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Governo "não moveu uma palha" pela vacina, diz fundador da Anvisa

Governo Foto: Vinicius Doti/Fundação FHC

Para Gonzalo Vecina, médico sanitarista e um dos fundadores da Agência Nacional de Vigilância Sanitária, chega a ser

Correio Braziliense - 06/01/2021 - 08:50:42

O médico sanitarista Gonzalo Vecina afirma, em entrevista ao Correio, que, se não fosse a iniciativa da Fiocruz e do Instituto Butantan de se moverem para fornecer uma vacina contra a covid-19, o Brasil estaria hoje ainda mais longe de iniciar a imunização da população. Um dos fundadores da da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), Vecina afirma ainda que os produtores de vacina internacionais ainda não registraram seus produtos no Brasil porque não há garantia de que elas serão compradas. "No momento em que o governo agir, a Pfizer entra com o pedido. A Janssen é a mesma coisa. Não se falou na compra das vacinas da Janssen. Não havendo compra, não vão fazer", analisa.

Por que, no mundo, a vacinação em caráter emergencial é uma realidade e, no Brasil, está demorando?
Só tem lógica você registrar um produto qualquer se houver perspectiva de vender. Não é fácil fazer o registro de um produto, não se faz esse processo em uma única dedada. Para reunir uma documentação complexa, grande, é necessário pagar uma taxa e se ter personalidade jurídica no país. Se não houver, não se pode vender nada, em país nenhum. Além disso, há a responsabilidade técnica. Se cometer algum tipo de crime sanitário, o responsável técnico vai responder por esse crime. Então, é necessário ter uma empresa, o responsável-técnico no Brasil, pagar taxas e ter toda a documentação arrumada na língua do país. Logo, ninguém vai pedir registro para ter o registro. Vai pedir o registro se tiver promessa de compra.

Quais os motivos para que ainda não haja nenhum pedido de uso emergencial ou de registro solicitado à Anvisa?
No caso das duas vacinas com prospecção no Brasil, a CoronaVac e a de Oxford, a demora ocorre devido a pequenos “poréns”, como ajustes nas documentações. São absolutamente resolvíveis. Não vejo nenhum problema nas documentações da Fiocruz e do Butantan que já não tenha sido falado. Teve o problema dos resultados da fase três da Sinovac, na Turquia, e o problema da AstaZeneca com a questão da meia dosagem. Mas tudo isso é explicável. Essas duas vacinas vão entrar com pedido de registro e as outras poderão fazê-lo, se houver compra.

Por que as demais vacinas que realizaram estudo no Brasil não têm a mesma força?
O governo não colocou o pedido formal. No momento em que o governo agir, a Pfizer entra com o pedido. A Janssen é a mesma coisa. Não se falou na compra das vacinas da Janssen. Não havendo compra, não vão fazer. Por outro lado, nenhuma das duas vai conseguir fazer uma oferta de venda para o Brasil em uma quantidade que seja satisfatória e que faça diferença para uma população de 210 milhões de pessoas. Então, acho mais complicado haver o registro dessas vacinas aqui. Mas toda e qualquer vacina, para ser comercializada no Brasil, pela rede pública ou privada, precisa ser registrada. Agora, há a prospecção por parte da Covaxin, com diálogo com as clínicas privadas. Pode ser que venha a Sputnik V por ter a União Química, que quer produzi-la no Brasil.

É suficiente ter só duas vacinas?
Se o governo federal acertar a estrutura e distribuir a vacina da Fiocruz e a do Butantan, teremos o suficiente, de forma que a Sputnik V pode não ter autossustentabilidade. Se tivéssemos uma candidata que pudesse oferecer um grande volume de doses para o primeiro semestre, talvez fosse comprada. Mas, reforço, teria que ser em quantidade considerável neste início.

Houve atraso do governo federal em garantir essas doses para o primeiro momento?
Total, o governo federal chegou atrasado. Nós temos essas duas vacinas, a de Oxford e a CoronaVac, por causa da Fiocruz e do Butantan. O Ministério da Saúde não moveu uma palha. Essa é uma questão que tem que ser repercutida. Chega a ser criminosa a forma como o Ministério da Saúde e o governo federal trataram a questão da vacinação. Temos que cobrar da pasta sobre a forma como se comportou até agora; abandonou a população brasileira. Se não fosse a Fundação Oswaldo Cruz e o Instituto Butantan, por vontade própria terem ido atrás de vacina, não teríamos nenhuma. Estaríamos dependentes de migalhas de doses.

Quando escutamos o presidente Jair Bolsonaro dizer que a vacina não é confiável, isso leva ao desinteresse de outras farmacêuticas em fechar acordo, e da própria população em se vacinar?
Com certeza. Quando se tem um líder falando isso para população, que vai virar jacaré, não dá para entender. Mesmo assim, não vejo nada que vá dificultar mais o registro pela Fiocruz e pelo Butantan. Ainda mais levando em consideração a possibilidade de submeter continuamente a documentação, sendo essa uma grande vantagem de ir apresentando à medida que se produz. As duas entidades já apresentaram quase toda documentação, faltando complementar a da fase três. Então, é muito mais tranquilo para a Anvisa.

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