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Pivô da queda de Teich, cloroquina já se mostrou ineficaz contra covid-19 em diversos estudos

Pivô da queda de Teich, cloroquina já se mostrou ineficaz contra covid-19 em diversos estudosFoto: PR

As mais conceituadas revistas médicas do mundo publicaram pesquisas com centenas de pacientes apontando que a droga não traz melhoras, na comparação com grupos que não a tomaram, e traz efeitos colaterais

Estadão Conteúdo - 15/05/2020 - 16:00:12

Um dos pivôs da queda de Nelson Teich do Ministério da Saúde, a hidroxicloroquina tem se revelado, estudo após estudo, pouco ou nada efetiva para tratar a covid-19. O presidente Jair Bolsonaro aumentou a pressão nos últimos dias para que Teich mudasse o protocolo do ministério, que recomenda o uso da droga em casos graves, e passasse a adotá-la amplamente.

O remédio usado originalmente contra malária e lúpus foi aplicado no começo da pandemia em alguns poucos pacientes na China com resultado promissor, foi defendido por um controverso cientista francês e incensado de modo precoce como solução pelo presidente americano Donald Trump e por Bolsonaro.

Mas quanto mais são feitas pesquisas com centenas de voluntários e de modo randomizado - em que metade do grupo não toma a droga, a fim de comparação -, em todo o mundo, a droga tem se mostrado não somente pouco eficaz, mas também com riscos a quem toma. Trump já mudou de ideia.

Somente neste mês de maio, alguma das mais importantes revistas médicas do mundo - New England Journal of Medicine (NEJM), o Journal of the American Medical Association (Jama) e o British Medical Journal (BMJ) - publicaram estudos com resultados nada promissores. São trabalhos que foram submetidos aos pares, o que aumenta seu nível de credibilidade.

Nesta quinta, 14, o BMJ trouxe um trabalho de pesquisadores chineses que avaliaram 150 pacientes com quadros leve a moderados de covid-19. Metade recebeu a hidroxicloroquina com o tratamento padrão e metade somente o padrão. O estudo foi randomizado, sem que os pacientes soubessem em qual grupo eles estavam.

A droga não foi capaz de eliminar o vírus mesmo após 28 dias de tratamento, apresentando um desempenho similar nas pessoas que não receberam o remédio. Por outro lado, os voluntários que receberam a hidroxicloroquina tiveram mais efeitos adversos - 30% deles apresentaram reações, a mais comum delas sendo diarreia.

“Os resultados de nosso estudo não mostraram benefícios adicionais da eliminação do vírus da adição de hidroxicloroquina ao tratamento padrão. Eventos adversos, particularmente eventos gastrointestinais, foram relatados com mais frequência em pacientes que receberam a droga. No geral, esses dados não apoiam a adição de hidroxicloroquina ao tratamento de de pacientes com covid-19 persistente leve a moderada”, escrevem os autores liderados por Qing Xie, da Escola de Medicina da Universidade de Shanghai.

Um outro trabalho também no BMJ de quinta considerou o efeito da doença em pacientes graves com a doença. O trabalho, conduzido em centros de tratamento da doença na França avaliou 181 pacientes com idades entre 18 e 80 anos, com quadro de pneumonia e que precisavam de oxigênio, mas não de UTI - 84 deles receberam a droga dentro de 48 horas após a hospitalização, 89, não. Outros 8 receberam depois de 48 horas de internação.

Os pesquisadores queriam checar se o remédio poderia provocar melhoras nos pacientes a ponto de eles não precisarem de transferência para o tratamento intensivo e também se haveria impacto sobre as taxas de sobrevivência.

Mas assim como ocorreu com os pacientes leves a moderados do estudo chinês, o trabalho francês viu poucas diferenças entre o grupo que tomou o remédio e o controle. A hidroxicloroquina não foi capaz de reduzir as admissões em UTI nem aumentou a taxa de sobrevivência dos pacientes tratados com ela.

No dia 11, o Jama trouxe provavelmente o maior estudo até o momento indicando que a hidroxicloroquina não diminui a mortalidade dos pacientes com covid-19. Eles analisaram 1.438 pacientes internados em 25 hospitais de Nova York entre 15 e 28 de março em relação ao consumo de hidroxicloroquina, de azitromicina (um antibiótico), uma combinação das duas drogas e a comparação com nenhuma delas.

As taxas de mortalidade foram, respectivamente, de 19,9%, 10%, 25,7% e 12,7%. Mas, de acordo com os cientistas, quando feitos ajustes para equilibrar a análise, considerando a gravidade da doença em alguns pacientes e outras comorbidades), foi possível concluir que a mortalidade foi similar entre quem tomou as drogas e quem não as recebeu.

Um resultado semelhante tinha aparecido também em um trabalho publicado no NEJM no dia 7, feito com pacientes internados com covid-19 em um hospital de Nova York. Foram avaliados 1.376 pacientes ao longo de 22 dias - 811 receberam hidroxicloroquina. Os pesquisadores, liderados por Neil Schluger, da Universidade Columbia, ressaltam que os pacientes tratados com a droga estavam mais gravemente doentes no início do que aqueles que não receberam hidroxicloroquina. Não foi feito um trabalho randomizado: os médicos eram mais propensos a administrar o remédio nos pacientes mais doentes, mas ainda assim foi possível comparar os cenários.

Entre os pacientes que receberam a droga, 32,3% acabaram precisando de um ventilador ou morrendo, em comparação com 14,9% dos pacientes que não receberam o medicamento. Mas como havia a propensão a administrá-lo aos mais graves, os pesquisadores ajustaram as taxas para fazer a comparação. E concluíram que a hidroxicloroquina não foi capaz de diminuir a necessidade de entubação ou as mortes. O medicamento pode não ter ferido os pacientes, mas claramente não ajudou.

Os dois últimos estudos não foram randomizados, mas observacionais, o que traz limitações. Mas várias outras pesquisas, com menos pacientes, tampouco têm trazido resultados promissores. A droga não parece ter efeito profilático, nem de tratamento, seja em pacientes leves e moderados, seja em graves.

Outros estudos maiores e randomizados continuam sendo realizados, mas até o momento não há nenhum indicativo de que a droga deva ser usada amplamente contra a doença.

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