Tarifas podem aumentar ou cair conforme resposta do Brasil, sinalizam Estados Unidos 

As novas tarifas devem entrar em vigor no dia 22 de julho, segundo o governo americano

Tarifas podem aumentar ou cair conforme resposta do Brasil, sinalizam Estados Unidos 
Tarifas podem aumentar ou cair conforme resposta do Brasil, sinalizam Estados Unidos 

Helena Schuster-pelotas, Rs (folhapress) - 16/07/2026 16:29:38 | Foto: Alan Santos/PR

ISABELLA MENON-WASHINGTON, EUA (FOLHAPRESS) - O USTR (Escritório do Representante do Comércio dos Estados Unidos) sinalizou que as tarifas de 25% sobre produtos brasileiros podem ser reduzidas ou ampliadas, a depender da forma como o Brasil responder às práticas apontadas na investigação.

"Uma ação por parte do Brasil que reduza o ônus ou a restrição ao comércio dos Estados Unidos pode indicar que a medida adotada pelos EUA nesse nível já não é a mais apropriada para obter a eliminação dos atos, políticas e práticas do Brasil considerados acionáveis nesta investigação", diz o documento do USTR.

Ao mesmo tempo, o órgão avisa que caso o Brasil aumente o ônus ou restrição aos EUA, a resposta pode ser diferente. "[Isso] pode indicar que a medida adotada pelos EUA nesse nível não é suficiente para obter a eliminação dos atos, políticas e práticas do Brasil considerados acionáveis nesta investigação", diz.

O governo Lula disse na madrugada desta quinta-feira (16) que vai acionar os instrumentos previstos na Lei da Reciprocidade. Em vigor desde o ano passado, a legislação estabelece os critérios que o Brasil pode utilizar para reagir com medidas retaliatórias contra sanções econômicas aplicadas por outro país.

O governo americano anunciou as sobretaxas sobre uma ampla gama de produtos oriundos do Brasil, mas deixou de fora 2.100 mercadorias consideradas importantes para o abastecimento do mercado americano. Entre elas, o café, a carne bovina, pescados, suco de laranja e ferro-gusa (matéria-prima do aço).

O USTR investigou desde temas que são motivo de atrito com os EUA há anos, como as tarifas brasileiras sobre a importação de etanol, até queixas mais novas, como o Pix. Empresas americanas de cartão de crédito alegam que o Banco Central concede tratamento preferencial ao sistema de pagamento instantâneo, o que o governo Lula (PT) nega.

Paralelamente, o escritório comercial americano concluirá nos próximos dias um procedimento sobre as práticas de 59 países, incluindo o Brasil, para coibir o trabalho forçado. O relatório preliminar da investigação, concluído em junho, sugeriu a aplicação de uma tarifa de 12,5% contra produtos brasileiros.

Além disso, o Brasil permanece na lista de observação dos relatórios Special 301 dos Estados Unidos, o que significa que continua apresentando deficiências na proteção da propriedade intelectual e no acesso justo ao mercado para detentores desses direitos.

Senador democrata critica tarifas contra o Brasil e diz que sanção pode prejudicar EUA

ISABELLA MENON-WASHINGTON, EUA (FOLHAPRESS) - Durante audiência no Senado nesta quinta-feira (16), o senador democrata Tim Kaine criticou o novo tarifaço contra o Brasil e relembrou as tarifas impostas no passado. Ele participa da sabatina ao indicado do presidente Donald Trump para atuar como embaixador no Brasil, o deputado Daniel Peréz.

No questionamento, Kaine relembrou que, após o anúncio dos EUA, o Brasil respondeu que pretende retaliar a sanção. "Se o Brasil retaliar com uma tarifa de 25%, quem perde mais? EUA ou o Brasil?". O indicado, então, respondeu que as tarifas foram implementadas na noite desta quarta-feira e que ele precisaria se inteirar melhor sobre o assunto antes de opinar.

Diante da resposta de Peréz, o senador disse que, se os Estados Unidos possuem um superávit comercial com o Brasil, "isso significa que vendemos mais ao Brasil do que compramos dele".

"Se impusermos uma tarifa de 25% sobre eles e, em seguida, eles impuserem uma tarifa equivalente sobre nós, não é a mesma coisa. Não veremos apenas a inflação aumentar", disse o senador, que considera que, se o governo brasileiro aplicar as tarifas aos produtos manufaturados dos Estados Unidos vendidos ao mercado brasileiro isso "prejudicará as próprias empresas americanas que fazem negócios no Brasil".

Depois da sabatina, Daniel Peréz afirmou em entrevista a jornalistas que o superávit dos EUA com o Brasil "é um fato". "Nós realmente temos um superávit comercial com o Brasil. As tarifas de 25% foram implementadas ontem pelo USTR. Eu ainda não fui informado sobre os detalhes dessa decisão", disse ele.

Peréz disse que ainda não teve acesso ao briefing do caso, mas que, nas próximas semanas, vai "aprender mais sobre o assunto e, no momento apropriado, terei as conversas certas com as pessoas adequadas".

Rubio faz ataque grosseiro e arrogante contra Lula, diz Mauro Vieira após tarifaço

MARIANA BRASIL-BRASÍLIA, DF (FOLHAPRESS) - O chanceler brasileiro, Mauro Vieira, rebateu nesta quinta-feira (16) as falas do secretário de Estado dos Estados Unidos, Marco Rubio, de que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) teria faltado com boa-fé nas negociações em torno do tarifaço.

"As declarações do secretário de Estado Marco Rubio, veiculadas na madrugada de hoje nas redes sociais a respeito das tarifas adotadas contra o Brasil, são inaceitáveis e ofensivas ao povo brasileiro e ao governo brasileiro. Rubio ataca de forma grosseira e arrogante o chefe de Estado de um país amigo", disse.

"Claramente, o que incomoda o governo dos Estados Unidos é o fato de o Brasil não ter se curvado às pretensões desmedidas e às demandas irrazoáveis apresentadas no curso das negociações."
A fala do ministro brasileiro vem em resposta às declarações feitas nas redes sociais por Rubio. O republicano afirmou que "o presidente Lula e seu governo não negociaram com os EUA de boa-fé. Suas políticas econômicas são ruins para os americanos e ruins para os brasileiros. No último ano, Lula colocou seu próprio ego à frente de fazer um acordo pelo bem-estar do povo brasileiro, e essas tarifas são o preço por isso", disse.

Na madrugada logo após o anúncio, o governo afirmou, por meio de nota, que iniciará imediatamente os trâmites para acionar os instrumentos previstos na Lei de Reciprocidade, aprovada por unanimidade pelo Congresso Nacional, após o governo dos EUA confirmar na quarta-feira (15) a imposição de novas tarifas de importação contra o Brasil.

Na nota, o governo também afirmou que continuará a diversificar parcerias comerciais e a abrir novos mercados para os produtos brasileiros, citando como exemplos os acordos do Mercosul com a União Europeia, a Associação Europeia de Livre Comércio e Singapura.

"O dia 15 de julho de 2026 passará para a história das relações entre Brasil e EUA como um marco lastimável", diz nota do governo sobre o tarifaço, com uma manifestação de repúdio. "Não há justificativa para medidas unilaterais contra o país. Segundo estatísticas do próprio governo norte-americano, os EUA acumularam nos últimos 15 anos US$ 424,5 bilhões em superávit de bens e serviços com o Brasil", afirma a nota.

Segundo o comunicado, em 2025, 76% das importações originárias dos EUA entraram no Brasil sem pagar imposto de importação, e a alíquota média aplicada sobre produtos norte-americanos foi de apenas 3,1%.

O governo disse ainda que não reconhece a legitimidade de investigações sem amparo nas regras multilaterais de comércio e, mesmo assim, nunca deixou a mesa de negociação. Afirma ter demonstrado que são descabidas as alegações contra o Pix, a regulação de plataformas digitais e as acusações contra o desmatamento.

