Por João Zisman: Brasília precisa separar investigação de colapso
Por João Zisman: Brasília precisa separar investigação de colapso

Por João Zisman - 19/05/2026 09:16:34 | Foto: Divulgação IPHAN

Brasília entrou numa zona delicada em relação ao caso BRB/Master. O ambiente político, o noticiário e as redes sociais passaram a operar diariamente sob cifras gigantescas, projeções alarmantes e uma sucessão de informações que muitas vezes chegam ao público sem a necessária separação entre aquilo que já representa prejuízo efetivamente comprovado e o que ainda corresponde a risco, exposição financeira ou impacto potencial. No meio dessa avalanche de números, começa a surgir uma preocupação silenciosa dentro do próprio Distrito Federal: como permitir que as investigações avancem até as últimas consequências sem transformar o próprio BRB numa vítima definitiva da crise?

Essa talvez seja hoje a questão mais sensível para Brasília. O BRB não é apenas mais um banco dentro do sistema financeiro nacional. Trata-se de uma instituição profundamente integrada à vida econômica do Distrito Federal, conectada à folha de servidores, ao crédito imobiliário, ao comércio, às empresas locais, ao financiamento da economia regional e à própria estrutura financeira do governo. Quando a confiança sobre uma instituição desse tamanho começa a ser atingida diariamente, o impacto deixa rapidamente de ser apenas político ou jurídico.

É justamente nesse ponto que parte do debate público começa a perder precisão. Nos últimos dias passaram a circular números bilionários apresentados muitas vezes como se fossem prejuízo consolidado. Só que crises financeiras operam de maneira muito mais complexa do que o impacto imediato das manchetes. Uma instituição pode ter bilhões de reais expostos a operações problemáticas sem que isso signifique automaticamente perda definitiva naquele mesmo valor. Exposição financeira, risco potencial, ativos vinculados e operações sob investigação não são exatamente a mesma coisa que prejuízo efetivamente realizado. E essa diferença, embora técnica, se torna decisiva num ambiente em que percepção pública e confiança institucional passam a influenciar diretamente o próprio funcionamento do banco.

Isso evidentemente não reduz a gravidade do caso. As investigações precisam avançar, responsabilidades precisam ser apuradas e eventuais irregularidades devem ser enfrentadas com profundidade. O problema começa quando o debate público passa a operar permanentemente sob sensação de colapso absoluto, porque banco vive também de percepção pública. Em instituições financeiras, a dimensão reputacional rapidamente deixa de ser apenas questão de imagem. Ela influencia confiança de mercado, ambiente regulatório, percepção de solvência, capacidade de captação e até o grau de dificuldade das próprias soluções necessárias para estabilização da operação. Autoridades monetárias, órgãos de controle, investidores e parceiros institucionais inevitavelmente reagem também ao ambiente psicológico que se forma em torno da instituição.

Talvez por isso o governo Celina Leão tenha passado os últimos dias tentando transmitir uma mensagem dupla: reconhecer a dimensão do problema sem alimentar sensação de descontrole institucional. A fala da governadora de que a solução financeira do BRB “está encaminhada” conversa diretamente com esse esforço de estabilização. O que está em curso hoje envolve reorganização patrimonial, reforço de capital, ajustes operacionais e reconstrução gradual de confiança junto ao mercado e aos correntistas. São processos que possuem prazos regulatórios, negociações financeiras delicadas e etapas técnicas que não se resolvem da noite para o dia, especialmente num ambiente de enorme exposição política.

Ao mesmo tempo, as investigações da Polícia Federal continuam avançando, novas informações seguem aparecendo e o caso mantém forte repercussão nacional. Nada disso deve ser interrompido ou relativizado. Se houve irregularidades, favorecimentos indevidos ou operações incompatíveis com o interesse público, tudo precisa ser esclarecido com profundidade e transparência. Mas talvez exista um cuidado adicional que Brasília precise começar a incorporar ao debate: o desafio não é proteger pessoas. O desafio é impedir que o processo de apuração destrua a própria instituição que pertence à população do Distrito Federal.

Talvez valha recordar uma frase atribuída a Miguel Arraes: “não vamos destruir com os pés o que construímos com as mãos”. Porque, no fim, o BRB continuará sendo do Distrito Federal depois que a crise passar.