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Em Brasília: Estudo mostra que a maior concentração de renda no Brasil fica no Lago Sul

Em Brasília: Estudo mostra que a maior concentração de renda no Brasil fica no Lago SulFoto: CorreioWeb

Estudo da Fundação Getulio Vargas mostra que a maior concentração de renda no Brasil fica no bairro nobre de Brasília. O ganho médio dos moradores é de R$ 23.019 se considerados só os que declaram Imposto de Renda, rendimento sobe para R$ 38.460

Vera Batista E Alessandra Azevedo - 02/08/2020 - 10:52:28

Estudo da Fundação Getulio Vargas mostra que a maior concentração de renda no Brasil fica no bairro nobre de Brasília. O ganho médio dos moradores é de R$ 23.019 se considerados só os que declaram Imposto de Renda, rendimento sobe para R$ 38.460

Quem pensava que a maior concentração de renda do país estava no eixo Rio-São Paulo enganou-se. O Lago Sul é o epicentro da riqueza no Brasil. Levantamento do economista Marcelo Neri, da Fundação Getulio Vargas (FGV Social), mostra que os abastados da região mais nobre da capital embolsam, em média, R$ 23.019 por mês. E quem acha o valor alto tem nova surpresa ao constatar que, quando se consideram apenas os moradores que declaram Imposto de Renda, a remuneração sobe para R$ 38.460. “Vale lembrar que, no Brasil, 15% das pessoas pagam IR, cerca de 30 milhões de contribuintes”, ressalta Neri. No Lago Sul, são 29.346 habitantes, de acordo com a Companhia de Planejamento (Codeplan).

Quando analisa-se a renda média das capitais do país, Brasília fica na quarta posição, com R$ 2.981, segundo a FGV. Está atrás de Florianópolis (R$ 3.998), Porto Alegre (R$ 3.725) e Vitória (R$ 3.516). Ou seja, no DF, os ricos são muito ricos, mas a grande maioria das pessoas vive com rendimentos bem baixos.

O DF tem Produto Interno Bruto (PIB) de R$ 215,6 bilhões, o oitavo do país. Além disso, é a oitava unidade federativa menos populosa do Brasil, segundo dados da Confederação Nacional da Indústria (CNI). Mesmo respondendo por apenas 3,8% do PIB nacional, o motivo de a capital apresentar tantas discrepâncias são as altas rendas dos funcionários públicos — e grande parte deles mora no Lago Sul. “A elite do Judiciário, do Ministério Público, das relações exteriores, da Receita Federal, entre outros. É o que explica essa concentração. A disparidade tende a se agravar no pós-pandemia, já que as pessoas vão sair mais pobres da crise”, destaca Marcelo Neri.

Mesmo antes da pandemia do novo coronavírus, lembra o economista, pelos dados do último trimestre de 2019, os 10% mais ricos no país tinham elevado o patrimônio em 0,8%, enquanto os mais pobres viram a renda minguar em 6,2%. O economista Gil Castello Branco, secretário-geral da Associação Contas Abertas, destaca que relatórios do Banco Mundial, de 2017, do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) e da FGV apresentam informações contundentes sobre as despesas da União com pessoal. Os servidores federais têm, em média, salário 96% maior do que profissionais da iniciativa privada em cargos semelhantes, na mesma área de atuação. A diferença no Brasil entre os salários dos setores público federal e privado é a maior entre os 53 países comparados pelo Banco Mundial. E fica 21% acima da média internacional. O Brasil gasta mais com funcionalismo do que Estados Unidos, Portugal e França.

“O Estado brasileiro é paquidérmico, corporativo, ineficiente e caro. Apesar da carga tributária elevada (35,17% do PIB, em 2019), os serviços, de forma geral — pois há ilhas de excelência — são de péssima qualidade”, assinala o secretário-geral da Associação Contas Abertas. Mas a alta renda também é explicada pela atração de negócios proporcionados pelo governo. “Não são apenas servidores e privilegiados que ganham jetons (gratificações) em conselho fiscais e administrativos. Há, também, empresários, parlamentares e até advogados trabalhistas que enriqueceram defendendo sindicatos, entre outros prestadores de serviço”, explica Castello Branco.

