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Brasil - Brasília - Distrito Federal - 26 de outubro de 2021

"A 12 km": Indígenas Yanomami isolados nunca viram o garimpo tão próximo

Foto: ISA/HAY

Documentos e imagens inéditas obtidos pela Pública confirmam que os Moxihatëtëma da terra Yanomami estão em risco

Por Thiago Domenici Agência Pública / Brasil De Fato - 16/09/2021 - 12:10:02

A expressão “isolados” vem perdendo significado prático para os indígenas Moxihatëtëma thëpë da região da serra da Estrutura, dentro do território Yanomami, em Roraima.

Documentos e imagens inéditas obtidos pela Agência Pública mostram a presença do garimpo a apenas 12 km dos únicos indígenas em isolamento voluntário confirmados no território Yanomami pela Fundação Nacional do Índio (Funai).

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Também há um segundo ramal garimpeiro, maior, a 42 km dos isolados. As informações foram checadas a pedido da reportagem pelo analista Heron Martins do Center for Climate Crime Analysis (CCCA).

Os garimpos mais próximos dos Moxihatëtëma estão a 12km e a 42 km dos isolados / Center for Climate Crime Analysis/ Agência Pública

Martins explica que as coordenadas de longitude e latitude das imagens de satélite (Sentinel 1 e Sentinel 2) confirmam os ramais de garimpo, ambos com pista de pouso clandestina na região próxima onde habitam os Moxihatëtëma . Uma das pistas clandestinas está no meio do caminho entre o garimpo mais distante e o mais próximo, a cerca de 23 km dos isolados.

As imagens mostram ainda as cicatrizes na floresta, fruto da exploração ilegal de ouro na região, com rejeitos da mineração.

Os garimpos mais próximos aos Moxihatëtëma incluem pista de pouso clandestina e devastação da floresta / Agência Brasil

Lucca*, uma fonte próxima à Funai, afirma que o órgão indigenista teria conhecimento da proximidade desse ramal garimpeiro pelo menos desde março do ano passado, quando um relatório de monitoramento comunicou à Funai em Brasília. Lucca conta ainda que outros sobrevoos posteriores a março de 2020 foram realizados pela Funai para monitoramento dos isolados – um deles em 2021.

Segundo seu relato, os relatórios com os alertas da presença garimpeira, no entanto, não teriam implicado nenhuma ação para desmantelar o garimpo próximo aos Moxihatëtëma . “Vão matar uma comunidade inteira que não foi contatada e Brasília [Funai] está fazendo de conta que não vê”, afirma.

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Luciano Pohl, gerente de povos isolados da Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira (Coiab), diz que a situação requer uma ação imediata do governo para a proteção dos indígenas. “É grave”, avalia.

O antropólogo e analista legal da CCCA, Bruno Morais, diz que 12 km de distância de floresta, para indígenas, “é a distância de um quintal, ou menos”. Segundo ele, “indígenas, quanto mais isolados, percorreriam 12 km em pouco tempo, o que nos leva a imaginar que, se de fato estiverem aí [garimpo], esse grupo já pode não estar mais ‘isolado’. Como você deve imaginar, essa seria uma situação crítica e demandaria a intervenção imediata”.

Acossados pelo garimpo

Um dos documentos enviados à Funai em março do ano passado alertando sobre a situação foi obtido pela reportagem e registra que “o garimpo tem sido a principal ameaça à reprodução física e cultural dos Moxihatëtëma, cujo território se encontra cercado pela invasão garimpeira”.

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O documento cita, por exemplo, a existência de recipientes de material não identificado nas fotografias do monitoramento aéreo. “Em relação aos recipientes, é provável que se trate de carotes de combustível de 50 litros, encontrados facilmente em pontos de garimpo. Este fato nos remete aos relatos de que os indígenas estão andando em locais abandonados ou de ocupação recente por garimpeiros.”

Os Moxihatëtëma em imagem inédita de março de 2020. / Funai

A fotografia acima é inédita, foi registrada durante o sobrevoo da Funai no ano passado e está anexada ao relatório enviado a Brasília. Sobre a imagem, o relatório registra: “Embora a criança no centro da foto acima tenha empunhado seu arco contra nós, a maioria dos indivíduos pareceu não se incomodar com a presença da aeronave – muitos apenas observaram, enquanto outros continuaram com seus afazeres normalmente, quebrando lenha, consertando as telhas. Tal reação confirma informações que obtivemos sobre o costume do grupo com o frequente tráfego de aviões do garimpo”.

