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Festa de Natal para aliviar a dor

Festa de Natal para aliviar a dorFoto: Correio Braziliense

A celebração teve direito a Papai Noel chegando de helicóptero

Renata Rusky-correio Braziliense - 15/12/2019 - 12:43:03

Durante evento promovido pela Abrace, 900 pessoas, entre crianças com câncer, amigos e familiares, tiveram uma manhã marcada por muita diversão e alegria, mesmo enfrentando um período de luta pela vida.

A manhã de sabado (14) começou com a tradicional festa de Natal da Abrace (Associação Brasileira de Assistência às Famílias de Crianças Portadoras de Câncer e Hemopatias), que reuniu cerca de 900 pessoas, entre crianças assistidas pela organização, familiares e amigos. Quase todos os assistidos compareceram e tiveram um momento de encontro fora do ambiente hospitalar. O maior evento organizado pela instituição ocorreu no Estádio Nacional de Brasília Mané Garrincha.

Cerca de 120 voluntários colocaram a mão na massa no preparo de lanches e do almoço servido no fim da festa, na organização das atrações e na recreação. Entre as atrações, estavam os grupos de Choro, Sinfonia da Saúde, Semente Companhia, Doutores com Riso e Coral Supremo Encanto, formado no STF (Supremo Tribunal Federal). No entanto, o que mais animou a criançada foi mesmo a estrela da festa: o Papai Noel. Ele surpreendeu ao chegar em um helicóptero do Corpo de Bombeiros Militar do Distrito Federal.

Yarlon Pietro da Silva, 5 anos, foi logo pedindo à mãe, Laiana da Silva, 29, desempregada: “Fala com ele. Pede pra eu andar também”. Diagnosticado com leucemia há quase dois anos, este é o segundo Natal da Abrace do qual o garoto participa. Em ambos, ele foi fantasiado. No do ano passado, o meio de transporte do Papai Noel foi outro: uma moto. A mãe não pôde acompanhá-lo, mas a tia Luciana da Silva, 30, que estava nas duas ocasiões, relembra que aquilo já havia deixado o menino superanimado.

 (Abrace/Divulgação)

Yarlon está no fim do tratamento e deverá fazer só mais uma sessão de quimioterapia. O processo foi complicado para toda a família, mas o apoio da Abrace foi essencial. “Eles ajudam muita gente com cesta básica, quando as condições financeiras estão piores, ajudam com remédio quando não conseguimos no hospital, e a recreação, então, é perfeita”, enumera Laiana. Ela lembra que, durante as internações, quando ninguém da família podia substituí-la para que tomasse um banho, eram voluntários que a ajudavam, distraindo o menino enquanto se ausentava. “Tinha dia que ele acordava internado e perguntava dos recreadores”, relembra.

A presidente da Abrace, Maria Angela Marini, uma das fundadoras da instituição, mãe de um ex-assistido que teve câncer aos 5 anos e, hoje, tem mais de 40, comenta o crescimento da Abrace. “Hoje, não são só dois braços e duas pernas, ela se tornou uma centopeia e, juntos, nós abraçamos todas as crianças e suas famílias”, define. “E este aqui é um momento de confraternizar, de levar esperança, de criar boas expectativas e de colocar essas pessoas para se encontrarem em um ambiente festivo, porque elas só costumam se encontrar no hospital”, afirma a presidente.

Tuany Santos e a filha Ana Letícia (Renata Rusky/CB/D.A Press)
Tuany Santos e a filha Ana Letícia

Apoio durante a dor

Sophia Victória, 3 anos, foi diagnosticada com um tumor no cérebro há cerca de seis meses. Passou por 27 sessões de radioterapia e foi submetida a uma cirurgia. Agora, frequenta consultas semanais no Hospital da Criança e, em janeiro, tem uma nova ressonância marcada para confirmar se está livre do câncer. Foi a primeira vez que ela participou da festa de Natal da Abrace. A menina esteve na comemoração com a mãe, Mônica de Araújo, 26, e o avô Adailton Cordeiro, 46, servidor público.

Os dois são muito agradecidos ao apoio da Abrace. “É um carinho muito grande que a família toda recebe”, garante Adailton. Mônica gosta da possibilidade de confraternizar com diversos assistidos. “Nós vemos que não somos só nós que passamos por isso. Vemos crianças que estavam doentes e estão bem. Vemos a lutas dos outros e isso nos incentiva e nos dá força”, emociona-se a mãe. De Natal, Sophia quer uma boneca Ariel, do filme A Pequena Sereia. O vovô coruja diz que já está comprada. Eles vão passar o Natal sabendo que a menina está bem melhor e torcendo por resultados positivos em 2020.

