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Brasil - Brasília - Distrito Federal - 24 de janeiro de 2022

Mostre o vídeo, Celso de Mello. O direito do distinto público de conhecer melhor quem o governa

Mostre o vídeo, Celso de Mello. O direito do distinto público de conhecer melhor quem o governaFoto: Correio Braziliense

Mostre o vídeo, ministro Celso de Mello. Afinal, o distinto público tem o direito de conhecer melhor seus governantes.

Por Ricardo Noblat - Revista Veja - 11/05/2020 - 10:23:29

Há muito mais a ser provado pelo vídeo da reunião ministerial de 22 de abril último do que somente a denúncia feita pelo ex-ministro da Justiça Sérgio Moro de que o presidente Jair Bolsonaro ameaçou demiti-lo se não trocasse o superintendente da Polícia Federal no Rio.

Bolsonaro queria também a troca do superintendente da Polícia Federal em Pernambuco, sabe-se lá por quê. Mas foi por meio de mensagem remetida a Moro em grupo de WhatsApp que ele tratou do assunto. Quanto a troca no Rio, ela favoreceria sua família em apuros com a Justiça.

É verdade, por exemplo, que o Ernesto Araújo, o sagaz ministro das Relações Exteriores, disse na reunião que o Covid-19 fora criado em laboratório para que a China pudesse depois dominar o mundo? E que batizou-o de “comunavírus”, provocando uma gargalhada de Bolsonaro?

A China, mas não somente ela, tem interesse em conferir se isso de fato aconteceu. Maior parceiro comercial do Brasil, a China anda agastada com o governo Bolsonaro desde que o deputado Eduardo, um diplomata nato e às vezes incompreendido, acusou-a de ter fabricado o vírus.

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Pobre Eduardo, apelidado de Bananinha pelo general Hamilton Mourão, o vice-presidente da República. Eduardo limitou-se a propagar o que afirma o presidente dos Estados Unidos Donald Trump, a figura mais admirada pelo deputado e por seu pai, ambos encantados com a cultura americana.

Outras coisas carecem de ser provadas ou não pelo vídeo que, amanhã, por ordem do ministro Celso de Mello, do Supremo Tribunal Federal, será exibido em sessão única, em Brasília, a Moro e seus advogados, procuradores da República e agentes da Polícia Federal que investigam o episódio.

Mello, em seguida, pedirá a opinião de Moro e dos procuradores sobre a suspensão do sigilo em torno do vídeo. A tendência de Mello é divulgar a íntegra do vídeo. A Advocacia Geral da União pediu que o vídeo só fosse divulgado com cortes para preservar temas “potencialmente sensíveis”.

Um desses temas, revelaram participantes da reunião, foi outra queixa endereçada a Moro por Bolsonaro. Será mesmo verdade que o presidente não gostou nem um pouco da nota de pesar da Polícia Regional Federal sobre a morte de um dos seus funcionários, mais uma vítima do Covid-19?

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Será verdade que Bolsonaro chegou ao ponto de dizer que a corporação deveria ter atribuído a morte a outras causas do tipo obesidade, pressão alta ou diabetes? Porque a ser verdade, o presidente é dado a mentir e a estimular fraudes, o que custa a crer. Sem duvida, pegaria mal para ele.

Pegará igualmente muito mal se o vídeo tiver registrado a opinião do ministro da Educação, o culto e sempre sensato Abraham Weintraub, sobre os ministros do Supremo. Alastrou-se a suspeita de que ele afirmou que os 11 ministros da Corte são mesmo uns “grandes filhos da puta”.

A uma ofensa de tal gravidade, Bolsonaro não teria reagido indignado? Pelo menos não teria cobrado bons modos ao ministro que não perde a oportunidade de elogiar? No limite, não o ameaçou de demissão como fez com Moro, segundo o ex-ministro da Justiça?

Se os tais temas “sensíveis” forem esses, não se justifica manter o vídeo em segredo. A China não romperá relações comerciais com o Brasil porque Bolsonaro teria gargalhado de um comentário de Araújo. Nem as togas pegarão fogo porque Weintraub foi outra vez mal educado.


Mostre o vídeo, ministro Celso de Mello. Afinal, o distinto público tem o direito de conhecer melhor seus governantes.


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