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Carrefour adota parque na Amazônia, mas financia desmatamento em suas cadeias

Carrefour adota parque na Amazônia, mas financia desmatamento em suas cadeiasFoto: Divulgação / Prefeitura de Porto Velho

Carrefour adotou a Reserva Extrativista do Lago do Cuniã, em Rondônia, por um ano, com possibilidade de prorrogação por mais quatro

Daniel Giovanaz - Brasil De Fato | São Paulo (sp) - 15/02/2021 - 08:56:41

Rede varejista de origem francesa foi a primeira empresa a aderir ao programa Adote um Parque, do governo Bolsonaro

O Ministério do Meio Ambiente lançou, na última terça-feira (9), um programa de “adoção” de parques para custear a conservação da Amazônia.

A contradição é que a primeira empresa anunciada como parceira do Adote um Parque, o Carrefour Brasil, possui uma série de violações ambientais em suas cadeias de fornecimento.

A rede de supermercados de origem francesa desembolsará cerca de R$ 3,8 milhões e ficará responsável por preservar 75,9 mil hectares de floresta, na Reserva Extrativista do Lago do Cuniã, em Rondônia, por um ano, com possibilidade de prorrogação por mais quatro.

É o que se chama de greenwashing , que é uma maquiagem, uma fachada que a empresa coloca para dissimular suas práticas predatórias

Ao todo, foram colocadas para "adoção" 132 áreas unidades de conservação (UCs). Somadas, elas representam 15% do território da Amazônia, segundo o Ministério.

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“O Carrefour não tem moral para adotar um parque se ele não consegue conter a sua parcela de desmatamento da Amazônia. Ele está patrocinando o crime, na medida em que não rastreia sua cadeia produtiva”, avalia Marques Casara, diretor executivo da agência Papel Social, especializada em pesquisa de cadeias produtivas e projetos de comunicação nas áreas de direitos humanos e o meio ambiente.

Baseado em pesquisas realizadas para instituições como a Oxfam Brasil e a Organização Internacional do Trabalho (OIT), Casara ressalta que o Carrefour “financia a devastação da Amazônia” ao comprar carne de fornecedores que “criam gado em terra indígena e em área de desmatamento ilegal.”

“Então, [a adoção de áreas na Amazônia] é uma jogada de marketing”, completa Casara. “É o que tecnicamente se chama de greenwashing , que é colocar uma maquiagem, uma fachada para dissimular suas práticas predatórias”, conclui.

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Para Angela Kuczach, diretora executiva da Rede Pró-Unidades de Conservação (Rede Pró-UC), engajar a sociedade no apoio e na valorização das áreas protegidas requer transparência e credibilidade.

Ela enumera uma série de perguntas que não foram respondidas até o momento pelo Ministério.

“Tem que garantir transparência nos processos. Quais os critérios para eleger as unidades de conservação? O que se espera dessa adoção? Como isso vai ser feito? Quais resultados serão apresentados? O que a empresa está ganhando ao apoiar? É importante para a sociedade entender e não deixar nenhum tipo de desconfiança”, analisa.

Outra preocupação de Kuczach é o papel do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), que será responsável pela gestão das áreas, segundo o decreto de lançamento do programa Adote um Parque.

“Se a gestão é do ICMBio, essa instituição tem que ser cada vez mais fortalecida”, lembra a diretora executiva da Rede Pró-UC.

“Essa ameaça de fusão entre ICMBio e Ibama [Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis] é muito negativa. Não faz o menor sentido tentar atrair a iniciativa privada para apoiar as unidades de conservação e, ao mesmo tempo, tentar extinguir o órgão que gere as unidades”, acrescenta.

Foram colocadas para adoção 132 unidades de conservação na Amazônia / Marcelo Camargo/Agência Brasil

Posicionamento do Carrefour

O Brasil de Fato entrou em contato com o Carrefour para responder aos questionamentos.

Em nota enviada por seu setor de sustentabilidade, o Grupo Carrefour internacional informou que possui um plano de ação para acelerar seus esforços no combate ao desmatamento.

O CEO da rede, Alexandre Bompard, está liderando uma coalizão internacional de fabricantes e varejistas para tomar medidas que envolvam todos os atores da cadeia de fornecimento.

“Esta coalizão trabalha para erradicar o desmatamento em toda a cadeia de fornecimento – e isso é um desafio para comerciantes, agricultores, fornecedores – além de colaborar com os governos e a sociedade civil”, diz o texto.

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“No Brasil, para responder às questões de desmatamento ligadas à produção de carne bovina, o grupo mantém uma série de ações, muitas desenvolvidas há anos, sendo que a empresa já monitora 100% das carnes compradas, por sistemas de georreferenciamento via satélite, para garantir que a origem do produto seja sustentável e livre de desmatamento”, completa.

Um dos exemplos citados pela companhia é o compromisso assumido pela Fundação Carrefour de desenvolver uma cadeia produtiva “sem desmatamento” até 2030.

