Em Nova Délhi, Lula defendeu tecnologia voltada ao desenvolvimento e à soberania, não à concentração de poder
Portal Bdf - 19/02/2026 18:08:42 | Foto: Presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) | Crédito: Ricardo Stuckert/PR
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) defendeu que a governança da inteligência artificial seja multilateral, inclusiva e orientada ao desenvolvimento em seu discurso na Cúpula Sobre o Impacto da Inteligência Artificial, em Nova Délhi, na Índia, nesta quinta-feira (19).
Em sua fala, Lula destacou a iniciativa da China de criação de uma organização internacional para cooperação em inteligência artificial, com foco em países em desenvolvimento, além da Parceria Global em Inteligência Artificial, desenvolvida no âmbito do G7 – Alemanha, Canadá, Estados Unidos, França, Itália, Japão e Reino Unido – sob as presidências canadense e francesa.
“Nenhum desses foros substitui a universalidade das Nações Unidas para uma governança internacional da inteligência artificial que seja multilateral, inclusiva e orientada ao desenvolvimento”, avaliou o presidente. “Colocar o ser humano no centro das nossas decisões é tarefa urgente. O regime de governança dessas tecnologias definirá quem participa, quem é explorado e quem ficará à margem desse processo.”
A China anunciou a criação da organização em julho do ano passado como uma contraposição às iniciativas estadunidenses em inteligência artificial. “A governança global da IA ainda é fragmentada. Os países têm grandes diferenças, especialmente em conceitos regulatórios e regras institucionais. Devemos reforçar a coordenação para formar o quanto antes uma estrutura global de governança de IA com amplo consenso”, disse o premiê chinês, Li Qiang, na época.
Agora, Lula afirmou que “a Quarta Revolução Industrial avança rapidamente enquanto o multilateralismo recua perigosamente”. O presidente disse ainda que é nesse contexto que a governança global da inteligência artificial assume um papel estratégico. “Sem ação coletiva, a inteligência artificial aprofundará desigualdades históricas. O Brasil defende uma governança que reconheça a diversidade de trajetórias nacionais e garanta que a inteligência artificial fortaleça a democracia, a coesão social e a soberania dos países”, afirmou.
Democracia, eleições e riscos éticos
Lula declarou ainda que 2,6 bilhões de pessoas estão fora do ambiente digital, segundo a União Internacional de Telecomunicações, e defendeu que a governança das novas tecnologias deve colocar o ser humano no centro das decisões. “O regime de governança dessas tecnologias definirá quem participa, quem é explorado e quem ficará à margem desse processo”, disse.
O presidente brasileiro também alertou para os riscos do uso indiscriminado da inteligência artificial, destacando que seu potencial de afetar eleições e fragilizar democracias por meio da disseminação de conteúdos manipulados. “Toda inovação tecnológica de grande impacto possui caráter dual e nos confronta com questões éticas e políticas. Conteúdos falsos manipulados por inteligência artificial distorcem processos eleitorais e põem em risco a democracia”, ressaltou.
Ele reconheceu que essas tecnologias ampliam a produtividade, fortalecem serviços públicos e impulsionam áreas como medicina e segurança alimentar, mas também podem favorecer armas autônomas, desinformação, discursos de ódio, exploração de dados e precarização do trabalho. Para Lula, algoritmos integram uma estrutura de poder que ultrapassa o campo técnico.
“Elas impactam positivamente a produtividade industrial, os serviços públicos, a medicina, a segurança alimentar e energética e a forma como nos conectamos uns com os outros. Mas também podem fomentar práticas extremamente nefastas, como o emprego de armas autônomas, discursos de ódio, desinformação, pornografia infantil, feminicídio, violência contra mulheres e meninas e precarização do trabalho. Os algoritmos não são apenas aplicações de códigos matemáticos que sustentam o mundo digital. São parte de uma complexa estrutura de poder”, frisou Lula.
Regulação e Big Techs
Por fim, Lula citou iniciativas brasileiras na área, como a atração de investimentos em centros de dados, a construção de um marco regulatório para IA e o lançamento, em 2025, do Plano Brasileiro de Inteligência Artificial, voltado à melhoria dos serviços públicos e à geração de emprego e renda.
“Quando poucos controlam os algoritmos e as infraestruturas digitais, não estamos falando de inovação, mas de dominação. A regulamentação das chamadas Big Techs está ligada ao imperativo de salvaguardar os direitos humanos na esfera digital, promover a integridade da informação e proteger as indústrias criativas de nossos países. O modelo atual de negócios dessas empresas depende da exploração de dados pessoais, da renúncia do direito à privacidade e da monetização de conteúdos chamativos que amplificam a radicalização política”, concluiu.
A cúpula em Nova Délhi é o quarto encontro do Processo de Bletchley, que envolve uma série de reuniões entre diversos países dedicadas à segurança e à governança da inteligência artificial. A iniciativa começou em Bletchley Park, no Reino Unido, em novembro de 2023, e teve etapas seguintes em Seul, em maio de 2024, e em Paris, em fevereiro de 2025.
Após a Cúpula, Lula terá agenda bilateral com o primeiro-ministro Narendra Modi para tratar da ampliação das relações entre Brasil e Índia, com foco nas áreas econômica e tecnológica. Entre os temas previstos estão os desafios ao multilateralismo e ao comércio global, a necessidade de reformar a governança internacional, incluindo mudanças na Organização das Nações Unidas (ONU) e em seu Conselho de Segurança, bem como o compromisso com a paz na Faixa Gaza, a defesa da soberania dos países e o respeito à democracia.
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