Conheça a história de oito cidades diferentonas
Diogo Bachega São Paulo, Sp (folhapress) - 31/03/2026 07:18:55 | Foto: © ANTÔNIO CRUZ/ AGÊNCIA BRASIL/ARQUIVO
Se eu tivesse que adivinhar, chutaria que você, que está lendo, vive em uma cidade. Se olharmos para o planeta inteiro, oito a cada dez pessoas vivem em grandes centros urbanos, cidades menores ou vilarejos. No Brasil, são quase nove a cada dez.
Você já deve ter ouvido falar que, lá atrás, num passado mais antigo do que a avó da avó da sua tataravó, as pessoas viviam em pequenos grupos que andavam por aí caçando animais e colhendo plantas. Com o tempo, a tendência foi de a maioria parar quieta e começar a plantar e criar animais. Mas o que levou essas pequenas comunidades a se transformais nas cidades que conhecemos hoje?
POR QUE MORAMOS EM CIDADES?
O Alex Sartori e a Erminia Maricato são urbanistas, ou seja, especialistas em pensar em como as cidades são e podem funcionar. A reportagem conversou com os dois e ouviu a mesma coisa: a origem da cidade está no mercado.
"As cidades reúnem as pessoas. Fica mais fácil resolver as coisas que dependem dos outros se a gente estiver morando todo mundo perto", diz Sartori.
Enquanto as pessoas conseguiam viver com o que elas mesmas faziam, dava para morar sozinho. Mas como o mundo foi ficando mais complicado, passou a fazer mais sentido dividir as tarefas. Eu planto arroz, você planta feijão e o Joãozinho descola o frango.
Nesse novo cenário, a gente pode até morar separado, mas precisa de um lugar para ir trocar nossas coisas. É aí que as pessoas começam a se reunir umas com as outras. "Se você morar no campo, você vai produzir alguma coisa e levar para a cidade, onde vai poder vender e comprar outras coisas."
E ENTÃO AS COISAS FICAM MAIS COMPLICADAS
Há pouco mais de cem anos, só um a cada dez brasileiros morava em cidades. E hoje, quase todo mundo mora nelas. O que aconteceu nesse meio-tempo? Surgiram as indústrias, diz Maricato. Antes, o país vivia com o dinheiro da colheita das plantações, então as pessoas não precisavam estar sempre nos mesmos lugares. As fábricas mudaram tudo.
Se antes uma pessoa ou um pequeno grupo ganhava dinheiro vendendo um produto que produzia do começo ao fim, com o tempo, cada vez mais pessoas passaram a trabalhar juntas em uma mesma fábrica para construir uma única coisa. E aí os produtos foram ficando mais complicados, e até isso deixou de ser verdade.
Hoje, um único produto tem sua produção dispersa por toda uma rede de fábricas. Pegue um carro, por exemplo: há lugares que só fazem os vidros, outros que cuidam da lataria, outros que fazem a parte elétrica e por aí vai. No fim, ainda tem uma montadora, que junta todos esses pedaços.
E existem vantagens em juntar as fábricas que fazem cada uma dessas partes em um mesmo lugar. Basta pensar na questão da energia. Se cada indústria estivesse em um canto, seria preciso garantir que a eletricidade chegasse a cada uma delas, o que daria bastante trabalho. Fica muito mais fácil quando estão todas juntas.
Foram as fábricas, em grande parte, que fizeram as cidades começarem a crescer até se tornarem o que são hoje.
QUEM DECIDE COMO SERÁ A CIDADE?
As pessoas começaram a se juntar cada vez mais para dividir o trabalho, e isso está por trás do surgimento das cidades. Mas como a cidade... vira cidade? Quem decide o que é feito em cada canto dela e como?
Toda cidade é chefiada por políticos (prefeitos e vereadores), que são escolhidas pelo povo por votação. Junto a eles, há vários funcionários cujo trabalho é fazer as coisas funcionarem. Tudo o que afeta a cidade é decidido por essas pessoas. Se a cidade precisa de mais ônibus, escolas ou hospitais, isso passapor eles. Se alguém quer construir um prédio novo em algum lugar, também.
Mas essa é a parte oficial da história, que não acaba aí. Qualquer pessoa pode tentar influenciar como as coisas funcionam na cidade. Você também vai poder, quando tiver mais idade. Só que uma pessoa sozinha tem menos capacidade de mudar uma decisão do que várias juntas. E as empresas, que têm muito dinheiro, acabam tendo bastante influência.
