María Elena Morán narra fracasso do regime venezuelano sem maniqueísmos

O romance adota cinco perspectivas para contar a desastrosa experiência da ditadura na Venezuela. Os capítulos alternam os pontos de vista entre cinco personagens

María Elena Morán narra fracasso do regime venezuelano sem maniqueísmos
María Elena Morán narra fracasso do regime venezuelano sem maniqueísmos

Paula Sperb-folhapress - 10/01/2026 18:01:30 | Foto: Instagram / Reprodução / CP

Um componente da boa literatura é a construção de personagens que escapam da tentação das dicotomias fáceis. Fugindo de arquétipos de bondade ou de vilania, aquelas desenvolvidas pela escritora venezuelana María Elena Morán em seu romance "Voltar a Quando" são verossímeis porque são todas imperfeitas.

O romance adota cinco perspectivas para contar a desastrosa experiência da ditadura na Venezuela. Os capítulos alternam os pontos de vista entre cinco personagens. Porém, cada um deles é narrado com estilo diferente.

"Voltar a Quando" é resultado do doutorado da autora em escrita criativa pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul. O livro foi escrito originalmente em espanhol e traduzido para o português pela própria autora, que hoje vive em São Paulo. Deve ser publicado nos Estados Unidos ainda neste semestre.

No romance, a forma corresponde ao conteúdo. Portanto, o leitor convive com cinco vozes distintas alinhadas às características das personagens e seus conflitos. Mais do que um requinte narrativo, o recurso permite enxergar com abrangência os dilemas elaborados pela autora.

A opção por adotar diferentes pontos de vista forma um caleidoscópio literário. Na verdade interna do romance, a própria figura do caleidoscópio é modificada conforme a leitura avança.

A protagonista é Nina, apelido de Catalina Gutiérrez, uma ex-chavista que precisou deixar sua cidade natal de Maracaibo para migrar para o Brasil, em Porto Alegre. Nina é uma protagonista que divide o espaço de forma quase proporcional com as demais personagens. Mas é ela quem move a trama.

A filha adolescente de Nina, Elisa, permanece na Venezuela com a avó enlutada Graciela, viúva de Raúl. Elisa se sente abandonada, enquanto Nina se sente responsável por no começo ter apoiado o governo de Hugo Chávez. Assim, busca uma forma de consolidar a vida no exterior para só depois receber sua família.

Graciela, a avó que é mais cuidada pela neta do que o contrário, é a única personagem com narração em primeira pessoa. É dela o testemunho direto sobre a geladeira vazia, a inflação que impede a compra de itens básicos, o racionamento de água e o apagão de energia elétrica. É Graciela quem precisa vender a sua casa por apenas US$ 5.000, um episódio que foi inspirado na vida da própria autora.

Embora não tenha passado por todas as situações descritas, Morán usou inúmeros elementos autobiográficos para compor a história. É o caso da própria capa da edição brasileira. Nela, há uma fotografia de seu próprio acervo, na qual aparecem seus pais.

O registro espontâneo mostra uma celebração familiar com os pais sentados em cadeiras brancas de plástico, um signo latino-americano reconhecido em todo o continente.

O pai da escritora serviu de inspiração para o avô Raúl. Ele carrega o elemento de realismo mágico do romance, outro traço tipicamente latino-americano. Seus capítulos são permeados por brumas, espíritos de seus ancestrais e um tempo que não é linear como ocorre no mundo dos vivos.

Já Nina é narrada com parágrafos longos que emulam a velocidade de seus pensamentos revoltados com a situação da Venezuela. Elisa, por sua vez, é uma típica adolescente que alterna maturidade e ingenuidade. Quando volta a conviver com o pai, Camilo, seu contentamento faz com que a palavra seja escrita com hífens entre as letras, "p-a-i". Um pai que possibilita conhecer o "m-u-n-d-o".

Essa interação, porém, não é permitida pela mãe. Camilo integra o aparato estatal do chavismo e usufrui de privilégios políticos e de classe. Mas será um desertor.

Sua voz narrativa é a mais interessante, em segunda pessoa. "Você é tão ousado, tão ousadamente trouxa, você é um pedaço de merda que se acha diferente dessa gente rica e é tão arrogante quanto eles", diz o narrador.

Com estilo apurado e personagens críveis, "Voltar a Quando" é um romance capaz de despertar empatia no leitor porque não fala apenas sobre o fracasso da ditadura venezuelana, mas sobre aquilo que é mais humano.

VOLTAR A QUANDO
- Avaliação Ótimo
- Preço R$ 69,90 (232 págs.)
- Autoria María Elena Morán
- Editora Biblioteca Azul
- Tradução María Elena Morán

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