Movimentos populares usam tecnologia chinesa para criar IA da agroecologia e reforma agrária

Plataforma será lançada neste sábado (16) com foco em construir, ao mesmo tempo, soberania tecnológica e alimentar

Movimentos populares usam tecnologia chinesa para criar IA da agroecologia e reforma agrária
Movimentos populares usam tecnologia chinesa para criar IA da agroecologia e reforma agrária

Por rodrigo Chagas - Portal Bdf - 18/05/2026 17:15:23 | Foto: Reprodução Portal BdF

Enquanto as big techs avançam sobre o campo ao lado do agronegócio, movimentos populares brasileiros decidiram disputar também o futuro da inteligência artificial. Desenvolvida pelo Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), pela Marcha Mundial das Mulheres (MMM) e pela Associação Internacional para a Cooperação Popular (Baobab), a Inteligência Artificial da Reforma Agrária e Agrocologia (IARAA) será lançada neste sábado (16) como uma plataforma voltada à agroecologia, à reforma agrária e à soberania tecnológica. Nesta edição, o Bem Viver , programa do Brasil de Fato, traz a ferramenta que reúne conhecimento camponês, modelos chineses de código aberto e assistência técnica popular para construir respostas a partir dos territórios.

A iniciativa nasce em um momento em que a inteligência artificial se consolida como novo campo de concentração econômica e disputa política. Relatório da Oxfam divulgado em janeiro deste ano aponta que três bilionários concentram quase 90% do mercado global de chatbots de IA. No campo, organizações populares veem esse processo avançar em associação com empresas do agronegócio, por meio de plataformas digitais, sensores, sistemas automatizados e coleta de dados sobre produção, solo, clima e manejo.

“Tem uma grande junção hoje das big techs com as empresas do agronegócio para atualizar esse modelo que vem desde a Revolução Verde”, avalia Natália Lobo, militante da Marcha Mundial das Mulheres (MMM) e integrante da Sempreviva Organização Feminista (SOF). Segundo ela, esse modelo está ligado ao uso de agrotóxicos e transgênicos, à expulsão dos povos do campo e à concentração de terra.

Para as organizações envolvidas no projeto, a IARAA responde a essa disputa ao organizar conhecimentos produzidos por agricultores, universidades, institutos de pesquisa e movimentos populares. A plataforma foi pensada para responder perguntas sobre manejo de solo, controle agroecológico de pragas, restauração ecológica, organização produtiva e formação política, sem substituir o trabalho de assistência técnica ou os saberes construídos nos territórios.

“A IARAA nasce dessa demanda que os movimentos do campo já tinham, da necessidade de tecnologias desenvolvidas para a agricultura familiar e para a agroecologia”, explica Carolina Cruz, integrante da Frente de Tecnologia da Informação do MST. “Hoje, o que a gente tem para o campo é muito na área do agro, focado em monocultura, agricultura em larga escala e aplicação de agrotóxicos.”

China, dados e soberania digital

A IARAA começou a ser desenhada em julho de 2025, durante um curso de inteligência artificial para movimentos populares realizado em Xangai, na China. A experiência reuniu militantes e especialistas de diferentes países do Sul Global para discutir o avanço da IA e as possibilidades de desenvolvimento de tecnologias voltadas às necessidades populares.

“A China está construindo um modelo diferente da junção entre produção de alimentos e tecnologia”, diz Natália. Segundo ela, a experiência chinesa mostrou aos movimentos do campo a possibilidade de usar tecnologias digitais para fortalecer a permanência dos povos nos territórios e apoiar a produção de alimentos.

A parceria internacional articulada pela Baobab levou a IARAA a adotar modelos chineses de linguagem de código aberto, como o MiniMax M2.1 e o GLM-4.7. A plataforma também utiliza sistemas desenvolvidos em software livre para organizar e consultar sua base de conhecimentos agroecológicos.

