'Perda de duas décadas de trabalho', diz pesquisador que teve amostras de sangue incendiadas na UFPE

Incêndio atinge prédio da Universidade Federal de Pernambuco

'Perda de duas décadas de trabalho', diz pesquisador que teve amostras de sangue incendiadas na UFPE
'Perda de duas décadas de trabalho', diz pesquisador que teve amostras de sangue incendiadas na UFPE

Jorge Cosme-recife, Pe (folhapress) - 08/10/2026 16:30:27 | Foto: © STV DA SILVA/X

Pesquisadores que atuavam no prédio da UFPE (Universidade Federal de Pernambuco), no Recife, atingido por incêndio de grandes proporções na noite da quarta-feira (7), dizem estar vivendo um luto com a destruição de seus projetos. O reitor calcula um prejuízo de R$ 100 milhões em equipamentos, insumos e material.

O prédio multiuso, que já havia sido a sede da Diretoria de Inovação e Empreendedorismo, abarcava atualmente laboratórios na área de fármacos, informática e genética. O incêndio teve início por volta das 20h. A Polícia Federal iniciou as investigações, sem ainda informar a possível causa.

O pesquisador Ryan Cordeiro, 29, faz pós-doutorado em inovação terapêutica e tinha no prédio um banco de amostras de sangue e amostras de órgãos de animais usados para testes de novos fármacos para a Covid-19.

"Essas amostras de sangue da época da Covid-19, que a gente guardava como forma de pesquisar também novos fármacos e continuar pesquisando a doença, foi perdida", lamenta.

O pesquisador lembra que um dos estudos desenvolvidos ali detectou que a Covid-19 leve não apresentava dano prolongado ao cérebro dos pacientes. O achado foi utilizado pela Opas (Organização Pan-Americana da Saúde) em cartilha de enfrentamento à doença.

Cordeiro também trabalhava com amostras de animais para estudos sobre esclerose sistêmica, doença crônica e rara. "A gente estava chegando perto de sintetizar fármacos para atuar no enfrentamento da esclerose. A gente estava na modalidade de testes de animais ainda, mas acabou que perdeu o fármaco, as amostras. É começar do zero."
"Toda parte de armazenamento de insumos, reagentes e amostras biológicas perdidas. Sinto que é uma perda de duas décadas de trabalho", resume.

Entre o material perdido estão amostras biológicas, de tumor, sangue, urina, plasma, soro e células imortalizadas. "Existem amostras de pacientes com tumor raro, que já faleceram. Essas coisas não se conseguem de um dia para o outro", explica o pesquisador.

Cordeiro também lembra do valor afetivo do prédio, que funcionava como um espaço de vivência e de troca entre pesquisadores.

"O simbolismo dessa perda é grande. Nosso passado foi apagado. Era um ambiente saudável, em que desenvolvemos muitas amizades. O Nupit se tornou a segunda família de todos", diz em referência ao Núcleo de Pesquisa em Inovação Terapêutica Suely Galdino, que funcionava no local e do qual ele faz parte.

Para a bióloga Jamile Taniele, 39, que desenvolve estudos sobre dores crônicas associadas a Chikungunya em seu pós-doutorado, o espaço era sua segunda casa.

"Foi desesperador. Parecia um pesadelo. Até agora acho que a ficha do que aconteceu não caiu", diz ela.

"Tem muitos colegas que estão em desespero, chorando, deprimidos. Vivendo um luto, né? Eu também estou vivendo o luto, tentando buscar formas de ocupar a mente e de colocar para a frente."
Taniele conta ter perdido um acervo material que era referência sobre Chikungunya.

"Perdemos um dos maiores estudos do mundo em Chikungunya. Tínhamos mais de 10 mil amostras de pacientes que foram acompanhados por três anos", resume. Ela tinha amostras de sangue e de urina de quase mil pacientes.

"A gente estava em busca de resposta de por que a Chikungunya causa tantas dores e como manejar essa dor. Essas amostras eram de pacientes que tiveram diferentes trajetórias da doença e a gente já estava em um caminho de encontrar uma resposta."
Ela completa: "Para a gente ter de novo essa riqueza de amostras, somente se acontecer um novo surto da doença, e espero que não aconteça."
O prédio foi reestruturado na época da Covid-19.

"Os alunos do Nupit são incansáveis", diz a professora Michelle Melgarejo, da UFPE. "A gente estruturou nosso prédio para a Covid-19. Foi laboratório de campanha e a gente trabalhou fazendo milhares de testes aqui", diz.

