São Paulo, Sp (uol/folhapress) - (folhapress) - 08/07/2026 09:38:38 | Foto: Em junho, Donald Trump já havia provocado Giorgia Meloni ao afirmar que a premiê implorou por uma foto ao seu lado - Divulgação/Casa Branca
IGOR GIELOW-SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - O presidente Donald Trump voltou a criticar nesta quarta-feira (8) seus aliados da Otan durante a cúpula da aliança militar criada pelos EUA há 77 anos para conter Moscou na Europa. Dedicou irritação particular à Espanha, dizendo que ordenou o corte de laços comerciais com Madri, algo incerto na prática.
"Eu não estou feliz com a Otan", disse o americano ao lado do holandês Mark Rutte, o secretário-geral do clube de 32 nações. Ele voltou a citar a Groenlândia, ilha da aliada Dinamarca que quer ver sob controle dos EUA, e a falta de apoio à sua guerra contra o Irã.
"A Espanha é um terrível parceiro na Otan. Eles não participam, não pagam. Eu não quero saber da Espanha. Cortar todo o comércio com a Espanha, inclusive visitas. Nós não queremos nada. Veja eles correndo atrás de nós", disse.
A bravata havia sido feita em março, quando o governo do socialista Pedro Sánchez negou permissão do uso de suas estratégicas bases aéreas no Mediterrâneo para apoiar os ataques americanos contra a teocracia.
Na ocasião, contudo, nada aconteceu, restando saber se algo é para valer agora. Se o for, é mau negócio para os EUA: nos últimos quatro anos, Washington registrou superávit na balança comercial com Madri, que em 2025 foi de US$ 4,8 bilhões.
Em nota, o governo espanhol minimizou a ameaça, dizendo que os negócios entre os países são definidos por suas empresas, não seus governos, e enaltecendo os "laços econômicos e culturais" que pretende ver mantidos com os americanos.
O azedume de Trump com os europeus ficou nítido na hora da fotografia oficial do encontro. Ele não se dirigiu à primeira-ministra italiana, Giorgia Meloni, que passou da condição de aliada para alvo de memes do americano devido à sua falta de apoio no Irã. A política permaneceu sorridente, de rosto virado, enquanto o americano chegava a seu posto.
Antes da cúpula em Ancara, o republicano chegou a postar uma foto ao lado dela pedindo uma ordem restritiva. Além disso, a seu lado na fotografia estava Keir Starmer, o premiê britânico demissionário que foi alvo de diversas críticas de Trump pela relutância em liberar suas bases para os EUA na guerra.
Nem a Copa do Mundo e a intervenção de Trump para cancelar a suspensão de um jogador americano, inócua pois o time foi derrotado nas oitavas pela Bélgica por 4 a 1, escapou.
O premiê do país europeu, Bart de Wever, disse que a decisão da Otan de manter apoio militar a Kiev contra a invasão russa era "um cartão vemelho muito forte para Vladimir Putin". "Você não pode retirar um cartão vermelho. Você sabe disso", disse, ironizando Trump.
O conflito no Oriente Médio tomou o centro do palco que em tese deveria ser dedicado à tentativa de Rutte de convencer Trump acerca do esforço de rearmamento dos seus sócios europeus e à ajuda para a Ucrânia contra a invasão russa.
Em 2014, quando Putin anexou a Crimeia e disparou alarmes no continente, apenas 3 dos então 28 membros da aliança cumpriam a meta de gastar 2% do PIB com defesa. Trump sempre foi um crítico, e buscou afastar-se de compromissos com a Otan, inclusive passando a conta da defesa de Kiev aos aliados.
O novo contexto teve impacto. Apenas 3 de 32 não o fizeram em 2025, quando foi adotada nova diretriz de 3,5% com equipamento e pessoal e 1,5% com infraestrutura militar até 2035. A Espanha, que sempre hesitou em elevar o gasto e não se comprometeu com a nova meta, atingiu os 2% no ano passado.
