Por João Xisman - 02/09/2026 11:33:53 | Foto: Divulgação
Debates eleitorais costumam ter uma segunda etapa, talvez até mais previsível do que aquela transmitida pela televisão. Assim que as câmeras são desligadas, entram em cena os assessores, os cortes cuidadosamente escolhidos, as torcidas digitais e a extraordinária capacidade das campanhas de encontrar uma vitória onde, poucos minutos antes, havia apenas candidatos tentando sobreviver às perguntas e aos adversários.
Foi assim depois do debate promovido pelo Correio Braziliense e pela TV Brasília. Pelas versões que começaram a circular nas redes, seria possível concluir que o Distrito Federal assistiu ao raro fenômeno de uma disputa com vários vencedores simultâneos. Cada campanha encontrou o seu momento, recortou a imagem mais conveniente e tratou de explicar ao eleitor aquilo que ele deveria ter visto.
A televisão, assistida sem a edição posterior das campanhas, contou uma história um pouco diferente.
Celina Leão não teve sua melhor noite, e reconhecer isso talvez seja mais importante para compreender o debate do que tentar protegê-la pela condição de líder das pesquisas. Em alguns momentos, a governadora permitiu que os adversários determinassem o terreno do confronto, reagiu além do necessário e ofereceu a Ricardo Cappelli, ao chamá-lo de “bobo da corte”, exatamente aquilo que um candidato situado bem atrás nas pesquisas procura quando enfrenta quem está na frente: um episódio capaz de produzir repercussão desproporcional ao tamanho eleitoral de quem o provocou.
Existe, entretanto, uma segunda camada nessa avaliação. Celina compareceu sabendo exatamente o que encontraria. Governa o Distrito Federal, lidera as pesquisas e carrega para qualquer debate todos os problemas da administração, do atendimento na saúde à crise do BRB. Enquanto os demais podiam escolher onde atacar, ela precisava responder praticamente em todas as direções. Para uma candidata nessa posição, o debate oferece poucos ganhos imediatos e uma quantidade razoável de riscos, o que torna politicamente relevante o fato de ter aceitado o confronto em vez de procurar a proteção confortável da cadeira vazia.
Isso não transforma uma atuação irregular em vitória. Apenas impede que se confunda desempenho com postura política.
Cappelli compreendeu bem a oportunidade. Conseguiu provocar a governadora, arrancou uma reação inadequada, obteve direito de resposta e saiu do estúdio com material suficiente para sustentar a narrativa de que havia tirado Celina do sério. É legítimo que sua campanha explore o episódio, mas existe uma distância considerável entre vencer alguns minutos de televisão e alterar a correlação de forças de uma eleição. O primeiro resultado pode ser medido pelo número de compartilhamentos; o segundo, até aqui, continua dependendo de algo menos instantâneo chamado voto.
Esse talvez tenha sido um dos traços mais interessantes do pós-debate. As redes sociais permitem que cada candidatura monte sua própria versão do encontro, selecionando exatamente os segundos em que seu candidato pareceu mais forte e o adversário mais vulnerável. O resultado é uma espécie de debate paralelo no qual ninguém hesita, ninguém responde mal e todos terminam vencedores. Serve para mobilizar quem já está convencido, mas ainda não sabemos quanto dessa excitação digital atravessa a fronteira das próprias torcidas.
José Roberto Arruda fez um movimento diferente e, provavelmente, mais relevante do ponto de vista do conteúdo. Era previsível que tentasse transformar o encontro num julgamento da administração atual, explorando saúde, população em situação de rua, mobilidade e principalmente o BRB. Seu melhor momento, porém, surgiu quando deixou de procurar culpados e precisou explicar o que faria.
Ao defender a utilização de recursos do Fundo Constitucional de Financiamento do Centro-Oeste para reforçar a liquidez do BRB, falar em até R$ 15 bilhões e acrescentar redução da estrutura, fechamento de agências, revisão de patrocínios e programas de desligamento, Arruda colocou uma proposta concreta no debate. Isso não significa que ela seja tecnicamente exequível, muito menos que possa ser aceita sem uma análise cuidadosa de suas consequências. Significa apenas que, naquele momento, a discussão avançou da confortável procura por responsáveis para uma pergunta bem mais difícil: o que fazer com o banco?
