A geração doméstica de resíduos, principalmente latinhas de alumínio, não é suficiente para atender à demanda interna
Gabriel Gama São Paulo, Sp (folhapress) - 20/05/2026 10:17:20 | Foto: Imagem ilustrativa - Reprodução/Recicla Latas/ABr
As exportações brasileiras de sucata estão em forte alta, em razão da corrida global por alumínio de menor impacto ao meio ambiente.
O Mdic (Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços) registra crescimento de 51% no peso exportado nos últimos cinco anos, de 28 mil toneladas em 2020 para 42,4 mil toneladas em 2025. Na comparação com o ano de 2010, a elevação é de 2.152%.
O cenário pressiona a reciclagem. Parte do setor diz notar redução de insumos e defende taxas para restringir o envio ao exterior. Já outro segmento apoia o livre comércio.
A geração doméstica de resíduos, principalmente latinhas de alumínio, não é suficiente para atender à demanda interna, e a importação também cresceu no período (29%, chegando a 181,3 mil toneladas em 2025). Mas para alguns representantes do setor, o equilíbrio entre a entrada e a saída de material no Brasil está sendo rompido.
"Esse balanço parou de existir, porque você tem cada vez mais dificuldade de importar e cada vez mais exportação acontecendo", diz Janaina Donas, presidente-executiva da Abal (Associação Brasileira do Alumínio). "Todo mundo agora quer alumínio verde, que é a sucata."
A Abal levou ao Mdic a demanda pela taxação das exportações. O ministério afirma à reportagem que o pedido está em análise técnica da Câmara de Comércio Exterior e que mantém diálogo permanente com o setor e as associações envolvidas.
O alumínio primário, extraído por meio da mineração de bauxita, é intensivo em energia e emite mais gases do efeito estufa. Com a necessidade de combater as mudanças climáticas, nações evitam essa rota produtiva e investem no alumínio secundário, fabricado com sucata descartada em processos industriais ou após o consumo.
O exemplo mais extremo dessa guinada vem da China. Desde 2017, o regime limitou a produção de alumínio primário em 45 milhões de toneladas anuais e vem incentivando a fabricação a partir do material reaproveitado. Para atender a demanda, o país precisa comprar sucata de regiões com cadeias de reciclagem mais estruturadas, como o Brasil.
"O que antes era fonte para a gente [a indústria brasileira], já não é mais, porque México e países da África estão exportando para a China", afirma Donas. "Não é uma questão que tem a ver com o mercado nacional, mas com o que está acontecendo lá fora."
A cotação média da tonelada do alumínio primário na London Metal Exchange atingiu US$ 3.600 (cerca de R$ 18,2 mil) em abril. No mesmo mês, a cotação média das ligas secundárias foi de US$ 3.075 (R$ 15,5 mil) por tonelada.
Apesar da alta nas exportações, a Abal registra um aumento no processamento nacional de sucata de alumínio nos últimos anos. Em 2024, foram produzidas 912,6 mil toneladas, um crescimento de 106% em relação a 2010.
Donas diz que os números não contradizem as preocupações do setor. "Sobretudo quando consideramos os investimentos feitos pela indústria brasileira em aumento de capacidade instalada para processar mais do que gera internamente, e que, por esta razão, vem complementando a diferença com importações."
Clineu Alvarenga, presidente do Instituto Nacional da Reciclagem (Inesfa), representa empresas que compram e processam a sucata e diz que o Brasil historicamente não é um exportador do material, comercializando apenas o que a indústria local não compra. "Esse argumento de que vai faltar sucata não é válido. Não há hoje usina que tenha parado por falta de sucata."
"O livre comércio equaliza os valores e faz com que haja uma valorização dos materiais recicláveis. Não conhecemos nenhum mercado fechado que tenha um preço bom", afirma.
Já a Abal defende medidas temporárias para restringir a exportação de sucata. "Mais de 17 países têm algum tipo de medida de controle de exportações de sucata, incluindo a União Europeia, que está em vias de tomar uma decisão em relação a isso, porque é um material estratégico", diz Donas.
A Novelis, uma das maiores produtoras de lâminas de alumínio feitas com sucata, afirma sentir os efeitos da fuga da matéria-prima. Alfredo Veiga, vice-presidente de metal da empresa, diz que a companhia perdeu três pontos percentuais de participação na compra de latinhas no mercado brasileiro de 2024 a 2025.
"A situação escalou a um ponto em que já começa a atingir o presente, com quedas claras de compra de sucata, mas o futuro pode ser tenebroso se nada for feito", diz Veiga.
De acordo com o vice-presidente, o impacto se estende à coleta do material. A Novelis tinha 15 centros próprios de reciclagem espalhados no Brasil, mas precisou fechar a unidade de Juiz de Fora (MG) em 2025, devido à escassez de material, afirma. Não há planos de inaugurar centros.
"Na medida em que a gente fecha um centro de coleta em Juiz de Fora, pequenos catadores ou pequenos fornecedores da região foram afetados", diz.
Eunice Lima, diretora de comunicação e relações governamentais da Novelis, afirma que o aumento da exportação está desalinhado com as políticas públicas de incentivo à economia circular.
"Exportar sucata significa exportar sustentabilidade e competitividade", diz. "Isso traz um grande risco para a gente conseguir manter os atuais índices de reciclagem do Brasil, que são superiores a 95% há mais de 16 anos, e para a gente conseguir manter também em um patamar bastante elevado o conteúdo reciclado das nossas chapas, que é de 80%."
A empresa critica a atuação dos traders que negociam a exportação da sucata brasileira. "A indústria doméstica investe muito nas cooperativas, na organização da cadeia. Os traders não têm esse compromisso com os trabalhadores brasileiros: eles compram, vendem para outras regiões e não agregam nenhum valor ao país ou para os catadores", afirma Lima.
Agentes que trabalham com o comércio internacional da sucata dizem, sob reserva, que o aumento da exportação se deve à correção do preço internacional e negam que isso prejudique o setor brasileiro.
Segundo a diretora de relações governamentais, a Novelis apoia a priorização do mercado interno na compra da sucata. "Não falamos em proibir exportação, mas sugerimos algumas medidas, que podem ser uma licença não automática de exportação, ou eventualmente um imposto."
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