A direita do Distrito Federal começou a discutir o que fingia já ter decidido
A direita do Distrito Federal começou a discutir o que fingia já ter decidido

Por João Zisman - 30/05/2026 10:07:59 | Foto: Divulgação João Zisman

O Distrito Federal amanheceu neste sábado com um ruído político novo dentro do PL local. Não se trata mais apenas da montagem da chapa ao Senado, da sucessão de 2026 ou da acomodação de lideranças bolsonaristas no DF. O que começou a circular com força nos bastidores, blogs e portais políticos da capital foi uma dúvida que o partido tratava até pouco tempo atrás como assunto encerrado: afinal, Bia Kicis disputará mesmo o Senado?

A pergunta ganhou força ontem em rodas políticas, blogs locais e conversas reservadas dentro do próprio campo bolsonarista. Não existe manifestação pública da deputada indicando desistência da disputa majoritária. Ao contrário. Bia reafirmou reiteradamente sua pré-candidatura ao Senado, lançada oficialmente pelo PL com apoio explícito de Michelle Bolsonaro, de Flávio Bolsonaro e do presidente nacional do partido, Valdemar Costa Neto.

Mas a política de Brasília raramente se move apenas pelas decisões oficiais. Ela também se move pelas dúvidas que começam a circular antes que alguém tenha coragem de verbalizá-las publicamente.

E o desconforto dentro do PL-DF começou a ficar perceptível.

A chamada “chapa pura” Michelle-Bia para o Senado foi construída como demonstração de força do bolsonarismo no Distrito Federal. O problema é que ela acabou comprimindo excessivamente o espaço político da direita local, especialmente após deixar fora da composição o ex-governador Ibaneis Rocha, que mantém projeto declarado para o Senado e relação histórica de aliança com Bolsonaro. O próprio noticiário político nacional já registrou que a definição da chapa causou frustração no entorno de Ibaneis.

Ao mesmo tempo, colunas políticas do DF já vinham trabalhando cenários alternativos muito antes do ruído atual. Ana Maria Campos, no Correio Braziliense, chegou a listar explicitamente a hipótese de Bia disputar novamente a Câmara Federal caso Michelle optasse por outro caminho político, inclusive compondo com Ibaneis ao Senado.

O cenário ganhou nova temperatura após o desgaste sofrido pela pré-candidatura de Flávio Bolsonaro com os áudios envolvendo Daniel Vorcaro. Ainda não existem pesquisas públicas capazes de medir impacto eleitoral concreto do episódio. Mas o caso recolocou em circulação, dentro do próprio bolsonarismo, a hipótese de Michelle voltar a ser considerada peça importante para uma disputa presidencial, possibilidade que já vinha sendo tratada como preferência pessoal de Valdemar Costa Neto em diferentes momentos do processo político recente.

Se isso ocorrer, o tabuleiro do DF inevitavelmente precisará ser redesenhado.

E é justamente aí que nasce o desconforto interno que começou a aparecer com mais força nos bastidores do PL local. Porque o partido precisaria reorganizar:

a disputa ao Senado;

a relação com Ibaneis;

a acomodação das lideranças bolsonaristas do DF;

e principalmente o equilíbrio entre projetos majoritários e proporcionais.

Não se trata ainda de ruptura. Nem de decisão tomada.

Mas já existe algo que Brasília percebe rapidamente quando começa a surgir: um ambiente de dúvida política dentro de um grupo que, até poucas semanas atrás, tentava transmitir sensação absoluta de unidade.

Enquanto isso, o Distrito Federal segue vivendo simultaneamente duas realidades. A política opera claramente em modo pré-eleitoral, mas a cidade tenta voltar a respirar temas cotidianos. O aniversário do Guará, as agendas regionais do GDF, as discussões sobre novas regiões administrativas, os eventos culturais e esportivos e a retomada da ocupação dos espaços públicos ajudam a devolver ao noticiário algum senso de vida real fora da hiperpolitização permanente das últimas semanas.

Mas 2026 já entrou definitivamente na rotina de Brasília.

E talvez o fato mais importante deste sábado seja justamente este: a direita do DF começou a discutir em público aquilo que até ontem fingia já ter resolvido.