Essa nova fase de sanções econômicas foi anunciada após a conclusão da investigação da seção 301, comandada pelo USTR (Escritório do Representante de Comércio dos Estados Unidos), que apurava práticas comerciais injustas no Brasil e em outros países.

Setores isentos citam alívio, mas temem novas tarifas dos EUA em caso sobre trabalho forçado

MARCOS HERMANSON-BRASÍLIA, DF (FOLHAPRESS) - Setores isentos da nova rodada de tarifas de 25% aplicadas pelos Estados Unidos contra produtos brasileiros falam em "alívio parcial" e temem uma nova taxa de 12,5% que pode ser instituída já na semana que vem com base na investigação dos EUA sobre trabalho forçado.

O governo americano anunciou nesta quinta-feira (16) uma taxa de 25% sobre uma ampla gama de produtos oriundos do Brasil, mas deixou de fora 2.100 mercadorias consideradas importantes para o abastecimento do mercado americano. Entre elas, o café, a carne bovina, pescados, suco de laranja e ferro-gusa (matéria-prima do aço).

Paralelamente, o USTR (Escritório do Representante de Comércio dos EUA) concluirá nos próximos dias um procedimento sobre as práticas de 59 países, incluindo o Brasil, para coibir o trabalho forçado. O relatório preliminar da investigação, divulgado em junho, sugeriu a aplicação de uma tarifa de 12,5% contra produtos brasileiros.

A investigação sobre o trabalho forçado é vista no setor privado e por especialistas brasileiros como uma forma encontrada pelo governo Trump de substituir as tarifas globais de 10% aplicadas em fevereiro com base na Seção 122.

O governo Trump baixou essas tarifas após a Suprema Corte derrubar o tarifaço global anterior. Elas expiram no fim de julho e precisariam ser renovadas no Congresso americano, onde a aprovação é incerta -daí a opção da Casa Branca pela investigação sobre o trabalho forçado, que resultaria em alíquota semelhante.

"[É] um alívio parcial", diz Fausto Cançado, presidente do Sindifer (Sindicato das Indústrias do Ferro) de Minas Gerais, que representa a indústria de ferro-gusa, matéria-prima do aço beneficiada na lista de isenções.

"Fomos contemplados na primeira investigação, ou seja, isentos dos 25%", afirma. "Falta a decisão sobre a segunda investigação, de trabalho forçado, e acreditamos que, pelas justificativas da USTR, por coerência, [a lista de exceções] deve se repetir".

Numa conta preliminar, o Sindifer estimava, antes do anúncio desta quinta, que 55% das fábricas brasileiras de ferro-gusa poderiam parar de forma definitiva ou temporária se as novas tarifas fossem aplicadas.

"[A aplicação das tarifas por trabalho forçado] preocupa por vários motivos. A gente entende que há um risco muito grande", diz Marcos Matos, diretor-geral do Cecafé (Conselho de Exportadores de Café do Brasil). "Essa investigação foi feita para recompor tarifas."
Os EUA incluíram o café verde e o café solúvel na lista de exceções, após taxarem os dois produtos em julho do ano passado -a tarifa sobre o café verde durou até novembro de 2025, e a do café solúvel até fevereiro de 2026.

Matos destaca que os EUA abriram a investigação sobre trabalho forçado em março e deram poucos dias de prazo entre o envio de documentos e as audiências públicas do USTR a respeito do tema. (No caso da investigação sobre práticas comerciais, o tempo de discussão foi consideravelmente maior, com um ano entre a abertura e a conclusão do inquérito).

"A lista de exceções sugeridas pelo relatório da investigação sobre trabalho forçado replicou a lista do relatório sobre práticas comerciais", diz o dirigente do Cecafé. "Então a gente torce para que isso aconteça [de novo na implementação das medidas], mas temos que acompanhar."
"Sempre preocupa", afirma Eduardo Lobo, da Abipesca (Associação Brasileira das Indústrias de Pescados), cujo setor foi beneficiado pela lista de exceções do novo tarifaço, a respeito da investigação sobre trabalho forçado.

Ele afirma, no entanto, que o setor de pescados não tem qualquer violação trabalhista que pudesse ensejar punições pelo USTR. "Em relação ao setor de pescados, a gente tem toda a tranquilidade de que não tem nada a ver com isso."
Hoje o setor pesqueiro exporta cerca de US$ 400 milhões (cerca de R$ 2 bilhões) aos Estados Unidos, que responde por 95% da tilápia brasileira vendida ao exterior. As exportações ainda são pequenas se comparadas ao mercado interno, mas Lobo argumenta que, mantida a isenção, o Brasil poderia ampliar seu espaço no mercado americano, chegando a US$ 1 bilhão (R$ 5,1 bilhões) nos próximos cinco anos.

IMPACTO DE NOVA TARIFA SERIA DISTRIBUÍDO
Segundo Welber Barral, ex-secretário de Comércio Exterior do governo federal, o impacto da nova tarifa seria distribuído entre todos os países citados no relatório preliminar do USTR. "Ela vai substituir a 122, mas é bom lembrar que vai ser contra o mundo inteiro, não vai fazer tanta diferença para o Brasil."
Segundo o relatório divulgado em junho pelo governo americano, os compromissos internacionais assumidos pelo Brasil "não vedam legalmente a importação, para comercialização no mercado doméstico, de produtos fabricados total ou parcialmente com trabalho forçado em outros países".

Com base nessas justificativas, O USTR coloca o Brasil junto a outros 53 países na categoria de nações que não proíbem a importação de produtos feitos com trabalho forçado e também não fiscalizam efetivamente esse tipo de importação.

O governo brasileiro contesta as alegações americanas. Em junho, após a divulgação do relatório americano, o ministro das Relações Exteriores, Mauro Vieira, afirmou que eventuais sanções unilaterais seriam desproporcionais e injustas contra um país considerado referência global no combate ao trabalho escravo.

"Esta investigação da Seção 301, e quaisquer ações dos Estados Unidos que possam dela resultar, ameaçam minar o progresso alcançado por tais iniciativas brasileiras e, portanto, comprometer os objetivos do USTR ao iniciar esta investigação", disse o texto.

Para responder à mais nova rodada de tarifas anunciadas pelos EUA, governo brasileiro estuda acionar a Lei de Reciprocidade, como mostrou a Folha de S.Paulo. O processo inclui a abertura de uma investigação comercial, com novas rodadas de negociação e a possível aplicação de sanções a produtos americanos, como, por exemplo, a quebra de patentes.

"Acho difícil o Brasil pelo menos não fazer as consultas públicas com relação à Lei de Reciprocidade, aprovada por unânimidade no Congresso Nacional", afirma Barral. "Alguns setores afetados vão pressionar o governo para avançar com a Lei de Reciprocidade."

Chamado de 'tariflávio', Flávio Bolsonaro retuíta Rubio e culpa Lula pelo tarifaço

ANA LUIZA ALBUQUERQUE-SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - O senador Flávio Bolsonaro (PL), pré-candidato à Presidência da República, culpou o presidente Lula (PT) pelas novas tarifas anunciadas pelos Estados Unidos contra o Brasil.

Flávio compartilhou na manhã desta quinta-feira (16) um tuíte em que o secretário de Estado do governo Donald Trump, Marco Rubio, afirma que Lula colocou o próprio ego à frente das negociações.

"Lula não tem mais condições de ser o presidente do Brasil. Estamos num avião sem piloto", escreveu no X o filho do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL).

A fala ocorre no momento em que petistas culpam o senador pelas tarifas. O partido de deverá martelar o termo que cunhou para associar o senador às medidas americanas -"tariflávio"- e a pecha de traidor da pátria.

Na semana passada, Flávio foi aos EUA participar de uma audiência pública sobre as tarifas, na qual afirmou que novas sanções em meio ao período eleitoral beneficiariam Lula. Ele inicialmente disse ser a favor de adiar a decisão sobre tarifas para depois da eleição, depois defendeu que não houvesse taxação.

