Por João Zisman - 23/10/2026 09:52:28 | Foto: Divulgação
Quando o relógio bateu meia-noite, na passagem de quinta para sexta-feira, a lei tirou das campanhas a possibilidade de pagar para impulsionar propaganda na internet. Não tirou do eleitor a vontade de encaminhar alguma coisa. Os profissionais da política descobriram um distribuidor que não exige contrato, salário nem reembolso: o próprio cidadão. Recebe a mensagem, acrescenta um comentário, discute com um conhecido e manda adiante. Às vezes, presta mais serviço ao candidato do que o candidato presta à conversa.
Nem sempre foi assim. Em 1998, Fernando Henrique falava de estabilidade, de preservar o que o Plano Real havia mudado na vida das pessoas. Em 2002, Lula apareceu de paz e amor para conquistar a confiança de quem ainda tinha receio dele. Vieram campanhas de continuidade, de mudança, de indignação. O eleitor nunca deixou em casa o medo, a esperança ou a vontade de melhorar de vida. Mas havia uma preocupação em lhe oferecer alguma perspectiva de amanhã, mesmo quando a promessa era discutível.
A mudança é que já não basta conquistar o eleitor. É possível colocá-lo para trabalhar. Não por obrigação, naturalmente. Muita gente participa porque acredita e gosta de defender sua escolha. As redes abriram espaço para quem antes só ouvia, o que tem seu valor. As campanhas, porém, perceberam que podiam transformar essa participação numa rede de distribuição. O eleitor passou a ser também o veículo. E um veículo que ainda empresta a credibilidade do próprio nome.
Em 2018, o WhatsApp ganhou peso na circulação de mensagens políticas. Em 2022, os vídeos e as plataformas aceleraram a disputa pela atenção. Em 2026, uma pessoa pode passar horas discutindo candidatos sem esbarrar numa proposta nova. Não por falta de assunto. Saúde, segurança, emprego e contas públicas continuam esperando explicação. Mas um desaforo viaja mais leve do que uma proposta que precise de três parágrafos.
Tem uma mudança ainda mais curiosa. Parte da propaganda já não pede apenas que o eleitor acredite no candidato. Oferece a satisfação de estar certo sobre o adversário. A mensagem nem precisa ensinar grande coisa. Basta combinar com a antipatia de quem a recebe. Compartilhar passa a ser também um jeito de avisar a que grupo se pertence. E corrigir um boato, nesse ambiente, pode soar como provocação pessoal.
Em 2024, o DataSenado constatou que metade dos entrevistados que haviam encontrado notícias suspeitas nas redes considerava difícil distinguir o verdadeiro do falso. Não quer dizer que o brasileiro tenha desaprendido a pensar. Quer dizer que precisa fazer esse serviço no meio de propaganda, opinião, notícias e, agora, voz e imagem produzidas por inteligência artificial. A mentira não inventou a amizade, mas aprendeu a viajar com o nome de alguém conhecido.
O debate da Band, no domingo, deu uma amostra desse ambiente. Lula e Flávio Bolsonaro falaram de temas importantes, mas também gastaram tempo com provocações. Nesta sexta, na Globo, terão nova oportunidade. Podem explicar o que pretendem fazer no governo ou continuar disputando quem consegue tirar mais o outro do sério. O país tem questões que não cabem numa troca de desaforos.
Em quase trinta anos, as campanhas aprenderam a falar com o eleitor de todos os jeitos. A última novidade é fazê-lo falar por elas. Tudo muito moderno. Só está faltando inventar um jeito de o candidato responder por si mesmo.
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