Por João Zisman - 13/09/2026 11:34:41 | Foto: Divulgação João Zisman
Outro dia me veio de novo à cabeça A Casa dos Espíritos, de Isabel Allende, livro que li há muitos anos e que depois revi no cinema, não porque eu me lembre de cada passagem ou de cada personagem, mas porque ficou em mim aquela casa cheia de histórias, afetos, ressentimentos e presenças que nunca desapareciam por completo, como se quem tivesse passado por ali continuasse de alguma maneira participando da vida dos que ficaram.
Talvez tenha sido justamente essa lembrança que me levou ao Brasil de agora, porque Allende conta uma história familiar ao mesmo tempo em que o Chile vai mudando ao redor dela, até o ponto em que a política deixa de ser algo externo e passa a entrar pela porta, a sentar à mesa, a modificar relações e a se misturar à vida íntima de todos. Guardadas todas as diferenças de tempo, circunstância e história, há alguma coisa de muito latino-americano nisso, essa tendência de imaginar que a política acontece longe, em gabinetes, tribunais e palácios, quando na verdade ela acaba invadindo conversas, separando amigos, criando ressentimentos e transformando divergências em algo muito maior do que deveriam ser.
Foi por esse caminho que me lembrei também de Jorge Luis Borges e, mais especificamente, de O Jardim de Veredas que se Bifurcam, talvez porque ali exista uma ideia que conversa muito com o momento que estamos vivendo: a de que cada escolha abre um caminho e fecha outros, nem sempre de forma evidente, e que decisões tomadas para resolver um problema imediato podem levar, mais adiante, a lugares que ninguém imaginava alcançar. Não quero transformar Borges em comentarista do Brasil, o que seria uma pretensão descabida, mas é difícil não pensar nisso quando observamos instituições reagindo umas às outras, decisões produzindo novas decisões e cada movimento aumentando a sensação de que o país entrou num labirinto construído pelos próprios passos que foi dando.
O Supremo vive um momento assim, assim como o Senado e, de certa maneira, toda a política brasileira, mas foi justamente ao voltar mentalmente à casa de Isabel Allende que me ocorreu algo que me parece ainda mais interessante: nem todo espírito que permanece numa casa está ali para assombrá-la, porque alguns continuam presentes justamente como uma espécie de lembrança incômoda, vigilante e, às vezes, protetora.
Pensei em Sobral Pinto, que nunca foi ministro do Supremo, mas deixou na história brasileira uma presença que ultrapassou cargos e posições, e em Evandro Lins e Silva, que esteve naquela Corte e acabou retirado dela pelo AI-5. E aqui me permito um pouco do inevitável bairrismo pernambucano, porque nessa sala também cabem Barbosa Lima Sobrinho, com aquela teimosia quase vitalícia em defesa da democracia, e Joaquim Nabuco, de outro tempo e de outras batalhas, mas igualmente capaz de lembrar que um país só avança quando enfrenta aquilo que prefere esconder de si mesmo. Nenhum deles precisa ser transformado em santo ou dono da verdade; basta reconhecer que algumas pessoas continuam presentes muito depois de seu tempo, porque deixaram ideias, exemplos e até incômodos que ajudam os vivos a não perder completamente o rumo.
Esses são espíritos que pertencem à memória, mas existem também os vivos, e foi isso que me chamou a atenção quando treze ex-ministros e ex-presidentes do Supremo decidiram escrever ao atual presidente da Corte, Edson Fachin, manifestando confiança em sua condução e defendendo que os fatos fossem apurados com rigor, publicidade e respeito às regras. Não me parece um gesto corporativo, nem uma tentativa de esconder rachaduras, mas quase o contrário: talvez proteger uma instituição seja justamente reconhecer que a parede está estalando e que fingir que nada acontece é a maneira mais rápida de deixá-la cair.
Fachin está diante de uma Corte atravessada por tensões que já escaparam dos processos e chegaram ao terreno das relações pessoais, políticas e institucionais, e talvez sua tarefa mais difícil não seja proteger ministros, mas impedir que conflitos individuais acabem diminuindo uma instituição que é maior do que qualquer um dos seus integrantes. O Supremo existia antes deles e continuará existindo depois, desde que seus próprios moradores consigam compreender que, em determinados momentos, preservar a casa exige mais do que defender quem está dentro dela.
Essa ideia vale também para o Senado, para o Congresso e para a política brasileira de maneira geral, porque todas essas instituições carregam seus fantasmas, alguns antigos, outros que nós mesmos fomos fabricando ao longo do caminho, e o verdadeiro risco aparece quando ressentimentos, vaidades, ambições e vinganças deixam de ser apenas parte da natureza humana e passam a orientar decisões que deveriam servir a algo maior.
Foi isso que ficou comigo ao lembrar de Isabel Allende e de Borges: casas guardam memórias e caminhos se bifurcam o tempo todo, mas nem toda presença do passado é uma ameaça, assim como nem toda escolha feita no presente conduz ao lugar imaginado.
Talvez o Brasil esteja justamente diante de algumas dessas portas, e o que ainda dá alguma esperança é perceber que, entre tantos fantasmas produzidos pelo nosso próprio tempo, continuam existindo espíritos vivos e mortos dispostos a lembrar que a casa precisa sobreviver aos seus moradores.























