royal Charlotte e próxima de Abrolhos, com ambientes recifais, bancos de rodolitos e grande variedade de peixes e invertebrados.
"O peixe-leão tem um potencial muito grande de predação, reprodução e ocupação dos espaços marinhos. Ele exerce uma pressão muito importante sobre as espécies nativas", afirma a oceanóloga Martina Rossato, gestora do Parque Natural Municipal Marinho do Recife de Fora.
Segundo Rossato, quanto mais cedo os indivíduos forem detectados e retirados, maior a possibilidade de reduzir os impactos da invasão. O incentivo financeiro é uma ferramenta emergencial para mobilizar pescadores, que conhecem a região. A captura também permite reunir exemplares para estudos sobre alimentação, habitat e estabelecimento da espécie invasora.
A iniciativa começou a ser estruturada depois dos primeiros registros da espécie na região, no fim de 2025. Em agosto, primeiro mês de funcionamento do incentivo, foram entregues 442 peixes-leão ao projeto, segundo a Secretaria Municipal de Meio Ambiente. Os animais foram encaminhados à Universidade Federal do Sul da Bahia, onde passam por triagem, biometria e outros estudos.
O número, porém, não representa a quantidade de peixes-leão retirada do litoral de Porto Seguro. Os pescadores atuam em diferentes pontos da região e os exemplares entregues vieram de áreas distintas.
É nesse cenário que a prefeitura elaborou o Plano Municipal de Ação para o Enfrentamento ao Peixe-Leão, publicado em agosto. O documento organiza ações de monitoramento, captura, pesquisa, capacitação, comunicação e articulação entre órgãos públicos e instituições.
O plano prevê um programa temporário de entrega bonificada dos animais capturados. O valor de R$ 10 por exemplar foi definido em reunião com participação social, segundo a pasta ambiental, e pode ser revisto.
O município articula, ainda, outras ações com as áreas de Meio Ambiente, Pesca, Turismo e Saúde, além da universidade, da Colônia Z-22, de operadores de mergulho e de órgãos ambientais.
No Parque Natural Municipal Marinho do Recife de Fora, unidade de conservação de proteção integral, o monitoramento também foi ampliado. O primeiro peixe-leão foi registrado no local em 12 de junho. Em 10 de setembro, a presença de um segundo indivíduo foi confirmada em um ponto de mergulho.
A captura no parque é restrita a pessoas capacitadas e autorizadas. Na última semana, profissionais que atuam diariamente na unidade, como guias, fotógrafos, cinegrafistas e guardas, receberam treinamento para utilizar equipamentos destinados à captura e ao acondicionamento seguro dos animais.
O pagamento de R$ 10 é considerado temporário. A prefeitura pretende reduzir gradualmente o incentivo e estruturar uma cadeia produtiva para beneficiamento, comercialização e consumo do peixe-leão, seguindo protocolos de segurança.
"A ideia não é ficar pagando por indivíduo", afirma Rossato. Segundo ela, o objetivo é que o valor econômico do pescado ajude a manter a captura no longo prazo.
A estratégia parte da avaliação de que não é possível eliminar a espécie em escala regional, mas busca manter uma pressão de retirada, sobretudo em áreas consideradas prioritárias.
Em 2025, antes dos primeiros registros em Porto Seguro, a prefeitura orientou pescadores e mergulhadores para identificar o peixe-leão, comunicar avistamentos e sobre cuidados na manipulação dos animais.
A presença da espécie também levou à articulação com municípios do Extremo Sul da Bahia. O objetivo é reunir informações sobre sua distribuição e efeitos sobre os ambientes marinhos da região.



















