A opinião pessoal do colunista politico João Zisman: Quem fica com o fundo eleitoral?
A opinião pessoal do colunista politico João Zisman: Quem fica com o fundo eleitoral?

Por João Zisman - 13/07/2026 09:45:14 | Foto: Divulgação João Zisman

Toda eleição produz duas disputas. A primeira é pública, aparece nas pesquisas, ocupa o horário eleitoral e termina nas urnas. A segunda acontece longe dos holofotes. É travada dentro dos partidos, onde dirigentes definem prioridades, distribuem recursos e estabelecem quais candidaturas receberão as melhores condições para chegar competitivas à campanha. Enquanto o eleitor escolhe seus candidatos, as legendas já fizeram outra escolha: quem será prioridade.

Os acontecimentos envolvendo o presidente do PL, Valdemar Costa Neto, trouxeram essa disputa silenciosa para o centro do debate. O bloqueio judicial de R$ 119 milhões e as declarações de que o partido poderá enfrentar dificuldades para financiar todas as campanhas planejadas em 2026 recolocam em evidência uma realidade que raramente desperta atenção fora das direções partidárias. Nenhuma legenda dispõe de recursos infinitos. Quando o orçamento encolhe, a política passa a operar sob outra lógica.

Em tempos de abundância, praticamente todos encontram espaço. Em tempos de restrição, cada decisão revela uma hierarquia que normalmente permanece escondida. A prioridade natural será a eleição presidencial. Depois dela virão os estados considerados estratégicos, as disputas capazes de ampliar a representação no Congresso e as candidaturas vistas como essenciais ao projeto nacional. Não existe novidade nisso. O que muda é que, quando o dinheiro não alcança todos, as escolhas deixam de ser administrativas e passam a ser eminentemente políticas.

É nesse ambiente que a situação do senador Sergio Moro merece ser observada sob outro ângulo. Desde que ingressou na vida política, sua trajetória foi marcada pela busca de partidos capazes de sustentar projetos eleitorais de grande dimensão. Até aqui, esses movimentos foram interpretados quase sempre pela ótica das alianças e das conveniências partidárias. O cenário atual permite acrescentar uma nova variável à análise: qual será a posição de Moro na escala de prioridades do PL caso a direção nacional precise concentrar recursos em um número menor de candidaturas?

A questão não é saber se Sergio Moro continua sendo um ativo eleitoral importante para o partido. Tudo indica que sim. A dúvida relevante é outra. Se os recursos não forem suficientes para atender todas as demandas, quais critérios prevalecerão? Peso eleitoral, interesse estratégico da campanha presidencial, capacidade de ampliar a bancada, influência regional ou projeção nacional? São perguntas que dificilmente aparecem nos discursos públicos, mas costumam orientar decisões privadas.

Seria precipitado afirmar que qualquer candidatura perderá espaço ou terá recursos reduzidos. Não há elementos para sustentar essa conclusão. O fato político relevante é outro. Pela primeira vez, a discussão sobre a suficiência financeira do maior partido do país passa a integrar o cálculo eleitoral antes mesmo de a campanha começar. Isso altera o ambiente político, produz incertezas e transforma a disputa interna por prioridade em um componente da estratégia eleitoral.

As pesquisas continuarão medindo a preferência do eleitor. Mas talvez não respondam à pergunta mais importante desta fase da sucessão. Antes de saber quem vencerá nas urnas, será preciso descobrir quem continuará ocupando os primeiros lugares na fila de prioridades do próprio partido. Porque, quando o dinheiro deixa de ser suficiente para todos, o fundo eleitoral também revela a verdadeira hierarquia do poder.

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