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Cerrado pode fazer de Brasília o seu pomar

Cerrado pode fazer de Brasília o seu pomarFoto: Correio Braziliense

O biólogo e pesquisador Marcelo Kuhlman defende que sejam plantadas árvores frutíferas nativas no Plano Piloto e nas cidades do DF

Severino Francisco-correio Braziliense - 21/11/2019 - 08:10:15

Pomar urbano do cerrado

Para o pesquisador Marcelo Kuhlman, doutor em biologia pela Universidade de Brasília (UnB), a maior ameaça ao cerrado é o desconhecimento e a desvalorização. Por isso, ele propõe o plantio de árvores frutíferas nativas no Plano Piloto e em todas as cidades do Distrito Federal. Ainda é possível? “Está passando da hora, mas ainda há tempo e espaço”, responde o especialista.

Ele adverte que, certamente, esses plantios em áreas urbanas devem seguir um planejamento paisagístico e urbanístico. E levar em conta que as espécies nativas crescem em ritmo mais lento do que as plantas exóticas. É parte da natureza delas. Mas é preciso começar: “Aqui no DF existem inúmeros viveiros que comercializam mudas e sementes de espécies nativas.”

Para conhecer, é preciso conviver. E, hoje, isso só é possível em áreas restritas, como o Jardim Botânico ou o Parque Nacional. É preciso que o cerrado seja parte integrante do cotidiano das pessoas, sustenta Marcelo, que passou 10 anos em pesquisas para mestrado e doutorado, que convergiram para o livro Frutos e sementes do cerrado (Ed. UnB). Nesta entrevista, Marcelo comenta o plano urbanístico, o efeito educativo de conviver com as plantas, os desafios a serem enfrentados e os ganhos para os brasilienses de uma revivescência do cerrado no espaço urbano.

 (Arquivo Pessoal)

Como analisa as fruteiras “estrangeiras” que foram plantadas na cidade? O que faltou no planejamento do

plantio de árvores frutíferas nativas na cidade-parque?

Eu gostaria de esclarecer que sou apaixonado por toda e qualquer espécie de planta e não tenho nada contra o plantio de exóticas em áreas urbanas. Frutíferas como mangueiras, jaqueiras, amoreiras, abacateiros e jamelão se adaptaram extremamente bem ao clima de Brasília e são uma bênção por produzir grande quantidade de frutos gratuitamente para os moradores da cidade. Mas no planejamento do plantio poderiam ter sido mais consideradas as espécies nativas do cerrado, que é extremamente rico em espécies frutíferas. Isso talvez tenha ocorrido pela combinação de falta de conhecimento dessas espécies pelos “construtores” de Brasília; pelo fato de Brasília ter sido planejada e povoada por pessoas de outros estados, que deram preferência por plantar espécies de frutos da sua região de origem; e pela falta de conhecimento sobre o manejo e a domesticação das espécies nativas do cerrado.

Em que medida o plantio de árvores frutíferas do

cerrado enriqueceria o patrimônio floral da cidade?

Espécies nativas de frutos do cerrado possuem a vantagem de já estarem adaptadas ao clima e solo local, são riquíssimas em nutrientes e ainda servem de alimento para a fauna nativa, como diversas espécies de aves. O plantio de espécies como pequi, mangaba, araticum, jatobá, cagaita, murici, bacupari em áreas urbanas também valorizaria a flora local, que é um patrimônio genético e cultural da nossa região. Se a população desconhece as plantas que estão no seu quintal, a tendência é de que essas espécies caiam no esquecimento. Acredito que a maior ameaça ao cerrado é o seu desconhecimento e desvalorização. Nesse sentido, é necessário haver um resgate da identidade desse patrimônio entre os habitantes de Brasília para que esse conhecimento tradicional não se perca. Centenas dessas espécies frutíferas podem ser consultadas no meu site, Frutos Atrativos do Cerrado, e também no site Webambiente, um projeto em que estou dando consultoria na Embrapa.

Quais os efeitos na educação ambiental do brasiliense em relação ao cerrado?

O cerrado precisa ser conhecido para ser conservado e valorizado. Esse é o primeiro passo. É preciso criar laços entre a população e a flora que nos cerca. É necessário que as espécies do cerrado estejam mais presentes no cotidiano do brasiliense e não sejam apenas algo distante no tempo, que ficou na infância, ou que esteja restrito a unidades de conservação. Atualmente, coordeno um grupo aberto de trilhas aqui no DF chamado Descobrindo o Cerrado do DF, com objetivo de observar e fotografar espécies de plantas nativas da região. Recentemente, também foi lançado o Caminhos do Planalto Central, com apoio do Ibram, ICMbio e sociedade civil.

Existe uma resistência a plantar árvores nativas do cerrado,
pois elas não seriam frondosas (não dariam sombra) e demoram mais a florescer.
Quais as dificuldades a serem enfrentadas no plantio de árvores do cerrado na cidade?

De fato, espécies do cerrado, principalmente aquelas de formações savânicas, demoram mais a crescer e produzem menos sombra que espécies da Mata Atlântica, por exemplo. Isso se deve à natureza dessas espécies. Provavelmente muitas pessoas escutaram que “o cerrado é uma floresta invertida”. Isso porque essas plantas primeiro desenvolvem o sistema radicular, em busca de água no solo profundo, para depois despontarem a parte aérea, que produz frutos e sombra. Mas nesse caso é necessário aprender a trabalhar com a natureza dessas espécies. Fazendo-se as devidas combinações de plantas em um jardim ou pomar, por exemplo, pode-se criar efeitos paisagísticos belíssimos com as nativas. Um pequizeiro mesmo é belo por completo, produz frutos e castanha comestíveis, flores maravilhosas e possui arquitetura fantástica. É preciso treinar o olhar e perder o preconceito para ver a beleza das plantas do cerrado.