A mudança é importante porque pode obrigar toda a campanha a avançar junto. Se Arruda conseguir deslocar o BRB da discussão sobre responsabilidade para o terreno das soluções, Celina terá de explicar com maior clareza qual instituição pretende entregar depois da crise, enquanto os demais candidatos também precisarão dizer até onde aceitariam colocar recursos públicos na recuperação do banco.
Existe, ao mesmo tempo, uma curiosa simetria entre os dois primeiros colocados. Arruda gostaria de transformar a eleição num julgamento do governo Celina; Celina tem interesse em transformar o confronto com Arruda num lembrete permanente de sua situação jurídica. Um aponta para o BRB, a saúde e os problemas da administração; a outra devolve apontando para o TRE. Cada um tenta fazer com que o adversário passe a campanha respondendo à pergunta que lhe é mais inconveniente.
Leandro Grass enfrenta uma equação diferente. Para crescer, precisa ser oposição ao governo do Distrito Federal, mas sua identificação com o campo do presidente Lula faz com que determinados assuntos o obriguem a defender a administração federal. A discussão sobre o Fundo Constitucional mostrou essa dificuldade. É compreensível que Grass conteste ataques ao governo ao qual está politicamente associado, mas cada minuto utilizado para explicar Lula é um minuto em que deixa de explicar o governo que pretende fazer no Distrito Federal.
Paula Belmonte encontrou na saúde e nas deficiências de gestão um terreno mais direto, enquanto Kiko Caputo procurou aproveitar transporte e infraestrutura para apresentar propostas. Ambos conseguiram utilizar o espaço oferecido pelo debate, mas permanecem diante do mesmo obstáculo enfrentado pelos candidatos que aparecem mais distantes nas pesquisas: o regulamento consegue distribuir igualmente o tempo de televisão, não a relevância política acumulada antes de as câmeras serem ligadas.
É por isso que a pergunta sobre quem venceu talvez seja a menos interessante para analisar o encontro.
Celina entrou líder e saiu líder, embora um pouco mais arranhada e com o aviso de que precisará administrar melhor as provocações se não quiser transformar a vantagem eleitoral numa sucessão de batalhas escolhidas pelos adversários. Arruda entrou como principal desafiante e encontrou, ao apresentar uma proposta para o BRB, um caminho potencialmente mais produtivo do que simplesmente enumerar os problemas do governo. Cappelli conquistou o corte de maior repercussão, mas ainda precisa demonstrar que capacidade de produzir barulho é também capacidade de produzir deslocamento eleitoral. Grass, Belmonte e Caputo aproveitaram seus espaços sem que o debate oferecesse sinais suficientes de alteração da hierarquia da disputa.
Talvez esse seja o saldo mais interessante da noite. O debate não reorganizou a eleição, mas começou a mostrar a eleição que cada candidato gostaria de disputar. Celina prefere uma comparação entre realizações e capacidade de governo; Arruda quer colocar a administração atual no banco dos réus; Cappelli procura quebrar a polarização pela confrontação; Grass tenta construir uma oposição local sem carregar o governo federal nas costas; Belmonte explora as fragilidades da gestão; e Caputo busca nas propostas um espaço que as pesquisas ainda não lhe concederam.
Quando as câmeras se apagaram, naturalmente todos encontraram razões para comemorar. Faz parte do ritual e provavelmente seria preocupante se alguma campanha convocasse seus apoiadores para anunciar que havia perdido.
O eleitor, felizmente, não é obrigado a participar dessa convenção de vencedores. E talvez tenha percebido que, numa noite em que quase todos disseram ter ganhado, ninguém saiu do estúdio grande o bastante para poder afirmar que mudou a eleição.



























