Santuário de elefantes pede que Mato Grosso anule suspensão para receber novos animais

A proibição foi expedida em 23 de dezembro de 2025, uma semana após a morte da elefanta Kenya

Santuário de elefantes pede que Mato Grosso anule suspensão para receber novos animais
Santuário de elefantes pede que Mato Grosso anule suspensão para receber novos animais

Gabriel Gama-são Paulo, Sp (folhapress) - 22/01/2026 16:41:07 | Foto: Reprodução Associação Santuário de Elefantes Brasil (SEB

O Santuário de Elefantes Brasil pediu que a Secretaria de Meio Ambiente de Mato Grosso reconsidere a suspensão da autorização para a entidade receber novos animais. A proibição foi expedida em 23 de dezembro de 2025, uma semana após a morte da elefanta Kenya.

Em manifestação administrativa protocolada nesta terça-feira (20), a organização também exige que as autoridades estaduais reconheçam formalmente a ausência de risco sanitário no local. A entidade afirma ter entregue os documentos solicitados pelo órgão.

"Não há auto de infração ambiental, não há laudo técnico contemporâneo que identifique risco sanitário atual, não há foco epidemiológico ativo ou dano ambiental comprovado", diz a instituição. A secretaria não respondeu aos questionamentos da reportagem.

A suspensão da autorização para receber novos animais entrou em vigor depois do falecimento da elefanta Kenya, de 44 anos, que viveu cinco meses no santuário. Ela havia passado décadas em um zoológico na Argentina, em condições consideradas inadequadas. A elefanta Pupy havia chegado em Mato Grosso em abril de 2025, vinda do país vizinho, e morreu em outubro, com cerca de 35 anos.

Outros dois animais perderam a vida pouco tempo após a mudança para o local. Pocha havia sido transferida em maio de 2022 e faleceu em outubro daquele ano, com aproximadamente 57 anos de idade. Já Ramba morreu em dezembro de 2019, dois meses após ser levada ao santuário, com idade estimada entre 60 e 65 anos.

"Os óbitos mencionados ocorreram ao longo de quase uma década, decorreram de etiologias distintas, sem nexo epidemiológico comum, envolveram animais geriátricos resgatados após décadas de cativeiro inadequado e incluem eutanásias humanitárias, procedimento ético e tecnicamente indicado em medicina veterinária", afirma a instituição no pedido enviado à secretaria.

O advogado do santuário, Raphael Bontempi, diz à Folha que a proibição tem grande impacto reputacional para a entidade e influencia os processos para a transferência de outros elefantes, como Sandro, que vive em Sorocaba (SP), e Baby, atualmente no antigo zoológico do parque Beto Carrero, em Penha (SC).

"O nosso ponto não é contra a fiscalização, não é contra as autoridades irem lá. O ponto são excessos ou distorções e descontextualizações", afirma Bontempi. Ele diz estar confiante na retomada da autorização, mas não descarta a possibilidade de ir à Justiça caso não haja sucesso na via administrativa.

De acordo com o biólogo Daniel Moura, diretor do santuário, a elefanta Kenya provavelmente tinha osteomielite, uma infecção letal e incurável que atinge os ossos e é causada por lesões nas patas –condição que, segundo ele, foi provocada durante as décadas em um cativeiro pequeno e de piso inadequado.

"É um animal que vem sem histórico de tratamento, sem histórico de doenças, porque não foi feito um tratamento. É um animal negligenciado. Quando chega, é uma bomba-relógio", diz Moura.

O vácuo de informações sobre a vida dos elefantes antes da chegada ao santuário também impacta a qualidade das necropsias, segundo o diretor. A instituição contratou a UFMT (Universidade Federal de Mato Grosso) para realizar as autópsias. Os laudos finais de Kenya e Pupy ainda não estão prontos.

Moura afirma que é esperado que mortes ocorram no santuário, especializado em cuidados paliativos.

De acordo com o Ibama (Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis), o local segue as regras de uma normativa de 2015, que também se aplica a zoológicos. Para Moura, a norma é antiquada e ultrapassada ao exigir no mínimo 1.500 m² para habitats de elefantes, uma dimensão que ele considera insuficiente.

O santuário afirma que dispõe de 40 hectares (400 mil m²) para os elefantes, o que corresponde a menos de 5% da área total da propriedade, de 1.100 hectares.

"Ela [a normativa] foi feita por Ibama e zoológicos, porque era a única coisa que tinha de cativeiro aqui [no Brasil]. Ou seja, adequaram as normas de acordo com o que os zoológicos têm", diz. "É uma desproporção absurda do que é um santuário de elefantes e onde os elefantes estão no Brasil."
"E, de uma certa forma, isso ofende e incomoda muita gente que não concorda ou acha que o emprego está ameaçado", afirma. "É uma ameaça a um modelo de gestão de animais que é fracassado, que é o zoológico."
Moura diz que o plano é encerrar as atividades no santuário quando não houver mais animais em cativeiro e todos já tiverem falecido.

"Quando a gente começou o projeto em 2014, tinha mais ou menos 50 elefantes cativos: 30 no Brasil e uns 20 e poucos no restante da América do Sul." Segundo ele, hoje há cerca de 20 animais no continente, quase metade do que havia 12 anos atrás.

AÇÃO CONTRA BIÓLOGO
Ainda nesta terça, o santuário e o presidente da instituição, o americano Scott Blais, apresentaram ação civil contra o biólogo e influenciador Henrique Abrahão Charles em que o acusam de difamar a entidade.

A peça exige tutela liminar para proibi-lo de mencionar o santuário ou seu dirigente enquanto a matéria é julgada. Outro pedido é a exclusão imediata de 22 vídeos do canal do influenciador no YouTube com menções consideradas ofensivas, falsas ou difamatórias. A ação afirma que os conteúdos foram publicados de junho de 2025 a janeiro de 2026, somando 883,6 mil visualizações, e pede multa diária de R$ 1.000 em caso de descumprimento.

Na visão da entidade, as postagens configuram um ciclo de difamação e injúria, "no qual são propagadas narrativas sabidamente falsas, tais como a alegação de que o santuário não seria fiscalizado, atuaria à margem da legalidade ou funcionaria como um suposto 'cemitério de elefantes'".

Charles, conhecido nas redes sociais como "biólogo Henrique", afirma que não foi notificado oficialmente sobre a ação e que a medida cerceia sua liberdade de expressão.

"Todos os comentários que eu fiz foi como um profissional biólogo técnico, mostrando as incoerências, como de se trazer um animal exótico que hipoteticamente estaria solto no cerrado", diz.

Quanto ao uso da expressão "cemitério de elefantes", o biólogo afirma que se refere à ausência de reprodução da espécie no espaço. "O santuário não tem o objetivo de procriar o animal, apenas ele vai para lá para finalizar a vida dele, o que não faz muito sentido ecológico."
A advogada Flávia Mota de Almeida, que defende Charles, declara que ele sempre se manifestou dentro de seus direitos constitucionais. "Qualquer pedido de abstenção de fala, exclusão de conteúdo ou censura prévia não possui respaldo jurídico neste momento e será enfrentado."
O caso tramita na Justiça Estadual do Rio de Janeiro, e está prevista uma audiência virtual de conciliação, em data a ser definida.

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