Por que a independência do Brasil não ocorreu no dia 7 de setembro? Pesquisador explica 
Por que a independência do Brasil não ocorreu no dia 7 de setembro? Pesquisador explica 

Por Rennan Rebello - Agência Sputnik Brasil - 08/09/2026 06:44:54 | Foto: Reprodução Agência Sputnik Brasil

A narrativa oficial dos livros didáticos e as celebrações do feriado nacional fixaram 1822 como o marco da ruptura com a Coroa portuguesa. No entanto, os percalços e conflitos para a consolidação da emancipação brasileira vão muito além do que é contado tradicionalmente e não aconteceram em apenas um dia.

Para compreender esse contexto histórico, a reportagem da Sputnik Brasil conversou com o historiador Paulo Rezzutti, pesquisador e autor de diversas obras sobre o período, incluindo o best-seller "Independência, a história não contada: a construção do Brasil (1500-1825)", que explica como o processo de emancipação de Portugal ainda demoraria para ser concluído.

"O 7 de setembro, na verdade, é um ato de basta. Então, na verdade, a luta inicial de 7 de setembro é um rompimento entre o Brasil e a constituinte de Lisboa. Só que isso depois vai crescendo até realmente efetivar a independência definitiva, que é sacralizada inicialmente no dia 12 de outubro de 1822, quando D. Pedro I, no dia do seu aniversário, é aclamado imperador do Brasil", disse.

Outro marco na história do país é o 2 de julho de 1823, data que consolidou a expulsão definitiva das tropas portuguesas na Bahia. O episódio ganhou destaque recente no debate público após o presidente Lula sugerir a oficialização da data como um segundo Dia da Independência nacional. O pesquisador contextualiza e lembra que a emancipação real do país exigiu frentes de batalha.

"Eu falo brincando que parece que quando D. Pedro I gritou a independência, tudo foi resolvido. Mas, na verdade, não resolveu. Na Bahia, só vai ocorrer independência no outro ano, quando expulsarem os portugueses com a ajuda do poder central do Rio de Janeiro. Mas havia também outras lutas armadas [após o 2 de julho] como no Norte do país e na Cisplatina [hoje, Uruguai, mas que pertencia ao Brasil na época]", comenta.

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O grito do Ipiranga ocorreu ou é um mito da história?

A tela original, pintada pelo artista Pedro Américo em 1888, imortalizou o então príncipe regente D. Pedro I, que estava de fato às margens do Ipiranga, porém em seu trabalho artístico o retrata em uma postura heroica sobre um cavalo imponente, bradando a célebre frase no imaginário popular: 'Independência ou morte' em 1822. No entanto, essa imagem triunfal faz parte de uma construção de narrativa, como elucida Rezzutti.

"Esse quadro do Pedro Américo foi uma encomenda do governo da província de São Paulo. [A imagem] vai colocar D. Pedro com toda a pompa e circunstância, cercado pela guarda de honra. E é claro que não foi daquela maneira. Na verdade, ele proclama duas vezes a independência. Primeiro a um grupo reduzido que estava com ele e depois, quando encontra a sua guarda de honra", destaca.

Ao contrário das colônias da América espanhola, que se fragmentaram em diversas repúblicas após suas independências, o Brasil conseguiu manter sua imensa unidade territorial, um feito que exigiu a sufocação de resistências locais e um arranjo político complexo, fazendo com que o verdadeiro sentimento de "ser brasileiro" passasse a nascer justamente naquele momento de ruptura.

" O 7 de setembro trouxe para a gente a criação do brasileiro e o processo de criação da independência. Só durante o governo de D. Pedro II é que realmente vai criar essa ideia de uma nacionalidade. [Antes] o gentílico era mais nas províncias do que uma preocupação de criar um gentílico para quem nasce no Brasil. Então, desde cedo, vão ter os paulistas, os mineiros, os fluminenses, os baianos [etc.]", observa.

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Brasil não tem a declaração oficial da independência

Outro ponto levantado por Rezzutti é o mito em torno da declaração oficial de separação que teria sido assinada pela princesa D. Leopoldina, no Rio de Janeiro, então capital, enquanto seu marido viajava por São Paulo. Segundo o pesquisador, esse documento formal de ruptura simplesmente não existe.

" Eu não tiro de forma alguma o papel da Leopoldina como protagonista e todo o trabalho que ela faz na tentativa de reconhecer o Brasil externamente como uma nação independente, mas não existe essa assinatura [decreto de independência]. E tem grupos pró-feminismo, que querem que tenha um documento. Só que não existe esse documento, nunca existiu. Nós não somos como os Estados Unidos", conclui.

A desmistificação desses episódios revela que a independência brasileira não se limitou a um único ato heroico às margens do Ipiranga. O processo real foi marcado por debates complexos e guerras sangrentas que se estenderam por anos além de 1822. Compreender esses percalços e a pluralidade de seus personagens é fundamental para enxergar o país sem os filtros da história oficial.