Márcia Karine trouxe Victor Gabriel e Rayssa Karen para curtir o Bom Velhinho (Renata Rusky/CB/D.A Press)
Márcia Karine trouxe Victor Gabriel e Rayssa Karen para curtir o Bom Velhinho

Cuidados para sempre

Márcia Karine Ramos, 24, queria ter levado os dois filhos, Victor Gabriel, 7, e Rayssa Karen, 3, à festa de Natal da Abrace do ano passado, mas o mais velho acabou sendo internado. Assim que fez o teste do pezinho, Victor foi diagnosticado com anemia falciforme. Só três anos depois, o menino teve o primeiro problema de saúde sério relacionado à doença. Márcia já estava grávida novamente, e as enfermeiras se preocupavam com o risco de o segundo bebê ter o mesmo diagnóstico.

“Eu e o pai não tínhamos medo, porque ainda não tínhamos a noção da gravidade. Hoje, eu teria”, analisa. Victor tirou o baço e ficou muitas vezes internado. Rayssa, no entanto, nasceu saudável. Moradora de Luziânia, a família não encontra tanta programação para crianças por lá. Portanto, uma festa como a de Natal da Abrace se tornou roteiro imperdível. Márcia nem liga de pegar ônibus com os dois filhos para ver o sorriso no rosto deles ao ver e tirar fotos com o Papai Noel.

Companhia no DF

Daysi Ferreira, 26, veio de Rio Branco (AC) com o filho, Christopher Miguel, 3, para Brasília em março deste ano. Sozinhos na cidade, abrigados na Casa de Apoio da Abrace, os dois comemoraram a chance de ter um evento festivo para ir. É um momento para socializarem e configura um respiro na vida deles. “Lá, não teria uma festa dessa de jeito nenhum. Não tinha nem remédio”, compara Daysi. Na manhã de ontem, Christopher era um dos mais animados. Andava por todo lado, brincava com voluntários fantasiados. E a mãe estava sempre atrás.

O menino está livre do tumor que tinha na bexiga depois de passar por sessões de quimioterapia e uma cirurgia, mas mãe e filho permanecem na capital por causa dos remédios ainda necessários, que estão em falta em Rio Branco. Ao mesmo tempo que tem saudade da família, Daysi se sente abençoada pelos cuidados que o filho tem recebido: “Ele chegou aqui bem traumatizado com a forma como cuidavam dele no hospital. Aqui, eles têm muito mais cuidado, e ele não sofre tanto”.

Suporte necessário

Ao lado da mãe, Tuany Santos, 28, Ana Letícia, 5 anos, participou do Natal da Abrace pela segunda vez. “As festas para entreter as crianças são muito importantes porque, muitas vezes, ficamos sem saber o que fazer com eles”, afirma a mãe, que está desempregada. Mas não é só em relação a isso que Tuany é grata. Quando a filha adoeceu, ela estava em período de experiência no emprego novo como auxiliar administrativa e acabou sendo demitida.

Diante disso, recebeu muito apoio da Abrace, tanto emocional quanto por meio de cestas básicas. Para Ana Letícia, a festa foi importante nos dois anos, mas o que marcou mesmo foi uma diferença nela própria. “Mãe, ano passado, meu cabelo estava bem curtinho, né?” Diagnosticada com leucemia há dois anos e no fim do tratamento, foi ela quem quis e pediu para raspar os fios quando eles estavam ralos.

“Eu chorei até, menti que era de dor de cabeça. Ela se achou linda e eu concordei”, relembra a mãe. Mas não foi fácil encontrar um salão de beleza em que a pequena fosse acolhida como merecia. Pelo menos em dois estabelecimentos, perguntaram: “Por que vai raspar se ela é menina?” Tuany não respondia e ia embora brava. No último a que foram, não perguntaram nada e não cobraram o corte. Depois, as duas voltaram com flores de agradecimento. “É muito bom sentir que a gente é acolhida e, na Abrace, sempre somos”, afirma.

Entenda

A anemia falciforme consiste num grupo de distúrbios que faz com que os glóbulos vermelhos tomem o formato de foice e quebrem. As células morrem prematuramente, causando uma escassez de glóbulos vermelhos saudáveis (que configura a anemia), além de poder obstruir o fluxo sanguíneo, causando dor. A doença é hereditária.

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