Ela diz que seu núcleo desenvolve estudos sobre câncer de pâncreas, câncer de pulmão, doenças infecciosas, doenças inflamatórias, doenças imunológicas, saúde mental, aprendizado e neuro-oncologia.

"Esse incêndio representa a perda de mestrados, de doutorados ou pelo menos um atraso nesses processos e um atraso bem grande por parte da ciência pernambucana e do Brasil", completa.

José Rafael Soares, biólogo que fez mestrado em inovação terapêutica e atualmente cursa o doutorado na mesma área na UFPE, lamentou o valor do prejuízo.

"Isso reflete em tudo que pesquisamos lá dentro. Eu, por exemplo, faço pesquisa investigando biomarcadores de câncer de pulmão e doenças respiratórias. E todas as minhas amostras, coletadas no Sertão de Araripe, estavam lá", afirma
O ministro da Educação, Leonardo Barchini, disse ter recebido a notícia com tristeza. "Estamos em contato com a reitoria da UFPE e acompanhamos as investigações para apurar as causas do incêndio. Colocamos o MEC à disposição para prestar todo o apoio necessário", escreveu em nota divulgada nas redes sociais. Ele é esperado na UFPE na tarde desta quinta-feira (8).

Incêndio atinge prédio da Universidade Federal de Pernambuco

JORGE ABREU E CRISTINA CAMARGO-SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Um incêndio de grandes proporções atingiu um prédio da UFPE (Universidade Federal de Pernambuco) na noite desta quarta-feira (7), no Recife. Segundo informações da universidade, ninguém ficou ferido.

No final da noite, o Corpo de Bombeiros controlou as chamas na sede da Diretoria de Inovação e Empreendedorismo, na Cidade Universitária, onde funcionavam vários laboratórios na área de fármacos, informática e genética.

Em nota, a UFPE informou que apesar da atuação rápida dos bombeiros, o fogo se alastrou rapidamente devido ao tipo de produtos armazenados e provocou grandes danos no prédio.

O ministro da Educação, Leonardo Barchini, disse ter recebido a notícia com tristeza. "Estamos em contato com a reitoria da UFPE e acompanhamos as investigações para apurar as causas do incêndio. Colocamos o MEC à disposição para prestar todo o apoio necessário", escreveu em nota divulgada nas redes sociais.

O reitor Alfredo Gomes esteve no local e acompanhou o trabalho do Corpo de Bombeiros. A universidade ainda não sabe a origem do incêndio e vai avaliar a dimensão dos danos causados pelo fogo.

Segundo o reitor, havia muitas amostras de pesquisas e equipamentos no prédio, além de dados de informática que foram perdidos.

"Quero prestar minha solidariedade a todos os professores e professoras, aos pesquisadores e pesquisadoras, mestrandos, doutorandos, iniciação científica que trabalhavam nos laboratórios e perderam meses e anos de dedicação por meio de dados", disse.

De acordo com o site da universidade, a diretoria promove pesquisas relacionadas a doenças, como câncer e obesidade, além de ser responsável pelas áreas de propriedade intelectual e transferência de tecnologia, bem como articulação e promoção de parcerias estratégicas.

José Rafael Soares, biólogo que fez mestrado em inovação terapêutica e atualmente cursa o doutorado na mesma área na UFPE, soube que as perdas podem ultrapassar o valor de R$ 100 milhões.

"Isso reflete em tudo que pesquisamos lá dentro. Eu, por exemplo, faço pesquisa investigando biomarcadores de câncer de pulmão e doenças respiratórias. E todas as minhas amostras, coletadas no Sertão de Araripe, estavam lá", afirmou.

Havia também trabalhos relacionados à Covid, saúde ocupacional, toxicologia, transtornos mentais e doenças raras, entre outros. Em alguns casos, chamados de estudos de segmentos, os pesquisadores fazem acompanhamento de um mesmo paciente durante décadas.

"É desolador. São anos de pesquisa. Esses projetos eram de importância enorme tanto para a universidade como para a população", disse Soares. "Ainda não conseguimos mensurar o tanto que perdemos".

Everton Simão, aluno do curso de biblioteconomia e membro do DCE (Diretório Central dos Estudantes), relata que a fumaça do incêndio exalou um odor muito forte dos produtos químicos dos laboratórios na noite desta quarta.

