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Em um parto em casa, quando é a hora de apertar o botão vermelho?

Em um parto em casa, quando é a hora de apertar o botão vermelho?Foto:

Tatiana com João no colo: conforto de estar em casa foi ponto positivo.

Estadão Conteúdo - Foto: Bráulio Zorzella/arquivo Pessoal - 14/12/2018 - 08:59:50

Com a bolsa estourada e após dois dias em trabalho de parto, Fernanda Lisboa abriu mão do sonho de ter seu filho em casa e optou pela transferência para um hospital. “Estava tudo sob controle, mas eu já estava muito cansada”, conta Fernanda. “Quis fazer isso para acelerar o processo, manter a minha tranquilidade e não corrermos nenhum risco.” Depois de mais um dia de hospital, deu tudo certo. Fernanda teve Don por parto normal. Em outras palavras: entre o desejo da família e os eventuais contratempos na hora H, qual é o momento de apertar o botão vermelho e mudar os planos de ter o bebê em casa?

Quando o assunto é parto domiciliar, garantir que haja tempo hábil para se chegar ao hospital é um dos poucos consensos entre médicos, enfermeiras obstetras e doulas ouvidos pelo Estado. Outro aspecto importante apontado pelos profissionais é que a gravidez seja de baixo risco.

“A gente é a favor do parto domiciliar que tem a segurança como base, não por achismo ou porque é moda e a famosa está fazendo”, afirma o obstetra Bráulio Zorzella, que faz partos em casa há sete anos. “Mas também não em todos os casos, nem em todas as idades, nem em todos os lugares. Depende de cada paciente.”

A enfermeira obstetra Viviane Vilela, com 11 anos de profissão, recomenda que todo o pré-natal seja avaliado com cuidado e periodicidade, para verificar a possibilidade de um nascimento domiciliar. “Se tiver qualquer alteração, isso já é uma contraindicação. Tem de ser uma gestação sem nenhuma intercorrência”, diz a profissional. “A mulher não pode ter diabete ou hipertensão, por exemplo, nem o bebê ter nenhuma alteração.”

Mas para Mauro Sancovski, professor titular de obstetrícia da Faculdade de Medicina do ABC (FMABC), o acompanhamento intenso durante a gravidez não garante que não haverá problemas futuros. “A mulher não vem com um certificado de que não vai ter complicações”, reforça o médico. “Fazer um parto domiciliar é sempre uma situação de risco. O risco da gravidez é uma coisa e o do parto é outra. A gente não tem essa previsão.”

Quando o hospital é indicado

Segundo a enfermeira obstetra Viviane, o ideal é a gestante também combinar planos B e C com o profissional responsável pelo procedimento. “O plano A é o parto domiciliar, o B é um hospital a até dez minutos de distância e o outro é o hospital de preferência da mãe”, explica.

O obstetra Bráulio explica que as intercorrências obstétricas são divididas em emergência e urgência. “A diferença é que emergência é risco iminente de morte”, diz o médico que realiza partos domiciliares. “As emergências obstétricas são resolvidas no local do parto.” É o caso, de acordo com ele, de uma hemorragia pós-parto e da reanimação de um bebê que não nasce bem. Para as urgências, ele afirma que não existe um protocolo exato. “Sempre falo para as gestantes que o ideal na hora que decidirmos ir para o hospital é que levemos no máximo uma hora entre o caminho e já estar lá dentro executando o que decidimos.”

O medo de alguma complicação passou pela cabeça de Fernanda, antes de desistir de ter Don em casa. “Um dia a mais no hospital não foi tão desagradável porque eu já tinha ficado em casa dois dias. Seria bem pior ter ficado os três”, acredita a atriz de 29 anos, que teve um parto normal, com pequena laceração, sem necessidade de pontos. Para Fernanda, estar em um hospital deixa a mulher mais ansiosa. Ela diz que se sentiu desconfortável com a “frieza” do ambiente. “Pode parecer bobagem, mas na minha casa conseguia ir para o chuveiro e deixar a água na temperatura que queria. Tinha o apoio da minha família e podia deitar na minha cama na hora que quisesse.”

Segundo Bráulio, que também é coordenador de comunicação da ONG Rede pela Humanização do Parto e Nascimento (ReHuNa), a situação mais comum de transferência para o hospital é quando a gestante decide tomar anestesia. “Noventa e cinco por cento dos partos que começam em casa terminam em casa.”