Segundo a Otan, neste ano os maiores investidores em defesa proporcionalmente ao tamanho de sua economia serão os vulneráveis Estados Bálticos e a Polônia, todos já em torno dos 5%. Lituânia e Estônia já passaram a marca, e seus líderes se gabaram disso na cúpula, usando um broche escrito "Clube dos 5%".
Com a renovada troca de fogo entre EUA e o Irã ocupou boa parte das questões e conversas nesta quarta na Turquia. O anfitrião, Recep Tayyip Erdogan, de todo modo parecia satisfeito com a promessa de Trump de rever a expulsão de seu país do programa do caça de quinta geração F-35, medida tomada há sete anos pelo próprio americano.
Já a questão da Groenlândia, que havia sido ressuscitada por Trump na véspera, provocou críticas da primeira-ministra dinamarquesa. Mette Frederiksen disse que seu país "irá defender cada centímetro do território" da ilha.
O tema da guerra na Europa deverá surgir na reunião ora em curso entre os chefes de Estado presentes. O presidente ucraniano, Volodimir Zelenski, está em Ancara e deverá se encontrar com Trump ainda nesta quarta.
Acordo com o Irã acabou, diz Trump após novos ataques
IGOR GIELOW-SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, afirmou nesta quarta-feira (8) que o acordo de cessar-fogo entre seu país e o Irã "acabou" com os ataques retaliatórios da teocracia contra alvos americanos em países do golfo Pérsico.
A retomada das hostilidades no Oriente Médio levou tensão ao mercado, com um aumento de 5% no preço do petróleo referencial Brent, colaborando com a queda nas Bolsas da Ásia e da Europa. "Até onde sei, é só uma perda de tempo lidar com eles [iranianos]. Eles são mentirosos, há algo errado com eles. Eles são loucos. Até onde sei, acabou [o acordo]", disse o americano ao lado do secretário-geral da Otan, Mark Rutte, durante a cúpula da aliança militar ocidental em Ancara (Turquia). Fiel a seu estilo, contudo, Trump disse também que ainda poderá negociar. "Eu vou falar com nossos negociadores. Eles querem negociar, são boas pessoas, [os enviados americanos] Steve Witkoff, Jared Kushner, mas eles têm de falar comigo", completou. A escalada da tensão ocorreu após uma nova rodada de violência entre os rivais, que haviam assinado uma trégua de 60 dias a partir de 17 de junho. O Irã atingiu nesta semana três petroleiros que cruzaram o estreito de Hormuz, violando a promessa de manter a navegação livre na estratégica região. Na noite de terça (7) para quarta, os americanos responderam com o mais duro bombardeio desde a implementação do chamado memorando de entendimento com Teerã. O acordo pôs um fim temporário à guerra lançada pelos EUA e Israel contra a teocracia, que durou cinco semanas a partir do fim de fevereiro. Foram alvejados 60 alvos em regiões costeiras associadas às atividades militares do Irã no estreito. Como resposta, a Guarda Revolucionária lançou mísseis e drones contra instalações americanas no Bahrein e no Irã. Segundo a unidade de elite iraniana, foram alvejadas no Bahrein bases dos EUA em Bandar Salman e o Quinto Distrito Naval americano. No Kuwait, o foco foi a base Ali al Salem. Um drone MQ-9 Reaper americano foi derrubado, segundo os iranianos. Os países do golfo Pérsico foram o alvo mais vistoso da campanha retaliatória iraniana durante a guerra, dado que as ações contra Israel foram compartilhadas por Teerã com seus aliados do Hezbollah libanês, o que levou a ataques pesados de Tel Aviv contra o vizinho árabe. Agora, o governo de Binyamin Netanyahu ocupa uma faixa no sul libanês e, para formalizar essa presença, assinou um memorando com o governo de Beirute, que também quer ver o Hezbollah desarmado. Em Ancara, a Otan foi solidária a Trump, apesar das repetidas críticas do americano à aliança. O holandês Rutte, sempre ávido para agradar o principal dos 32 integrantes da organização, disse que os ataques foram "absolutamente necessários". "Ao ter um cessar-fogo e o Irã está