O senador, que já foi ao país seis vezes desde que anunciou sua pré-candidatura, tem buscado se aproximar do governo Trump e explorar essa relação eleitoralmente.

Por outro lado, também tenta se desassociar do tarifaço, mal recebido pelo eleitorado e apoiado no ano passado por seu irmão, o ex-deputado federal Eduardo Bolsonaro (PL). A investigação que resultou na taxação foi anunciada após Trump impôr tarifa sob a justificativa de que o Brasil praticava caça às bruxas contra Jair Bolsonaro.

"Enquanto eu estava nos EUA tentando evitar o tarifaço, Lula preferiu provocar Trump. O Brasil sequer enviou representantes para defender os nossos interesses", escreveu Flávio nas redes sociais. "Quem paga essa conta é o povo brasileiro! Defenda o Brasil do PT, o Partido do Tarifaço."
Trump acatou a recomendação do USTR (Escritório do Representante do Comércio dos EUA) para tarifar produtos brasileiros em 25%. A decisão foi divulgada na noite desta quarta (15) e encerrou a investigação da Seção 301 da Lei de Comércio dos EUA, iniciada em julho do ano passado.

Nas redes sociais, Rubio escreveu que "o presidente Lula e seu governo não negociaram com os EUA de boa-fé". "Suas políticas econômicas são ruins para os americanos e ruins para os brasileiros. No último ano, Lula colocou seu próprio ego à frente de fazer um acordo pelo bem-estar do povo brasileiro, e essas tarifas são o preço por isso", diz Rubio.

O governo Lula afirmou que iniciará imediatamente os trâmites para acionar os instrumentos previstos na Lei de Reciprocidade, aprovada por unanimidade pelo Congresso Nacional, e que continuará a diversificar parcerias comerciais e a abrir novos mercados para os produtos brasileiros.

'Lula colocou seu ego à frente', diz Marco Rubio sobre novas tarifas

SÃO PAULO, SP (UOL/FOLHAPRESS) - O secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio, culpou o presidente Lula (PT) pelo novo tarifaço de 25% sobre produtos brasileiros anunciada ontem de noite pelo USTR (Escritório do Representante do Comércio dos EUA).

Rubio afirmou que Lula colocou seu ego à frente do país.

"O presidente Lula e seu governo não negociaram com os EUA de boa-fé. Suas políticas econômicas são ruins para os americanos e ruins para os brasileiros. No último ano, Lula colocou o seu próprio ego à frente de fazer um acordo pelo bem-estar do povo brasileiro, e essas tarifas são o preço por isso", disse Marco Rubio, no X.

"Um marco lastimável nas relações entre Brasil e EUA", afirmou o governo Lula em nota divulgada após o anúncio formal dos EUA das novas taxas. O comunicado federal tem tom duro e "repudia" a ação unilateral de Washington, a qual chama de "injustificada". A medida, que era aguardada pelo Planalto, passa a valer em 22 de julho para itens que não estejam na lista de exceções do órgão.

O Planalto também acusou a família Bolsonaro de colaborar ativamente para a criação do tarifaço. A nota do governo chama os opositores de "falsos patriotas" que agiram por interesses eleitorais para prejudicar o país.

A investigação norte-americana começou após Donald Trump criticar processos contra Jair Bolsonaro. O republicano abriu a apuração comercial no ano passado sob a justificativa de reagir a uma suposta "caça às bruxas" contra o ex-presidente brasileiro.

Eduardo Bolsonaro e o comentarista Paulo Figueiredo atuaram em Washington por punições ao Brasil. Segundo o governo, o objetivo do grupo era pressionar por uma anistia a Bolsonaro, condenado a mais de 27 anos de prisão por tentativa de golpe de Estado.

O senador Flávio Bolsonaro também viajou aos EUA para tratar do tema. Em maio, o pré-candidato à Presidência pelo PL se reuniu com Marco Rubio e Donald Trump; posteriormente, pediu em audiência pública que os americanos não aplicassem as tarifas ao Brasil.

O senador compartilhou o post de Rubio e criticou Lula. Disse que o atual chefe do Executivo "está ranzinza, inconsequente e se tornou um perigo para a nossa nação".

omparou o petista com o ex-presidente dos EUA Joe Biden. O democrata chegou a ser pré-candidato à reeleição em 2024, mas foi substituído por Kamala Harris em meio a críticas sobre sua idade e ao desempenho ruim em debates. Biden tinha 81 anos na ocasião, mesma idade que terá Lula se vencer a eleição e assumir um quarto mandato em 2027.

"Quem olha pro Lula não enxerga futuro. Enxerga passado, atraso, incerteza, desconfiança, corrupção, incompetência, vingança", disse Flávio Bolsonaro, no X.

Entenda em 5 pontos o novo tarifaço dos Estados Unidos contra o Brasil

O governo dos Estados Unidos confirmou na noite desta quarta-feira (15) a implementação de tarifas de 25% contra produtos do Brasil. A medida havia sido proposta pelo USTR (Escritório do Representante do Comércio dos EUA) e encerra uma investigação sobre o país iniciada em julho do ano passado.

As novas tarifas devem entrar em vigor no dia 22 de julho, segundo o governo americano.

Entenda a seguir, em cinco pontos, porque a medida foi adotada pelos EUA, como devem ficar as tarifas sobre produtos brasileiros, quais produtos estão isentos e o que esperar do governo brasileiro.

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ENTENDA EM 5 PONTOS
QUAL O MOTIVO DO TARIFAÇO?
As novas tarifas oficializadas nessa quarta são resultado de uma investigação com base na seção 301 da Lei de Comércio de 1974. Essa investigação foi instaurada em julho de 2025, como uma das medidas anunciadas por Trump em reação ao que o republicano classificou como uma "caça às bruxas" contra o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL).

A Seção 301 permite que os EUA imponham tarifas sobre quem violar acordos comerciais. A investigação, que ocorreu por meio do USTR (Escritório do Representante de Comércio dos EUA), foi concluída em junho deste ano.

Entre os principais alvos da investigação estão o Pix e o mercado de etanol. O relatório acusa o Banco Central brasileiro de favorecer o Pix de forma injusta e discriminatória em relação a outros meios de pagamento. No caso do etanol, o USTR acusa o Brasil de restringir o acesso do produto americano ao mercado brasileiro após encerrar, em 2017, um tratamento tarifário considerado equilibrado entre os dois países.

Tarifas preferenciais aplicadas pelo Brasil, aplicação da Lei Anticorrupção, proteção da propriedade intelectual e desmatamento ilegal são outros pontos contemplados pela investigação, que cita decisões do STF sobre big techs e Lava Jato, etanol e até a rua 25 de Março, centro de comércio popular de São Paulo.

COMO FICA A TARIFA FINAL SOBRE PRODUTOS BRASILEIROS?
Com a nova tarifa de 25%, o Brasil passa a ser o segundo país mais tarifado pelos EUA no planeta, atrás apenas da China, como mostrou uma reportagem da BBC News com base nos dados da iniciativa Global Trade Alert. Antes dessa nova rodada do tarifaço, o Brasil era o 13º país do ranking.

A tarifa global de 10% imposta por Trump em fevereiro deste ano sobre todos os países continua em vigor, o que tornaria a tarifa enfrentada pelos produtos brasileiros de 35%. A primeira, no entanto, expira ainda em julho, o que torna improvável o acúmulo das duas taxas.

Ainda assim, é possível que a tarifa aumente no futuro. O Brasil está na mira de outra ação do USTR, iniciada neste ano, para analisar se produtos supostamente fabricados com trabalho forçado estão entrando no mercado americano.

Em conclusões preliminares, o USTR propôs uma nova tarifa de 12,5%, o que elevaria a tarifa sobre o Brasil para 37,5%. Os documentos não esclarecem se as penalidades seriam somadas, e a decisão sobre aplicação ou não dessas tarifas também cabe ao presidente americano.

