A opinião pessoal do colunista politico nacional João Zisman: O latido da política
A opinião pessoal do colunista politico nacional João Zisman: O latido da política

Por João Zisman - 01/08/2026 12:30:54 | Foto: Divulgação João Zisman

Seu Waldir era dessas figuras que toda cidade pequena conhece. Quase sempre vereador, cabo eleitoral quando não disputava eleição, sabia o nome das famílias, conhecia cada canto da cidade e tinha um talento especial para contar causos. Em qualquer roda, bastava alguém tocar num assunto para ele emendar uma história, quase sempre com ele próprio no papel principal.

Só havia um detalhe.

Seu Waldir era gago.

A gagueira nunca o impediu de fazer campanha, discursar ou conversar com o povo. As palavras demoravam um pouco mais para sair, tropeçavam nas primeiras sílabas, mas vinham sempre acompanhadas da convicção de quem falava como testemunha dos próprios feitos.

Seu companheiro inseparável era um cachorro chamado Rex.

Na mesma cidade vivia Vilas Boas, cartorário e adversário político de seu Waldir. Nas eleições, cada um defendia o seu lado. Fora delas, dividiam a mesma mesa de bar, numa época em que a política permitia divergências nas urnas sem impedir a amizade.

Depois de ouvir tantos causos de seu Waldir, Vilas Boas resolveu criar o próprio.

Passou a contar que Rex era tão parecido com o dono que até latia gago.

Quando o cachorro se afastava, dizia ele, seu Waldir chamava:

"R... r... Rê... Rex! V... v... vem cá, R... R... Rex!"

Vilas Boas fazia uma pequena pausa. Olhava em volta para conferir se todo mundo estava prestando atenção.

Então arrematava:

"E o Rex respondia do mesmo jeito..."

"A... a... au! A... a... au!"

A gargalhada costumava chegar antes mesmo de o latido terminar.

A história correu pelas barbearias, pelas vendas, pelas calçadas e pelas rodas de conversa. Em pouco tempo, havia gente repetindo o causo sem saber mais quem o havia inventado.

Muita gente apostou que seu Waldir perderia a paciência.

Apostaram errado.

Passou a contar a história do Rex como se ela sempre tivesse feito parte do seu repertório. Em cada campanha, em cada reunião, em cada conversa de esquina, lá vinha o cachorro gago arrancando risos antes mesmo que alguém lembrasse da piada criada por Vilas Boas.

A provocação deixou de pertencer ao adversário.

Virou uma marca de seu Waldir.

Com o tempo, Rex acabou ficando tão conhecido quanto o próprio dono. E quem chegava depois já nem perguntava se a história era verdadeira. Perguntava apenas se alguém ainda lembrava do cachorro que latia igual ao dono.

Na política, há quem passe a vida tentando esconder os próprios defeitos. Os melhores fazem o contrário. Transformam a fraqueza em personagem e a caricatura em patrimônio.

Vilas Boas criou o causo.

Seu Waldir teve inteligência para adotá-lo.

E foi assim que Rex deixou de ser apenas o cachorro de seu Waldir para virar personagem da política brasileira.

Esta história foi adaptada por João Zisman a partir de um relato oral, preservando seus personagens e o espírito do episódio como parte da série A Política Brasileira Sempre Foi Assim.