Após mais de 25 anos de espera, Mercosul e UE se encontram neste sábado (17) para assinar acordo
José Henrique Mariante-berlim, Alemanha (folhapress) - 16/01/2026 15:55:48 | Foto: Ricardo Stuckert / PR
Após 26 anos de impasses, o acordo União Europeia-Mercosul deve sair do papel neste sábado (17), no Paraguai. O maior pacto de livre comércio do mundo, porém, ainda tem obstáculos a superar do lado europeu, em meio a protestos de agricultores, calendário eleitoral e uma oposição crescente.
Na quarta-feira (21), o Parlamento Europeu submeterá a voto uma resolução sobre a necessidade de enviar o tratado para apreciação do Tribunal de Justiça da UE. O pedido havia sido engavetado em dezembro pela presidente da Casa, Roberta Metsola, que prometera levar o assunto a plenário "a seu tempo", ou seja, depois da assinatura do documento.
Se aprovada, a medida teria caráter protelatório, algo que até os 145 eurodeputados envolvidos na operação reconhecem. A análise consumiria ao menos dois anos, abarcando diversos pontos da negociação, notadamente os que se referem à adequação dos produtos sul-americanos às regras sanitárias e ambientais do bloco.
Se a resolução for recusada, cenário mais provável até esta semana, a Polônia deverá tentar uma ação própria na corte, em Luxemburgo. Como estado-membro o país tem esse direito, apesar de o resultado ser incerto. "Não vamos deixar o acordo avançar mais", declarou à imprensa europeia o ministro polonês de Agricultura, Stefan Krajewski.
A Polônia, segunda maior economia agrária da Europa, atrás apenas da França, é contra a negociação e foi voto vencido na semana passada na reunião do Conselho da UE. Assim como os franceses, os mais estridentes no grupo de oposição, os políticos poloneses também estão sob forte escrutínio no campo doméstico. Na semana passada, o próprio Krajewski virou alvo dos agricultores, que espalharam esterco na entrada de sua residência.
O sentimento de que os políticos não fizeram o suficiente para barrar o tratado parece disseminado no continente, dada a quantidade de manifestações que pipocaram nos últimos dias. Na quarta-feira (14), em Paris, o primeiro-ministro, Sébastian Lecornu, sobreviveu a duas moções de censura e a tratores nas ruas.
Ainda que o debate no Parlamento tenha outros contornos, como a necessidade de garantir uma Europa menos dependente dos EUA e do comércio com a China, a pressão dos ruralistas também começa a fazer sombra na Casa. Segundo reportagem do site Politico, já existiria uma predisposição de eurodeputados espanhóis contra a ratificação do acordo.
Essa votação não deve ocorrer antes de abril ou maio. Só que, até lá, a Espanha, apoiadora do tratado devido ao caráter exportador de sua economia e pelos laços culturais com a América do Sul, enfrentará ao menos três eleições regionais. O calendário deixa os partidos de centro à mercê dos populistas, que historicamente buscam dividendos eleitorais juntos aos agricultores europeus.
Em Estrasburgo, além da ultradireita, o acordo UE-Mercosul sofre oposição também de parte da esquerda e dos Verdes -o tratado, na visão de ambientalistas, traria mais destruição aos biomas sul-americanos, associado a alto custo social.
Para observadores, a votação sobre uma eventual revisão jurídica, na quarta-feira, pode servir como termômetro do humor do Parlamento em relação à ratificação do documento.
Tecnicamente, o pacto já poderia entrar em vigor, declarou há alguns dias Olof Gill, porta-voz da Comissão Europeia. Nada indica, porém, que Bruxelas seguiria adiante com a abertura dos mercados sem conseguir antes a anuência do Parlamento.
A forte declaração deve ser um dos objetos de debate na Casa programado para esta segunda-feira (19). Os deputados discutirão o papel da Comissão Europeia na condução das negociações por força de uma moção de censura apresentada contra Ursula von der Leyen, a quarta em sete meses.
Proposta pelo grupo parlamentar Patriotas da Europa, do francês Jordan Bardella, a moção vai a voto na quinta-feira (22), com chances escassas de aprovação. Diferentemente dos debates anteriores, a presidente da Comissão Europeia nem comparecerá à sessão desta vez.
Superado todos esses obstáculos e aprovações equivalentes nos países do Mercosul, o maior tratado de livre comércio do planeta criará um mercado de 722 milhões de consumidores.
