Quero trazer representatividade para as lésbicas, diz Lela Gomes sobre websérie

A ideia da websérie surgiu também a partir da relação de Lela com seu próprio público

Quero trazer representatividade para as lésbicas, diz Lela Gomes sobre websérie
Quero trazer representatividade para as lésbicas, diz Lela Gomes sobre websérie

Ana Cora Lima Rio De Janeiro, Rj (folhapress) - 07/03/2026 18:39:31 | Foto: Lela Gomes observa as atrizes: 'Minha missão é trazer representatividade para mulheres lésbicas' - Divulgação

A busca por representatividade e o desejo de contar histórias mais reais sobre mulheres que amam mulheres estão no centro de "Quem Sabe Outro Dia", nova websérie criada por Lela Gomes. O projeto nasce de uma inquietação antiga da atriz e roteirista, que cresceu com poucas referências no audiovisual.

"Eu sempre senti falta de representatividade. A gente tinha 'The L Word', que era o que dava para consumir, mas hoje a gente vê como era problemática", diz. Segundo ela, as narrativas sáficas ainda costumam ser superficiais, muitas vezes marcadas por estereótipos ou pela ausência de afeto explícito. "Às vezes não tem beijo, às vezes não tem uma história real."
A ideia da websérie surgiu também a partir da relação de Lela com seu próprio público. Antes de se dedicar ao audiovisual, ela criou o bar Boleia, no Rio, voltado para mulheres lésbicas. A experiência reforçou o que ela já percebia: havia uma demanda por histórias mais próximas da realidade. "Eu sinto que minha missão é trazer representatividade para mulheres lésbicas", afirma.

A escolha pelo formato de websérie foi estratégica. Para Lela, 39, a internet oferece liberdade criativa e permite contar histórias sem as limitações mais rígidas da TV tradicional. "A gente consegue fazer do jeito que quiser e contar da forma que quiser. E são histórias que poderiam acontecer com qualquer casal", explica.

Ao lado dela está o pai, o diretor Rogério Gomes, o Papinha, 65, que construiu uma sólida carreira na TV Globo, onde dirigiu novelas como "A Força do Querer", "Império", "Pantanal", "A Próxima Vítima", "Laços de Família", "Mulheres Apaixonadas" e "Além do Tempo". Mesmo com décadas de experiência em novelas, ele vê nas webséries um campo ainda pouco explorado -e cheio de potencial. "Existe um preconceito. As pessoas ainda não entenderam o tamanho disso", diz.

Para ele, além do alcance, o formato abre espaço para novos profissionais. "Tem muita gente talentosa sem oportunidade. Quando você cria uma websérie que atinge muita gente, você abre portas para atores, técnicos, roteiristas."
Papinha afirma que, apesar de ter dito anteriormente que havia se aposentado, nunca abandonou de fato o ofício -apenas decidiu desacelerar depois de décadas de trabalho intenso na televisão. "Eu trabalhei 40 e poucos anos na TV Globo, emendei muitas novelas, virou um trabalho exaustivo para mim. Eu fiquei quase traumatizado de tanto trabalhar", diz.

O diretor explica que voltou a se envolver em projetos por um outro tipo de motivação. "O que me move é aprender. Esse universo é muito novo para mim", afirma.

Ele destaca ainda que o formato mais enxuto e colaborativo, com equipes pequenas e poucos recursos, torna o processo menos desgastante. "Não é um trabalho exaustivo, é quase um desafio. É uma contribuição para o audiovisual, abrir espaço para novas pessoas e novas histórias."
A diretora e parceira de criação Gabriela Bervian, 40, reforça percepção de que as pessoas ainda não se derão conta do potencial da webséries ao comparar os números. Vinda do cinema, ela se impressionou com o alcance das produções online. "Mesmo filmes com boa bilheteria no Brasil ainda são pequenos perto do que uma websérie pode alcançar", afirma.

Apesar disso, o trio aponta que ainda há dificuldades, especialmente na captação de recursos. Editais são escassos e, quando existem, oferecem valores considerados baixos. Marcas e investidores também ainda não enxergam plenamente o potencial do formato. "É praticamente impossível conseguir recurso hoje", resume Gabriela.

Ainda assim, o engajamento do público é um diferencial. Segundo a criadora, as webséries formam verdadeiras comunidades de fãs, algo que pode se tornar atrativo para marcas no futuro. "Quando entenderem isso, vão ver que o produto fica ali para sempre, sendo assistido."
A relação familiar também atravessa o projeto. Lela destaca o aprendizado ao trabalhar com o pai, a quem define como um diretor aberto ao diálogo. "Ele escuta todo mundo, respeita a equipe. E não passa pano para mim", diz, aos risos. Papinha, por sua vez, afirma que voltou a trabalhar motivado pelo aprendizado e pelo desafio de um novo formato. "É um universo novo para mim, e eu gosto de aprender."
A websérie aposta em histórias cotidianas e afetivas, fugindo de abordagens fetichizadas. Para Lela, esse é o ponto central: mostrar relações sáficas com naturalidade. "É uma história de amor que pode acontecer em qualquer lugar, com qualquer pessoa."
"Quem Sabe Outro Dia" é o segundo projeto de Lela. O primeiro, "Depois da Meia-Noite", teve duas temporadas e venceu como melhor websérie brasileira em 2024 em um dos principais festivais do formato.

A nova produção acompanha Catarina (Marília Looes), que marca uma sessão de terapia com Eliza (Mariana Molina) sem imaginar que a terapeuta é alguém com quem já viveu um encontro intenso no passado. O reencontro acende sentimentos adormecidos e expõe fragilidades. "Não são experiências minhas nem inspiradas em outras pessoas. São histórias da minha própria cabeça -e eu ainda tenho muitas para contar", afirma.

Sem pretensão de escrever novelas, trabalho que descreve como "punk demais", Lela comemora avanços recentes na TV aberta, como a cena da primeira vez do casal Lorena (Alanis Guillen) e Juquinha (Gabriela Medvedovsky) em "Três Graças".

"Assisti e achei a cena muito bonita, muito delicada. As pessoas, às vezes, têm o costume de levar as histórias de amor entre duas mulheres para um lado quase fetichista", diz. "Eles estão contando uma história de amor que pode acontecer com qualquer pessoa, e esse é o encantamento." Ainda assim, ela ressalta que há um longo caminho pela frente. "A gente merece ser vista."

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