"De forma geral, todos nós somos uma força para produzir e organizar as cidades. O que muda é o poder que cada um de nós tem", afirma Sartori.
E nem tudo acontece como a lei manda. Nas favelas, por exemplo, muitas pessoas construíram suas casas, ao longo do tempo, por conta própria e sem autorização da prefeitura. Às vezes, elas até pagaram por aquele espaço, mas não por vias oficiais. Isso também é a cidade sendo construída.
E há o crime organizado: pessoas que se juntam para quebrar leis. Essas pessoas às vezes ocupam regiões da cidade e tomam decisões que, em teoria, deveriam ser dos políticos.
VIVEMOS JUNTOS, MAS NEM TODO MUNDO VIVE BEM
Vimos que as cidades surgem para facilitar a vida de todo mundo, mas com elas vêm uma série de problemas novos. Os dois especialistas ouvidos pela reportagem concordam que os principais têm a ver com onde e como as pessoas moram.
"Para mim, o principal problema urbano do Brasil hoje é a habitação", diz Sartori. Por um lado, ele diz, há pessoas que não têm onde morar ou moram em más condições. Por outro, existe a questão de onde ficam as casas.
Se as pessoas não conseguem morar perto do trabalho, por exemplo, elas precisam ir até onde há serviço. E isso também vale para hospitais, escolas, cinemas e teatros, parques e tudo mais. Daí surgem o trânsito, os ônibus e metrôs abarrotados, etc.
Maricato concorda. "A maioria dos cidadãos tem uma condição ruim de moradia, sem água tratada, sem esgoto nem coleta de lixo, num lugar que com transporte e iluminação pública ruins e tal."
O AQUECIMENTO GLOBAL VAI MUDAR O JEITO DE VIVER NAS CIDADES?
Outra questão séria é a das mudanças climáticas. A temperatura do mundo está aumentando, em grande parte por causa da poluição humana. Isso faz com que problemas que já existiam, como enchentes e secas, piorem. Por isso, Sartori não gosta de chamar essas coisas de desastres naturais.
"Uma coisa é ter um morro. O desastre é que a gente colocou alguém para morar no morro. É a mesma coisa que a gente fez com relação aos nossos rios, por exemplo. Ocupamos um espaço que eles já ocupavam. Enquanto a gente não estava ocupando aquele espaço, eles alagavam, mudavam o percurso do rio, e tudo bem."
Com as mudanças climáticas, ele diz, esses problemas pioram ainda mais.
MAS NEM TUDO ESTÁ PERDIDO
O urbanista contou para a reportagem que, ao redor do mundo, as pessoas têm criado formas de enfrentar todas essas questões. No Brasil também.
Um exemplo é Curitiba, no Paraná, uma das primeiras cidades-esponja do mundo -que utilizam espaços com plantas e árvores para absorver a água da chuva e evitar alagamentos, modelo que vem sendo bastante estudado na China e nos Estados Unidos.
Curitiba também é conhecida por ter um ótimo BRT, um tipo de corredor de ônibus que faz com que eles funcione quase como um metrô a céu aberto.
Ao lado dessas inovações, é claro, existe o esforço político para fazer as coisas funcionarem. Como lembra Maricato, não faltam leis; falta que elas saiam do papel.
Conheça a história de oito cidades diferentonas
GABRIEL JUSTO-SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Mesmo sendo ainda criança, você já deve saber que viajar é muito legal -não só para ir à praia ou conhecer a Disney, mas para reparar em como outros lugares foram construídos, como se organizam e como as pessoas dali vivem. Veja a seguir alguns exemplos de cidades inusitadas, que propõem diferentes maneiras de viver junto.
ROMA
A hoje capital italiana começou a ganhar cara de cidade por volta do ano 600 a.C., quando um pessoal bastante inteligente e civilizado que habitava o norte daquela região, os etruscos, começaram a reinar. Eles construíram redes de esgotos, estradas, pontes, e lugares como o Fórum Romano, onde as pessoas se reuniam para discussões, cerimônias e julgamentos.
Quando a monarquia caiu, Roma viveu cinco séculos sob uma república (ou seja, era comandada por representantes eleitos pelo povo), e outros cinco séculos sob um império, uma das maiores potências do seu tempo. Por ter sido palco de tanta história, a cidade é hoje um grande museu a céu aberto, onde ruínas milenares (como as do Coliseu, do ano 70 d.C.) convivem com a vida moderna
POMPEIA
No ano 79, o vulcão Vesúvio, na Itália, passou por uma erupção tão grande que as pedras e a lava expelidas soterraram uma cidade inteira. Era Pompeia, que ficou enterrada e esquecida por séculos. Ela só começou a ser redescoberta em 1748, quando o rei espanhol Carlos 3º, que dominava a região na época, ordenou algumas escavações na região.