Após mais de 25 anos de espera, Mercosul e UE se encontram neste sábado (17) para assinar acordo
DOUGLAS GAVRAS-ASSUNÇÃO, PARAGUAI (FOLHAPRESS) - Após uma espera de mais de 25 anos, o Mercosul e a União Europeia devem finalmente assinar, neste sábado (17), um acordo para criar uma grande zona de comércio, buscando uma alternativa de comércio aos Estados Unidos e à China.
A união, que conta com mais de 720 milhões de consumidores, também é fonte de preocupações entre agricultores europeus e empresários do Brasil e Argentina.
As negociações começaram em 1999, e ele foi aprovado pela Comissão Europeia no último dia 9 . A assinatura está prevista para ocorrer em uma cerimônia no início da tarde, no teatro José Asunción Flores, em Assunção, no Paraguai (que detém a presidência rotativa do bloco).
Segundo os organizadores, na cerimônia estarão presentes o anfitrião, Santiago Peña, o presidente uruguaio, Yamandú Orsi, e o argentino Javier Milei.
O presidente Lula (PT) não é esperado no Paraguai e seu encontro com a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, assim como o presidente do Conselho Europeu, António Costa, ocorreu um dia antes, no Brasil. O representante do governo brasileiro será o chanceler Mauro Vieira.
O evento foi planejado inicialmente como um encontro dos chanceleres dos países, e os chefes de Estado foram convidados de última hora. Embora tenha trabalhado pelo avanço do tratado, Lula será o único dos quatro presidentes que não estará na cerimônia.
Após o longo processo, o Conselho da União Europeia aprovou, em 9 de janeiro de 2026, o acordo comercial com o Mercosul, um mês após Von der Leyen cancelar sua viagem ao Brasil para assinar o documento, devido à demora na aprovação pelos europeus.
O Conselho Europeu afirmou em comunicado que este é um "marco importante" na longa relação da UE com os países envolvidos no Mercosul no acordo, que "reflete o compromisso da União Europeia de estabelecer parcerias ao redor do mundo para diversificar o comércio".
Ainda é preciso buscar a aprovação pelos parlamentos dos países do Mercosul e pelo Parlamento Europeu, onde a batalha será mais complexa.
Em 2024, o volume de transações entre a UE e o Mercosul atingiu € 111 bilhões (R$ 693,4 bilhões). As exportações europeias incluem máquinas, produtos químicos e equipamentos de transporte, enquanto as do Mercosul são principalmente produtos agrícolas, minerais, celulose e papel.
O tratado reduzirá tarifas em mais de 90% do comércio bilateral, beneficiando a exportação de produtos europeus como automóveis e vinhos, enquanto permitirá que carne, açúcar e soja sul-americanos entrem na Europa.
Apesar disso, a assinatura não é um consenso. Empresários sul-americanos, sobretudo na combalida manufatura argentina, temem impacto na indústria, em segmentos como o automotivo, de calçados e de móveis.
Do outro lado, enquanto os embaixadores europeus aprovavam o pacto em Bruxelas, agricultores franceses protestavam em Paris com tratores, aumentando a crise do primeiro-ministro, Sébastian Lecornu.
A oposição na França quer usar essa aprovação, vista negativamente na França, para derrubar o governo e pressionar Emmanuel Macron. Partidos de ultraesquerda e ultradireita já apresentaram moções de censura contra Lecornu.
Os agricultores europeus temem que os produtos sul-americanos, que são mais competitivos devido a normas de produção menos rigorosas, possam inundar seus mercados.
Para mitigar essa resistência, a Comissão Europeia criou cláusulas que garantem proteção a setores como carne e aves, limitando a entrada de produtos sul-americanos sem tarifas e intervindo em caso de instabilidade do mercado.
O acordo também teve sua importância geopolítica aumentada recentemente, após a série de tarifas impostas pelo governo de Donald Trump a diferentes países e as críticas da Casa Branca ao multilateralismo.
Embora esteja suspensa do Mercosul, a Venezuela também ganhou espaço no noticiário internacional, após a ação dos Estados Unidos que culminou na prisão de Nicolás Maduro e a posse de Delcy Rodríguez como líder interina do país. Do lado europeu, a preocupação também aumentou com as ameaças de Trump à Groenlândia, que pertence à Dinamarca e à UE.
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