Por João Zisman - 15/09/2026 09:19:01 | Foto: TV Globo/Reprodução
É difícil disputar atenção com o Supremo nesta terça-feira. O plenário se reúne, a Praça dos Três Poderes muda de rotina, a segurança é reforçada e boa parte do país estará olhando para alguns ministros tentando entender até onde chegou uma crise que, desta vez, entrou pela porta da própria Corte. O resto do noticiário vai encolher por algumas horas. Não porque tenha ficado menos importante, apenas porque existem dias em que uma notícia faz sombra sobre todas as outras.
No Distrito Federal, a sombra é ainda mais curiosa. Basta sair do Supremo e andar um pouco pela cidade para encontrar Daniel Vorcaro novamente. Não mais nas conversas com Alexandre de Moraes ou nas perguntas que levaram o caso ao plenário, mas no BRB, nas carteiras compradas do Banco Master, nos bilhões envolvidos e numa história que o governo ainda tenta colocar em ordem.
E colocar em ordem talvez seja uma expressão generosa.
O afastamento cautelar de cinco funcionários ligados às operações com o Master, entre eles dois ex-diretores, mostra que a crise começa a caminhar pelos corredores do próprio banco. Durante meses ficamos olhando para as cifras, para as investigações e para os personagens mais conhecidos. Agora aparecem perguntas menos abstratas e, talvez por isso mesmo, mais incômodas: quem fez, quem autorizou, quem sabia e até onde subia a cadeia de decisões.
Esse caminho pode levar a responsabilidades individuais, pode revelar falhas de controle, pode mostrar coisas que ainda não conhecemos. Convém não escrever a sentença antes da investigação. Mas também já passou da hora de tratar o episódio como uma operação que simplesmente deu errado. Há dinheiro público, um banco público e decisões que precisam ser explicadas.
E existe uma pergunta que nenhuma sessão extraordinária do Supremo deveria conseguir esconder: afinal, qual é hoje a situação real do BRB?
Enquanto se procura uma engenharia de bilhões para reforçar o capital da instituição, o Distrito Federal ainda espera uma fotografia financeira suficientemente clara do que ficou depois do Master. O governo precisa encontrar uma saída e seria irresponsável torcer pelo contrário, porque enfraquecer o BRB para atingir politicamente quem está no governo seria trocar uma disputa eleitoral pelo patrimônio da cidade. Só que defender o banco não significa conceder licença para não perguntar como ele chegou até aqui.
Talvez esse seja o ponto mais desconfortável da história. É possível querer salvar o BRB e, ao mesmo tempo, exigir todas as explicações. Uma coisa não absolve a outra.
Nesta terça-feira, porém, quase tudo isso ficará algumas horas debaixo da nuvem do Supremo. Lá, Vorcaro aparece numa crise institucional que envolve Alexandre de Moraes e coloca a própria Corte diante de perguntas que ela preferiria não ter de responder. Aqui, aparece numa crise financeira e administrativa que alcançou o banco do Distrito Federal. São histórias diferentes, com responsabilidades diferentes, e seria preguiçoso juntá-las numa espécie de grande conspiração. Mas separá-las como se nunca tivessem se tocado também começa a exigir algum esforço.
No fim, é o mesmo personagem passando por duas portas importantes da capital.
A eleição continua, o governo continua administrando seus problemas, Arruda continua brigando com a Justiça Eleitoral, Celina continua carregando o BRB no pacote político de uma campanha que certamente preferiria discutir outras coisas. Só que hoje tudo isso ficará meio fora de foco. As câmeras estarão apontadas para o Supremo e, dependendo do que sair de lá, continuarão apontadas por algum tempo.
Depois elas mudam de direção. Sempre mudam.
E quando a nuvem sobre Brasília finalmente andar, o BRB continuará no mesmo endereço. A conta também. E algumas perguntas, por mais que se tente empurrá-las para depois, não parecem dispostas a ir embora.
























