×
ContextoExato

Contexto Exato

Brasil - Brasília - Distrito Federal - 19 de maio de 2022

Canto que preserva. Funi-ô faz parte de projeto para manter a língua viva

Canto que preserva. Funi-ô faz parte de projeto para manter a língua vivaFoto: Correio Braziliense

A produtora Tâmara Jacinto vê nos registros uma maneira de preservar a cultura fulni-ô

Nahima Maciel-correio Braziliense - 24/12/2019 - 08:03:07

Registro em clipes e discos de cantos dos povos indígenas fulni-ô faz parte de projeto para a manter a língua viva. Etnia é uma das únicas que conseguiu preservar a própria língua.

Tâmara Jacinto era estudante de comunicação quando conheceu Santxiê Tapuya Fulni-ô, em 2008. Liderança indígena da etnia fulni-ô, Santxiê lutava para transformar o Santuário Sagrado dos Pajés, visado pela especulação imobiliária que resultou no setor Noroeste, em terra indígena protegida pela União. De lá para cá, houve perdas e algumas conquistas, Santxiê morreu, as terras foram demarcadas e o santuário, preservado. Na esteira dessa vontade de preservação, Tâmara embarcou em projeto de registro da língua e da música fulni-ô com a produção de um álbum e de três clipes. “O projeto todo é em homenagem às lutas do Santxiê, em homenagem à resistência pela demarcação do santuário. Desde que o conheci, minha trajetória mudou. Ele compartilhou comigo um olhar de mundo. E minha relação com eles vem se intensificando”, explica a produtora.

A produtora Tâmara Jacinto vê nos registros uma maneira de preservar a cultura fulni-ô (Raissa Azeredo/Divulgação - 15/7/19)
A produtora Tâmara Jacinto vê nos registros uma maneira de preservar a cultura fulni-ô

 (Raissa Azeredo/Divulgação - 15/7/19)

 (Raissa Azeredo/Divulgação - 15/7/19)

Tanto o álbum quanto os clipes são dedicados à cafurna, um dos três estilos musicais praticados pelos fulni-ôs. Com letras na língua yaathe entoadas em melodias com enfoque nas tradições religiosas, a cafurna é um instrumento fundamental para a preservação das expressões culturais da etnia. “Ela vem funcionando como ferramenta de manutenção da língua, principalmente para as crianças. Para além do processo de aprendizagem natural das crianças, a cafurna contribui no processo educativo”, explica Tâmara. Há ainda outras duas expressões musicais dos fulni-ô: o toré, que não tem letra e é cantado durante no ritual Ouricuri, secreto e sagrado, e o samba de coco, ritmo mais festivo, destinado às celebrações.


O registros para o clipe foram realizados com recursos do Fundo de Apoio à Cultura (FAC) (Raissa Azeredo/Divulgação - 15/7/19)
O registros para o clipe foram realizados com recursos do Fundo de Apoio à Cultura (FAC)

O Ouricuri é um dos maiores mistérios em relação aos fulni-ô e, para linguistas e antropólogos, um dos motivos de preservação da língua yaathe. Durante três meses, a cada ano, a comunidade se isola em uma aldeia reservada para o ritual. Não se sabe o que acontece por lá, mas existem especulações. Renovação, reforço dos laços e fortalecimento espiritual são algumas das explicações para o retiro e o isolamento contribui para a preservação da cultura.


Os fulni-ô estão entre os poucos povos indígenas do Brasil que conseguiram manter viva e ativa a língua mãe. Todos, das crianças aos adultos, falam o yaathe, cuja origem, segundo Tâmara, é milenar e não mudou desde a colonização. “No processo de genocídio dos povos indígenas, muitos perderam suas línguas, mas os fulni-ô conseguiram mantê-la como primeira língua”, garante. Segundo dados do IBGE, há hoje no Brasil 5.278 fulni-ô. A etnia pertence ao tronco macro-jê e a língua é considerada entre linguistas a única que se manteve viva entre os indígenas do Nordeste, de onde vêm os fulni-ô.


Segundo a linguista Fábia Fulni-ô, o yaathe é usado pela comunidade não apenas como instrumento de comunicação, mas como ferramenta de preservação das tradições. Por isso projetos como o de Tâmara são fundamentais. “A língua é o pilar da identidade deles”, avisa a produtora.


Os clipes e o disco foram gravados na Aldeia Multiétnica, na Chapada dos Veadeiros e as imagens foram captadas em três locações diferentes. Para gravar o disco, a produção montou um estúdio móvel em uma das ocas. A escolha pela mobilidade veio do produtor musical André Magalhães, responsável pelas gravações e acostumado a realizar registros musicais de culturas tradicionais. “Nossa opção, minha e do André, pelo estúdio móvel se deu principalmente pela dinâmica de canto dos fulni-ô. Assim como a maioria dos cantos tradicionais, a dança, o movimento do corpo, está intimamente ligada a música. Não conheço um povo indígena que cante sem dançar. No estúdio montado na Aldeia Multiétnica, dentro da oca, havia microfones espalhados no teto e nas laterais do círculo da dança para captar os sons na sua essência”, conta Tâmara. Enquanto dançam, os indígenas imitam sons da natureza, especialmente o das aves.


