Por João Zisman - 23/08/2026 10:44:50 | Foto: João Zisman - Foto de Arquivo
Estive em Brasília no último fim de semana e não sei dizer se os ipês já estavam floridos. Não é que não estivessem; eu é que não reparei. Agora, do Paraná, vejo as imagens da floração e me dou conta de que só voltarei à cidade no próximo fim de semana. Comecei então uma torcida um tanto egoísta: tomara que os ipês me esperem.
Depois de tantos anos em Brasília, conheço bem esse espetáculo. Chega a seca, a umidade despenca, a grama perde a cor e o céu assume aquele azul característico da época. É justamente quando a paisagem parece sentir mais a falta de água que os ipês amarelos aparecem, perdem as folhas e, por alguns dias, praticamente viram flores.
Provavelmente passei por alguns deles sem perceber, envolvido com compromissos, horários, telefonemas e todas essas urgências que parecem importantes enquanto acontecem. Fui a Brasília, fiz o que precisava fazer e voltei. Os ipês não constavam da agenda, e talvez esse seja um dos problemas das agendas: elas lembram muito bem o que precisamos fazer, mas não avisam o que deveríamos perceber.
Agora vejo as fotografias e sinto uma espécie de ciúme de quem está assistindo ao espetáculo que talvez estivesse começando quando passei por lá. É curioso porque nunca fotografamos tanto e, ainda assim, continuamos capazes de não enxergar o que está diante dos olhos.
Quando voltar, estarei procurando os ipês. Só não sei se encontrarei exatamente a mesma Brasília que deixei poucos dias atrás, e não estou falando das árvores. Algumas paisagens mudam muito pouco; somos nós que voltamos a elas de outro jeito.
Talvez seja por isso que tenha se tornado tão importante encontrá-los ainda floridos. Não espero que resolvam nada nem pretendo atribuir a uma árvore responsabilidades que não lhe pertencem. Quero apenas saber se aquele amarelo continuará produzindo em mim a mesma admiração de outros anos.
Afinal, a beleza também depende um pouco do estado de quem olha. Uma paisagem conhecida pode continuar exatamente no mesmo lugar e, ainda assim, alguma coisa que ajudava a completá-la já não estar ali.
Só volto a Brasília no próximo fim de semana. Pode ser que encontre os ipês ainda carregados de flores ou que chegue tarde demais. Tomara que me esperem. Ainda não sei se encontrá-los será a mesma coisa.



























