Como ultraprocessados estão tomando lugar do tradicional prato saudável brasileiro

Mais de 40% dos jovens relataram o consumo diário desses produtos enquanto menos de um terço consome verduras

Como ultraprocessados estão tomando lugar do tradicional prato saudável brasileiro
Como ultraprocessados estão tomando lugar do tradicional prato saudável brasileiro

Por ana Carolina Vasconcelos e lucas Salum - Portal Bdf - 10/04/2026 16:34:33 | Foto: Informações levantadas acendem um alerta, já que apontam para altos índices de ingestão de sobremesas industrializadas e ultraprocessados em geral | Crédito: Agência Brasil

Foi divulgada recentemente a quinta edição da Pesquisa Nacional de Saúde Escolar (Pense), que traz, entre outros dados, números sobre o consumo alimentar das crianças e adolescentes nas instituições de ensino. As informações levantadas acendem um alerta, já que apontam para altos índices de ingestão de sobremesas industrializadas e ultraprocessados em geral.

Mais de 40% dos jovens relataram o consumo diário desses produtos. Também foi identificado alto nível de consumo de alimentos ricos em milho e carboidratos. Em contraposição, apenas um terço dos estudantes relataram comer verduras e legumes com frequência.

“A Pense é muito interessante, porque não fala apenas do que é ofertado dentro da escola, mas também do acesso que os adolescentes têm ao sair dela. As escolas públicas também têm acesso a ultraprocessados no entorno dos ambientes escolares, às vezes até mais do que as escolas particulares. Ao mesmo tempo, observa-se que tanto na escola pública quanto na privada existe uma oferta bastante expressiva de ultraprocessados”, explica, ao Conversa no Bem Viver , Marília Albiero, gerente de inovação e estratégia da ACT Promoção da Saúde.

Confira a entrevista completa:

Brasil de Fato: O que os dados encontrados com a pesquisa mostram? Qual é o panorama?

Marília Albiero: Eu acho que é importante tentarmos lembrar a função da escola. Esses inquéritos populacionais são muito importantes para pautar a política pública e esse olhar para a escola. A escola é onde passamos boa parte da nossa infância e adolescência. São muitas horas do dia, longos anos, onde, mais do que absorver conteúdo, você molda hábitos alimentares e forma cidadãos.

O que começamos a observar? A grande motivação da pergunta é esta: a escola está servindo mais para ser um local de proteção da criança e do adolescente ou um lugar onde se potencializam todos os fatores de risco? A Pense aborda vários pontos, não só a questão da alimentação, mas observamos que a escola poderia ser um local de transformações, principalmente falando de educação alimentar e nutricional, tendo também o lugar de prática para isso.

O importante da Pense é que ela traz dois tipos de cenários: a escola pública e a escola privada. Pode ser que a maioria dos ouvintes não saiba, mas o Brasil tem um Programa Nacional de Alimentação Escolar (Pnae), que tem mais de 50 anos e é responsável pela alimentação de mais de 40 milhões de estudantes.

Só que a escola pública também acaba tendo a possibilidade de colocar cantinas, lugares onde o estudante possa ter acesso a alimentos. Já na escola privada, há mais acesso às cantinas. Por isso é importante, na hora de falar da regulação e de olhar para esse ambiente alimentar, entender esse perfil do público e do privado.

Ao mesmo tempo que a escola pública poderia ter uma proteção maior por causa desse programa muito bem estruturado, que tem regulamentações que restringem o consumo de ultraprocessados, começa-se a observar também que não basta estar só inserido na escola. Existe todo um entorno escolar.

A Pense é muito interessante, porque não fala apenas do que é ofertado dentro da escola, mas também do acesso que os adolescentes têm ao sair dela. Esse é um dado que chama muito a atenção: as escolas públicas também têm acesso a ultraprocessados no entorno dos ambientes escolares, às vezes até mais do que as escolas particulares.