"Eu estava voltando de uma atividade do DCE e quando estávamos chegando à universidade vimos muito fogo no prédio, ficamos logo preocupados achando que era na Casa do Estudante. Muita fumaça com cheiros que incomodavam", disse a Folha.

O historiador e influenciador Jones Manoel (PSOL), eleito deputado federal por Pernambuco no último domingo (4), relatou nas redes sociais que estudantes da universidade receberam mensagens com ameaças de motivação política. Em uma delas, o autor desconhecido disse que iria "explodir o departamento".

As mensagens exibidas pelo deputado eleito, cuja veracidade não está confirmada, afirmam que o suposto ataque teria sido feito por apoiadores de Flávio Bolsonaro (PL), candidato à Presidência da República.

Nas redes sociais, estudantes e grupos de esquerda sugerem que a ocorrência foi uma retaliação contra uma manifestação feita no campus pela reeleição do presidente Lula (PT).

"É um absurdo e uma tristeza imensa o que está acontecendo na UFPE nesse exato momento. Recebemos imagens e relatos de um incêndio na Diretoria de Inovação da UFPE, área ligada à propriedade intelectual e à transferência de tecnologia da universidade", publicou.

"Estamos buscando mais informações e vamos solicitar à Polícia Federal e ao Ministério Público Federal uma investigação imediata sobre o caso, diante da possibilidade de o incêndio ter origem criminosa", acrescentou Jones.

Mais cedo, ele esteve com o Lula em encontro com eleitos para a Câmara dos Deputados e disse estar à disposição para atuar na campanha do presidente à reeleição.

PF investiga incêndio na UFPE, e reitor estima prejuízo em R$ 100 milhões

JORGE COSME-RECIFE, PE (FOLHAPRESS) - A PF (Polícia Federal) vai instaurar inquérito para investigar o incêndio que atingiu na quarta-feira (7) um prédio no campus da UFPE (Universidade Federal de Pernambuco) no Recife, onde funcionavam vários laboratórios na área de fármacos, informática e genética.

Em nota, a PF informa que uma equipe se deslocou para a universidade para iniciar a perícia. A corporação ainda não informa se o incêndio foi acidental ou criminoso. "Todos os fatos que forem trazidos oficialmente para dentro das investigações serão alvos de análise", afirma.

Este é o terceiro incêndio na universidade em pouco mais de uma semana. No dia 30 de setembro, um incêndio atingiu um laboratório do Departamento de Física. A suspeita da universidade é que o fogo tenha começado em uma câmara de alta temperatura usada no aquecimento de substâncias.

No último domingo (4), outro incêndio foi registrado no laboratório de Citogenética e Evolução Vegetal, no Centro de Biociências, atingindo freezer e ar-condicionado. Não houve feridos. A instituição trata os casos como ocorrências de pequeno porte.

O reitor Alfredo Macedo Gomes diz que o prejuízo é de R$ 100 milhões e fala em perda irreparável para a ciência. Ele afirma desconhecer as causas do incêndio. O local era o antigo edifício da Diretoria de Inovação e Empreendedorismo (Dine) e também já havia abrigado o restaurante universitário.

"Nós perdemos o andar superior completamente. Estimamos em termos de equipamentos, insumos e material de maneira geral, uma aproximação de R$ 100 milhões", afirma Gomes.

"Outra grande perda do laboratório foram as pesquisas, em torno de 80 dissertações e teses de doutorado. Perda irreparável porque dados de 20 anos de pesquisa eram também guardados nos espaços", comenta o reitor.

Segundo ele, instâncias internas também foram acionadas para investigar o episódio. O reitor diz que a infraestrutura do prédio será analisada, mas as unidades deverão funcionar em novo espaço.

Gomes acrescenta que havia manutenção e revisão regular da unidade e que nunca houve notificação de situação de risco anteriormente. "Mas claro que era um prédio antigo", diz.

O reitor afirma que tem recebido os repasses do governo federal regularmente. "A universidade federal este ano recebeu R$ 190 milhões do orçamento discricionário. O orçamento é voltado para a manutenção da universidade, de todas as suas unidades. Nós temos feito os investimentos para manutenção."
Ninguém ficou ferido no incêndio, que teve início por volta das 20h. O Corpo de Bombeiros empregou oito viaturas, entre unidades de combate a incêndio, apoio e resgate.

Segundo a universidade, o ministro da Educação, Leonardo Barchini, se reunirá com o reitor nesta tarde. Na quarta-feira, o ministro disse nas redes sociais ter recebido a notícia com tristeza.

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