“Esta iniciativa apoia mais de 450 criadores de bezerros no estado de Mato Grosso, o principal produtor de carne bovina do país, capacitando-os sobre as melhores práticas de manejo, aumento de produtividade da terra e restauração e conservação da vegetação nativa”, acrescenta a nota.

O projeto conta com apoio financeiro de mais de 2 milhões de euros – cerca de R$ 13 milhões – da Fundação Carrefour.

A rede de supermercados possui uma seção em sua página institucional em que divulga as ações relacionadas à proteção dos direitos humanos nas cadeias produtivas.

Sobre o programa Adote um Parque, especificamente, o Grupo Carrefour Brasil elogiou a iniciativa do governo federal e disse que a “proteção dos 75.000 hectares de floresta é uma iniciativa pioneira para um grupo varejista, que visa a assegurar o não desmatamento no local, melhores condições de vida nas reservas e redução da emissão de CO²”.

Limites

Na avaliação de Casara, embora o Carrefour manifeste preocupação com o desmatamento em suas cadeias produtivas, essas iniciativas esbarram na falta de transparência.

“O programa de rastreamento do Carrefour não funciona, e não apenas para produtos oriundos da Amazônia. Isso ficou demonstrado na pesquisa que a gente fez sobre as frutas, com a Oxfam, na pesquisa que a Repórter Brasil e a Oxfam estão fazendo sobre o café”, afirma. “E, no caso da carne, é muito evidente, porque o Carrefour não rastreia os fornecedores e não oferece as informações com transparência.”

Em junho de 2020, a ONG Repórter Brasil mostrou que os supermercados Carrefour, Grupo Pão de Açúcar e BIG são abastecidos por frigoríficos que têm fornecedores ligados a desmatamento ilegal e criação de gado em terra indígena.

Para Angela Kuczach, impedir que uma empresa apoie uma unidade de conservação sob argumento de que há violações ambientais em suas cadeias seria o “cenário ideal”.

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No entanto, como o monitoramento transparente das cadeias é uma realidade distante, o mínimo que o governo pode fazer é garantir que a parceria seja realmente efetiva para proteção da biodiversidade.

“A partir disso, a gente iria para esse segundo passo, que é olhar para toda a cadeia, verificar as questões de boas práticas, sustentabilidade e governabilidade da empresa, e como o que ela faz impacta ou não o meio ambiente”, completa. “Seria um refinamento do processo, um passo mais avançado”, afirma.

Responsabilidade corporativa

O problema de falta de transparência nas cadeias produtivas não se restringe à rede de origem francesa. Em janeiro de 2021, a Oxfam Brasil divulgou um relatório que demonstrou que, além do Carrefour, Pão de Açúcar e BIG também não cumprem requisitos básicos de responsabilidade sobre suas cadeias produtivas.

Três maiores supermercados do Brasil não cumprem requisitos básicos de responsabilidade corporativa, segundo a Oxfam / Tânia Rego/Agência Brasil

“O que a gente reparou é que os maiores supermercados estão muito atrelados, ainda, a uma abordagem exclusivamente de auditoria, que é muito limitada”, disse o representante da Oxfam Brasil, Gustavo Ferroni, em entrevista recente ao Brasil de Fato .

“Não há transparência sobre quem foi auditado, quais foram os resultados, que padrão foi utilizado. Faltam informações públicas. Eles não revelam quais as cadeias produtivas críticas e quais os principais problemas”, completou.

Responsáveis pelo controle de 46,6% do setor no país, os três supermercados obtiveram uma média de 4 pontos na tabela da Oxfam, em que a pontuação máxima é 93. O mais bem colocado foi o Pão de Açúcar, com 6,5, contra 2,7 pontos do Carrefour e 2,2 do BIG.

Governo sem credibilidade

Diretor executivo da agência Papel Social, Marques Casara afirma que não é apenas a presença do Carrefour entre os parceiros que causa desconfiança sobre o programa Adote um Parque.

“O programa já começa suspeito por ter o ministro Ricardo Salles [do Meio Ambiente] à frente dele. É um bandido, um inimigo, que opera a favor da violência. Não só ele, como toda a estrutura do governo”, ressalta.

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Angela Kuczach, da Rede Pró-UC, concorda que a postura conivente de Salles e do presidente Jair Bolsonaro (sem partido) diante da devastação do Pantanal e da Amazônia impactam na credibilidade do programa.

“É um governo que, até o momento, não deu nenhum passo na direção de algo positivo na área ambiental; e aí fica muito difícil atrair apoiadores. Como o governo vai apresentar uma proposta dessas se ele mesmo não leva essa agenda a sério?”, questiona.

O Brasil de Fato apresentou os questionamentos e críticas ao Ministério do Meio Ambiente, mas não houve retorno.

Edição: Douglas Matos

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