O trabalho deve preencher uma lacuna crítica na bioeconomia amazônica ao criar um sistema padronizado de indicadores de eficiência industrial no beneficiamento da castanha
Agência Gov | Via Embrapa - 24/02/2026 07:46:19 | Foto: Agência Gov Br
A Embrapa Rondônia (RO) coordenará o desenvolvimento do primeiro sistema de benchmarking — metodologia de análise de mercado com base na comparação entre empresas concorrentes — da castanha-da-amazônia, também conhecida como castanha-do-brasil ou castanha-do-pará. O trabalho deve preencher uma lacuna crítica na bioeconomia amazônica ao criar um sistema padronizado de indicadores de eficiência industrial no beneficiamento da castanha. O projeto de pesquisa foi um dos apenas seis selecionados no edital Projetos de Pesquisa em Economia Sustentável na Amazônia, promovido pelo Instituto Clima e Sociedade (iCS) em parceria com o Bezos Earth Fund. Ao edital concorreram 221 propostas apresentadas por instituições científicas da região.
“O benchmarking permitirá comparar o desempenho de diferentes beneficiadoras e propor melhorias técnicas e de gestão baseadas em evidências. Entre os indicadores a serem desenvolvidos estão: taxa de corte da matéria-prima, rendimento de produção e percentual de amêndoas quebradas — métricas que ajudarão as empresas a identificar gargalos e aprimorar seus processos”, explica a pesquisadora Lucia Wadt, líder do projeto e Chefe-Geral da Embrapa Rondônia.
A iniciativa começa com seis beneficiadoras parceiras dos estados do Pará, Amazonas, Rondônia e Mato Grosso, que aceitaram compartilhar dados sob sigilo e proteção da Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD). Cada participante receberá análises individualizadas e planos de melhoria específicos. Os dados agregados, processados e anonimizados servirão de base para recomendações setoriais e políticas públicas.
Além do foco técnico, o projeto busca articular políticas públicas e atores institucionais — como Finep, Senai, Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC) e Embrapii — para integrar o benchmarking ao planejamento da bioeconomia nacional. A expectativa é que as evidências produzidas influenciem programas de financiamento, inovação e capacitação técnica, fortalecendo a competitividade das empresas e o valor econômico da floresta em pé.
Salto estrutural
O benchmarking é uma metodologia consagrada no setor produtivo global, criada na década de 1980 na Xerox Corporation e usada por empresas líderes para comparar desempenhos e adotar melhores práticas. No entanto, nenhum setor da bioeconomia amazônica ainda dispõe de infraestrutura semelhante — o que, segundo os pesquisadores, explica parte da baixa competitividade regional. A ausência de padrões confiáveis de comparação impede que as beneficiadoras aprimorem sua produtividade e qualidade; reforçando portanto um modelo de concorrência baseado em preço, que desvaloriza o produto e o trabalho local.
De acordo com os coordenadores, a adoção do benchmarking no setor castanheiro representa um salto estrutural para a economia da floresta. A equipe do projeto considera que, com base em dados reais e comparáveis, será possível melhorar processos industriais, aumentar o valor agregado e criar incentivos econômicos para manter as castanheiras em pé.
Formação de jovens pesquisadores
“O projeto inclui um programa de formação de jovens pesquisadores em métodos de análise industrial e bioeconomia. As bolsas serão voltadas a estudantes de graduação e pós-graduação da Amazônia, com o objetivo de consolidar competências locais e garantir a replicação da metodologia em outras cadeias produtivas da sociobiodiversidade, como açaí, cupuaçu e andiroba”, destaca Maria Fernanda Berlingieri Durigan, pesquisadora da Embrapa Instrumentação(SP).
A equipe aplicará metodologias avançadas, como o Método de Análise Hierárquica (Analytic Hierarchy Process - AHP), para selecionar e validar indicadores de desempenho adicionais, que incorporarão dimensões de sustentabilidade ambiental, custos de produção e qualidade do produto. Os dados coletados serão processados e validados em ambiente estatístico e utilizados para construir uma plataforma de análise comparativa, acessível apenas às instituições parceiras.
O projeto divide-se em três eixos complementares: eficiência operacional, com coleta e análise de dados industriais padronizados; políticas públicas e governança, mapeando marcos regulatórios e oportunidades de investimento; e formação de competências locais, com treinamento técnico e bolsas de pesquisa.
Segundo os pesquisadores, a economia sustentável amazônica depende de informação confiável e comparável para crescer. “Com o benchmarking, o setor da castanha-da-amazônia poderá orientar suas estratégias com base em evidências, atrair investimentos e conquistar novos mercados”, destaca Patricia da Costa, pesquisadora da Embrapa Meio Ambiente (SP).
Rede multi-institucional
O projeto será executado por uma rede multi-institucional que reúne a Embrapa Rondônia (líder), Embrapa Instrumentação, Embrapa Meio Ambiente, Embrapa Acre, Universidade Federal de Rondônia (UNIR), Universidade de Nova Iorque (NYU), Centro de Empreendedorismo da Amazônia (CEA), Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos (ApexBrasil) e organizações da base produtiva da castanha-da-amazônia. Cada parceiro contribuirá com competências suplementares: as unidades da Embrapa asseguram rigor técnico e inovação metodológica, as universidades formam novos pesquisadores, e o CEA e a ApexBrasil fortalecem a inserção empresarial e internacional do setor.
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