QUAIS PRODUTOS ESTÃO ISENTOS?
Como já havia sido antecipado em junho, haverá uma extensa lista de isenções, que ultrapassa 2.100 itens, como carne, café, laranja e partes para a fabricação de aviões. Em junho, o governo brasileiro estimou que as tarifas afetariam 21% das exportações nacionais aos americanos.

Ficaram de fora os produtos que, na avaliação dos americanos, poderiam levar à indisponibilidade doméstica ou causar perturbações na economia se sujeitos a tarifas. Itens que não podem ser cultivados ou produzidos em quantidade suficiente nos EUA também serão poupados.

O anúncio desta quarta acrescentou uma série de produtos à lista de isenções, após consideração de comentários enviados ao USTR por representantes de setores e empresas. Alguns itens que agora também serão isentos são: café solúvel sem sabor, roupas usadas, determinados produtos de madeira, sucata e resíduos de ferro e aço, determinados couros de animais, ferro-gusa e hidróxido de alumínio.

O QUE DIZEM OS SETORES E EMPRESAS AFETADOS?
Antes do anúncio oficial das tarifas, em junho, entidades e empresas nacionais e multinacionais pediram para que o tarifaço não fosse adotado. Houve audiências sobre o tema nos EUA e espaço online para envio de comentários.

Gigantes como Coca-Cola, Nestlé, Tesla, Faber-Castell, eBay e Siemens Energy enviaram comentários ao USTR pedindo que a tarifa adicional de 25% não fosse implementada. O pleito das empresas cita riscos a cadeia de suprimentos de diversos produtos e possíveis consequências negativas para a economia dos EUA, como aumento de preços.

Representantes de empresas e associações brasileiras e americanas também estiveram em audiências públicas pedindo que a proposta do governo Trump não fosse adiante. Entidades reforçaram a tese de que tarifas elevariam custos para consumidores americanos, encareceriam alimentos, medicamentos e insumos agrícolas.

Em nota após a confirmação das tarifas, o governo brasileiro afirmou que 63 das 78 intervenções feitas por representantes do setor privado brasileiro e norte-americano nas audiências foram contrárias ao tarifaço.

O QUE O BRASIL PODE FAZER?
Mesmo antes do anúncio oficial, autoridades brasileiras já tinham como certa a implementação das tarifas. Houve uma série de conversas com o governo Trump, mas nenhum acordo foi adiante. Autoridades brasileiras afirmaram que questões como o Pix e o etanol -pontos centrais da investigação americana- seriam inegociáveis, o que dificultou o avanço de um acordo.

Em comunicado na madrugada desta quinta-feira (16), após a confirmação do tarifaço, o governo brasileiro afirmou que irá acionar a Lei de Reciprocidade e irá retomar o tema no mecanismo de solução de controvérsias da OMC (Organização Mundial do Comércio).

Às vésperas da confirmação do tarifaço, integrantes do governo já haviam afirmado que recomendariam ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) a adoção de medidas de reciprocidade aos EUA.

O governo federal pode responder dessa forma graças a uma lei aprovada pelo Congresso Nacional em 2025, quando o presidente dos EUA iniciou o ciclo de novas tarifas. Segundo a legislação, é permitida a aplicação de retaliações equivalentes em situações como essa, na esfera econômica.

As regras brasileiras permitem sobretaxas a importações, suspensão de acordos e, em casos excepcionais, o bloqueio de patentes e royalties como resposta a medidas comerciais prejudiciais ao Brasil.

A nota também afirma que serão mantidas medidas de proteção aos setores afetados através do Plano Brasil Soberano.

Após tarifaço, EUA negam querer acabar com o Pix

ISABELLA MENON-WASHINGTON, EUA (FOLHAPRESS) - Após anunciar o tarifaço de 25% sobre produtos brasileiros, os Estados Unidos negam que queiram acabar com o Pix, apesar de o sistema de pagamento ter sido um dos pontos das reclamações por parte dos americanos e de o USTR (Escritório do Representante de Comércio dos EUA) ter incluído o sistema na investigação da seção 301.

Um alto funcionário do governo Trump afirmou que os EUA não querem uma situação em que as empresas americanas sejam colocadas em desvantagem enquanto um sistema operado pelo Estado recebe, na visão dos americanos, um tratamento diferenciado.

Segundo esse funcionário, a expectativa é que todas as empresas concorram nas mesmas condições comerciais. Porém ele não detalhou qual seria a solução para isso.

Ainda de acordo com esse representante dos EUA, o governo Trump reconhece a importância do Pix para os brasileiros, mas não quer que empresas americanas sejam obrigadas a propagandear ou obrigadas a usar o Pix. A expectativa é que o Pix compita com as empresas americanas nas mesmas bases.

Como a Folha de S.Paulo mostrou, durante as audiências da seção 301, brasileiros e americanos argumentaram a favor do Pix e defenderam o sistema como uma infraestrutura pública que ampliou a concorrência, reduziu custos para consumidores e empresas e criou oportunidades de negócios, inclusive para companhias dos EUA.

Nas negociações que antecederam a confirmação do tarifaço, autoridades brasileiras rejeitaram qualquer negociação envolvendo o sistema de pagamentos. Em nota após o anúncio, o governo voltou a defender a ferramenta.

"O Pix é um patrimônio do nosso povo e referência internacional de infraestrutura pública digital. No Brasil, não vamos abdicar de proteger nossas famílias e nossas crianças contra a ganância de um punhado de tecno-oligarcas", diz o comunicado.

Após mais de cinco anos de seu lançamento, o Pix se consolidou como principal meio de pagamento utilizado no país. Em 5 de dezembro do ano passado, o sistema bateu recorde ao registrar 313,3 milhões de transações em um único dia.

A modalidade já reúne mais de 170 milhões de brasileiros cadastrados, superando a população brasileira economicamente ativa (aproximadamente 110 milhões). Ao longo do tempo, novas funcionalidades foram desenvolvidas, como Pix agendado, Pix por aproximação e Pix automático.

O ataque ao sistema também é visto por autoridades brasileiras como um recado para os países que estudam seguir o caminho do Brasil e implementar um sistema de pagamentos instantâneos gratuito. A fragmentação do sistema financeiro global em sistemas regionais e nacionais ameaça a supremacia dos EUA e é uma dor de cabeça para Visa e Mastercard, o duopólio americano do setor.

A ascensão de sistemas "soberanos", especialmente na Europa, uma grande fonte de negócios internacionais da Visa e da Mastercard, pode corroer suas margens operacionais de mais de 50%. Em seus últimos relatórios anuais, ambas as empresas mencionaram o tratamento "preferencial" de sistemas domésticos de pagamentos como um risco aos negócios.

Governo Lula diz que vai acionar Lei de Reciprocidade contra tarifaço dos EUA

MARIANA BRASIL E CRISTINA CAMARGO-BRASÍLIA, DF, E SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - O governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) afirmou no início da madrugada desta quinta-feira (16) que iniciará imediatamente os trâmites para acionar os instrumentos previstos na Lei de Reciprocidade, aprovada por unanimidade pelo Congresso Nacional, após o governo dos Estados Unidos confirmar nesta quarta-feira (15) a imposição de novas tarifas de importação contra o Brasil.

Disse também que continuará a diversificar parcerias comerciais e a abrir novos mercados para os produtos brasileiros, citando como exemplos os acordos do Mercosul com a União Europeia, a Associação Europeia de Livre Comércio e Singapura.

Essa nova fase de sanções econômicas foi anunciada após a conclusão da investigação da seção 301, comandada pelo USTR (Escritório do Representante de Comércio dos Estados Unidos), que apurava práticas comerciais injustas no Brasil e em outros países.

"O dia 15 de julho de 2026 passará para a história das relações entre Brasil e EUA como um marco lastimável", diz nota do governo sobre o tarifaço, com uma manifestação de repúdio. "Não há justificativa para medidas unilaterais contra o nosso país. Segundo estatísticas do próprio governo norte-americano, os EUA acumularam nos últimos 15 anos US$ 424,5 bilhões em superávit de bens e serviços com o Brasil", afirma a nota.

