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Pinguins-rei, quase 900 mil desapareceram sem pistas

Pinguins-rei, quase 900 mil desapareceram sem pistasFoto: Mar Sem Fim

Expedição constata: pinguins-rei desapareceram

Mar Sem Fim - 02/05/2020 - 20:25:30

Em 2018, Mar Sem Fim já alertava que a vida de 1,1 milhão de casais de pinguins-rei estava em risco . Na época os cientistas afirmavam que a espécie, típica das regiões próximas à Antártica, estava sendo obrigada a se deslocar milhares de quilômetros a mais para conseguir alimento. Distanciando-se, assim, das áreas de reprodução, e colocando em risco a vida nas longas, e cada vez mais exaustivas, jornadas em busca de alimentos no oceano. Além da vida dos filhotes, mais tempo expostos sozinhos a predadores. O alerta dos cientistas, em 2018, foi: ou eles se realocam em outras regiões ou cerca de 70% dos pinguins-rei vão desaparecer. Dois anos depois, a trágica constatação: quase 900 mil pinguins-rei desapareceram sem deixar rastros.

A falta de alimentos em áreas mais próximas aos habitats da ave é atribuída pelos cientistas ao aquecimento global . Fenômeno que vem elevando as temperaturas dos oceanos paulatinamente há muitos anos. O que faz com que muitas espécies migrem para águas mais geladas. A finalidade é fugir dos efeitos das mudanças climáticas , como Mar Sem Fim também já mostrou.

Expedição constata: pinguins-rei desapareceram

O estudo que constatou que os pinguins-rei desapareceram foi realizado pela maior instituição pública de pesquisa da França, o Centre National de la Recherche Scientifique (CNRS) . Os cientistas fizeram uma expedição no final do ano passado para o arquipélago subantártico de Crozet . Ele fica entre Madagáscar e a Antártica. Faz parte das áreas austrais e antárticas administradas pela França.

mapa do arquipéklago sub-antártico de Crozet
Localização de Crozet. Ilustração, https://www.researchgate.net/.

A expedição começou a ser organizada ainda em 2017, quando os pesquisadores observaram em imagens de satélite que só havia praticamente rochas na vulcânica Île aux Cochons . “Tivemos que ir ver por nós mesmos”, disse o ecologista Charles Bost, do CNRS, à revista Science. A ilha faz parte do arquipélago e era lotada por casais de pinguins-rei e seus filhotes.

Imagem da ilha Cochon
Cochon. Imagem, IPEV/Te Papa.

No entanto, há 37 anos era monitorada apenas à distância diante da dificuldade de se organizar expedições científicas a regiões tão inóspitas e remotas do planeta. A expedição de 2019 foi a terceira realizada pela França a Crozet e os pesquisadores só puderam ficar cinco dias na ilha para investigar o desparecimento misterioso de quase um milhão de pinguins-rei.

Maior colônia de pinguins-rei encolhe 90%

Segundo estimativas, Île aux Cochons era o lar de ao menos 500 mil casais de pinguins-rei. Os pesquisadores afirmam que era a maior colônia da espécie no mundo. E a segunda maior de “qualquer uma das 18 espécies de pinguins” existentes. Mas, na ilha, encontraram vastas áreas vazias, onde antes viviam as milhares de aves. A colônia encolheu aproximadamente 90%. “Foi realmente incrível, completamente inesperado”, disse Henri Weimerskirch, cientista da agência francesa de pesquisa.

Apesar de ainda ser necessário aprofundar a pesquisa sobre muitas informações colhidas na ilha, os cientistas já descartaram algumas hipóteses que justificariam o sumiço dos pinguins-rei. Eles verificaram, por exemplo, se gatos e ratos teriam dizimado as aves. Esses animais foram introduzidos na região por baleeiros e caçadores há muitos anos e se alimentam de ovos e filhotes de aves marinhas.

Cientistas descartam ataques de predadores

Mas os pesquisadores descartaram a hipótese ao examinar filhotes e pinguins adultos vivos. Bem como ossos e penas desenterrados de pinguins-rei mortos. Verificaram que não havia marcas de mordidas, entre outras evidências de ataques.

imagem de pinguim-rei
Imagem, AFP.

Montaram armadilhas também e câmeras para gravações noturnas, que não constataram ataques desses animais. Até coelhos, antes comuns na ilha, desapareceram, disseram. Os predadores, eles acreditam, não tiveram um papel importante nesse desaparecimento em massa.

Também não encontraram evidências de erupções vulcânicas na região. Além disso, uma colônia com estimados 17.000 pinguins ainda permanece no lugar.

