Por João Zisman - 07/10/2026 16:29:51 | Foto: Divulgação TRE
A política tem dessas coisas. Celina Leão recebeu 825.530 votos no domingo, chegou a 49,93% dos válidos e ficou a apenas 168 votos de encerrar a eleição para o Governo do Distrito Federal. Num universo de mais de 1,7 milhão de votos válidos, é quase nada. Só que eleição não tem quase, e a democracia não arredonda.
Resultado: nesta quarta-feira Celina e Leandro Grass estão novamente na rua pedindo voto.
E veja que situação curiosa. Celina saiu da urna com 825 mil votos e Grass com 569 mil, uma diferença superior a 255 mil. Só que ninguém chega ao segundo turno carregando esses votos numa sacola, como se bastasse completar o que faltou. A urna será zerada e todo mundo terá de votar outra vez, embora seja evidente que os dois candidatos chegam a essa nova disputa em situações políticas muito diferentes.
Há ainda uma ironia no caso de Celina. Depois de ficar a 168 votos da vitória, uma das preocupações de sua campanha nesta quarta-feira é reforçar uma informação elementar: seu número é 11. No primeiro turno, 26.603 eleitores digitaram 22 para governador e anularam o voto. Não dá para dizer que pretendiam votar nela, claro, mas o 22 é o número do PL, partido de Flávio Bolsonaro, Michelle Bolsonaro e Bia Kicis, aliados da governadora. Quando se perdeu a vitória por 168 votos, 26 mil erros de digitação deixam de parecer um detalhe.
Grass vive uma situação quase inversa. Terminou mais de 15 pontos atrás e ganhou três semanas para tentar fazer uma eleição diferente. Nesta quarta vai a Ceilândia, conversa com partidos e parlamentares e procura levar o debate para os problemas locais, sabendo que juntar apenas quem já estava no seu campo político não resolve a conta.
E talvez aí apareça uma coisa boa deste segundo turno. No primeiro tivemos muito Lula, Flávio Bolsonaro, Michelle, direita, esquerda e toda aquela conversa nacional que inevitavelmente entra numa eleição no Distrito Federal. Agora são dois candidatos e uma cidade inteira no meio deles.
Enquanto os dois procuram votos, estudantes de mais de cem escolas públicas levam ao Cine Brasília 19 filmes produzidos por eles, discutindo ética, convivência e cidadania. Brasília também recebe nesta quarta uma reunião do Conselho Nacional de Saúde que passa por câncer, saúde mental, demências e preparação do SUS para emergências climáticas. E já sabemos que no próximo domingo o Metrô-DF ficará completamente parado para uma grande manutenção.
Pode parecer que estou misturando assuntos, mas é justamente o contrário. Essa é a cidade que alguém terá de governar.
Quem depende do metrô no domingo provavelmente estará menos interessado na engenharia das alianças partidárias do que em descobrir como vai chegar ao destino. Quem espera uma consulta quer saber quando será atendido. Quem tem filho na escola pública olha para a escola. A política eleitoral trabalha com milhões de votos, percentuais, pesquisas e mapas coloridos, mas a vida costuma cobrar coisas bem menores e muito mais concretas.
A política gosta do número grande porque ele impressiona, mas quase sempre governa o pequeno.
Por isso Celina não precisa simplesmente encontrar os 168 votos que faltaram. Grass também não pode imaginar que os votos de Paula Belmonte, Kiko Caputo ou Ricardo Cappelli serão transferidos junto com uma declaração de apoio. Eleitor não vem no pacote. Os dois terão de conversar outra vez com uma cidade que agora conhece as opções e só tem duas delas na urna.
E aqueles 168 votos, que pareciam quase nada diante de mais de 1,7 milhão, acabaram comprando ao Distrito Federal mais três semanas de campanha. Já que compraram, seria bom aproveitar.
Porque governar também é uma história de números que parecem pequenos. Pode ser o tempo de espera numa UPA, o intervalo entre dois ônibus, uma vaga que falta numa escola, uma lâmpada apagada numa rua ou uma chuva que encontra o bueiro entupido.
No domingo, foram 168 votos.
Foi pouco demais para aparecer no percentual e muito demais para ser ignorado pela regra.


























