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Quebra-cabeça de lembranças: É hora de relembrar viagens

Quebra-cabeça de lembranças: É hora de relembrar viagensFoto: Estadão

Com viagens suspensas, é hora de revisitar memórias e rever as fotos que ficaram esquecidas

Estadão Conteúdo - 01/05/2020 - 15:54:54

A memória não é obra acabada. Sabe aquela festa na qual você tinha certeza de que estava usando uma blusa verde? Daí, numa quinta-feira qualquer, um amigo postou uma foto dessa tal festa e você constatou que, na verdade, estava de vermelho. Pois então: a partir daí, você vai lembrar de si vestindo vermelho na ocasião, como se nunca tivesse pensado outra coisa. Encaixa-se uma peça no quebra-cabeça das lembranças, que assumem a nova forma como se jamais tivessem sido de outro jeito.

Vivi uma experiência de profunda emoção na primeira e única vez que visitei o Monte Saint-Michel. Foi há dez anos. É tempo suficiente para que as lembranças venham sendo remendadas desde então.

Monte Saint-Michel
Cartão-postal: Monte Saint-Michel era um dos locais mais visitados da França antes da pandemia Foto: Mônica Nobrega/Estadão

Você certamente ouviu falar do Monte Saint-Michel. É um ponto turístico para lá de batido, o segundo lugar mais visitado da França, depois de Paris. Trata-se de uma ilhota de 960 metros de circunferência, em forma de cone, com uma abadia no topo e 13 séculos de história. Fica em uma baía no litoral da Normandia e, a depender da fase da lua, é rodeada e isolada pela maré alta. Tem 30 moradores na contagem mais recente, dos quais 12 são monges, e chegava a receber 30 mil visitantes por dia no verão europeu.

Eu passei um dia só, inteiro, no Monte. Viajava em grupo com uma freira e uma pesquisadora de assuntos da espiritualidade. Por causa do interesse específico delas, um dos religiosos do alto escalão da abadia nos guiou pessoalmente. Sorte a nossa: ele tinha poder para nos dar acesso a espaços habitualmente fechados aos turistas. Nos levou para dentro da capela Notre Dame Sous Terre.

A capela é uma das primeiras construções da ilha. Todo o resto foi sendo erguido ao redor dela, século após século, praticamente soterrando-a, daí seu nome, sous terre, subterrânea. Visitá-la é bastante difícil, requer agendamento com muita antecedência, em períodos específicos do ano, que nunca são amplamente divulgados.

Eu me flagrei intensamente emocionada dentro de Notre Dame Sous Terre. Cheguei a sugerir às pessoas do meu grupo que ficássemos alguns minutos sem falar, para que pudéssemos escutar a profundidade do silêncio guardado entre aquelas paredes de mil e tantos anos de idade. Acho até que eu, que nem sei rezar, fiz ali algum tipo de oração.

Na minha cabeça, tínhamos saído da capela para nos aquecer ao sol. Revendo as minhas fotos para escrever este texto, descobri que aquele não foi só um dia frio, foi também feio e nublado. Esse dado estava esquecido, e a minha memória tinha enfiado nessa lacuna o sol das imagens publicitárias do Monte Saint-Michel. Achei mais uma peça do quebra-cabeça das minhas lembranças e vou falar uma coisa: até que o tom acinzentado do dia destacou positivamente as luzes avermelhadas que eu usava no cabelo nessa época. Tinha esquecido delas também.

Nos últimos dez anos, aumentou muitíssimo o volume de informações a que temos acesso. Há um vasto e variado conteúdo sobre qualquer viagem que você queira fazer nas formas de reportagens, ensaios fotográficos, obras artísticas, posts, livros, no cinema e até em canções. Nada disso, desculpe o clichê, substitui a experiência pessoal. E a experiência não se encerra na visita a um lugar: ela continua sendo construída, ganhando e perdendo significados, cores, formas, cheiros e luzes depois que você vai embora.

Neste singular 2020, pouco a pouco, vamos nos dando conta de que o isolamento social vai ser longo. A União Europeia falou recentemente em manter suas fronteiras fechadas pelo menos até setembro. É um esforço coletivo indispensável neste momento. Enquanto não podemos viajar em busca de experiências, meu desafio neste espaço quinzenal será o de revisitar memórias a partir das minhas fotos e, desta forma, apresentar ou reapresentar a você lugares turísticos pelo mundo.

Meu desejo é que você se inspire nos meus álbuns para criar, organizar ou revisitar os seus, cheios de ideias para quando tudo isso acabar.

Como visitar (quando reabrir)

De Paris ao Monte Saint-Michel de carro, leva-se cerca de 4 horas. Outra opção é o trem-bala da SNCF, até Rennes (1h30 de viagem, direto). De lá, no entanto, é preciso pegar um ônibus até o estacionamento do monte. Por enquanto, não há previsão de reabertura do local, mas dá para fazer visitas virtuais programadas e eventos online aqui.

*A CADA 15 DIAS, VAMOS FALAR SOBRE MEMÓRIAS DE VIAGEM NESTE ESPAÇO. QUAIS SÃO AS SUAS? MARQUE @VIAGEMESTADAO E USE #VIAGEMESTADAO NAS SUAS FOTOS DO INSTAGRAM E CONTE PARA NÓS

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