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Brasil - Brasília - Distrito Federal - 09 de dezembro de 2021

Enquanto desabafo, aproveito pra sonhar

Enquanto desabafo, aproveito pra sonharFoto: Pixabay

Desde o fim da escravatura, o Brasil manteve um fosso de desigualdades entre brancos e não brancos

Correioweb - 07/11/2019 - 20:25:10

O combate ao racismo no Brasil é um processo longo, de altos e baixos, demandado persistente e exaustivamente por uns, sonegado e desprezado por outros. Uma ideologia racista — o mito da democracia racial — prevaleceu ao longo do século 20 e, mesmo hoje, tem seguidores. Segundo ele, a civilização portuguesa na América teria feito surgir um amálgama de povos e etnias que se respeitam entre si e convivem harmonicamente. Diferentemente do apartheid havido nos Estados Unidos e na África do Sul que segregou negros até a década de 1960 e de 1990, respectivamente, o Brasil chegou a se orgulhar de apresentar ao mundo uma sociedade pretensiosamente harmoniosa e de afirmar reiteradamente que racismo simplesmente não se registrava por aqui. Episódios de discriminação e preconceitos seriam fenômenos isolados e individualizados, sem peso ou relevância no contexto maior da propalada democracia racial.


É de notar que essa ilusão tupiniquim em si foi um avanço em relação ao que se tinha nos anos que precederam e que se seguiram à abolição da escravatura. Por essa época, deplorava-se a presença majoritária de negros no país, flertava-se com a vinda de imigrantes europeus para “melhorar” o sangue e clarear a população. Investimentos governamentais na política da imigração atendiam a dois focos de interesse: prover mão de obra num país com demanda crescente e atender o propósito da eugenia. Lembremos que naquele momento no mundo — e o Brasil não fugia à regra — o racismo tinha forte embasamento científico e era prevalecente nas elites e na sociedade em geral. Apelava-se a bases teóricas nos campos da biologia, antropologia, sociologia entre outros para se afirmar a existência de raças humanas e de hierarquia entre elas.


Muitas das formulações teóricas que deram base ao racismo chamado científico começavam a cair nas décadas de 1920 e 1930, quando então o nazismo atingia seu apogeu com o III Reich de Adolf Hitler. O regime do ditador alemão ergueu-se proclamando a superioridade da raça ariana e condenando as demais ao extermínio ou à subalternidade. E isso, vale ressaltar, não ficou só no discurso. O nazismo implementou política de extermínio de judeus, ciganos e desafetos do regime. Aliás, nós, brasileiros, pelo senso de oportunidade política de Getúlio Vargas e dado o anseio majoritário da sociedade civil, seríamos o único país da América Latina a engajar-se no esforço de guerra ao nazifascismo, enviando tropas militares para lutar e vencer nos campos da Itália. Por essa época, aliás, Gilberto Freire havia feito o elogio da mestiçagem e dado as bases da perspectiva da democracia racial com seu Casa grande & senzala.


O Brasil logo percebeu contradição entre lutar contra ditaduras na Europa e manter uma em solo pátrio e tratou de resolver o impasse. Vargas foi afastado. Mas o nosso racismo nunca foi visto como inimigo do desenvolvimento nacional. Ao contrário, investiu-se no dogma da democracia racial a ponto de provocar interesse na própria Organização das Nações Unidas, recém-criada. Na década de 1950, a ONU resolveu pesquisar a experiência brasileira de convivência de raças diferentes, mas essa é outra história que não vamos explorar aqui.


Chamo a atenção para o fato de que o brasileiro mediano costuma pensar o racismo como algo simplesmente subjetivo, relacionado a preconceitos, ofensas e discriminações, em sua maioria de perspectiva individual. Mas, de fato, essas manifestações são resultado de algo ainda mais basilar. Elas ocorrem porque o racismo tem uma dimensão estrutural. Ele é característica marcante, constitutiva de nosso processo civilizatório. O abandono dos escravos libertos à própria sorte, o prestígio dado aos imigrantes europeus em detrimento dos ex-escravos, a ausência de políticas de promoção da igualdade racial e de educação, saúde e desenvolvimento voltadas para índios e negros, a subalternidade de não brancos na sociedade brasileira são exemplos desse racismo estrutural.


Desde o fim da escravatura, o Brasil manteve um fosso de desigualdades entre brancos e não brancos — níveis de renda, instrução, empregabilidade, moradia, expectativa de vida, oportunidades em geral — que, se reduzido foi, deve-se isso aos esforços individuais e coletivos da comunidade afro-brasileira e apoiadores. As políticas sociais desde sempre, com poucas exceções, como as criadas no governo Lula, tiveram caráter universalista quando se sabe que é preciso mais que isso, ou seja, fazer recorte racial. Foi o que efetivamente os Estados Unidos fizeram a partir da década de 1960. Mas entre nós, não raro, a ação afirmativa racial ainda é zombada e combatida como privilégio.


Nos últimos anos, a sociedade brasileira – por meio de medidas do poder público, e de iniciativas de instituições como universidades, igrejas, ONGs – tem tido maior abertura para reconhecer o problema do racismo e combatê-lo com maior efetividade. Em meio a tudo isso, o movimento negro segue bravamente por meio da multiplicidade de suas organizações, cobrando respeito e direitos, políticas públicas, democracia efetiva. E assim, criando novas formas de enfrentar a violência e a conjuntura desfavorável, defendendo vidas, promovendo uma causa que é responsabilidade de todos, não somente de indígenas e afro-brasileiros. Mesmo porque é questão de vida ou morte.

ANDRÉ RICARDO N. MARTINS
Jornalista, membro da Comissão de Jornalistas pela Igualdade Racial (Cojira-DF)

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