basicamente violando o cessar-fogo, acho totalmente crucial que os EUA reajam com força", disse. Já a chefe da diplomacia europeia, Kaja Kallas, lamentou que os ataques de lado a lado dificultem a normalização da situação no Oriente Médio. Do lado iraniano, a posição é de desafio. Segundo a chancelaria do país, o acordo com os EUA não está valendo. Ela se queixou não só dos ataques, mas da continuidade das ações de Israel no Líbano e da decisão americana de revogar a licença temporária para a venda de petróleo do Irã, parte do memorando. "A responsabilidade pelas perigosas consequências desta escalada de tensões é do regime renegado americano", afirmou a pasta, em nota. Os termos foram repetidos pelo principal negociador iraniano, o presidente do parlamento Mohammad Baghaer Ghalibaf. "A era de intimidação e extorsão acabou", disse em uma publicação no X em meio às cerimônias fúnebres de Ali Khamenei, o líder supremo do país morto no primeiro dia da guerra. "Não vamos ceder."Foram atingidas, segundo a mídia iraniana, as cidades portuárias de Sirik e Bandar Abbas, além da ilha de Qeshm, todas utilizadas pela Guarda no estreito. Mas também houve explosões relatadas em Kharg, ilha de onde saía antes da guerra quase todo o petróleo cru do Irã -os EUA não confirmaram ação por lá. Não há informação sobre feridos.
Trump volta a atacar Meloni e diz que precisa de medida protetiva contra ela
Ministros da Itália saíram em defesa da líder do país, Giorgia Meloni, nesta segunda-feira (6), depois de um novo ataque feito pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, contra ela, às vésperas da cúpula da Otan, a aliança militar liderada por Washington, que será realizada na Turquia nesta terça (7) e na quarta.
Trump publicou no domingo (5), na plataforma Truth Social, uma imagem em que Meloni aparece olhando para ele acompanhada da legenda: "Ordem de Restrição Necessária". Nos EUA, tal ordem equivale a uma medida protetiva. A primeira-ministra não comentou.
O vice-premiê e ministro das Relações Exteriores da Itália, Antonio Tajani, afirmou em entrevista ao canal Sky TG24 que a mensagem, reproduzida na capa dos principais jornais italianos, "não precisa de comentários". Segundo ele, o governo não pretende responder a esse tipo de provocação.
Na mesma linha, o ministro da Defesa, Guido Crosetto, disse que o mais importante é preservar as relações com Washington, descrito por ele como um aliado-chave de Roma. "As pessoas passam, mas as relações permanecem", afirmou à Sky TV. A prioridade, acrescentou, também é estimular a união da Otan e do mundo ocidental.
Mesmo políticos da oposição italiana reagiram ao novo ataque. Carlo Calenda, líder do partido Azione, classificou Trump de "valentão desprezível e mesquinho" e manifestou apoio a Meloni.
A publicação representou um novo capítulo no desgaste da relação entre Trump e Meloni. Em junho, a líder italiana acusou o presidente americano de inventar uma história após ele afirmar, sem apresentar provas, que ela tinha implorado para tirar uma foto com ele durante a cúpula do G7, realizada na França.
Na ocasião, a italiana publicou um vídeo na plataforma X para rebater a declaração. Visivelmente irritada, Meloni afirmou que estava surpresa com a atitude do presidente americano. "Francamente, estou consternada", disse. "Não sei por que o presidente dos EUA se comporta assim com seus aliados. E não é a primeira vez." Tajani, por sua vez, chegou a cancelar uma viagem oficial que faria aos EUA.
A relação entre Trump e Meloni já foi de proximidade. A italiana foi uma das principais apoiadoras do americano na Europa e a única líder europeia presente em sua posse, em 2025. Neste ano, porém, ela passou a criticá-lo após ataques feitos por ele ao papa Leão 14 devido à condenação do sumo pontífice ao conflito com o Irã. Em resposta, o republicano disse que a primeira-ministra italiana não tinha coragem.



















