A opinião pessoal do colunista de politica nacional João Zisman: O preço do socorro ao BRB
A opinião pessoal do colunista de politica nacional João Zisman: O preço do socorro ao BRB

Por João Zisman - 30/06/2026 09:38:56 | Foto: JOÉDSON ALVES/AGÊNCIA BRASIL

O fato mais relevante do noticiário desta terça-feira no Distrito Federal não está apenas na negociação do empréstimo de R$ 6,6 bilhões para socorrer o BRB. Está na forma como essa operação começa a reorganizar a política fiscal do GDF.

Segundo o Correio Braziliense, o governo pediu ao Fundo Garantidor de Créditos dois anos de carência para iniciar o pagamento do empréstimo destinado ao banco. Ao mesmo tempo, informou ao Banco do Brasil, que lidera o consórcio de instituições avalistas da operação, que terá capacidade de usar cerca de 2% da receita líquida para pagar as parcelas. O problema é que o mesmo balanço fiscal do DF registrava, até março, gastos de 97% do orçamento com despesas correntes e nota C na Capag. A promessa do GDF é cortar 12% das despesas até o fim do ano para tentar elevar a nota para A ou B.

Esse dado muda a leitura do dia. A votação da LDO de 2027 não é apenas uma etapa formal do calendário orçamentário. O texto chega à Câmara Legislativa com previsão de superávit de 5% da receita corrente líquida, cerca de R$ 2 bilhões, depois de três anos em que a LDO apontou déficits. A preocupação política e jurídica é explícita: no último ano de mandato, Celina Leão e Ibaneis Rocha não podem deixar que o DF fira a Lei de Responsabilidade Fiscal.

Na prática, o socorro ao BRB empurra o GDF para uma agenda de contenção. Concursos, reajustes e nomeações passam a depender do equilíbrio fiscal. O Correio informa que o Executivo local vinha registrando 95% do orçamento comprometido com despesas correntes, baixou para 93% e trabalha com a previsão de chegar a 85% até agosto, limite previsto no artigo 167 da Constituição.

Essa é a consequência concreta: o BRB deixa de ser apenas uma pauta bancária e passa a disputar espaço com saúde, educação, servidores, investimentos e custeio da máquina pública. O governo tenta apresentar a operação como solução controlada, com carência, parcelamento e ajuste fiscal. A oposição tende a explorar justamente o outro lado da conta: quem pagará, por quanto tempo e quais políticas públicas ficarão comprimidas para acomodar o financiamento.

A terça-feira, portanto, não mostra apenas uma pauta cheia na CLDF. Mostra um governo tentando aprovar as diretrizes do próximo orçamento sob a sombra de uma operação bilionária. A LDO vira o primeiro teste concreto do pós-crise do BRB: se o GDF conseguir transformar promessa de ajuste em número crível, ganha fôlego; se não conseguir, o socorro ao banco passará a ser lido como o ponto de partida de uma restrição fiscal prolongada.