Mas a mudança de planos é mandatória quando existem razões para uma cesárea, na opinião do obstetra. Isso pode ocorrer por causa da mãe ou do bebê. Ou seja, o parto precisa evoluir da forma esperada – em média um centímetro de dilatação por hora ou a cada duas horas. “Caso contrário, a gente imagina que pode haver mais dificuldade na saída do bebê. Pode acontecer uma desproporção céfalo-pélvica, o que vai indicar uma cesárea lá na frente”, diz Bráulio. E não pode estar ocorrendo nenhuma intercorrência com o bebê. “É o caso de sinais não tranquilizadores da vitalidade, como variações do batimento cardíaco, ou existência de mecônio, quando o bebê libera conteúdo intestinal durante o parto.”

Riscos do parto domiciliar

Especialista em Medicina Fetal do Hospital Israelita Albert Einstein, obstetra Rita de Cássia Sánchez enumera situações de risco que podem ocorrer em um parto domiciliar, exigindo que a mulher seja levada para o ambiente hospitalar. O primeiro é menos complicado, quando o trabalho de parto para porque a mulher não está dilatando corretamente. Mas os principais riscos são hemorragia materna pós-parto e diminuição da oxigenação para o bebê na fase final do nascimento.

“Quando ocorre a hemorragia uterina, você pode perder a paciente se ela não for atendida adequadamente em 30 minutos”, diz Rita de Cássia. “Quem faz parto domiciliar já leva um kit bem específico, mas muitas vezes vai precisar pegar um acesso venoso ou uma bolsa de sangue. No domicílio, não existem essas condições.”

Das 260 ocorrências de morte materna contabilizadas pelo Ministério da Saúde em 2016, as duas causas que lideram as estatísticas de óbitos de mães em trabalho de parto são hemorragia pós-parto e anormalidades na contração uterina. Juntas, elas representam mais de 59% do total de mortes, com porcentuais de 37,7% e 21,5%, respectivamente.

O outro risco é para o bebê, durante o “minuto de ouro”, como são chamados os primeiros segundos de vida da criança fora do útero. “Por mais que o parto ocorra fisiologicamente, com as contrações no tempo certo, o bebê pode ter uma diminuição de oxigenação e necessitar de uma reanimação neonatal. Isso tem de ser feito, para ele não ter sequelas, no primeiro minuto de vida”, ressalta a obstetra do Albert Einstein.

Professora da Escola Paulista de Medicina, da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), Roseli Nomura concorda. “A maioria dos bebês nasce bem e sem problema”, afirma. “Mas a gente tem uma proporção de mais ou menos uns 5% em que o bebê pode nascer com asfixia. Aí precisa de uma assistência imediata.”

Julie Cristine Vieira Soares, de 29 anos, foi uma das mães que entraram para a estatística dos 5% dos casos em que há intercorrência no trabalho de parto. A enfermeira teve uma gestação sem complicações e decidiu contratar um serviço de parto domiciliar humanizado. Airam nasceu em setembro do ano passado e, para a surpresa da família, foi por parto pélvico – quando o bebê não fica na posição correta para o nascimento. Embora todos os exames não indicassem problemas, ele ainda não conseguiu respirar ao nascer.

Julie e Airam: bebê superou prognóstico dos médicos

De acordo com os médicos, o menino ficou cerca de 50 minutos sem oxigenação no cérebro, sendo 30 minutos de transporte e admissão no hospital e mais 20 de reanimação depois de entrar na emergência. “No início, suspeitavam de uma morte encefálica”, conta a mãe. “Falaram que a confirmação levaria 72 horas e que, provavelmente, ele começaria a ter falência múltipla dos órgãos. Mas quando foi feito o eletroencefalograma, Airam apresentou atividade cerebral.”

Airam sobreviveu, mas, de acordo com Julie, teve uma grande quantidade de massa cerebral lesionada. “Hoje, ele respira por aparelho, não pisca, não mastiga e não engole. Tem dispositivos que fazem tudo por ele”, explica a mãe. “A alimentação dele é de água, sucos, leite e papinhas, que recebe direto por uma sonda e vai para o estômago. Ele perdeu coisas bem básicas do funcionamento do corpo humano.”

A classificação médica dada ao que aconteceu com Airam é chamada de anóxia perinatal, quando o bebê não respira após o nascimento, e a morte entre recém-nascidos devido a essas ocorrências é rara. De acordo com o Ministério da Saúde, os últimos óbitos desse tipo, por exemplo, ocorreram em 2010, quando foram registrados 12 casos de morte.

