Fragmentos de obras vandalizadas no 8 de Janeiro são transformados em arte

Obras vandalizadas no 8/1 são restauradas em parceria entre o Iphan e a Universidade de Pelotas

Fragmentos de obras vandalizadas no 8 de Janeiro são transformados em arte
Fragmentos de obras vandalizadas no 8 de Janeiro são transformados em arte

Thaísa Oliveira-brasília, Df (folhapress) - 09/01/2026 06:06:39 | Foto: Nauro Júnior / Iphan / Divulgação

Três olhos observam agora os cacos de um vaso italiano quebrado no Palácio do Planalto em 8 de janeiro de 2023. A ânfora azul e branca, de autor desconhecido, foi restaurada e devolvida ao acervo da Presidência da República.

Pelas mãos do artista plástico João Angelini, os fragmentos da peça inservíveis para a restauração ajudam a lembrar a invasão de três anos atrás, quando 21 obras de arte expostas na sede do Poder Executivo foram vandalizadas.

Assim como os restos do vaso deram origem à obra de Angelini, sete chassis de telas destruídas no 8 de Janeiro foram usados por Marcos Antony para a "Composição para sete quadros em verde e amarelo", propositadamente instável para quem a observa no segundo andar do palácio.

"Sem conversar tanto, todos esses artistas mantiveram essa fratura e deixaram os materiais bastante crus. Essa ideia de um gesto violento está ali, o que no restauro não fica evidente. Esses materiais mantêm essa memória, essa história", explica a artista visual Luciana Paiva, curadora do projeto.

Os fragmentos chegaram a Luciana por meio do diretor-curador dos palácios presidenciais, Rogério Carvalho.

Com as obras do Palácio do Planalto reparadas e devolvidas no começo do ano passado, algumas coisas o inquietavam naquela ocasião: a vontade de dar uma destinação artística aos resíduos, aproveitando todo o material, de marcar um acontecimento histórico e de deixar o acervo da Presidência mais plural.

Ao ver a caixa de resíduos que tinham sobrado da restauração das obras, Luciana diz ter se deparado não com uma possibilidade, mas quatro.

"Quando eu cheguei no meu ateliê, eu percebi que o que tinha ali era quase uma exposição. Pensei em quatro artistas do Distrito Federal que têm mais proximidade com esses materiais e achei mais interessante coletivizar esse processo", diz Luciana.

A artista visual Paula Catu, radicada em Brasília, recebeu retalhos da tela que fazia a contenção da pintura "As Mulatas", de Di Cavalcanti -uma das mais célebres do artista e também a principal peça que estava exposta no Salão Nobre do Planalto em 8 de janeiro de 2023.

Com uma pesquisa sobre gênero e arte têxtil, Catu bordou ela própria os sete rasgados. "Era uma grande responsabilidade ter em mãos esse material tão precioso, que já era importante por ser uma obra de Di Cavalcanti e por ter toda a trajetória de ter sido esfaqueada", diz.

"Eu não queria cobrir completamente os flagelos. Pensando nesse lugar de registro, quis deixar o flagelo aberto, mas, ao mesmo tempo, construir algo em cima."
Os demais materiais foram recebidos pela artista visual Letícia Miranda: pedaços de madeira e parafusos da obra "Galhos e Sombras", de Frans Krajcberg, além de lixo deixados pelos invasores dentro do vaso italiano.

As peças produzidas por Catu e Miranda estão em fase de finalização e serão expostas perto das originais -de Di Cavalcanti e de Krajcberg. A ânfora e a obra de Angelini foram colocadas no terceiro andar do Palácio do Planalto, onde fica o gabinete do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT).

Das 21 obras vandalizadas, 20 foram recuperadas. Apenas uma, a tela "Bandeira do Brasil", de Jorge Eduardo, foi devolvida ao Palácio do Planalto com marcas evidentes do dano -o quadro, antes pendurado no térreo, agora está no segundo andar, dentro de um suporte de vidro e madeira.

"O Palácio do Planalto é a sede do governo. É onde o presidente da República recebe chefes de Estado, além de outras autoridades cotidianamente. Houve o entendimento de que o espaço deveria ser recomposto com qualidade de apresentação", explica Carvalho.

"A 'Bandeira do Brasil', de Jorge Eduardo, foi mantida na mesma condição justamente por conta de toda a carga simbólica por trás: uma bandeira hiper-realista, muito ligada a um símbolo pátrio, foi retirada da parede e jogada no chão justamente para que as pessoas que estavam circulando aqui não molhassem os pés em um espaço que elas mesmas tinham alagado", completa.

As novas peças também ajudam na transformação gradual do Palácio do Planalto de moderno para contemporâneo. Em 2025, 74 obras foram doadas por artistas ao acervo da Presidência (que reúne os itens do Planalto e do Palácio da Alvorada).

"São quatro artistas contemporâneos que produzem a partir de materiais muito inusitados. E são linguagens também muito diferentes: não é pintura, não é escultura. Há uma predominância dessas linguagens mais tradicionais, naturalmente, porque é um acervo que traz parte da história", avalia Luciana.

Desde o ano passado, a bandeira do Brasil e a composição de Antony dividem o espaço do segundo andar com Daiara Tukano (a primeira artista indígena do Planalto) e Antonio Kuschnir.

"O que me importa é trazer pluralidade para o Palácio do Planalto. O que eu não posso é concordar com a manutenção de um acervo 80% masculino, branco, hétero e burguês no governo Lula", afirma Carvalho.

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