A opinião pessoal do colunista politico João Zisman: Quando a política deixa o plenário
A opinião pessoal do colunista politico João Zisman: Quando a política deixa o plenário

Por João Zisman - 01/07/2026 10:54:20 | Foto: Câmara Legislativa do DF

Ao limpar a pauta antes do recesso, a Câmara Legislativa não apenas encerrou o semestre. Também sinalizou que a disputa política do Distrito Federal começa a migrar para as ruas, onde obras, entregas e presença nas regiões administrativas passam a valer mais do que discursos.

Quem acompanhou apenas a extensa pauta de votações da Câmara Legislativa na última terça-feira provavelmente enxergou um Parlamento cumprindo sua obrigação antes do recesso. Quem observa o funcionamento da política por um ângulo mais amplo percebe algo diferente. A sessão marcou o encerramento de um ciclo institucional e, ao mesmo tempo, o início de outro ciclo essencialmente político.

Não houve pressa por acaso. A aprovação da Lei de Diretrizes Orçamentárias de 2027, a criação das regiões administrativas da 26 de Setembro e de Ponte Alta, os projetos voltados à segurança pública, à saúde mental, à assistência social e ao desenvolvimento rural formam um conjunto de decisões que dificilmente seria concentrado em uma única sessão se o objetivo fosse apenas esvaziar a pauta. O movimento revela uma escolha deliberada: deixar encaminhados os principais temas legislativos para que o segundo semestre seja ocupado menos pela construção das leis e mais pela construção das narrativas políticas.

Essa mudança de eixo costuma passar despercebida porque não produz manchetes tão chamativas quanto uma crise ou uma disputa aberta entre governo e oposição. No entanto, ela costuma ser muito mais reveladora. A política raramente anuncia quando muda de fase. Ela simplesmente começa a se comportar de maneira diferente.

Até aqui, o centro das atenções esteve voltado para as negociações entre Executivo e Legislativo, para a aprovação de projetos estruturantes e para a organização da agenda administrativa do governo. A partir de agora, o foco tende a se deslocar gradualmente para aquilo que cada parlamentar conseguirá transformar em presença concreta junto ao eleitor. É o período em que agendas nas cidades, visitas às regiões administrativas, acompanhamento de obras, reuniões comunitárias e entregas de governo passam a ocupar um espaço cada vez maior na rotina dos distritais.

A criação da 26 de Setembro e de Ponte Alta simboliza bem essa transição. Embora a medida tenha evidente alcance administrativo, seu efeito político vai muito além da reorganização territorial. Novas regiões administrativas significam novas estruturas governamentais, novos canais de interlocução com a população, novos espaços de representação e, inevitavelmente, novos ambientes de influência política. Comunidades que antes disputavam atenção dentro de administrações maiores passam a ter identidade institucional própria, ampliando tanto sua capacidade de reivindicação quanto o interesse dos agentes políticos em consolidar presença nesses territórios.

Ao mesmo tempo em que o governo amplia sua estrutura administrativa, também procura demonstrar responsabilidade fiscal. A aprovação da LDO de 2027 procura preservar a capacidade de investimento do Distrito Federal sem perder de vista os limites impostos pelo equilíbrio das contas públicas. Não deixa de ser uma equação delicada. Criar novas administrações, expandir políticas públicas e manter investimentos exige recursos permanentes, o que transforma a boa gestão fiscal em condição indispensável para sustentar o discurso de eficiência que o Executivo pretende levar adiante.

Se a Câmara procurou encerrar pendências legislativas, o Tribunal de Contas do Distrito Federal lembrou que governar não se resume a aprovar projetos. A decisão que impede novos adiamentos na renovação da frota da Viação Marechal recoloca o transporte coletivo entre os principais desafios da administração distrital. Ao exigir que a Secretaria de Mobilidade cumpra rigorosamente as cláusulas contratuais e responsabilize a concessionária, o TCDF transfere o debate do campo político para o da execução. É um recado de que a sociedade cobrará menos anúncios e mais resultados.

Essa talvez seja a principal característica do segundo semestre que começa agora. Depois de meses dedicados à formulação de políticas, o Distrito Federal entra em um período no qual a capacidade de executar passará a pesar mais do que a capacidade de propor. A população dificilmente acompanhará os detalhes das votações realizadas no plenário, mas perceberá rapidamente se a nova região administrativa ganhou serviços, se os ônibus melhoraram, se as obras avançaram e se as políticas aprovadas chegaram efetivamente ao cotidiano das pessoas.

É justamente nesse ponto que a sessão da última terça-feira revela seu verdadeiro significado. Os distritais não apenas organizaram a pauta antes do recesso. Organizaram também o calendário político que antecede um ano decisivo para quem pretende renovar seu capital eleitoral. O plenário continuará funcionando depois das férias legislativas, mas o centro da disputa já começou a mudar de endereço.

Nos próximos meses, menos projetos de lei definirão o ambiente político de Brasília. Serão as entregas. Porque, quando uma Câmara resolve quase tudo o que precisava votar antes do recesso, ela também faz uma escolha silenciosa: deixa de disputar espaço dentro do plenário para voltar a disputar confiança do lado de fora dele.