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Márcia Abrahão: "É um momento delicado. No curto prazo, não há perspectiva de voltarmos a ter salas cheias"

Márcia Abrahão:  Foto: CorreioWeb

Márcia Abrahão, reitora da UNIVERSIDADE de brasília

Mariana Machado - Correioweb - 13/06/2020 - 08:59:04

"ERA UMA META NOSSA, E TEM DE SUBIR MAIS"

Em ranking mundial, instituição cresce duas posições, passando a ser a 10ª melhor do Brasil. Segundo ela, investimento em pesquisa e maior internacionalização explicam o resultado

A Universidade de Brasília (UnB) subiu duas posições no QS World University Rankings, levantamento internacional que avalia as melhores universidades do mundo. De 12ª, agora está na 10ª colocação do Brasil. Entre as federais, a instituição é a 5ª melhor do país. Em 2020, destacou-se ao ter a primeira equipe a sequenciar o novo coronavírus no Distrito Federal. Desde então, pesquisadores de diversas áreas têm trabalhado nos estudos de combate à doença.

Márcia Abrahão assumiu o comando da reitoria em 2016. Atualmente, a UnB tem cerca de 46 mil alunos, e 2,8 mil docentes. Para a reitora, investimento em produção acadêmica, além de intercâmbios de alunos e professores, contribuíram para a melhora na avaliação. Ainda assim, continua atrás de instituições como a Universidade de São Paulo (USP) e Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG).

O Correio conversou com a reitora sobre o ranking, além do possível retorno às aulas e da polêmica MP que dava poderes ao ministro da Educação de nomear os reitores das federais.

Márcia Abrahão assumiu a reitoria da Universidade de Brasília em 2016 (Ed Alves/CB/D.A Press)
Márcia Abrahão assumiu a reitoria da Universidade de Brasília em 2016

A que a senhora atribui essa melhora da UnB no ranking mundial?

Mesmo com a queda de recursos e orçamento, desde que assumimos, temos fortalecido muito as atividades acadêmicas. Aumentamos recursos para unidades, fizemos editais para incentivar a produção acadêmica, e atuamos muito na internacionalização. A metodologia do QS considera 50% para reputação. Por meio de questionários que distribuem para o mundo todo, eles avaliam a reputação acadêmica, levando em conta o quanto conhecem a universidade lá fora. Quanto mais você tem professores e estudantes no exterior fazendo pesquisa, assim como recebendo estrangeiros aqui, melhor o reconhecimento da universidade lá fora. Outro dado importante é o de citações por docente, que vale 20% da nota. Temos atuado muito. Muitas revistas internacionais, além de terem que aceitar nosso artigo por mérito acadêmico, cobram taxas de publicação, que não são baratas. Temos incentivado muito, por editais, as publicações em revistas de grande impacto, e monitorado isso. Adquirimos softwares para monitorar a citação dos nossos docentes. A gente tem feito todo um trabalho de fortalecer e dar condições aos nossos institutos e faculdades para melhorarem a produção acadêmica. O vice-reitor é estrangeiro e se encarregou pessoalmente de coordenar as atividades de internacionalização. Entramos em uma associação das melhores universidades da América Latina, que é superdifícil de ser convidado: a Associação de Universidades do Grupo de Montevidéu. Tudo isso melhora a nossa reputação. Fizemos também dois editais de professor estrangeiro visitante, e contratamos perto de 70 professores. Com a Fundação de Apoio à Pesquisa do Distrito Federal (FAP-DF), conseguimos que lançassem edital para pós-doutorado no exterior. Esse conjunto de ações começa a surtir efeito.

A UnB tem estado presente em pesquisa, com altos investimentos em estudos, sobre o novo coronavírus, desde a produção em 3D de EPIs até estudo de fármacos. Que pesquisas destacaria atualmente? Até o fim do ano, quanto a universidade espera investir em pesquisa?

Temos pesquisas sobre coronavírus em diferentes áreas. Primeiro, aprovamos 115 projetos. Agora, tem mais de 150. Ressalto projetos para tratamento, como na utilização do plasma de pessoas curadas para tratar pacientes em grau médio da doença. O objetivo é aumentar a imunidade da pessoa infectada. Essa é uma pesquisa fundamental e que está sendo feita por professores da Faculdade de Medicina, em parceria com a Secretaria de Saúde do DF, e o Hemocentro, sob financiamento da FAP-DF. Temos, também, um trabalho de monitoramento com a Fiocruz, para ver a evolução da doença nas diferentes regiões do DF e em outras cidades, para poder dar subsídio aos governantes na tomada de decisões. Estamos atuando no estudo do vírus. Fizemos o sequenciamento logo no início, o que é importante para ver se tem mutações. Tem também sobre saúde mental dos próprios profissionais de saúde. Na área de linguística, desenvolvemos uma cartilha sobre a terminologia. Há, ainda, pesquisas na área de apoio a pessoas em vulnerabilidade socioeconômica.

E como está a questão de financiamento desses trabalhos?