“O que matou os pinguins-rei?”, questiona cientista

Outra explicação seria a mudança dos quase 900 mil pinguins-rei para outra região. Os pesquisadores, contudo, não acreditam muito nessa alternativa dada as características da espécie. Ela costuma ser fiel aos locais de nascimento e reprodução. Bost disse que “que não há indicação óbvia – nas imagens de satélite, por exemplo – de que a colônia se mudou para outra ilha”. “Se os pinguins não estão aqui, eles morreram. Mas o que os matou?”, questiona.

imagem de pinguins-rei
Imagem, Junko Kimura.

A equipe de cientistas não acredita que seja doença, embora ainda não tenham os resultados das análises de sangue colhido de pinguins-rei que vivem na ilha. Além de uma centena de informações que levaram para a França e precisam ser analisadas. A crença está baseada nos poucos cadáveres frescos e pinguins doentes que encontraram em Île aux Cochons.

“ Nós pensamos em ver carniça, indivíduos em más condições. Mas os pássaros pareciam saudáveis”, disse o biólogo Adrien Chaigne. Ele é o organizador da expedição e trabalha para a Reserva Natural Nacional dos Territórios Franceses do Sul e Antártico , que administra a ilha.

Mudanças no oceano podem ser a resposta

Os cientistas “suspeitam que as mudanças no oceano circundante forçam os pinguins a nadar mais longe para encontrar comida”. Os pinguins-rei já viajam muito em busca de alimentos. Em condições normais, podem viajar tranquilamente cerca de 500 quilômetros, incluindo ida e volta.

“Estudos de outras colônias de pinguins-rei sugerem que as aves de Île aux Cochons normalmente nadam em direção a uma característica oceânica centenas de quilômetros ao sul, conhecida como frente polar ou convergência antártica”. É uma região de águas mais frias da Antártica e os pinguins são atraídos pelas muitas criaturas marinhas que ali vivem e servem como alimento.

Durante alguns anos, “anomalias climáticas, como El Niño-Sul, fazem com que as águas oceânicas da região aqueçam, e a frente polar muda para o sul, mais perto do polo e mais longe de Île aux Cochons” .

Oceano pode esquentar ainda mais

Durante as viagens mais longas, a fome pode ter forçado os pais que ficaram na colônia a deixar o ninho para se alimentar – “deixando os filhotes vulneráveis ​​a predadores ou à fome”. Os casais de pinguins-rei costumam dividir as tarefas. Enquanto um viaja em busca de alimentos, o parceiro fica para chocar os ovos e cuidar dos filhotes. As viagens mais longas também podem tornar os pinguins mais vulneráveis ​​ao estresse e à predação.

imgem dos oceanos
Imagem, https://www.sbnature.org/.

“Outra possibilidade é que a colônia apenas cresceu extraordinariamente durante algumas décadas abundantes e depois caiu quando as condições se tornaram mais atípicas.”

Para acompanhar o que está acontecendo com os pinguins-rei restantes na ilha, os cientistas colocaram dispositivos de rastreamento em dez aves. “Cinco ainda estão transmitindo e podem continuar a fornecer dados até o início de 2021, mas já oferecem algumas surpresas: mostram que alguns dos pinguins foram para o norte – e não para o sul – da ilha” em busca de alimento.

Pinguins-rei: ainda não há risco de extinção

“Isso pode significar que os pássaros estão caçando em uma borda térmica diferente, conhecida como frente subantártica. ‘É claro que é um pequeno tamanho de amostra’, diz Weimerskirch, ‘mas é muito interessante’. Os dados também podem revelar uma tendência para viagens mais longas, que podem sugerir que as previsões preocupantes sobre o impacto das mudanças climáticas sejam precisas.”

Segundo os pesquisadores, com 3,2 milhões de aves na região antártica, a população de pinguins-rei não corre perigo imediato de extinção. “Os números se recuperaram, depois de séculos de caça humana. Por outro lado, metade das espécies de pinguins do mundo está ameaçada.” Fato que Mar Sem Fim também vem mostrando, como a queda de 60% em algumas colônias de pinguins de barbicha na Antártica.

Imagem de abertura : Junko Kimura

Fontes : https://www.sciencemag.org/news/2020/03/why-did-nearly-million-king-penguins-vanish-without-trace#; https://www.natureworldnews.com/articles/43544/20200322/king-penguins-disappeared.htm; http://www.maritimeherald.com/2020/03-24-trending-news-why-have-almost-a-million-king-penguins-disappeared-from-the-island-of-pigs-environment-animal-protection/; https://www.dinheirorural.com.br/quase-1-milhao-de-pinguins-rei-sumiram-do-mundo/; https://www.bbc.com/portuguese/geral-43218067.

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