Ao mesmo tempo, observa-se que tanto na escola pública quanto na privada, quando há esse acesso à alimentação dentro da instituição, existe uma oferta bastante expressiva de ultraprocessados. E há outro dado importante que a Pense traz: ela não olha apenas o que é ofertado ou o acesso, mas também pergunta o que os adolescentes consumiram no dia anterior. Esses dados chamam a atenção porque mostram uma modulação dos hábitos alimentares. Realmente é marcante essa persistência dos ultraprocessados.

Você vê talvez uma certa migração de alguns produtos. A questão das sobremesas — leia-se sorvetes, chocolates e guloseimas — ganha protagonismo. Vê-se ainda muito refrigerante. Estou falando desses elementos porque vamos entender como isso se dá com a regulação. E chama muito a atenção o baixo consumo: mais de 50% dos adolescentes, no dia anterior, não fizeram a ingestão nem de frutas, nem de legumes.

Para isso, existem várias explicações. Uma é a disponibilidade física, que regula o ambiente escolar, e a outra questão, tão importante quanto, é o preço dos alimentos, que é outra rota em discussão, por exemplo, na reforma tributária. Você percebe que são duas variáveis — o acesso físico e o preço — que, combinadas à promoção e publicidade muitas vezes presente no ambiente escolar, formam esse combo que torna a alimentação não saudável mais acessível e presente na vida dos adolescentes.

O que são os ultraprocessados? Podemos colocá-los como um problema da sociedade moderna, dos últimos anos?

Primeiro, é uma vitória para a sociedade que essa nomenclatura “ultraprocessado” venha ganhando peso no debate público. É um termo que foi cunhado com a nova classificação em 2009, que classificou os alimentos não só pelos nutrientes, mas pelo grau de processamento. À medida que você vai processando o alimento, acaba distorcendo a matriz alimentar. Daqui a pouco, você não tem o alimento de origem, mas sim uma formulação química.

Isso vai muito além de usar aditivos para conservar o alimento. É justamente para mascarar aroma, sabor, textura e cor, para que se torne um produto mais barato e acessível, pois utiliza ingredientes como sal, açúcar e sódio em grande quantidade, além dessa combinação de aditivos. Então, perde-se a característica do alimento.

Às vezes temos dificuldade de explicar tecnicamente, mas sabemos reconhecer: são os biscoitos, bolachas, salgadinhos, refrigerantes, guloseimas e os industrializados de maneira geral, como os congelados. Por isso, ler o rótulo é importante para conhecer a composição.

O que é mais importante é que hoje temos uma literatura muito forte e consolidada; não existe mais dúvida da correlação dos desfechos negativos dos ultraprocessados com a saúde.

Vou citar dois pontos importantes. Saiu há uns dois anos na British Medical Journal um estudo associando o consumo de ultraprocessados a 32 tipos de doenças.

Então, não é mais apenas a questão da obesidade, sobre a qual por muito tempo se falou: “ah, basta aumentar a atividade física, o problema é o sedentarismo”. Infelizmente, não estamos falando apenas da obesidade, que além de doença é um fator de risco. Temos diabetes, doenças cardiovasculares, transtornos mentais e déficits cognitivos, que, na época escolar, são muito importantes.

Recentemente, saiu uma série na The Lancet, uma das revistas científicas mais importantes do mundo, sobre a questão dos ultraprocessados. Ela não fala apenas dos desfechos negativos na saúde, mas diz que a maneira de resolvê-los é com política pública. Traz também um elemento do porquê não conseguimos avançar: existe todo um setor que será regulado que, de certa forma, impede esses avanços, porque soluções existem. O que existe também é um grande conjunto de interesses nessas arenas, dos municípios ao Congresso Nacional, impedindo o avanço dessa regulação.

Quais vitórias já tivemos e, ao mesmo tempo, quais batalhas perdemos?

Muito do histórico das políticas regulatórias é inspirado no controle do tabaco. Essa é sempre a primeira resposta que damos quando dizem que não precisa de regulação: o tabaco está aí. Só avançou porque conscientização e sensibilização tinham um limite; entrou o papel da política pública.