Paula Veliz, integrante do escritório latino-americano da Baobab, destaca que a aproximação com a China já vinha ocorrendo em outras iniciativas ligadas à mecanização da agricultura familiar e à produção de bioinsumos. “A gente entendia que esse era o epicentro onde muitas das tecnologias que nossos movimentos precisam estão sendo desenvolvidas com uma lógica diferente”, relata.

Segundo as organizações envolvidas no projeto, a disputa tecnológica passa também pelo controle sobre os dados produzidos nos territórios rurais. Hoje, boa parte dessas informações é armazenada e processada em infraestruturas controladas por empresas privadas, como Microsoft e Amazon.

No manifesto de lançamento da plataforma, os movimentos populares afirmam que os dados se tornaram um “quinto fator de produção”, ao lado da terra, do trabalho, do capital e da tecnologia. O documento compara a disputa atual pelas infraestruturas digitais ao processo de cercamento de terras ocorrido durante a Revolução Industrial.

“No modelo estadunidense das big techs , há uma grande apropriação dos dados das pessoas para a acumulação de capital dessas empresas”, afirma Natália. Ela acrescenta que a IARAA busca construir uma política própria de proteção de dados voltada aos trabalhadores do campo e às informações produzidas nos territórios.

Quem ensina a máquina

Para organizar a base da IARAA, os movimentos reuniram um coletivo de especialistas populares em agroecologia. O grupo trabalhou na seleção de materiais, na definição dos temas prioritários e na tradução de concepções políticas e técnicas para orientar as respostas da plataforma.

Carolina Cruz explica que a ferramenta funciona como uma biblioteca especializada. A base reúne materiais de universidades, institutos de pesquisa, Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), organizações populares e experiências sistematizadas por camponeses e camponesas. Diferente das plataformas comerciais, pontua, a IARAA informa as fontes usadas nas respostas.

“A gente não só está desenvolvendo uma ferramenta para os agricultores, mas os agricultores estão dentro da IARAA também, desenvolvendo a plataforma”, destaca Carolina.

A construção da ferramenta também tem forte presença feminina. Natália Lobo ressalta que o campo da tecnologia digital ainda é dominado por homens, mas a equipe da IARAA é majoritariamente formada por mulheres. A economia feminista, segundo ela, foi incorporada como eixo de análise da plataforma.

“As respostas que a IARAA dá sempre trazem o feminismo ou a vida das mulheres, como as mulheres estão na produção, qual é o lugar das mulheres na produção, como um eixo constitutivo”, explica.

Na prática, isso significa dar centralidade a temas frequentemente secundarizados nos debates sobre produção agrícola, como quintais produtivos, criação de pequenos animais, plantas medicinais e sistemas diversificados de cultivo. A plataforma também tem três modos de uso: Semeadura, voltado a perguntas práticas do dia a dia no campo; Mutirão, pensado para assistência técnica e organização coletiva; e Quintal Produtivo, direcionado a pesquisa, conceitos e aprofundamento teórico.

Para Kallen Oliveira, engenheira agrônoma responsável pelo Centro Agroecológico Paulo Kageyama (CAPK), em Jarinu (SP), o principal ganho é democratizar o acesso ao saber agroecológico. Ela avalia que muitos conhecimentos produzidos nos territórios não estão nos livros ou não chegam a todos os assentamentos.

“A assistência técnica agroecológica nos foi negada e agora a gente tem ela com acesso na palma da mão”, afirma. Kallen cita como exemplo perguntas sobre plantas medicinais, consórcios produtivos, construção de mandalas e controle de problemas cotidianos na produção.

A ferramenta, no entanto, não pretende substituir o trabalho técnico nem os processos coletivos de formação. Entre os princípios definidos pelos movimentos está a orientação de estimular a reflexão, citar fontes e não responder quando não tiver base suficiente. O objetivo é reduzir erros e evitar as chamadas “alucinações”, quando sistemas de IA inventam informações e as apresentam como verdade.

