Relator mudará projeto de lei sobre 6x1 para evitar impacto de horas extras sobre empresas

O projeto de lei foi enviado pelo governo Lula (PT) em regime de urgência e só seria discutido após a promulgação da PEC

Relator mudará projeto de lei sobre 6x1 para evitar impacto de horas extras sobre empresas
Relator mudará projeto de lei sobre 6x1 para evitar impacto de horas extras sobre empresas

Raphael Di Cunto-brasília, Df (folhapress) - 16/06/2026 10:39:19 | Foto: Agência Brasil divulgação

O deputado federal Leo Prates (Republicanos-BA), relator do projeto de lei que regulamenta o fim da escala 6x1, deve fazer ajustes na proposta para evitar um impacto na remuneração dos trabalhadores e nos custos das empresas com a ampliação de uma para duas folgas semanais remuneradas.

A Folha de S.Paulo mostrou que a mudança na carga horária pode aumentar o salário dos professores contratados como horistas e dos portuários e também elevar o valor de cada hora extra em 30% para os trabalhadores em geral. Isso porque o encurtamento da jornada, com a fixação de dois dias de folga remunerados por semana, eleva o valor do Descanso Semanal Remunerado, que incide sobre esses pagamentos.

A ideia de Prates, segundo relatos feitos a dois interlocutores ouvidos pela reportagem, é fazer uma redação que fique no "zero a zero", sem eventuais reduções na remuneração dos trabalhadores, mas também sem implicar em custos a mais para os empregadores.

O relator também afirmou a um interlocutor que retirará do parecer eventuais reflexos na reforma trabalhista. Não ficou claro para esse interlocutor qual seria a alteração feita no projeto, mas um dos pontos mais criticados pelos empresários na PEC (proposta de emenda à Constituição) que acabava com a escala 6x1, aprovada pela Câmara dos Deputados em maio, foram restrições aos acordos individuais entre empregados e patrões, como para definir regras de teletrabalho e banco de horas.

Procurado pela Folha, Prates evitou comentar. Ele apresentará o parecer ao projeto nesta terça-feira (16), às 14h, para os líderes dos partidos, com o objetivo de que seja votado pelo plenário da Câmara dos Deputados no mesmo dia.

O projeto de lei foi enviado pelo governo Lula (PT) em regime de urgência e só seria discutido após a promulgação da PEC. O texto seria usado para adequar a legislação à alteração constitucional e regulamentar o tratamento de categorias e jornadas específicas. O Executivo, no entanto, decidiu manter o regime de urgência, que impede a Câmara de votar outros projetos de lei, enquanto o Senado não destravar a discussão da PEC.

O presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB), decidiu então nomear Prates como relator do projeto de lei para driblar essa estratégia do governo. A orientação foi reproduzir o conteúdo da PEC para aprovar novamente o tema e jogar o assunto para o Senado.

Prates, porém, afirmou a interlocutores que haverá algumas alterações, todas combinadas com Motta. A principal é uma tentativa de evitar que a mudança na Constituição, de uma para duas folgas semanais remuneradas, tenha reflexos não previstos nos salários.

Um deles é uma conta, feita por parte dos juristas, de que as horas extras poderão ter o valor reduzido. Para se calcular a jornada mensal, divide-se hoje as 44 horas por semana por seis dias de trabalho e multiplica-se por 30 dias no mês, o que dá 220. Esse número é utilizado para dividir o salário e chegar ao valor-hora do trabalho.

Com a PEC, parte deles entende que a conta passará a ser de 40 horas por semana, divididos por cinco dias de trabalho, multiplicados por 30. Com isso, o divisor será de 240, o que reduzirá o valor de cada hora trabalhada e terá reflexo nas horas extras feitas. Um salário de R$ 1 mil, por exemplo, teria o valor da hora reduzido de R$ 5 para R$ 4,16.

O TST (Tribunal Superior do Trabalho) tem interpretação diferente, de que a jornada de 40 horas semanais se reflete em 200 horas mensais, o que elevaria o valor da hora trabalhada. A regra está em súmula de 2012, reafirmada em 2025, mas quem discorda do cálculo afirma que foi feito considerando o cenário anterior à PEC e que deve ser revisto.

Prates, de acordo com interlocutores, quer evitar esse cenário e manter o espírito de que não haverá perda de salários para os trabalhadores.

Outro tema em avaliação no parecer é praticamente o inverso: evitar que as duas folgas semanais remuneradas levem a um aumento da descanso semanal remunerado, com reflexos no pagamento das horas extras feitas com habitualidade.

O adicional por descanso semanal remunerado é calculado dividindo-se o valor do salário por hora (que deve ficar maior pela redução da jornada para 40 horas semanais) pelo número de dias úteis no mês (que ficará menor após a PEC). O resultado é multiplicado pelo número de folgas mensais (que pode dobrar a depender do mês). A mudança pode elevar o valor de cada hora extra em até 30%.

Outra alteração provocada por isso é que os trabalhadores avulsos, horistas ou diaristas recebem hoje 16,6% de adicional de descanso semanal remunerado por cada jornada feita. O governo, no projeto agora discutido, quer elevar esse percentual para 40% para contemplar o segundo dia de folga remunerado.

Esses dois impactos são motivo de protestos de empresários. A preocupação com esse aumento foi levada também por ministros do TST a Prates no Fórum de Lisboa, popularmente conhecido como Gilmarpalooza por ser organizado pelo ministro do STF (Supremo Tribunal Federal) Gilmar Mendes.

O setor empresarial tentou modificar o texto da PEC na Câmara para estabelecer que o novo dia de folga semanal fosse considerado "dia útil não trabalhado", para não alterar o cálculo das horas extras e o salário de trabalhadores horistas ou avulsos, mas o governo foi contra e prevaleceu o texto garantindo o segundo dia de descanso remunerado.

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