São quatro grandes políticas regulatórias. A primeira é a da rotulagem. Ela foi a primeira que conseguimos trazer à tona depois de muito tempo. Temos a lupa reconhecendo três ingredientes críticos: sal, açúcar e gordura. Nossos vizinhos na América Latina conseguiram ir um pouco além. Países como a Argentina indicam, por exemplo, se existem edulcorantes (adoçantes), porque essa foi uma estratégia usada pelo setor: tiraram o açúcar, mas colocaram outro elemento para substituir sem avisar o consumidor.

Além disso, tudo que tem selo de advertência não deveria ter publicidade. Cereais que têm desenhos e ícones infantis não poderiam utilizá-los. Esse é um processo importante da sociedade civil. Existem modelos de aprimoramento regulatório na Anvisa, então temos que estar lá pressionando e produzindo evidências.

Mas posso dizer que o ambiente é muito interessante. Primeiro, como falei no início, temos o Programa Nacional de Alimentação Escolar [Pnae], que é referência no mundo. Imagine um país de dimensão continental que consegue fornecer um grande volume de refeições e aprimorar isso ao longo do tempo. Tanto que a resolução do Pnae, a cada ciclo, está restringindo cada vez mais os ultraprocessados.

Estamos vendo também, em estados e municípios, e no que tramita agora no Congresso Nacional, avanços nas regulações dos ambientes alimentares nas escolas. Recentemente, Rio de Janeiro, Niterói e Ceará conseguiram regular não só a escola, mas o entorno. Estamos com a tramitação de um projeto de lei, o 4501 de 2020, justamente para tentar equalizar isso nacionalmente, assim como o tabaco fez. Trazer uma lei nacional para regular tanto a escola pública quanto a privada, controlando não só o que é ofertado, mas toda a publicidade e melhorando a qualidade. Temos a grande chance de dar uma celeridade maior ao país em termos de ambientes alimentares.

Fechando com a questão de preços: estamos com a reforma tributária em andamento. Uma parte do avanço foi conseguida porque, se não fosse o trabalho da sociedade civil, todos os ultraprocessados entrariam em uma área de desoneração, com alíquota quase zero. No final das contas, quem pagaria seria o consumidor, pois outros produtos custariam mais caro. A desoneração tem que ser dada com muita sabedoria.

Estamos em um momento complicado de definição da alíquota do imposto seletivo, que acabou ficando apenas para os refrigerantes. O lobby ainda é muito alto. Se não nos movimentarmos, eles manterão benefícios fiscais. A Pense revela isso: o consumo de refrigerante ainda é muito presente. Quando você pega um grupo tão importante, que vai formar hábitos para o futuro e definir se será um adulto saudável, vê um volume de refrigerante com muita presença nos inquéritos. Então, mais do que nunca, a política de preço com imposto seletivo é fundamental como inibidor. Preço, disponibilidade e restrição de propaganda: esse combo, se bem amarrado pelas políticas, permitiria a grande virada na alimentação do país.