Kallen também vê a IARAA como instrumento de formação para a juventude do campo. Segundo ela, jovens já têm familiaridade com ferramentas digitais e podem usar a plataforma em processos de transição agroecológica. Ao mesmo tempo, adultos e idosos dos assentamentos também demonstram curiosidade em acessar a tecnologia.

Da experiência popular ao horizonte internacional

A IARAA também é tratada pelas organizações como um ensaio de política pública para a soberania digital no Brasil. Para Natália, a experiência mostra a necessidade de o país desenvolver modelos próprios de linguagem, infraestrutura tecnológica soberana e regras de proteção dos dados produzidos pelos trabalhadores e por seus territórios.

Paula Veliz afirma que a ferramenta nasce com caráter internacional. Além do Brasil, a Baobab já articula uma experiência semelhante em Gana, com foco na produção camponesa de cacau. O país é o segundo maior produtor mundial do fruto e tem forte presença de agricultores familiares nessa cadeia.

“A IARAA é uma iniciativa que é do povo para o povo”, resume Paula. Segundo ela, a ideia é compartilhar com organizações de outros países do Sul Global o aprendizado acumulado no Brasil.

Para Carolina Cruz, o processo de desenvolvimento da plataforma mostra que movimentos populares também podem criar tecnologias próprias. “A IARAA tem potencial não só de desenvolver uma ferramenta útil para a gente, mas também de mostrar outro modelo de desenvolvimento, soberano e de tecnologias que atendam às necessidades das pessoas”, considera.

E tem mais…

O Bem Viver traz também o segundo episódio sobre as Comunas na Venezuela, com visita os Andes para mostrar um território que caminha para a autossuficiência e a autogestão plena.

Uma visita à exposição “Imaginação Radical” no Museu das Favelas (SP), conectando o legado de Frantz Fanon às lutas das periferias.

E a chef Gema Sotto ensina a receita de Tequeños, tradicional petisco venezuelano que é puro afeto.

Quando e onde assistir?

No YouTube do Brasil de Fato, todo sábado às 13h, tem programa inédito. Basta clicar aqui.

Na TVT: sábado às 13h; com reprise domingo às 6h30 e terça-feira às 20h no canal 44.1 – sinal digital HD aberto na Grande São Paulo e canal 512 NET HD-ABC.

Na TV Brasil (EBC), sexta-feira às 6h30.

Na TVE Bahia: sábado às 12h30, com reprise quinta-feira às 7h30, no canal 30 (7.1 no aparelho) do sinal digital.

Na TVCom Maceió: sábado às 10h30, com reprise domingo às 10h, no canal 12 da NET.

Na TV Floripa: sábado às 13h30, reprises ao longo da programação, no canal 12 da NET.

Na TVU Recife: sábados às 12h30, com reprise terça-feira às 21h, no canal 40 UHF digital.

Na UnBTV: sextas-feiras às 10h30 e 16h30, em Brasília no Canal 15 da NET.

TV UFMA Maranhão: quinta-feira às 10h40, no canal aberto 16.1, Sky 316, TVN 16 e Claro 17.

Sintonize

No rádio, o programa Bem Viver vai ao ar de segunda a sexta-feira, das 7h às 8h, com reprise aos domingos, às 10h, na Rádio Brasil de Fato. A sintonia é 98,9 FM na Grande São Paulo. Além de ser transmitido pela Rádio Agência Brasil de Fato.

O programa conta também com uma versão especial em podcast, o Conversa Bem Viver , transmitido pelas plataformas Spotify, Google Podcasts, iTunes, Pocket Casts e Deezer.

Assim como os demais conteúdos, o Brasil de Fato disponibiliza o programa Bem Viver de forma gratuita para rádios comunitárias, rádios-poste e outras emissoras que manifestarem interesse em veicular o conteúdo. Para ser incluído na nossa lista de distribuição, entre em contato por meio do formulário.

Editado por: Marina Duarte de Souza

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