Segundo o comunicado, em 2025, 76% das importações originárias dos EUA entraram no Brasil sem pagar imposto de importação, e a alíquota média aplicada sobre produtos norte-americanos foi de apenas 3,1%.

O governo disse ainda que não reconhece a legitimidade de investigações sem amparo nas regras multilaterais de comércio e, mesmo assim, nunca deixou a mesa de negociação. Afirma ter demonstrado que são descabidas as alegações contra o Pix, a regulação de plataformas digitais e as acusações contra o desmatamento.

"O Pix é um patrimônio do nosso povo e referência internacional de infraestrutura pública digital. No Brasil, não vamos abdicar de proteger nossas famílias e nossas crianças contra a ganância de um punhado de tecno-oligarcas. A liberdade de expressão não é carta branca para a criminalidade. O mundo inteiro sabe que, a partir de 2023, combatemos de forma incisiva os ilícitos ambientais e reduzimos drasticamente o desmatamento em todos os biomas brasileiros".

Horas antes da oficialização das novas tarifas, o ministro Guilherme Boulos (Secretaria Geral) já havia criticado a ameaça americana,
"Trump rebatizou essa soberania brasileira como discriminação comercial injusta. É tão previsível quanto preocupante que o bolsonarismo esteja disposto a embarcar nessa narrativa", escreveu Boulos no X (antigo Twitter). "Até o jornal britânico The Guardian sabe que os responsáveis pela tarifa e pelo ataque à soberania brasileira são a família Bolsonaro."
Na nota após a confirmação do tarifaço, o governo chamou de lamentável o desfecho das investigações baseadas na Seção 301 e disse que isso faz parte do "enredo construído com a ativa colaboração da família Bolsonaro".

"São falsos patriotas que arquitetaram e defenderam publicamente ações contra o nosso país, movidos por objetivos eleitoreiros".

Na terça-feira (14), o governo brasileiro comunicou ter realizado uma reunião de nível ministerial com os Estados Unidos, que vinha sendo pleiteada pelo Brasil para tratar do tema antes da nova aplicação de tarifas.

Desde o anúncio da nova etapa do tarifaço dos Estados Unidos contra o Brasil, o governo Lula se preparava para um cenário pouco amigável por parte do governo americano, enquanto definia os pontos considerados inegociáveis para a economia brasileira.

Logo após a conclusão da investigação, o governo americano marcou uma audiência com representantes do setor privado do Brasil e dos Estados Unidos, na qual o senador e pré-candidato à Presidência Flávio Bolsonaro (PL-RJ) participou. O objetivo era consultar o setor antes da aplicação e publicar os resultados no relatório divulgado nesta quarta-feira (15).

Após a participação de Flávio na audiência, o governo brasileiro voltou a repudiar o envolvimento do senador na discussão com os Estados Unidos, e usou a situação para relembrar a ligação de Flávio com o escândalo do banco Master. O filho mais velho de Jair Bolsonaro havia citado o caso durante a audiência, sem citar seu vínculo com o banqueiro Daniel Vorcaro.

O tom adotado pelo presidente e por sua equipe ao longo do período se pautou principalmente no argumento de que a investigação americana é injusta nas críticas às práticas comerciais brasileiras e a outros pontos apontados pelo governo de Donald Trump.

Com a nova leva de ameaças, o Brasil passou a sinalizar que não estaria aberto a negociar pontos como imposto sobre o etanol e medidas relativas ao Pix - o que deve ser mantido nas negociações após essa nova sanção.

Como mostrou a Folha de S.Paull, as expectativas de integrantes e auxiliares do governo de que fosse alcançado um acordo antes da aplicação das novas tarifas era quase nenhuma.

Técnicos e ministros relatavam uma baixa receptividade do governo americano e se preparavam para pedir isenções a determinados itens. Também já estava sendo avaliada a possibilidade de recorrer à Lei da Reciprocidade, que prevê a tomada de medidas igualitárias contra o país frente a determinadas sanções.

Setor empresarial lamenta novo tarifaço de 25%, e Fiesp dispara contra governo Lula

DIEGO FELIX E CRISTIANE GERCINA-SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - As primeiras manifestações dos industriais brasileiros sobre a nova sobretaxa de 25% aplicada pelo governo Donald Trump na noite desta quarta-feira (15) indicaram forte apreensão e, no caso da indústria paulista, de fortes críticas ao governo Lula (PT).

Mais de 2.100 produtos estão isentos das novas taxas dos Estados Unidos. São listadas ainda 12 categorias que estavam na mira das investigações, mas escaparam, como o café solúvel, certos produtos de pescado (como o filé de tilápia), couro, peles e peles com pelo, obras de arte, entre outros.

Por outro lado, setores que já estavam sobretaxados em 10% e pleitearam isenção foram recusados. É o caso de móveis, calçados, têxtil, tabaco, madeira (coníferas), e mel convencional (exceto orgânico, que foi isento). A indústria de armas e munições não pleiteou redução, mas sofrerá com o incremento de 25%.

A regra de não duplicação será aplicada a setores com peso na balança comercial, como o aço e alumínio, que estavam enquadrados em outra base de investigação, com taxação de 50%.

A CNI (Confederação Nacional da Indústria) avalia que a sobretaxa agrava um cenário que já vinha pressionando as exportações nacionais, além de ampliar a insegurança para as empresas do Brasil e dos Estados Unidos.

"Os efeitos do aumento de tarifas dos Estados Unidos estão sendo cada vez mais sentidos pela indústria brasileira: 20 dos 27 estados reduziram suas exportações ao mercado norte-americano no primeiro semestre. Diante do anúncio de hoje, o cenário tende a piorar, corroendo ainda mais a competitividade da indústria brasileira", afirma o presidente da CNI, Ricardo Alban.

Cálculos da confederação indicam que, desde a adoção das tarifas no ano passado, as exportações brasileiras para os EUA caíram 13%, o equivalente a US$ 2,6 bilhões.

A retração foi influenciada pela redução de 8,7% nas vendas de bens industriais, principalmente manufaturados de ferro e aço, ferro fundido bruto, pasta química de madeira não conífera, óleos de petróleo e produtos semimanufaturados de outras ligas de aço.

Apesar da queda, os Estados Unidos seguem como o principal destino das exportações da indústria de transformação do Brasil.

Em nota, a Fiesp (Federação das Indústrias do Estado de São Paulo) disse "lamentar, com profunda preocupação", a aplicação de uma nova sobretaxa às exportações de produtos brasileiros. Para a entidade, a decisão é "especialmente prejudicial por se limitar de forma unilateral ao Brasil, o que reduz significativamente a competitividade do país perante concorrentes globais".

Liderada por Paulo Skaf, um crítico ao governo Lula, a Fiesp afirma que a retaliação comercial poderia ter sido evitada com uma "condução técnica e pragmática".

Diz também que em um momento de sensibilidade econômica mundial, a "opção do governo brasileiro por ruídos diplomáticos desnecessários, críticas personalistas, discursos eleitorais e desalinhamento político com Washington" minaram vínculos construídos ao longo de 200 anos cooperação bilateral.

"O mercado norte-americano é o principal destino de produtos brasileiros de alto valor agregado. Esse novo 'pedágio' imposto às exportações se soma à crônica realidade enfrentada pelas nossas empresas, que convivem com alta carga tributária e com as taxas de juros reais mais elevadas do mundo, entre outros desafios", disse em nota Skaf.

A Fiemg (Federação das Indústrias do Estado de Minas Gerais) disse que a medida anunciada pelos EUA cria uma diferença relevante em relação a fornecedores de outros países que disputam os mesmos compradores. O impacto efetivo, no entanto, vai depender dos produtos alcançados pela nova sobretaxa, da classificação tarifária de cada mercadoria e do tratamento concedido aos concorrentes internacionais.

