Frigoríficos paralisam produção e dão férias coletivas com fim de cota de exportação para China

Após o período de férias, a expectativa é que a unidade de Água Azul do Norte opere com redução aproximada de 30% em seu volume de produção

Frigoríficos paralisam produção e dão férias coletivas com fim de cota de exportação para China
Frigoríficos paralisam produção e dão férias coletivas com fim de cota de exportação para China

Felipe Mendes-são Paulo, Sp (folhapress) - 03/07/2026 07:06:36 | Foto: Bruno Cecim / Fotos Públicas

A proximidade do fim da cota de exportação para a China mudou a realidade das companhias exportadoras de carne no Brasil. A Frigol, por exemplo, deu férias coletivas para trabalhadores de uma das plantas, no Pará, na primeira quinzena de julho. A Minerva, por outro lado, mudou a estratégia e exportará para o país asiático a partir das plantas na Argentina, Colômbia e Uruguai.

Em nota, a Frigol disse que a medida 'decorre da expectativa de preenchimento iminente da cota anual de importação de carne bovina estabelecida pela China para o Brasil, principal destino da produção da unidade paraense". Atualmente, cerca de 70% do volume produzido na planta de Água Azul do Norte (867 km de Belém) é destinado ao mercado chinês.

Após o período de férias, a expectativa é que a unidade de Água Azul do Norte opere com redução aproximada de 30% em seu volume de produção. Nas demais unidades da companhia, a redução estimada é de cerca de 20%, sem interrupção das operações.

"A Frigol avalia que o período de ajuste poderá contribuir para o reequilíbrio entre oferta e demanda de gado para abate, favorecendo uma adequação dos preços da matéria-prima, das margens industriais e das condições de mercado ao longo dos próximos meses, minimizando os impactos financeiros para a cadeia produtiva", afirma a empresa em nota enviada à reportagem.

A Minerva confirmou que as unidades no Brasil devem continuar produzindo para abastecer o mercado americano, enquanto usará unidades em países vizinhos, como Argentina, Uruguai e Colômbia, para continuar exportando à China.

Para Marcos Jank, coordenador do núcleo Insper Agro Global, os frigoríficos precisam se adequar à nova realidade e buscar ampliar a participação em outros mercados, como nos Estados Unidos. "Os EUA não vão taxar. O tarifaço deles não se aplica à carne", aponta ele. "O mundo está complicado. Há muita restrição ao comércio hoje. São restrições ad hoc, caso a caso, o que acaba prejudicando a exportação, que vinha com um resultado muito bom até agora."
Em 2025, a China fixou cotas para seus fornecedores de carne bovina, incluindo Austrália e Estados Unidos, como forma de proteger a produção local. A cota brasileira é de 1,106 milhão de toneladas - abaixo do volume de 1,7 milhão de toneladas exportado no ano anterior. Dentro dessa cota, a tarifa é de 12%. O que ultrapassa esse limite é tributado em mais 55%, levando a uma tributação total de 67%.

Pelos dados mais recentes do governo chinês, o Brasil havia utilizado 65,4% até maio. A Abiec (Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carnes) estima, no entanto, que a utilização da cota já esteja próxima dos 100%, já que há um intervalo de até 60 dias entre o embarque da carne no Brasil e a contabilização da carga na China.

"A expectativa é que, com o esgotamento da cota, os importadores chineses reduzam temporariamente as compras e retomem os negócios de forma mais intensa apenas no último trimestre, quando os embarques já passarão a contar para a cota de 2027", afirma a entidade em nota.

Jank diz que a paralisação das atividades de algumas plantas é natural. "Cada player foi tentando preencher a cota e vender o máximo possível no primeiro semestre e vai faltar no segundo semestre. Então, haverá alguma desaceleração no mercado", complementa o especialista.

"Eu acho que eles não vão mudar a regra do jogo agora, mas eu acredito que eles mudariam se eles tivessem algum problema de aumento de preço, de inflação ou falta de produtos. Mas é bem verdade que a carne bovina não é a principal carne deles", diz Jank.

Baixa rentabilidade no campo e câmbio devem reduzir vendas de máquinas agrícolas em até 20%

MARCELO TOLEDO-RIBEIRÃO PRETO, SP (FOLHAPRESS) - A baixa rentabilidade dos produtores rurais e a taxa de câmbio farão com que o mercado de máquinas agrícolas termine 2026 com redução de até 20% nos negócios envolvendo tratores e colheitadeiras.

A avaliação foi feita pela Abimaq (Associação Brasileira da Indústria de Máquinas e Equipamentos) nesta terça-feira (30), ao anunciar os resultados das vendas nos cinco primeiros meses do ano. A entidade avaliou o Plano Safra, anunciado também nesta terça pelo governo federal, como "continuidade", sem mudanças nem decepção.

De janeiro a maio, as fabricantes de tratores venderam aos usuários finais 16.199 unidades, o que representa queda de 9,5% em comparação aos 17.900 comercializados no mesmo período do ano passado.

A redução nos negócios envolvendo colheitadeiras foi ainda maior, de 39,2%. Enquanto de janeiro a maio do ano passado foram vendidas ao usuário final 1.719 unidades, neste ano o total foi de 1.045.

Em nenhum mês deste ano foram vendidas mais colheitadeiras em relação ao fluxo mensal de 2025. Em relação aos tratores, só em março deste ano houve mais negócios do que no mesmo mês do ano passado.

"O mercado continua bem ruim, bem difícil. Está -21% e a gente não enxerga nenhum gatilho para fazer com que esse mercado melhore. Ou seja, acho que deve terminar entre 15% e 20% em queda neste ano em relação ao passado", afirmou Pedro Estevão, presidente da câmara de máquinas e implementos agrícolas da Abimaq.

Segundo ele, nesta quarta-feira haverá reunião da câmara para avaliação do Plano Safra e para a definição da previsão do fechamento de 2026, mas o executivo avalia que o índice ficará dentro desse patamar.

"Talvez fique 15% porque o segundo semestre do ano passado foi muito ruim. Então a gente estará se comparando com um período que foi bastante fraco."
Conforme Estevão, o mercado está ruim devido à rentabilidade baixa dos agricultores, especialmente os produtores de soja e milho. "Você tem o preço da commodity, que não está tão alto, e a taxa de câmbio, que tem penalizado muito o agricultor."
O governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) anunciou na manhã desta terça o Plano Safra 2026/27, destinando à agricultura empresarial R$ 525,1 bilhões em financiamento, valor ligeiramente superior aos R$ 516 bilhões do plano 2025/26.

Também haverá crédito destinado a produtores familiares, mas a cifra ainda não foi divulgada oficialmente. Conforme o ministro da Fazenda, Dario Durigan, a soma das duas modalidades ficará em torno de R$ 610 bilhões. A cerimônia de lançamento foi realizada no Palácio do Planalto.

Estevão afirmou que o Plano Safra não teve nenhum avanço significativo e ficou semelhante aos anteriores.

"Ele não teve nenhuma grande mudança, mas também não decepcionou, ou seja, ficou muito parecido com os outros anos. E ele traz um caráter de continuidade [...] Não é bom, mas também não é ruim, está continuando o que vinha sendo feito. O que aconteceu foi que o governo colocou, no caso de investimento, pouco recurso para o Moderfrota, colocou só R$ 5,8 bilhões, e diminuiu juros em 1% em todas as linhas."
Com isso, a avaliação é a de que os recursos anunciados são razoáveis "num ano que não é tão bom". "Um plano safra que é neutro, não aumenta o mercado e nem também diminui, não é má notícia para nós."

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