O que é preciso conhecer?

Algo que precisamos entender também é que o cerrado é um mosaico de vegetação, com formações florestais, savânicas e campestres. Cada um desses ambientes possui um conjunto diferente de espécies, que está adaptado para os diferentes tipos de solos que há no bioma. Espécies nativas das formações florestais do cerrado, como as matas de galeria, são tão frondosas quanto as da Mata Atlântica. Assim, é preciso conhecer os diferentes conjuntos de espécies que se quer trabalhar na arborização urbana e em que tipo de solo elas se desenvolveriam melhor. Também facilitaria muito o plantio das espécies do cerrado se elas passassem por um processo de domesticação. Isso vem sendo feito pontualmente por alguns pesquisadores, mas é necessário maior interesse por parte da população para que esses projetos ganhem mais força nas instituições de pesquisa.



Depoimentos

Plantio para restaurar

Sarah Oliveira, professora da UnB e
diretora da Rede
Sementes do Cerrado

“Com relação ao Plano Piloto, houve um projeto do Ibram, e não foi muito adiante, porque perceberam que era mais difícil. É preciso considerar a rede elétrica e os sistemas de águas pluviais. Até onde eu sei, não temos muita liberdade, porque o Plano Piloto é tombado. Claro que nos parques seria muito bom. Temos incentivado muito o plantio de sementes para restaurar parques e, principalmente, em áreas de nascentes. E existe o aspecto econômico. As sementes são coletadas por comunidades que aumentam a renda. O Ibram fez uma parceria com o plano de restaurar nascentes para evitar que a gente tenha seca tão drástica quanto a de 2016. No tempo das chuvas, sem planta, a água vira enxurrada. Existe um deficit grande de arborização em diversas áreas. Então, qualquer iniciativa é positiva. A semente é a origem de tudo.”

Descoberta e inovação

Zenilton Miranda, botânico

e pesquisador da Embrapa

“O ambiente do cerrado é biodiverso, tem biodiversidade frutífera e florífera subutilizada. Quando vai aos viveiros do DF, de Goiás e Mato Grosso, encontra pouquíssimas espécies. O incentivo do uso está sendo muito discutido em fruticultura, em paisagismo e na gastronomia. Cada vez mais as pessoas buscam descobrir esses elementos e trazer inovação a essas áreas. No nosso caso, temos deficit hídrico na época das secas. Essas espécies estão adaptadas aos padrões climáticos da região. No auge da seca, temos plantas do cerrado no ápice. Conheço políticas públicas na Alemanha e na Holanda. Você anda nesses balões e vê um paisagismo urbano que depende altamente da água. Enquanto isso, há uma biodiversidade florística que não precisaria tanto de aplicação da água. Então, vejo a iniciativa de plantar árvores nativas como algo mais do que positivo; é necessário que seja feito.”

Resistência e conservação

Cilene Maria de Camargos, coordenadora de projeto

de restauração de área degradada na 210 Norte

“Sou enfermeira, mas sou apaixonada pelo cerrado, estudo o tema e atuo no campo da educação socioambiental no Senado. Iniciei há quatro anos um trabalho de restauração de áreas degradadas na SQN 210 Norte, com o plantio da trepadeira nativa do cerrado, popularmente chamada de cipó mil homens. Produz uma flor muito grande de 50cm e tem um cheiro muito bom. Tinha área verde muito degradada, usada para estacionamento. Com o apoio da Novacap e do Viveiro do Lago Norte, comecei a estudar áreas degradadas. Demos prioridades às plantas que resistem mais, como o araçá-do-cerrado, a mutamba, o pau-congo e a cagaiteira. Usamos, também, o xixá-do-cerrado, a palmeira-guariroba, a palmeira-jeribá e algumas mudas de cajus-do-cerrado. É muito importante que as plantas nativas sejam reintroduzidas na cidade, pela resistência à seca, potencial nutritivo e preservação da água.”

Condições ecológicas

Júlio Pastore, professor das disciplinas Arborização urbana e
paisagismo,
da Faculdade de Agronomia e Veterinária da UnB

“Eu acho importante. Mas a gente pode dividir a arborização de Brasília em dois grupos: arborização das áreas extensas, próximas a pistas, em áreas remanescentes de cerrado e arborização estreita de áreas residenciais. Elas se diferenciam grandemente. Neste sentido, a condição do Plano Piloto é excepcional. Mas, se a gente considerar o DF como um todo, é a segunda pior em arborização do Brasil. Nas cidades da periferia, temos muitas ruas e calçadas estreitas, contato íntimo das pessoas com a vegetação. Então, é preciso considerar se essas árvores vão jogar sujeira em cima dos carros ou se vão deixar as calçadas escorregadias. Essa é a condição de 90% da população brasiliense. Fizemos um projeto para o Paranoá Parque que nos deixou várias lições. A gente tem uma emergência: arborizar a periferia. É preciso conhecer para que a proposta se torne possível”

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