A opinião pessoal de João Zisman sobre politica do DF e do Brasil:  Quando a suspeita encosta no Judiciário
A opinião pessoal de João Zisman sobre politica do DF e do Brasil:  Quando a suspeita encosta no Judiciário

Por João Zisman - 17/04/2026 10:59:28 | Foto: Divulgação

Os fatos desta semana não disputam espaço. Eles se somam, se encadeiam e começam a apontar na mesma direção. Declarações, investigações, movimentos políticos e episódios que, vistos isoladamente, poderiam ser tratados como ruído, passam a compor um quadro que já não se sustenta como exceção.

A fala do ministro do STJ, João Otávio de Noronha, de que “todo mundo está vendendo voto”, não pode ser relativizada como excesso verbal ou comentário de bastidor que escapou ao ambiente privado. Não é uma denúncia formal, não há nomes, não há casos individualizados. Mas há algo mais relevante do que isso. Há a exposição de um ambiente que, há muito, circula de forma difusa entre investigações, suspeitas recorrentes e punições pontuais que jamais alteraram a percepção geral.

O problema é que essa percepção encontrou eco imediato em outros movimentos.

O relatório da CPMI do Crime Organizado, conduzido pelo senador Alessandro Vieira, delegado de polícia de carreira, avançou sobre um território que historicamente permanece protegido. Ao propor o indiciamento de ministros do Supremo Tribunal Federal, rompeu uma barreira institucional relevante. O relatório acabou rejeitado no plenário, mas não por esvaziamento de conteúdo. A rejeição foi precedida por movimentação política direta, com substituição de membros da comissão, alterando o equilíbrio que indicava, até então, sua aprovação.

A investigação seguiu uma lógica conhecida. Rastrear fluxos financeiros, identificar circuitos de lavagem de dinheiro, mapear operações que conectam estruturas formais e interesses de origem difusa. É nesse percurso que o caso do Banco Master deixa de ser apenas um episódio financeiro e passa a orbitar um conjunto mais amplo de relações.

Os ministros citados no relatório não aparecem como protagonistas de vínculos diretos com organizações criminosas. Esse ponto precisa ser preservado com rigor. O que o documento aponta são interações periféricas, decisões, atos processuais e contextos que tangenciam o ambiente investigado. Viagens, encontros em espaços de alto padrão, circulação em ambientes onde interesses econômicos e institucionais se cruzam, honorários de grande monta. Elementos que, isoladamente, não configuram ilegalidade, mas que, quando observados em conjunto, exigem explicação.

E o dinheiro não se limita ao sistema financeiro.

Ele se desloca. E, ao se deslocar, ocupa espaços.

O avanço do crime organizado no Brasil seguiu exatamente esse caminho. Deixou de atuar apenas na violência direta e passou a operar com sofisticação financeira, utilizando estruturas formais, fundos e operações que transitam por ambientes como a Faria Lima. PCC e Comando Vermelho não são mais apenas organizações territoriais. Tornaram-se agentes econômicos com capacidade de infiltração.

Esse movimento se reflete também nos serviços públicos. O setor de transporte, em diferentes estados, já foi alvo de operações que evidenciaram a presença direta ou indireta dessas organizações em contratos, concessões e estruturas operacionais. Não se trata de hipótese. Trata-se de histórico documentado.

No campo político, o caso de Rodrigo Bacellar, ex-presidente da Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro, cassado e alvo de múltiplas investigações, é frequentemente citado em apurações como peça relevante na interface política de estruturas associadas ao Comando Vermelho no estado. Mais uma vez, não se está diante de um episódio isolado, mas de um padrão que se repete com variações regionais.

Do outro lado, as milícias avançaram com lógica semelhante. Ocupam territórios, exploram serviços, influenciam decisões e se infiltram em estruturas do Estado com alto grau de adaptação. Já não há uma linha clara de separação entre essas dinâmicas. Em alguns pontos, elas se cruzam.

Nesse ambiente, uma fala recente amplia ainda mais o desconforto.

O ministro Gilmar Mendes mencionou, em tom informal, informação que teria recebido de um diretor-geral da Polícia Federal, cuja identidade e período no cargo não foram detalhados, segundo a qual dezenas de deputados estaduais do Rio de Janeiro receberiam mesadas oriundas do jogo do bicho. A gravidade da afirmação não está apenas no conteúdo, mas na ausência de consequência visível.

Se há informação, por que não há investigação formal conhecida? Se há suspeita, por que ela permanece no campo da confidência? A institucionalidade não comporta esse tipo de registro como comentário lateral. Ou há elementos suficientes para apuração, ou a afirmação não poderia ser feita nesses termos.

Esse é o ponto mais sensível.

Não é apenas o que se investiga, o que se suspeita ou o que se comenta. É a sensação de que, em determinados momentos, o sistema reconhece suas próprias fragilidades, mas não reage com a intensidade que o cargo e a função exigem.

É nesse contexto que propostas como a do governador de Minas Gerais, Romeu Zema, passam a ganhar espaço. Ao defender mudanças no Supremo Tribunal Federal, com mandato para ministros, idade mínima mais elevada e restrições à atuação de familiares na advocacia, ele não cria a tensão. Ele se apoia nela.

A ideia de transformar o Supremo no ponto final de uma trajetória, e não em um espaço de projeção, dialoga diretamente com um ambiente que já não oferece conforto institucional pleno.

O que esta semana expôs não foi um escândalo fechado. Foi algo mais difícil de lidar. Um conjunto de sinais que, quando organizados, deixam de parecer dispersos.

A suspeita não chegou ao Judiciário por um único fato. Ela se aproximou aos poucos.

E agora já não pode mais ser ignorada.

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