A complicação que lidera o quadro de causas de morte de fetos é a hipóxia intra-uterina, quando o bebê tem perda de oxigenação ainda dentro do útero. Em 2016, foram registrados 7.189 óbitos devido a esse problema, o que corresponde a 25,7% do total registrado naquele ano.

Mais partos em casa

O número de partos domiciliares no Brasil aumentou em seis Estados brasileiros e no Distrito Federal de 2007 para 2016, de acordo com dados do Sistema de Informações sobre Nascidos Vivos (Sinasc) do Ministério da Saúde. Embora o total de casos ainda seja pequeno – a alta mais expressiva se concentra em São Paulo, onde o número de partos foi de 1.070 para 1.960 –, o gráfico expressa uma tendência de crescimento.

Para a ginecologista e obstetra Maria Teresa Roncaglia, do Hospital Sírio-Libanês, o problema é que o parto domiciliar se tornou uma prática que é muito romantizada. “As pessoas não têm ideia do quão errado isso pode dar. Hoje tem uma ideia muito romântica do negócio, sem saber direito e ter informação das complicações”, afirma Maria Teresa. “Elas têm de saber os prós e contras de tudo e as situações que poderiam acontecer. O que não deveria acontecer é as pessoas contarem com a sorte.”

Segundo a doula Lara Cavalcante, os riscos envolvidos em um parto domiciliar acabam sendo um dos principais pontos de dúvida na discussão do assunto. “Com certeza é por conta dos possíveis riscos, porque a mulher é vista como uma bomba relógio que vai explodir a qualquer momento, então a questão da segurança ainda é grande”, afirma.

Para garantir que tudo saísse bem no parto do seu primeiro filho, Tatiana Kiss Sayeg, de 31, seguiu as recomendações dos especialistas que a auxiliaram. “Em relação aos riscos, eu estava muito segura com a equipe e meu pré-natal foi muito tranquilo, todos os exames apontavam que estava tudo bem. E o endereço onde a gente estava era a cinco minutos do hospital, uma segunda opção se tivesse alguma emergência.” A decisão de ter João em casa veio depois de acompanhar o processo de uma amiga. Para Tatiana, o acolhimento e o conforto proporcionados pelo seu lar foram determinantes para a escolha.

Parto em casa x cesárea

Os casos de violência obstétrica e o receio das mães de passarem procedimentos que elas não desejam estão entre os motivos que as afastam de terem seus filhos em hospitais, segundo Sancovski, professor da FMABC. Crítico de algumas condutas tomadas nas instituições, ele acredita que fazer um parto em casa é uma decisão radical por parte das mulheres. “A gente tem de partir do princípio que qualquer mulher tem o direito de ter um parto vaginal”, afirma o médico. “Eu não digo que o que se faz no hospital é perfeito, mas o contraponto não é fazer em casa.”

Para a ginecologista Ana Luiza Antunes Faria, do Hospital Israelita Albert Einstein, o aumento da procura por partos domiciliares mostra que as mulheres estão desconfiadas de que, em um ambiente hospitalar, serão conduzidas a fazer uma cesárea desnecessária. “Durante muito tempo trabalhou-se com a ideia de que a cesariana garantia um bebê saudável e seguro, sem nenhuma intercorrência”, explica Ana Luiza. “Uma mãe quer proteger o filho em primeiro lugar, então qualquer coisa que você falar que poderia arriscar, a escolha fica muito óbvia. Muitas mães escolhiam cesariana por acreditar que era um procedimento muito mais seguro.”

De acordo com ela, a que chama de “escola do medo” fez o número de cesarianas subirem exponencialmente, atingindo as taxas que são vistas no Brasil.

De acordo com dados do Sistema de Informações sobre Nascidos Vivos (Sinasc), do Ministério da Saúde, em 2007, 46,5% dos partos no Brasil eram realizados por cesariana. Em 2016, último ano disponível da estatística, o porcentual havia subido para 55,4% do total de partos registrados.

Integrante da Federação Brasileira de Associações de Ginecologia e Obstetrícia (Febrasgo), o ginecologista Rodrigo da Rosa Filho conta que a prática de não seguir os desejos da gestante são mais comuns no sistema privado de saúde. A começar pela dinâmica e pelo modo de trabalho tanto dos hospitais quanto dos profissionais. “Eles usam aquela história de que o bebê não encaixou ou que já passou da data, sendo que ainda não é o correto”, diz Rodrigo, que também é membro da Sociedade Brasileira de Reprodução Humana (SBRH). “Isso induz a mulher a ficar com medo de esperar mais tempo e ela acaba indo para uma cesárea que é desnecessária e apenas por uma conveniência médica.”

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