O temor é o mesmo do tarifaço iniciado há um ano: a possível substituição de fornecedores brasileiros em mercados já estabelecidos; a pressão pela redução de preços e margens; e a renegociação de contratos, prazos e condições comerciais.

"A tarifa de 25% altera de forma expressiva as condições de acesso dos produtos brasileiros ao mercado americano. Será fundamental garantir clareza sobre os produtos atingidos, os prazos de implementação da medida e o tratamento dos contratos em andamento, reduzindo as incertezas para as empresas exportadoras", disse em nota Verônica Winter, coordenadora de facilitação de negócios internacionais do Centro Internacional de Negócios da Fiemg.

A federação ainda falou sobre a necessidade de intensificar as negociações com os Estados Unidos com o objetivo de garantir regras claras para contratos já firmados, cargas em trânsito e período de implementação da medida. Isso evitaria uma "perda prolongada" de competitividade para os industriais brasileiros.

Pelas regras anunciadas nessa quarta-feira, a tarifa de 25% começa a valer a partir do próximo dia 22 de julho. Produtos que forem embarcados antes dessa data e chegarem aos EUA até o dia 29 ficam isentos da nova taxa.

O anúncio do governo Trump se baseia na Seção 301 da Lei de Comércio de 1974, que permite ao USTR (Representante de Comércio dos EUA) investigar se um país adota práticas comerciais consideradas desleais. No caso brasileiro, a investigação mirava pontos como a tarifação do etanol, as regras de meios de pagamentos como o Pix, uso da propriedade intelectual e o combate ao desmatamento ilegal.

GUERRA COMERCIAL ATIVA
Roberto Siminioni, economista-chefe da Blue3 Investimentos, avalia que o anúncio do governo Lula de que deve usar a lei de reciprocidade contra os Estados Unidos, aplicando tarifas na mesma proporção para blindar financeiramente a indústria nacional, pode ser vista pelo presidente Donald Trump como "uma guerra comercial ativa", o que poderia ser prejudicial em termos de competitividade.

Segundo o economista, além da perda de competitividade frente a outros países que fazem negócios com os EUA, pode haver prejuízos no caso das empresas que vão direcionar seus produtos a outros mercados, já que essa mudança de logística exige ainda mais gastos.

O especialista acredita que a melhor forma é tentar reverter as tarifas da Seção 301 em ação na própria Justiça americana, que tem derrubado decisões do governo neste sentido.

Ele diz ainda que commodities agrícolas e minerais devem ser os menos afetados, já que contam com algumas proteções, mas as cadeias industriais de alta tecnologia, siderurgia, autopeças e manufaturados leves estão na linha de frente do impacto.

Lista de isenções de nova tarifa de Trump tem mais de 2.100 itens e inclui carne, café solúvel e obras de arte

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Mais de 2.100 produtos estarão isentos da tarifa de 25% que será aplicada pelo governo dos Estados Unidos ao Brasil a partir do dia 22 de julho. A lista foi divulgada pelo USTR (Escritório do Representante do Comércio dos EUA) nesta quarta-feira (15).

A maioria já tinha isenção prevista quando a investigação relativa à Seção 301 da Lei de Comércio dos EUA foi concluída, em junho, mas após analisar contribuições de empresas e associações em audiências públicas, o governo americano ampliou as exclusões.

Os itens se somam às isenções a carne, café, laranja e suco de laranja e partes para a fabricação de aviões, produtos importantes para a pauta exportadora brasileira.

Entre os produtos incorporados à lista estão ferro-gusa, café solúvel sem adição de sabor, mel orgânico, hidróxido de alumínio, sucata de ferro e aço, determinados frutos do mar, couros, alguns produtos de madeira, medicamentos e insumos farmacêuticos, além de antiguidades, obras de arte e roupas usadas.

A justificativa é que esses itens são insumos importantes para a indústria americana, têm pouca oferta doméstica ou são difíceis de substituir por fornecedores de outros países, de modo que a sobretaxa poderia provocar aumento de custos e desorganizar cadeias produtivas nos EUA.

Em vários casos, o USTR argumenta que os Estados Unidos dependem do fornecimento brasileiro ou que a aplicação da tarifa traria prejuízos maiores à economia americana do que pressão efetiva sobre o Brasil.

Nem todos os pedidos de isenção foram aceitos. O governo americano rejeitou solicitações apresentadas por setores como máquinas agrícolas, máquinas industriais, vestuário, calçados, equipamentos elétricos, ferramentas de jardinagem, papel, açúcar orgânico e diversos produtos manufaturados.

Embora empresas tenham alegado aumento de custos e dificuldade para substituir fornecedores brasileiros, o USTR concluiu que esses bens podem ser obtidos em outros mercados ou que as consequências econômicas não justificam uma exceção à tarifa.

O texto final também endureceu a proposta inicial em alguns pontos. A agência retirou da lista de isentos a celulose de alta pureza, após receber manifestações de que produtores brasileiros do insumo seriam beneficiados por práticas ligadas ao desmatamento ilegal.

Além disso, restringiu a isenção de determinados produtos químicos apenas às aplicações farmacêuticas, mantendo a cobrança da tarifa quando destinados a outros usos industriais.

Rubio diz Brasil foi tarifado em 25% porque Lula não negociou com os EUA de boa-fé

ISABELLA MENON-WASHINGTON, EUA (FOLHAPRESS) - Após a decisão do governo dos EUA de aplicar um novo tarifaço contra o Brasil, o secretário de Estado, Marco Rubio, culpou o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) pela nova sanção de 25% sobre os produtos brasileiros anunciada pelo USTR (Escritório do Representante do Comércio dos EUA).

Nas redes sociais, Rubio escreveu que "o presidente Lula e seu governo não negociaram com os EUA de boa-fé". "Suas políticas econômicas são ruins para os americanos e ruins para os brasileiros. No último ano, Lula colocou seu próprio ego à frente de fazer um acordo pelo bem-estar do povo brasileiro, e essas tarifas são o preço por isso", diz Rubio.

O novo tarifaço de 25% sob os produtos brasileiros foi anunciado na noite desta quarta-feira (15) e deve ser implementado no próximo dia 22 de julho. A sobretaxa será aplicada sob a seção 301, lei de comércio que autoriza os EUA a retaliar países cujas políticas ou práticas sejam consideradas injustas.

A investigação teve início em julho do ano passado, como uma das medidas anunciadas pelo republicano em reação ao que ele classificou como uma "caça às bruxas" contra o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL).

Rubio esteve reunido com o senador e pré-candidato Flávio Bolsonaro (PL-RJ) no fim de maio deste ano, na mesma viagem que o filho do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) esteve com o presidente Donald Trump no Salão Oval. Flávio retornou aos EUA para participar de uma audiência sobre a seção 301, que ouviu, em sua maioria, o setor privado. Ele pediu que os americanos não tarifassem o Brasil.

De acordo com um alto funcionário do governo americano, Flávio não esteve reunido com altos representantes do USTR, como o representante do comércio Jamieson Greer e nem outros membros do alto escalão.

Governo Lula se preparou para cenário hostil após EUA anunciar novo tarifaço

MARIANA BRASIL-BRASÍLIA, DF (FOLHAPRESS) - Desde o anúncio da nova etapa do tarifaço dos Estados Unidos contra o Brasil, o governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) se preparou para um cenário pouco amigável por parte do governo americano e definiu pontos considerados inegociáveis para a economia brasileira.

O tom adotado pelo presidente e por sua equipe ao longo desse período insistiu no argumento de que a investigação americana é injusta nas críticas às práticas comerciais brasileiras. Com a nova investida do governo de Donald Trump, o Brasil passou a sinalizar que não estaria aberto a negociar pontos como imposto sobre o etanol e medidas relativas ao Pix.

Na terça-feira (14), o governo brasileiro comunicou ter realizado uma reunião em nível ministerial com os Estados Unidos, que vinha sendo pleiteada pelo Brasil para tratar do tema antes da nova aplicação de tarifas. Sem oferecer informações sobre os planos americanos, a gestão disse em nota ter reforçado a argumentação de que a retaliação é injusta e injustificável.