O documento corrobora o diagnóstico de outro relatório, este público, lançado em março de 2021 pela Hutukara Associação Yanomami (HAY) e Associação Wanasseduume Ye’kwana (Seduume) em parceria com o Instituto Socioambiental (ISA).

Os dados de “Cicatrizes na floresta – evolução do garimpo ilegal na Terra Indígena Yanomami (TIY) em 2020” revelam o aumento da pressão sobre os Moxihatëtëma, “acossados pelo aumento da circulação de garimpeiros na região da serra da Estrutura, a poucos quilômetros de sua casa coletiva. Um eventual contato forçado, nesse estágio, arrisca desencadear num trágico episódio de genocídio”, alerta o documento.

Luciano da Coiab explica que, no caso dos indígenas isolados, os riscos com a proximidade do garimpo se agravam pela vulnerabilidade a que ficam expostos, podendo ser contaminados com doenças levadas pelos invasores – “ainda mais no momento de pandemia de Covid-19”. “Em situações assim, uma simples gripe seria capaz de dizimar vários integrantes do grupo”, afirma.

No livro “Cercos e resistências – povos indígenas isolados na Amazônia brasileira” (Instituto Socioambiental, 2019), a liderança indígena Yanomami Davi Kopenawa fala sobre a relação com os Moxihatëtëma. “Eu estou muito preocupado com eles. Eles nos protegem, assim como nós os protegemos […] Eu não queria que os garimpeiros matassem mais eles. Eles estão protegidos por eles mesmos. Eu queria que o governo protegesse eles, então a gente quer denunciar, espalhar a mensagem no Brasil e fora.”

Em março do ano passado, o líder e xamã Yanomami fez um apelo em favor dos isolados durante sessão do Conselho de Direitos Humanos da ONU, em Genebra. “Meu povo tem o direito de viver em paz e em boa saúde, porque ele vive em sua própria casa. Na floresta estamos em casa! Os Brancos não podem destruir nossa casa, senão tudo isso não vai terminar bem para o mundo. Cuidamos da floresta para todos, não só para os Yanomami e os povos isolados. Trabalhamos com os nossos xamãs, que conhecem bem essas coisas, que possuem uma sabedoria que vem do contato com a terra. A ONU precisa falar com as autoridades do Brasil para retirar – imediatamente – os garimpeiros que cercam os isolados e todos os outros em nossa floresta.”

Questionada sobre a situação de urgência e se teria conhecimento do garimpo próximo dos isolados, a Funai respondeu à reportagem que tem realizado o monitoramento ininterrupto do grupo por meio da Frente de Proteção Etnoambiental Yanomami Yekuana. “As medidas de monitoramento vem sendo acompanhadas pela ação civil pública impetrada pelo Ministério Público Federal (MPF)/RR no âmbito da reativação das Bases de Proteção Etnoambiental (Bapes) da Funai. A fundação esclarece ainda que foram verificados garimpos próximos à Serra da Estrutura, os quais foram desativados na operação para a reativação da base da Funai na região (Bape Serra da Estrutura). Além disso, a Funai realiza continuamente ações de monitoramento da ocupação territorial desses indígenas isolados, bem como iniciativas de combate ao garimpo na região”. O órgão indigenista disse ainda que “foram realizadas 12 operações na região do Mucajaí e Couto Magalhães, por meio da Bape Walo Pali, e três operações na região da Serra da Estrutura, por meio da Bape de mesmo nome” — leia a resposta completa.

“Registro 76”

O território Yanomami é a maior Terra Indígena (TI) do país, onde vivem mais de 26 mil indígenas dos povos Yanomami e Ye’kwana, distribuídos em 371 aldeias. O território foi reconhecido como de ocupação tradicional, demarcado e homologado em 1992.

Os Moxihatëtëma thëpë pertencem ao subgrupo Yanomami de denominação Yawaripë, que, segundo os registros históricos, chegaram a ser contatados nas décadas de 1950 e 1960.

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