Esse trabalho foi super importante para revelar como era a vida em Pompeia imediatamente antes da erupção, já que o soterramento manteve construções, artefatos e até pinturas nas paredes preservados ao longo do tempo.
VENEZA
Em vez de avenidas, Veneza tem canais de água; em vez de carros, são os barcos que cruzam de um lado para o outro. É que, por volta do século 5º, ao fugir das invasões bárbaras, o único refúgio que os romanos encontraram foi uma grande laguna (uma lagoa de água do mar, geralmente rasa) ao norte do mar Adriático.
Para construir sobre a água, eles fincaram milhares de troncos de madeira no fundo dessa laguna, que juntos formaram uma base sobre a qual foram erguidas as construções. Justamente por essa característica única, a cidade se tornou um grande ponto turístico do mundo, recebendo mais de 30 milhões de visitantes todos os anos.
MACHU PICCHU
Antes de Cristóvão Colombo descobrir o continente americano, em 1492, muitas civilizações já viviam por aqui -são os chamados povos pré-colombianos. A maior dessas civilizações foi a dos os incas, que construíram um grande império que se estendia do atual Equador até o Chile.
Por volta de 1450, esse império construiu uma cidade de pedras numa montanha a 2.430 metros de altitude mas, com a chegada dos espanhóis, tiveram de abandoná-la. O lugar ficou esquecido por cerca de 400 anos, até que um explorador americano, guiado pelos locais, encontrou as ruínas e as revelou ao mundo. Hoje, Machu Picchu é considerada uma das sete maravilhas do mundo moderno, recebendo 1,6 milhão de turistas todos os anos.
BRASÍLIA
Nos anos 1950, quando o então presidente Juscelino Kubitschek decidiu transferir a capital brasileira do Rio de Janeiro para o planalto central de Goiás, estava no auge um tal de modernismo, um jeito de pensar as cidades que propunha que elas fossem totalmente planejadas, para evitar repetir o caos das grandes metrópoles.
O auge do modernismo brasileiro na arquitetura foi, justamente, a construção de Brasília, que foi planejada e construída do zero. Diferentes de quase todas as outras, ela é toda setorizada: existe a Esplanada dos Ministérios, que abriga prédios do governo, as quadras (que são como grandes quarteirões) residenciais, as quadras comerciais (uma só para farmácias, outra só para pet shops), os setor hoteleiro e por aí vai.
PRIPYAT
Imagine só uma cidade completa, com parques, praças, casas, escritórios e até parque de diversões -mas onde ninguém quer (e nem pode) viver. Essa é Pripyat, no norte da Ucrânia, fundada no começo dos anos 1970 para abrigar os trabalhadores que construíram a usina nuclear de Tchernóbil.
Em 1986, o maior acidente nucler da história obrigou os quase 50 mil habitantes a evacuar a cidade, deixando tudo para trás para que eles não sofressem os efeitos mortais da radiação. Os cientistas estimam que deve levar cerca de 900 anos para que aquela área possa ser habitada novamente com segurança.
CHONGQING
Com mais de 32 milhões de habitantes, essa cidade do sudoeste da China está entre as maiores do mundo. Mas ela ficou famosa mesmo pelo apelido de cidade 8D, como se tivesse oito dimensões. Isso por causa da geografia do lugar, bastante montanhosa, e dos prédios gigantescos, que às vezes são construídos nos vales, e às vezes, também no alto dos morros -todos eles conectados por praças, terraços e até por trens que atravessam os prédios como se estivessem atravessando túneis. É uma loucura. Você pode pegar o elevador no térreo, subir até o 22º andar de um prédio e sair no térreo de novo.
QIDDIYA
Até o começo do século passado, as atuais metrópoles do Oriente Médio, como Dubai, eram apenas vilas de pescadores. Tudo mudou com a descoberta de grandes reservas de petróleo, que enriqueceram a região e a transformaram num novo polo de desenvolvimento de negócios e de turismo. Para atrair mais gente para lá, em 2017 a Arábia Saudita anunciou que construiria uma nova cidade, chamada Qiddiya, projetada para ser a capital mundial do entretenimento, com inúmeras opções de atrativos -entre elas, a Falcons Flight, maior e mais rápida montanha-russa do mundo, com 195 metros de altura e velocidade máxima de 250 km/h.
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