A reunião foi feita entre Mdic (Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços), MRE (Ministério das Relações Exteriores) e Assessoria Especial do Presidente da República com o Representante de Comércio dos Estados Unidos, Jamieson Greer.

Como mostrou a Folha, as expectativas de integrantes e auxiliares do governo de que fosse alcançado um acordo antes da aplicação das novas tarifas eram quase nenhuma.

Técnicos e ministros brasileiros se preparavam para pedir isenções a determinados itens, mas relatavam baixa receptividade do governo americano. Também já estava sendo avaliada a possibilidade de recorrer à Lei da Reciprocidade, que prevê a tomada de medidas contra o país diante de determinadas sanções.

Essa nova fase de aplicação de tarifas contra o Brasil foi anunciada após a conclusão da investigação da seção 301, comandada pelo USTR (Escritório do Representante de Comércio dos Estados Unidos), que apurava práticas comerciais injustas no Brasil e em outros países.

A partir daí, o governo americano realizou uma audiência com representantes do setor privado do Brasil e dos Estados Unidos, da qual o senador e pré-candidato à Presidência Flávio Bolsonaro (PL-RJ) participou. O objetivo era consultar o setor antes da aplicação e de publicar os resultados no relatório divulgado nesta quarta-feira (15).

A ida de Flávio reacendeu o caráter político do tarifaço americano, uma vez que o senador pediu aos EUA que a discussão fosse postergada para após as eleições brasileiras. Flávio alegou querer evitar que Lula fizesse uso político da taxação em benefício próprio durante a corrida eleitoral e os rivais passaram a trocar acusações.

CRONOLOGIA
2 DE ABRIL DE 2025
Trump anuncia o primeiro tarifaço, ao impor a tarifa global de 10% sobre produtos comprados de outros países, inclusive do Brasil. As chamadas "tarifas recíprocas" entraram em vigor dias depois, baseadas na IEEPA (Lei de Poderes Econômicos de Emergência Internacional).

Antes disso, Trump já havia imposto tarifas de 25% sobre aço e alumínio vindos de todos os países –medida que também afetou o Brasil.

OUTUBRO-NOVEMBRO DE 2025
No dia 26 de outubro, Lula se encontrou com Trump na Malásia, onde conversam pessoalmente pela primeira vez desde o tarifaço. Semanas após essa reunião, pressionado pelo aumento da inflação nos EUA, Trump assinou a medida que retirou as tarifas de 10% sobre a importação de carne bovina, tomate, café e banana. A sobretaxa de 40% sobre o Brasil continuou em vigor.

Em 20 de novembro, Trump fez um recuo e retirou a sobretaxa de 40% sobre produtos agrícolas vendidos pelo Brasil. Estavam na lista carne e café, produtos importantes da pauta exportadora brasileira. Ao todo, eram mais de 200 itens agrícolas e da pecuária, incluindo alguns fertilizantes à base de amônia.

20 DE FEVEREIRO DE 2026
A Suprema Corte dos EUA derruba as tarifas globais de 10% impostas em abril. Entre outros argumentos, juízes afirmam que a IEEPA não é adequada para amparar as tarifas. Como reação à determinação judicial, o republicano impôs uma tarifa global de 10%, que expira no final de julho.

JUNHO DE 2026
No dia 1º de junho, os EUA concluem a investigação da seção 301 e propõem novo tarifaço de 25% sobre bens importados do país. Dias depois, o USTR anuncia nova análise sobre suposto uso de trabalho forçado no Brasil e propôs uma nova taxa de 12,5%, que pode ser somada à anterior.

Após o anúncio do governo Trump, a gestão brasileira emitiu uma nota em repúdio à nova decisão, elencando ponto a ponto o que o Brasil classificou como injusto na investigação do USTR.

2 DE JULHO DE 2026
No começo de julho, o senador e pré-candidato à Presidência Flávio Bolsonaro (PL-RJ) enviou um documento aos EUA, em que pedia um adiamento da discussão do tarifaço para depois das eleições brasileiras. Flávio alegava que o tema poderia ser utilizado por Lula em benefício próprio durante as eleições. O presidente rebateu a carta de Flávio e voltou a citar pontos considerados inegociáveis para o Brasil. "O Pix é uma conquista do Brasil e não vamos abrir mão dele", dizia a publicação do petista nas redes.

7 DE JULHO DE 2026
Após a participação de Flávio na audiência do dia 7 de julho, o governo brasileiro voltou a repudiar o envolvimento do senador na discussão com os Estados Unidos, e usou a situação para relembrar a ligação de Flávio com o escândalo do banco Master. O filho mais velho de Jair Bolsonaro havia citado o caso durante a audiência, sem citar seu vínculo com o banqueiro Daniel Vorcaro.

ÚLTIMOS MOMENTOS
Enquanto buscava uma nova reunião com os representantes americanos, auxiliares e integrantes do governo entendiam que seria necessário aguardar a taxação para entender de que maneira o Brasil poderia reagir. Nessa fase, interlocutores afirmavam que seria avaliado pedir a exclusão de alguns itens da lista de taxações ou acionar a Lei da Reciprocidade, que prevê a tomada de medidas recíprocas contra o país.

EUA decidem taxar produtos do Brasil em 25% após investigação comercial sobre Pix e etanol

ISABELLA MENON-WASHINGTON, EUA (FOLHAPRESS) - O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, acatou a recomendação do USTR (Escritório do Representante do Comércio dos EUA) para tarifar produtos brasileiros em 25%. A decisão foi divulgada na noite desta quarta-feira (15) e encerra a investigação da Seção 301 da Lei de Comércio dos EUA, iniciada em julho do ano passado.

Porém, como foi divulgado em junho, há uma lista de exceções com cerca de 2.100 itens que incluem carne, café, laranja e suco de laranja e partes para a fabricação de aviões, produtos importantes para a pauta exportadora brasileira.

Após analisar comentários de empresas e associações nas audiências da semana passada, o governo americano ainda ampliou a lista de produtos brasileiros que ficarão livres da tarifa.

A justificativa é que esses itens são insumos importantes para a indústria americana, têm pouca oferta doméstica ou são difíceis de substituir por fornecedores de outros países, de modo que a sobretaxa poderia provocar aumento de custos e desorganizar cadeias produtivas nos EUA.

Entre os produtos incorporados à lista de exceções estão ferro-gusa, café solúvel sem adição de sabor, mel orgânico, hidróxido de alumínio, sucata de ferro e aço, determinados frutos do mar, couros, alguns produtos de madeira, medicamentos e insumos farmacêuticos, além de antiguidades, obras de arte e roupas usadas.

Nem todos os pedidos de isenção, no entanto, foram aceitos. O governo americano rejeitou solicitações apresentadas por setores como máquinas agrícolas, máquinas industriais, vestuário, calçados, equipamentos elétricos, ferramentas de jardinagem, papel, açúcar orgânico e diversos produtos manufaturados.

Embora empresas tenham alegado aumento de custos e dificuldade para substituir fornecedores brasileiros, o USTR concluiu que esses bens podem ser obtidos em outros mercados ou que as consequências econômicas não justificam uma exceção à tarifa.

A agência ainda retirou da lista de isentos a celulose de alta pureza, após receber manifestações de que produtores brasileiros do insumo seriam beneficiados por práticas ligadas ao desmatamento ilegal.

O USTR investigou desde temas que são motivo de atrito com os EUA há anos, como as tarifas brasileiras sobre a importação de etanol, até queixas mais novas, como o Pix -empresas americanas de cartão de crédito alegam que o Banco Central concede tratamento preferencial ao sistema de pagamento instantâneo, o que o governo Lula (PT) nega.

As tarifas devem entrar em vigor no dia 22 de julho. Segundo uma autoridade americana, os canais ainda estão abertos para negociação. Porém há reclamações de que o governo americano tentou, durante um ano, negociar com o Brasil, mas não obteve sucesso.