O economista Cesar Bergo, sócio-consultor da Corretora OpenInvest, considera Brasília “um ponto fora da curva” pela forma como foi povoada. “Como o Lago Sul é aprazível, com extensa área verde e muita segurança, acabou sendo o lugar preferido dos ricos empresários de primeira linha, como empreiteiros e donos de hospitais. A desigualdade foi se ampliando com a urbanização de Brasília”, ressalta Bergo. Segundo ele, a concentração da riqueza fica entre as quadras 3 e 13. “Fora dessa faixa, a situação é um pouco diferente”, garante.

A professora Anna Maria Grebot, 60 anos, moradora de uma das quadras no fim do Lago Sul, cita dois tipos de vizinhos mais comuns: os que são muito ricos e os que compraram terrenos à época em que Brasília estava sendo construída, quando o local era vazio, e os preços, mais baixos. A família dela encaixa-se no segundo grupo. “A ideia de região extremamente rica é mais em função das quadras onde ficam ministros, políticos, juízes e outros servidores. Claro que, em geral, as pessoas têm dinheiro, mas essa parte puxa muito os números para cima”, avalia.

Embora reconheça os pontos positivos, como a tranquilidade e o espaço livre, Anna tem críticas ao local onde passou a adolescência e quase toda a vida adulta. Uma das principais é o elitismo que observa em alguns vizinhos. “Defendo a criação de um parque na região da Ponte JK, que tem área verde enorme e poderia ser usada por todos. Mas muitos resistem, dizem que as pessoas vão invadir e estragar a orla, como se o lago não fosse de todos”, lamenta.


Maioria branca e católica

A maioria dos moradores do Lago Sul, local que concentra as maiores rendas per capita do país, são brancos, casados, com escolaridade alta e cristãos, de acordo com a Companhia de Planejamento do Distrito Federal (Codeplan). Na região, 69,5% dos habitantes são brancos; 28,78%, pardos; e 1,49%, pretos. Os dados mostram que 68,6% têm nível superior completo, incluindo especialização, mestrado e doutorado. Dos moradores do Lago Sul, 34,3% nasceram no DF. A maioria dos imigrantes, 50,25%, vem do Sudeste; 20,89%, do Nordeste, 11,72%, do Centro-Oeste; 8,47%, do Sul; e 2,76% do Norte. Em relação à origem, Minas Gerais é o estado mais representativo, com 20,18%. Depois, aparecem Rio de Janeiro (19,12%), Goiás (9,65%) e São Paulo (9,56%).

O que levou a carioca Jane Carol Azevedo, 71 anos, a sair do Rio de Janeiro para morar no Lago Sul, em 1976, foi a perspectiva de encontrar um lugar mais calmo para as crianças. Quando chegou à cidade, com marido e dois filhos pequenos, de seis meses e três anos, não se decepcionou. “O que me atraiu foi a liberdade, o espaço livre. É quase uma cidade do interior, com muito verde e qualidade de vida. Ótimo para famílias”, conta.

Jane foi a segunda de quatro irmãs a mudar-se para a capital. Pouco depois, as outras duas foram morar na mesma quadra do Lago Sul e levaram a mãe. Hoje, além delas, filhos, netos e sobrinhos são vizinhos. O movimento é recorrente: pelos dados da Codeplan, 58,4% dos moradores do Lago Sul chegam a Brasília para acompanhar parentes. Outros 23,75%, à procura de emprego. Os 11,23% restantes, por transferência do local de trabalho.

A maioria dos habitantes do Lago Sul, 46,5%, tem entre 25 e 59 anos. Os idosos são 34%. A população de até 14 anos totaliza 9,2%. Os casados são 50,6%, seguidos pelos solteiros, 31,99%. E 6,93% têm união estável. Viúvos e divorciados representam 5,17% e 3,54%, respectivamente. Só 12,23% dos moradores não têm religião. Pelos números da Codeplan, 72,31% são católicos; 7,57%, evangélicos; 6,66%, espíritas. Entre os habitantes da região, 98% têm automóvel.