O disco foi produzido de forma independente, mas os clipes contaram com R$ 40 mil do edital de 2018 de Gravação, Registro e Distribuição em Música do Fundo de Apoio à Cultura (FAC). No total, 17 fulni-ô participam do projeto. O cuidado em captar o som diretamente no local nos quais as danças foram realizadas e a decisão de não interferir nas cenas fazem parte da maneira como André Magalhães e o Alan Schvarsberg, diretor de fotografia dos clipes, trabalharam.


Os fulni-ô ficaram conhecidos em Brasília por volta de 2011, quando teve início a articulação para instalar o setor Noroeste. No meio do caminho dos empresários e políticos que viabilizaram o empreendimento imobiliário havia uma aldeia indígena. “A ocupação da área do santuário acontece há muito tempo”, conta Tâmara. Santxiê chegou a Brasília na época da construção da cidade, junto com o irmão. O local, segundo laudo antropológico, tem resquícios de rituais de povos autóctones datados de muito antes da chegada do fulni-ô. Em 2011, começou o processo de aterramento e o tentativa de retirada dos indígenas. Santxiê era categórico: não tiraria o santuário dali. Daí nasceu a campanha Santuário não se move. O líder morreu em 2014 e somente no anos passado a comunidade do local assinou um acordo com a Terracap para demarcar 32 hectares de terra para o santuário.

Comentários para "Canto que preserva. Funi-ô faz parte de projeto para manter a língua viva":

Deixe aqui seu comentário

Preencha os campos abaixo:
obrigatório
obrigatório
10 artistas que emplacaram apenas uma música de sucesso

10 artistas que emplacaram apenas uma música de sucesso

Ter uma carreira estável na música é bastante difícil, e esses artistas, infelizmente, não conseguiram manter o sucesso com novos trabalhos

Relançamento da coletânea 'Exílios e Poeiras' traz obra menos conhecida de Joyce

Relançamento da coletânea 'Exílios e Poeiras' traz obra menos conhecida de Joyce

Há notas melancólicas também nos 36 poemas que Joyce publicou em seu primeiro livro

Livro reúne 70 obras do pintor José Antonio da Silva

Livro reúne 70 obras do pintor José Antonio da Silva

Trata-se de uma obra fundamental para conhecer aspectos da vida e obra de Silva raramente explorados em outras publicações.

Revista portuguesa publica artigo de Juiz do TJDFT sobre inovação

Revista portuguesa publica artigo de Juiz do TJDFT sobre inovação

No texto, o magistrado do TJDFT trata da abordagem do New Public Service, no âmbito dos estudos ligados à Administração

Verdades que ninguém te conta: A importância de falar sobre a maternidade real

Verdades que ninguém te conta: A importância de falar sobre a maternidade real

Livro recém-lançado pela Editora MOL em parceria com a Tip Top reúne relatos de mulheres sobre os desafios reais que chegam com a vida de mãe, como as mudanças no corpo e os julgamentos externos

Bolsonaro veta integralmente Lei Aldir Blanc, que previa R$ 3 bilhões anuais ao setor cultural

Bolsonaro veta integralmente Lei Aldir Blanc, que previa R$ 3 bilhões anuais ao setor cultural

Texto de autoria da deputada Jandira Feghali (PCdoB-RJ) calcula que medida alcançaria 4.176 municípios brasileiros

Cópia restaurada de 'Deus e o Diabo na Terra do Sol' será exibida em Cannes

Cópia restaurada de 'Deus e o Diabo na Terra do Sol' será exibida em Cannes

A última versão digitalizada do filme é de 2002 e tem qualidade inferior à atual

Autora estreante lança livro criado a partir do desejo de se comunicar durante a pandemia

Autora estreante lança livro criado a partir do desejo de se comunicar durante a pandemia

“Quando escrevo, é para me lembrar da esperança que eu mesma sei que tenho”, diz Nathália Ferreira

Eu acredito no livro!

Eu acredito no livro!

Numa necessidade rápida, até podemos contar com um trago de águas quase podres, mas para a vida, para beber água viva, o livro é o único lugar onde nos encontraremos com a civilização, com o melhor dela

Ribeirão Preto celebra a literatura nacional com o 'Revolução Poética na Fábrica'

Ribeirão Preto celebra a literatura nacional com o 'Revolução Poética na Fábrica'

Serão cindo dias de programação gratuita, reunindo 14 autores de referência do universo cultural brasileiro

Capas influenciam quase 30% das crianças na escolha do livro

Capas influenciam quase 30% das crianças na escolha do livro

Diante das diversas motivações que podem influenciar na escolha de um livro antes da compra, a capa é uma das mais citadas pelos entrevistados, em especial entre as crianças