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Brasil - Brasília - Distrito Federal - 22 de maio de 2022

Companhias responsáveis por 70% da geração de empregos no país podem sucumbir na crise

Companhias responsáveis por 70% da geração de empregos no país podem sucumbir na criseFoto: CorreioWeb

Diretora-geral da Endeavor alerta: Companhias responsáveis por 70% da geração de empregos no país podem sucumbir na crise

Israel Medeiros* - Correioweb - 18/05/2020 - 07:45:53

Empresas inovadoras em risco

“Calcula-se que a maioria das EACs tem de dois a quatro meses de caixa para segurar os custos e passar

pela crise. É importante que o governo tome medidas para evitar o fechamento dessas empresas”

As chamadas empresas de alto crescimento (EACs) têm ganho cada vez mais notoriedade no cenário econômico brasileiro. De acordo com o IBGE, em 2015 elas eram cerca de 26 mil, representando apenas 0,6% de todas as empresas do país. Porém, o número de pessoas empregadas por scale-ups (outro nome pelo qual são conhecidas) aumentou 172% entre 2013 e 2015, chegando a 3,5 milhões, confirmando uma tendência que continuaria nos anos seguintes: as EACs seriam responsáveis por gerar a maior parte dos novos postos de trabalho.

Com a crise causada pelo coronavírus, no entanto, estima-se que a maior parte delas poderá sobreviver por apenas dois a quatro meses, caso não sejam tomadas medidas capazes de salvá-las. A Endeavor, organização global sem fins lucrativos, enviou ao governo uma série de recomendações. A entidade atua no Brasil desde 2000 com o objetivo de promover melhorias no cenário empresarial e apoiar empreendedores. A diretora-geral da Endeavor Brasil, Camilla Junqueira, conversou com o Correio sobre o cenário atual, a importância das EACs na geração de empregos e inovação e as expectativas pós-pandemia.

O que são as EACs, e qual a importância delas para o cenário empresarial brasileiro?

A empresa de alto crescimento (EAC) é aquela que tem aumento médio de empregos de, ao menos, 20% ao ano, por um período de três anos consecutivos. A Endeavor trabalha com esse perfil de empresas há 20 anos. Elas são grandes alavancas para o crescimento do país. Estudo do IBGE feito logo após a recessão de 2016 mostrou que elas eram poucas em número, mas geravam mais de 70% dos postos de trabalho. Além disso, são importantes para o crescimento da inovação no cenário empresarial brasileiro, pois trabalham em soluções novas e criativas para a sociedade, colocando o Brasil no mapa da inovação global e promovendo a competitividade do país a longo prazo.

As EACs são conhecidas por terem um modelo de gestão de recursos diferente das empresas convencionais, com investimentos mais arriscados. Como isso ocorre?

Essas empresas buscam se financiar com capital de risco, por terem um caráter inovador. Historicamente, o acesso ao crédito é superdifícil para elas. Hoje, tanto bancos quanto investidores estão retraídos. As EACs investem em inovação e produto, então, não estão pensando em ter margem positiva a curto prazo. Essa conta não fecha no mês, fecha lá na frente. É um perfil muito comum em empresas de tecnologia, por exemplo. Por terem esse perfil, calcula-se que a maioria das EACs tem de dois a quatro meses de caixa para segurar os custos de operação e passar pela crise. Por isso, é importante que o governo tome medidas para evitar o fechamento dessas empresas.

Qual sua análise sobre as medidas já adotadas pelo governo para auxiliar empresas durante a pandemia?

As medidas foram relevantes, mas as EACs formam um grupo muito específico. O governo apoiou micro e pequenas empresas, mas as medidas não contemplam as EACs, porque muitas delas têm renda bruta que passa do teto do Simples Nacional. Isso as coloca em patamar de empresas médias. A crise só agrava problemas estruturais que já existiam. Normalmente, elas já não são olhadas pelo governo, porque não são classificadas como grandes empresas. Por outro lado, também não são pequenas, então, não são cobertas por medidas de apoio.

Quais problemas a Endeavor pretende resolver com as sugestões enviadas ao governo?

Um dos principais problemas dos empreendedores é a apresentação de garantia para ter acesso a crédito, e nós sugerimos ao governo abrir alternativas. Muitas empresas nem têm três anos de vida para usar isso como garantia. Existem outros ativos que poderiam servir. Fizemos recomendações em três frentes: flexibilização do acesso ao crédito, diferimento de tributos e clareza e segurança jurídica para implementação de medidas trabalhistas. Nossas recomendações partem de modelos internacionais, o que outros países fizeram para não deixar esse grupo de empresas morrer.

Como as EACs poderão ajudar o país em uma recuperação econômica pós-pandemia?

As EACs têm um perfil de rápido crescimento, que é consequência do desenvolvimento de produtos ou serviços relevantes para a sociedade. Esse grupo de empresas é a raiz da inovação do país, criando soluções disruptivas para solucionar problemas, como telemedicina, consultas baratas para a população de baixa renda, para quem não pode ir ao SUS. O impacto dessas inovações vai acelerar a ajuda que o país vai precisar para superar essa crise.

Como é o cenário para empreender no país, e como a Endeavor tem atuado para melhorá-lo?

Preparamos, nesta crise, vários conteúdos educativos com artigos, mentorias, e várias outras coisas para ajudar empresas a passar por isso. Já fazíamos isso antes, com conteúdos gratuitos no nosso site. Agora, aceleramos a produção. Levamos 20 anos para chegar ao estágio em que estamos, com um ecossistema inovador e o empreendedorismo no Brasil começando a despontar. Isso permitiu que conseguíssemos exportar inovação, e não só commodities. No momento, há o risco de perda de todo esse avanço, porque muitas empresas ainda são startups e precisam de um suporte pontual para se manterem. Nos Estados Unidos, para abrir e fechar empresas, o processo é muito rápido. Se você abre uma startup e não dá certo, pode fechá-la, com facilidade, e abrir outra. O experimento é reconhecido e o fracasso não é visto como fracasso. No Brasil, você não pode fracassar. O empreendedor brasileiro passa por uma dor de cabeça para fechar uma empresa e abrir outra.

*Estagiário sob a supervisão de Odail Figueiredo

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