A opinião do cientista político João Zisman: O custo das três semanas
A opinião do cientista político João Zisman: O custo das três semanas

Por João Zisman - 21/10/2026 09:25:03 | Foto: © ARTE/AGÊNCIA BRASIL

Há eleições em que a dúvida é saber quem vai ganhar. No DF, a questão agora parece ser quanto tempo político custa uma disputa tão desequilibrada nas pesquisas. Celina Leão continua em campanha, Leandro Grass tenta alterar a tendência e Brasília segue com suas crises, à sombra de uma eleição presidencial que domina as atenções.

A pesquisa Real Time Big Data divulgada nesta terça-feira mostra Celina com 53% das intenções de voto, contra 37% de Grass, e 93% com a escolha definida. Pesquisa não substitui urna, mas uma reversão exigiria uma mudança de grandes proporções em poucos dias, sem que haja sinais consistentes disso até aqui.

A movimentação das ruas ajuda a entender a peculiaridade da disputa. No domingo, Grass participou de uma grande manifestação na Esplanada, discursou e buscou associar sua candidatura ao ato. É legítimo, mas o centro dessa mobilização está na campanha de Lula, não numa onda local por Grass. Uma coisa é levar gente à rua pelo presidente; outra é transformar esse entusiasmo em votos para o Buriti. A eleição do DF está no quintal da presidencial, mas não herda seus convidados.

Daí o contraste entre o barulho da campanha e a estabilidade das pesquisas. Grass provoca, cobra explicações sobre o BRB e procura um confronto que lhe permita crescer. Celina precisa preservar a vantagem sem agir como se a eleição estivesse vencida. Há movimentação política de sobra, o que não significa disputa equilibrada.

E pensar que tudo isso talvez pudesse ter terminado em 4 de outubro, inclusive se a identificação do número de Celina tivesse sido mais eficiente. Não dá para assegurar o resultado de uma hipótese, mas o segundo turno acrescentou três semanas a uma eleição que poderia estar encerrada. Para quem já governa, tempo não é detalhe. A administração continua funcionando, naturalmente; o que se divide é a agenda, a atenção e a energia política disponível para enfrentar os problemas.

O BRB é o exemplo mais evidente. A recuperação do banco exige decisões, entre debates sobre seu futuro e relatos de possível separação e venda de operações, hipótese que não deve ser tratada como decisão tomada. Celina descartou a privatização. Há ainda pressões na educação, questões com servidores e demandas locais que não diminuem porque os candidatos continuam pedindo votos.

Na Câmara Legislativa, outra eleição já começou. Wellington Luiz articula uma nova recondução à presidência, enquanto Eduardo Pedrosa reúne apoios para sucedê-lo. A composição da Mesa vai pesar na relação com os deputados em 2027, e seus acertos avançam enquanto o governo atravessa o segundo turno.

A ironia é que Celina caminha para uma reeleição provável, mas gasta dias que poderiam estar mais livres para administrar o BRB, negociar soluções e preparar a próxima etapa do governo. O calendário democrático deve ser cumprido, sem atalhos. Só não há como pedir ao banco, à Câmara ou aos moradores de Brasília que esperem pelo resultado. Na segunda-feira, a campanha terá acabado, mas os problemas continuarão no mesmo lugar.