Conversa Bem Viver

Em diferentes horários, de segunda a sexta-feira, o programa é transmitido na Rádio Super de Sorocaba (SP); Rádio Palermo (SP); Rádio Cantareira (SP); Rádio Interativa, de Senador Alexandre Costa (MA); Rádio Comunitária Malhada do Jatobá, de São João do Piauí (PI); Rádio Terra Livre (MST), de Abelardo Luz (SC); Rádio Timbira, de São Luís (MA); Rádio Terra Livre de Hulha Negra (RN), Rádio Camponesa, em Itapeva (SP), Rádio Onda FM, de Novo Cruzeiro (MG), Rádio Pife, de Brasília (DF), Rádio Cidade, de João Pessoa (PB), Rádio Palermo (SP), Rádio Torres Cidade (RS); Rádio Cantareira (SP); Rádio Keraz; Web Rádio Studio F; Rádio Seguros MA; Rádio Iguaçu FM; Rádio Unidade Digital ; Rádio Cidade Classic HIts; Playlisten; Rádio Cidade; Web Rádio Apocalipse; Rádio; Alternativa Sul FM; Alberto dos Anjos; Rádio Voz da Cidade; Rádio Nativa FM; Rádio News 77; Web Rádio Líder Baixio; Rádio Super Nova; Rádio Ribeirinha Libertadora; Uruguaiana FM; Serra Azul FM; Folha 390; Rádio Chapada FM; Rbn; Web Rádio Mombassom; Fogão 24 Horas; Web Rádio Brisa; Rádio Palermo; Rádio Web Estação Mirim; Rádio Líder; Nova Geração; Ana Terra FM; Rádio Metropolitana de Piracicaba; Rádio Alternativa FM; Rádio Web Torres Cidade; Objetiva Cast; DMnews Web Rádio; Criativa Web Rádio; Rádio Notícias; Topmix Digital MS; Rádio Oriental Sul; Mogiana Web; Rádio Atalaia FM Rio; Rádio Vila Mix; Web Rádio Palmeira; Web Rádio Travessia; Rádio Millennium; Rádio EsportesNet; Rádio Altura FM; Web Rádio Cidade; Rádio Viva a Vida; Rádio Regional Vale FM; Rádio Gerasom; Coruja Web; Vale do Tempo; Servo do Rei; Rádio Best Sound; Rádio Lagoa Azul; Rádio Show Livre; Web Rádio Sintonizando os Corações; Rádio Campos Belos; Rádio Mundial; Clic Rádio Porto Alegre; Web Rádio Rosana; Rádio Cidade Light; União FM; Rádio Araras FM; Rádios Educadora e Transamérica; Rádio Jerônimo; Web Rádio Imaculado Coração; Rede Líder Web; Rádio Club; Rede dos Trabalhadores; Angelu’Song; Web Rádio Nacional; Rádio SINTSEPANSA; Luz News; Montanha Rádio; Rede Vida Brasil; Rádio Broto FM; Rádio Campestre; Rádio Profética Gospel; Chip i7 FM; Rádio Breganejo; Rádio Web Live; Ldnews; Rádio Clube Campos Novos; Rádio Terra Viva; Rádio interativa; Cristofm.net; Rádio Master Net; Rádio Barreto Web; Radio RockChat; Rádio Happiness; Mex FM; Voadeira Rádio Web; Lully FM; Web Rádionin; Rádio Interação; Web Rádio Engeforest; Web Rádio Pentecoste; Web Rádio Liverock; Web Rádio Fatos; Rádio Augusto Barbosa Online; Super FM; Rádio Interação Arcoverde; Rádio; Independência Recife; Rádio Cidadania FM; Web Rádio 102; Web Rádio Fonte da Vida; Rádio Web Studio P; São José Web Rádio – Prados (MG); Webrádio Cultura de Santa Maria; Web Rádio Universo Livre; Rádio Villa; Rádio Farol FM; Viva FM; Rádio Interativa de Jequitinhonha; Estilo – WebRádio; Rede Nova Sat FM; Rádio Comunitária Impacto 87,9FM; Web Rádio DNA Brasil; Nova onda FM; Cabn; Leal FM; Rádio Itapetininga; Rádio Vidas; Primeflashits; Rádio Deus Vivo; Rádio Cuieiras FM; Rádio Comunitária Tupancy; Sete News; Moreno Rádio Web; Rádio Web Esperança; Vila Boa FM; Novataweb; Rural FM Web; Bela Vista Web; Rádio Senzala; Rádio Pagu; Rádio Santidade; M’ysa; Criativa FM de Capitólio; Rádio Nordeste da Bahia; Rádio Central; Rádio VHV; Cultura1 Web Rádio; Rádio da Rua; Web Music; Piedade FM; Rádio 94 FM Itararé; Rádio Luna Rio; Mar Azul FM; Rádio Web Piauí; Savic; Web Rádio Link; EG Link; Web Rádio Brasil Sertaneja; Web Rádio Sindviarios/CUT.

O programa de rádio Conversa Bem Viver vai ao ar de segunda a sexta-feira, às 8h, na Rádio Brasil de Fato. A sintonia é 98,9 FM na Grande São Paulo. A versão em vídeo é semanal e vai ao ar aos sábados a partir das 13h30 no YouTube do Brasil de Fato e TVs retransmissoras.

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Editado por: Luís Indriunas

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