“Não posso parar”, diz ativista que perdeu familiares na ditadura 

Victoria Grabois quer saber como morreram pai, irmão e marido em 1973

“Não posso parar”, diz ativista que perdeu familiares na ditadura 
“Não posso parar”, diz ativista que perdeu familiares na ditadura 

Luiz Claudio Ferreira - Repórter Da Agência Brasil*  - 31/03/2026 07:38:01 | Foto: © PAULO PINTO/AGENCIA BRASIL

A professora e ativista Victória Grabois perdeu o pai, Maurício, o irmão, André, e o marido, Gilberto Olímpio, no ano de 1973, assassinados por agentes do Estado na região da Serra do Araguaia. Eles atuavam na guerrilha e defendiam o fim do regime de exceção no período. “Não posso parar e faço tudo o que eu puder fazer para divulgar a memória e acabar com o silenciamento”.

Passados 53 anos, ela, que tem hoje 82, diz que não tem esperanças reais de saber o que aconteceu com as pessoas de sua família. No entanto, diz que é preciso lutar pela verdade, pela memória e contra o silenciamento.

“Quero que abram os arquivos e que digam onde mataram, como mataram e quando mataram”. Os corpos deles nunca foram entregues à família.

Certidões retificadas

Nesta terça-feira (31), às 17h, o Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania (MDHC) e a Comissão Especial sobre Mortos e Desaparecidos Políticos entrega mais 27 atestados de óbito retificados, em evento na Universidade Federal da Bahia (UFBA), em Salvador.

Entre os documentos, estão o de Maurício Grabois, que era baiano. No documento, há a retificação da causa da morte: ação violenta do Estado. Grabois foi deputado constituinte, em 1946. Seus escritos foram reunidos pela família em livros.

A filha, Victória, que é uma das fundadoras do movimento Tortura Nunca Mais, vive no Rio de Janeiro e não estará no evento em Salvador. Ela pede que o Estado, além da correção dos atestados de óbitos, atue para investigar o que ocorreu com as vítimas da ditadura.

“Meu pai foi um grande homem. Ele deu o seu bem maior, a vida, e levou o seu filho junto, em prol da liberdade do Brasil e da democracia”, afirma Victória.

Ela conviveu com Maurício até os 29 anos de idade dela. A provável data da morte do pai e do irmão foi o dia 25 de dezembro de 1973. “Ele era um homem de princípios que me ensinou a ser uma pessoa digna. Essa é a lembrança que tenho do meu pai”.

O movimento Tortura Nunca Mais homenageou, nessa segunda-feira (30), defensores dos direitos humanos com a medalha “Chico Mendes” (pelo 38º ano seguido). A condecoração foi criada como contraponto à medalha do Pacificador, do Exército. Neste ano, a “Chico Mendes”, lembrou o guerrilheiro Francisco Manuel Chaves, que desapareceu no Araguaia, e a socióloga Yara Yavelber, também assassinada por agentes do Estado.

Além de revolucionários do passado, a medalha homenageou as mães que perderam filhos para a violência policial. Entre elas,está a ativista Solange de Oliveira, fundadora do Movimento Mães em Luto da Zona Leste, em São Paulo.

“Lembramos das violações que foram cometidas no passado e no presente e de pessoas que lutam contra”.

A ativista Victoria Grabois destaca que os dois últimos filmes brasileiros que participaram do Oscar, e trataram sobre ditadura, foram importantes para “furar a bolha” na sociedade e para que as pessoas compreendessem melhor o que foi esse período, que completa 62 anos nesta semana.

Ela diz que os filmes fizeram com que as escolas mostrassem mais interesse em saber sobre aquele período de opressão. Victoria Grabois diz que muitas pessoas só conheceram a história de violações recentemente com os filmes. “A Guerrilha do Araguaia, por exemplo, passou a ser mais um fato histórico para as pessoas”.

Desafios

Segundo a presidente da comissão de mortos e desaparecidos, Eugênia Gonzaga, a prioridade pelas retificações de certidões de óbito se revelou a mais importante das medidas de reparação. "É uma iniciativa que vem sendo muito bem recebida e a gente quer, então, fazer as 434 retificações para todas as famílias e, se possível, fazer a entrega delas em ocasião solene, com pedido de desculpas", afirmou.

Ela também criticou o fato de não haver até hoje a abertura completa dos arquivos das Forças Armadas. "Apesar de muitos documentos já terem sido revelados, já estarem nos arquivos públicos, a gente não tem a versão definitiva sobre o local das mortes, ou melhor, sobre as circunstâncias de muitas das mortes e os locais de enterro de corpos", lamenta.

Para Eugênia, é uma falha do sistema de justiça brasileiro ainda não ter dado essas respostas definitivas para as famílias de mortos e desaparecidos políticos.

Além do documento relativo a Maurício Grabois, estão prontas para serem entregues hoje as certidões para as famílias de desaparecidos que ficaram mais conhecidos ao serem retratados em filmes, como Carlos Lamarca (ex-militar) e Stuart Edgar Angel Jones (filho da estilista Zuzu Angel).

Além deles, poderão receber o documento familiares de Antônio Carlos Monteiro Teixeira, Célio Augusto Guedes, Dinaelza Santana Coqueiro, Dinalva Oliveira Teixeira, Eduardo Collier Filho, Esmeraldina Carvalho Cunha, Inocêncio Pereira Alves, Israel Tavares Roque, Joel Vasconcelos Santos, Jorge Leal Gonçalves Pereira, José Campos Barrêto, José Maurílio Patrício, Luiz Antônio Santa Barbara, Mário Alves de Souza Vieira, Nilda Carvalho Cunha, Otoniel Campos Barreto, Pedro Domiense de Oliveira, Péricles Gusmão Régis, Rosalindo Sousa, Sergio Landulfo Furtado, Uirassú de Assis Batista, Vandick Reidner Pereira Coqueiro, Vitorino Alves Moitinho e Walter Ribeiro Novaes.

* Com a colaboração do repórter Gésio Passos, da Rádio Nacional

Relacionadas

UFPA concederá diploma simbólico a estudante assassinado na ditadura

Familiares recebem pertences de pianista morto pela ditadura argentina

Carmén Lúcia: "ditadura é como erva daninha que precisa ser cortada"

Edição:

Graça Adjuto

ditadura miitar Mortos atestados de óbito retificados Entrega

Comentários para "“Não posso parar”, diz ativista que perdeu familiares na ditadura ":

Deixe aqui seu comentário

Preencha os campos abaixo:
obrigatório
obrigatório