A UnB, infelizmente, não tem muitas condições de investir. A gente tem buscado apoio para financiar essas pesquisas — às vezes, uma pode custar até R$ 5 milhões. A gente precisa de parceiros. Faço um apelo para quem puder ajudar. Vamos iniciar, agora, uma ação buscando doações.

Por diversas vezes, estudantes e professores da UnB manifestaram-se contra o governo federal, o que levou, inclusive, ao corte de verbas pelo Ministério da Educação, sob acusação de “balbúrdia”. Apesar disso, a universidade é a 10ª melhor do país, no ranking mundial. Como explicar?

E é a quinta federal. Era uma meta nossa, e tem de subir mais. Com relação ao corte de verbas, a gente teve de fazer alguns ajustes internos quando assumimos, porque tivemos corte de quase 50% do orçamento desde 2017. Precisamos de ajuste forte no início. Direcionamos os recursos para o custeio básico da universidade. Todos os institutos e faculdades tiveram aumento de, em média, 20% dos recursos, dando condições para irem a congressos. A UnB arrecada recursos próprios. Atualmente, 40% de tudo o que a universidade gasta no ano depende de arrecadação nossa, a partir de aluguéis e projetos. É importante melhorar a reputação porque somos mais procurados para projetos com empresas privadas e governo. A gente usa esse dinheiro para manutenção. Fizemos forte investimento na biblioteca. Aumentamos muito a iniciação científica, ampliando as bolsas em 15%, e conseguimos ampliar a assistência estudantil. Retomamos o vestibular para indígenas e tivemos, só neste ano, 85 aprovações. Criamos o auxílio-creche. Investimos pesado, dentro das nossas condições. Mas, mesmo com essa arrecadação que temos, há limitações. Em 2018, do que a gente tinha acumulado arrecadando, o governo retirou R$ 70 milhões para pagar aposentados e pensionistas, em função da aprovação da Emenda Constitucional nº 95.

Mesmo com a melhora, a UnB continua atrás de universidades como USP, e Unesp. Como fazer para alcançar melhores patamares?

Internamente, a gente precisa continuar priorizando atividades de ensino, pesquisa, extensão e inovação. Continuar nesse ritmo de priorização das atividades mostrou que faz diferença e traz resultados. Também continuar conscientizando a comunidade da importância de fazer ensino, pesquisa e extensão de qualidade. Em São Paulo, a Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp) investe fortemente na pesquisa, e as universidades têm mais autonomia para utilização de recursos. Se a UnB também tivesse, conseguiria investir muito mais. Com toda essa dificuldade, fizemos várias obras importantes. Concluímos e fizemos novos prédios de laboratório, mas precisamos ter autonomia. O governo tem que ampliar os investimentos em ciência e tecnologia. Sem isso, não tem como melhorar nossos indicadores frente ao mundo. Outro fator importante é garantir que as pesquisas sejam contínuas.

Pelo ranking, essa é a primeira vez, em quatro anos, que a UnB teve melhora de posição. Antes disso, só estava caindo. Por quê? Quais dificuldades a universidade enfrentou nesse período que levaram à queda?

Uma série de fatores. A UnB estava com o percentual de citação dos nossos pesquisadores que não alcançava os melhores patamares, assim como o grau de internacionalização. Esse movimento de aumentar a produção nas melhores revistas resulta em aumento de citação. A dificuldade que tivemos foi orçamentária, mas, desde o início, investimos fortemente na produção acadêmica e na internacionalização. Isso fez a diferença. Quando olha agora, mostra que o nosso diagnóstico estava certo. É um esforço de toda a comunidade.

Há alguma definição para a volta às aulas? Alguma data? Será on-line ou presencial?

Estamos discutindo com as unidades acadêmicas. A avaliação, no momento, com base em especialistas e dados, é que a doença está avançando no DF. Na UnB, somos 50 mil pessoas, e cada um tem famílias, relacionam-se externamente. Portanto, nossa atuação é muito importante para disseminação ou retração da doença. Tudo o que a gente faz é com muito cuidado e baseado em dados técnicos. Estamos com uma pesquisa agora em andamento, já respondida por 15 mil estudantes. Perguntamos sobre as condições de saúde e internet, computador dos alunos, docentes e técnicos. Mandamos para todas as faculdades e institutos uma proposta feita pelo comitê para a retomada de atividades, e estamos avaliando que isso seja feito em etapas. Todos os professores estão participando e vão nos retornar semana que vem. Presencialmente, agora, não temos condições de voltar, e on-line, precisamos garantir que todos os estudantes tenham acesso à internet e ao computador. A curto prazo, não há perspectiva de voltarmos a ter salas cheias. A Biblioteca também está fechada, e não vamos conseguir abrir tão cedo, afinal, é por onde passam 3 mil pessoas por dia.

Como a senhora enxerga essa situação da MP que dava poderes ao ministro da Educação de nomear os reitores das federais?

Ficamos perplexos com a MP, assim como grande parte da sociedade. Por esse motivo, recebemos com alívio a devolução da MP pelo Congresso. Os parlamentares demonstraram seu comprometimento com a defesa da democracia no Brasil e das universidades. Assim, restou preservada a autonomia universitária, prevista na Constituição Federal.

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