Essa mesma autoridade afirma que entre os motivos que levaram os EUA a tarifar o Brasil estão o fato de que tribunais brasileiros emitiram ordens sigilosas determinando que empresas americanas de tecnologia removam determinados conteúdos políticos.

Além disso, diz que as empresas passaram a enfrentar multas diárias elevadas em caso de descumprimento dessas decisões e, em determinadas circunstâncias, podem até ser obrigadas a interromper suas operações no Brasil.

No caso dos serviços de pagamentos eletrônicos, a investigação concluiu que o Brasil prejudicou empresas americanas concorrentes ao favorecer seu sistema nacional de pagamentos, o Pix, operado pelo Banco Central. O alto funcionário reconhece que os países podem ter seus próprios sistemas de pagamento, mas alega que o Pix foi criado em um ambiente de concorrência desleal por meio do sistema estatal.

Os americanos também afirmam que que o Brasil concede tratamento tarifário preferencial à Índia e ao México em diversas linhas tarifárias, mas não realiza o mesmo com produtores americanos. Por isso, na avaliação do governo Trump, isso violaria obrigações internacionais e prejudicaria trabalhadores e empresas dos EUA.

O governo brasileiro deve aguardar a aplicação da nova etapa do tarifaço para decidir como vai reagir à decisão dos Estados Unidos e se será o caso de mobilizar a Lei de Reciprocidade. Em vigor desde o ano passado, a legislação estabelece os critérios que podem ser utilizados pelo Brasil para reagir com medidas retaliatórias contra sanções econômicas aplicadas por outro país.

Segundo o alto funcionário americano, se o Brasil decidir retaliar os EUA, o governo americano vai rever as ações contra o Brasil. Além disso, houve reclamações sobre temas como a corrupção, que para o governo Trump o Brasil não combate de forma efetiva.

Além disso, o Brasil permanece na lista de observação dos relatórios Special 301 dos Estados Unidos, o que significa que continua apresentando deficiências na proteção da propriedade intelectual e no acesso justo ao mercado para detentores desses direitos.

A apuração do processo, que visa lidar com práticas comerciais consideradas desleais pela gestão Trump, foi instaurada em julho de 2025 como uma das medidas anunciadas pelo republicano em reação ao que ele classificou como uma "caça às bruxas" contra o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL).

O representante de comércio da Casa Branca, Jamieson Greer, havia sinalizado para o governo que seria mantida a recomendação de um novo tarifaço sobre produtos brasileiros.

Esse é mais um capítulo de ruptura nas relações entre Brasil e EUA, que já vinham deterioradas desde a designação do PCC (Primeiro Comando da Capital) e do CV (Comando Vermelho) como organizações terroristas.

Como a Folha mostrou, o governo brasileiro tinha a percepção de que não havia espaço para negociação e que os EUA não abririam mão de taxar o país. A baixa expectativa era compartilhada pelo setor privado, que esperava que mais setores fossem poupados, diante do que havia sido divulgado no início de junho.

O tarifaço ameaça parte importante das exportações brasileiras aos EUA, pondo em risco a produção e o emprego em setores com alto nível de dependência do mercado americano.

Na terça-feira (14), representantes de setores como ferro-gusa (matéria-prima do aço), madeira processada e calçados projetavam um cenário negativo no caso de aplicação das tarifas, com previsão de diminuição da produção e de corte de vagas.

Com a nova tarifa, o Brasil passa a ser o segundo país mais tarifado pelos EUA no planeta, atrás apenas da China, como mostrou uma reportagem da BBC News com base nos dados da iniciativa Global Trade Alert. Antes desta nova rodada do tarifaço, o Brasil era o 13º país do ranking.

O aumento do tarifaço pode obrigar o governo petista a manter programas de apoio ao setor produtivo, como o Brasil Soberano, criado no ano passado para apoiar exportadores afetados pelo tarifaço e depois expandido para atender empresas prejudicadas pelo fechamento do estreito de Hormuz.

O ministro Márcio Elias Rosa, do Mdic (Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços), já havia antecipado, em entrevista, que a expectativa de um acordo não existia tanto pelo prazo quanto pelos pontos levantados pelos EUA.

"O Pix é um exemplo, [outro é o] etanol, sem que revejam as tarifas aplicadas ao açúcar brasileiro. São pontos que nos separam hoje. Mas eles podem e deveriam ampliar a lista de exceções", disse ele.

O Mdic calculou, no início de junho, que as novas tarifas podem afetar 21% das exportações nacionais para os americanos.

O governo brasileiro promoveu ao menos cinco reuniões entre o ministro Rosa e o representante de comércio dos EUA -outros encontros também ocorreram entre as equipes técnicas dos dois países.

A última reunião aconteceu nesta terça-feira (14) e, em nota divulgada pelo site do Mdic, foi dito que a possibilidade de qualquer sobretaxa "se mostra injusta e não é o caminho para que possamos vir a formular um acordo bilateral mutuamente adequado".

Esses encontros passaram a ocorrer depois da reunião entre Trump e Lula, em maio, quando o petista propôs a formação de um grupo de trabalho bilateral para que as equipes se encontrassem ao longo de um mês e discutissem os temas sob apuração dos EUA.

No entanto, a conclusão da apuração foi divulgada antes do fim desse período, ainda no início de junho. Na semana passada, audiências sobre o tema foram realizadas em Washington -o governo brasileiro não esteve presente e argumentou que já mantinha reuniões regulares com os americanos sobre o assunto e que as audiências eram voltadas ao setor privado.

Nas audiências, setores do Brasil e dos EUA tentavam argumentar que as tarifas teriam um efeito negativo para a economia dos EUA. Entre eles, esteve presente Mark Bitting, da empresa Gehring Montgomery, que distribui cera de carnaúba do Brasil para diferentes setores dos EUA. Segundo o argumento dele, a nova tarifa se tornaria um novo imposto "sobre o consumidor americano" e explicou que o produto só era economicamente viável no Brasil.

Diferente do governo brasileiro, que apenas enviou ouvintes, o senador e pré-candidato Flávio Bolsonaro esteve presente em Washington, pediu que os EUA não punissem o Brasil e disse que as tarifas, se aplicadas, viriam no "pior momento" e poderiam favorecer o presidente Lula. De acordo com o governo dos EUA, além da audiência, o senador não se reuniu com autoridades do USTR, como o representante Jamieson Greer.

Em reação, a gestão petista emitiu uma nota de repúdio ao que chamou de interferência de Flávio nas negociações em curso.

Flávio tem sofrido desgaste político com o tema diante da ofensiva de Lula em torno da bandeira da soberania nacional e tem procurado se posicionar publicamente contra a eventual taxação. Sob reserva, aliados do senador já admitiam que a possibilidade de reverter o tarifaço era baixa e tentavam chegar ao presidente Donald Trump a justificativa de que a nova sanção poderia ajudar o presidente Lula.

Em fevereiro, a Suprema Corte americana considerou ilegal o uso da IEEPA (Lei de Poderes Econômicos de Emergência Internacional) para justificar tarifas abrangentes contra parceiros comerciais dos Estados Unidos. Como reação à determinação judicial, o republicano impôs uma tarifa global de 10%, que expira no final de julho.

Além da apuração aberta em 2025, o Brasil entrou na mira de outra ação do USTR, iniciada neste ano, para analisar se produtos fabricados com trabalho forçado estão entrando no mercado americano. Na conclusão preliminar, foi proposta uma nova tarifa de 12,5% -existe, assim, a possibilidade de as tarifas se somarem, elevando a taxação sobre o Brasil a 37,5%.

Esse processo avalia práticas em cerca de 60 nações e foi lançado poucas semanas após a decisão da Suprema Corte que derrubou o tarifaço. Segundo especialistas, o objetivo dos EUA é mirar o comércio de parceiros com a China.

O plano do governo Trump é que esse segundo processo tenha tramitação acelerada, com conclusões do USTR publicadas em prazo mais curto do que o tradicional.

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