Aposentados

No estudo da Codeplan, de 2017, a renda domiciliar média apurada foi de R$ 23.591, e a renda per capita, de R$ 8.117. Os 10% mais ricos absorvem 26,7% da renda, e os 10% de menor poder aquisitivo detêm 12%. Na região, a totalidade das construções é permanente. Dessas, 98,8% são casas: 87,4% dos domicílios são próprios. A maioria dos responsáveis pelos lares, segundo a pesquisa, é de aposentados, 50,6%, seguidos por trabalhadores remunerados, 43,2%.


Desigualdade é a maior trava para o crescimento

O aumento da desigualdade no Brasil é um dos principais fatores que explicam a falta de crescimento do país nos últimos anos. E, nesse cenário de estagnação global o Brasil, que já vinha crescendo pouco após a recessão de 2015-2016, mergulhou em uma nova crise ainda mais profunda sem ter saído da anterior.

Por conta disso, é consenso entre fiscalistas e desenvolvimentistas que o aumento da desigualdade, presente antes da chegada do novo coronavírus, será ainda mais profundo. Para eles, uma das lições desta crise é de que o governo precisa elaborar um programa melhor de assistência social, que dê garantias para uma renda básica aos mais vulneráveis.

Nesse sentido, o debate varia sobre o tamanho desse programa de renda básica, sua abrangência e duração. “A desigualdade é uma trava para o crescimento do país e, no Brasil, ela é um problema, porque é muito elevada. Um dos maiores motivos de um país ter renda média alta é que uma parcela grande da população teve acesso à educação de qualidade e formação técnica, como fez a Coreia do Sul”, comenta Otaviano Canuto, diretor do Center for Macroeconomics and Development. “O país paga um preço mais alto em termos de Produto Interno Bruto (PIB) por essa carência de educação de qualidade para uma parcela grande da população”, adiciona. “O Brasil não poderá evitar a realidade de um ajuste fiscal gradual e, ao mesmo tempo, pensar em mecanismos de proteção social para a parte debaixo da pirâmide”, pontua.

Monica de Bolle, pesquisadora sênior do Peterson Institute for International Economics, em Washington, destaca que a crise atual provocada pela pandemia está mudando uma série de paradigmas da macroeconômica e, no momento, o debate para uma saída da crise passa, necessariamente, por uma maior atuação do Estado e pelo aumento de gastos. A especialista, que não se denomina fiscalista e, muito menos, desenvolvimentista, aponta a necessidade de um programa de renda básica universal como uma das ferramentas para o país sair dessa crise sem precedentes. Na visão da especialista, mesmo custando 1,5% do PIB, um programa nesse sentido seria extremamente salutar. “A pandemia atinge muito diretamente pessoas em situação de vulnerabilidade e que estão morando em aglomeração. O que começamos a ver nos dados de países diversos é como a pandemia expõe e torna uma situação desigual mais desigual. O Brasil é um país com imensos desafios para integrar economicamente uma parcela muito significativa da população”, explica.

De Bolle reforça que não é razoável não contar com uma rede de proteção social robusta. “O país não pode passar ao largo de qualquer discussão sobre a necessidade de uma política de Estado. Esse debate de fazer o que cabe no Orçamento não é relevante no momento. Quem resolveu dividir esse assunto não entendeu o que é renda básica”, afirma.

Marcos Lisboa, presidente do Insper, lembra que é importante uma discussão para garantir políticas públicas capazes de emancipar as famílias da situação de pobreza e não faz sentido algumas categorias do serviço público defenderem reajustes salariais no meio da recessão quando possuem estabilidade e algumas categorias recebem acima do teto do funcionalismo, que passou da hora de ser respeitado. Citando um estudo do Insper, ele destaca que, para muitos trabalhadores — os informais, por exemplo —, uma política pública deveria auxiliá-los a aumentar a capacidade de geração de renda e reduzir a volatilidade dos rendimentos.“Dessa forma, é importante discutir os mecanismos por meio dos quais as pessoas poderiam aumentar seu potencial de geração de renda”, diz. (RH)

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