Por João Zisman - 24/06/2026 10:51:36 | Foto: © VLADIMIR PLATONOW/AGÊNCIA BRASIL
O expediente do Governo do Distrito Federal termina às 16 horas nesta quarta-feira. A justificativa é conhecida dos brasileiros: a Seleção entra em campo pela Copa do Mundo e, como acontece há décadas, parte da rotina administrativa se adapta ao calendário do futebol.
A decisão, por si só, dificilmente despertaria maior atenção. O curioso é aquilo que ela ajuda a revelar sobre a forma como as cidades realmente funcionam.
Enquanto repartições públicas encerram suas atividades mais cedo, Brasília continua trabalhando. Os ônibus seguem transportando passageiros, os hospitais permanecem atendendo, policiais e bombeiros mantêm suas escalas, restaurantes continuam servindo clientes e milhares de trabalhadores cumprem jornadas que não cabem nos decretos administrativos. A cidade muda de ritmo, mas não para.
O próprio noticiário desta quarta-feira ajuda a compreender essa dinâmica. As agências do trabalhador oferecem mais de 800 vagas de emprego. Equipes de manutenção seguem atuando na rede elétrica. O transporte coletivo opera esquema especial para absorver o aumento da demanda provocado pela partida. Os serviços essenciais permanecem funcionando normalmente. Nada disso pode esperar o apito final.
A observação parece simples, mas carrega uma reflexão importante. Governos possuem horário de funcionamento. Sociedades não.
Existe uma tendência, especialmente em Brasília, de enxergar a realidade a partir dos prédios públicos. Talvez porque a capital concentre ministérios, tribunais, embaixadas, autarquias e toda a simbologia associada ao poder. Ocorre que a maior parte da vida econômica e social da cidade acontece longe dos gabinetes.
Ela acontece nos balcões do comércio, nos corredores dos hospitais, nas salas de aula, nas oficinas mecânicas, nos aplicativos de entrega, nos pontos de ônibus e nos pequenos negócios espalhados pelas regiões administrativas. É ali que a cidade produz riqueza, gera renda, movimenta mercadorias e sustenta a rotina de milhões de pessoas.
A Copa do Mundo apenas torna essa realidade mais visível. Durante algumas horas, o país direciona sua atenção para um único evento. Horários são alterados, compromissos são remarcados e agendas são reorganizadas. Ainda assim, a engrenagem continua girando. O pão continua sendo entregue, o paciente continua precisando de atendimento, o motorista continua procurando passageiros e o trabalhador continua buscando uma oportunidade.
Talvez por isso as cidades sejam organismos tão fascinantes. Elas possuem uma capacidade extraordinária de absorver mudanças sem perder completamente a continuidade. Adaptam-se sem interromper seu funcionamento. Reorganizam-se sem deixar de produzir.
Brasília amanheceu nesta quarta-feira sob o impacto de um jogo de futebol. Mas o que o dia mostrou foi algo muito maior do que a força da Seleção sobre os horários oficiais. Mostrou que existe uma diferença entre o tempo do governo e o tempo da sociedade.
O primeiro pode ser ajustado por decreto.
O segundo continua correndo, independentemente dele.


























