Sindicato da Paraíba repudia agressão contra trabalhadora grávida no Maranhão

Caso ocorrido em Paço do Lumiar expõe violência estrutural enfrentada por trabalhadoras domésticas no Brasil

Sindicato da Paraíba repudia agressão contra trabalhadora grávida no Maranhão
Sindicato da Paraíba repudia agressão contra trabalhadora grávida no Maranhão

Portal Brasil De Fato - 10/05/2026 07:56:58 | Foto: Panfletagem do Sindicato das Trabalhadoras Domésticas PB na CBTU marca mobilização | Imagem: Marcos Freitas

Entidade cobra punição e denuncia racismo, machismo e exploração no trabalho doméstico.

Uma nota pública divulgada pelo Sindicato Estadual dos Empregados Domésticos do Estado da Paraíba, nesta quinta-feira (7), manifestou repúdio ao caso de violência sofrido por uma trabalhadora doméstica de 19 anos, grávida de cinco meses, no município de Paço do Lumiar, na Região Metropolitana de São Luís (MA).

Segundo relatos da vítima à Polícia Civil do Maranhão, ela teria sido agredida fisicamente pela patroa dentro da residência onde trabalhava, após ser acusada de ter furtado uma joia. O caso ganhou repercussão nacional após a divulgação de áudios atribuídos à suspeita, identificada como Carolina Sthela Ferreira dos Anjos, nos quais ela detalha as agressões cometidas contra a jovem.

“Eu considero inadmissível que trabalhadoras domésticas ainda sejam vítimas de agressões, humilhações e desrespeito dentro do ambiente de trabalho. Nós defendemos que toda trabalhadora merece dignidade, respeito e proteção dos seus direitos. Quando uma companheira é violentada, todas nós somos atingidas, porque isso revela uma realidade histórica de exploração que ainda persiste em muitos lares brasileiros”, declarou a presidenta do sindicato, Glória Rejane.

A dirigente também cobrou rigor das autoridades responsáveis pela investigação:“Eu espero que as autoridades façam uma apuração séria e rigorosa sobre esse caso. Nós nos solidarizamos com a trabalhadora agredida e com sua família. É fundamental que as mulheres denunciem situações de violência, assédio ou ameaça. Nenhuma trabalhadora doméstica deve enfrentar esse tipo de situação sozinha”, declarou.

Caso gerou repercussão nacional

De acordo com informações divulgadas pela imprensa maranhense e por veículos nacionais, as agressões ocorreram no dia 17/04. A vítima relatou ter sofrido puxões de cabelo, socos, murros e ameaças durante mais de uma hora. Em depoimento reproduzido por reportagens, a jovem afirmou que tentou proteger a barriga durante os ataques para evitar ferimentos no bebê.

Segundo a Polícia Civil do Maranhão, o caso está sendo investigado pela 21ª Delegacia de Polícia Civil do Araçagy. Os investigadores apuram possíveis crimes de tortura, ameaça e lesão corporal gravíssima. Ainda nesta quinta-feira (07), a Justiça decretou a prisão preventiva da empresária investigada, que foi localizada no estado do Piauí.

O caso repercutiu nacionalmente após a divulgação de áudios obtidos pela TV Mirante, afiliada da Rede Globo no Maranhão. Nas gravações divulgadas pela imprensa, a suspeita descreve as agressões e afirma que a vítima “não era para ter saído viva”. Em outro trecho, ela relata que sua mão teria ficado inchada após as agressões.

A investigação policial também apura a participação de um homem armado que, segundo relatos da vítima e dos próprios áudios divulgados, teria participado das ameaças e agressões. O delegado Walter Wanderley, ouvido por veículos de imprensa, classificou o episódio como um caso grave de tortura.

Em nota divulgada à imprensa, a defesa da empresária informou que apresentará sua versão dos fatos no decorrer do processo judicial.

Leia a nota na íntegra a seguir:

NOTA DE REPÚDIO

O Sindicato Estadual dos Empregados Domésticos do Estado da Paraíba manifesta seu mais profundo repúdio ao brutal caso de violência sofrido por uma trabalhadora doméstica de apenas 19 anos, grávida de cinco meses, agredida pela patroa dentro da residência onde trabalhava, no município de Paço do Lumiar, na Região Metropolitana de São Luís (MA).

Segundo relatos da vítima à polícia, as agressões ocorreram no dia 17 de abril e envolveram puxões de cabelo, socos, murros e violência física extrema, deixando marcas pelo corpo e traumas psicológicos profundos. Durante os ataques, a jovem relatou que tentava proteger a barriga e o bebê que carrega. Em um dos áudios que circulam nas redes sociais, a patroa Carolina Sthela chega a afirmar que a vítima “era para ter ficado com mais hematomas” e que “não era para ter saído viva”, revelando um grau alarmante de crueldade, desumanização e desprezo pela vida de uma mulher trabalhadora.

A violência contra trabalhadoras domésticas é estrutural

O caso não pode ser tratado como um episódio isolado. Ele revela uma estrutura histórica de exploração, violência e desigualdade que atinge milhares de trabalhadoras domésticas no Brasil. O trabalho doméstico segue sendo uma das categorias mais precarizadas do país, marcada por baixos salários, informalidade, assédio moral, violência psicológica, jornadas exaustivas, humilhações e, em muitos casos, violência física.

O Brasil possui mais de cinco milhões de trabalhadoras domésticas, sendo a imensa maioria composta por mulheres negras e pobres. Historicamente, a nossa categoria ocupa a base da pirâmide social do trabalho, carregando as marcas profundas da escravidão, do racismo estrutural e da desigualdade de classe. O serviço doméstico no Brasil foi construído sobre relações de subserviência e naturalização da exploração da mulher pobre dentro das casas das elites.

Racismo, machismo e exploração caminham juntos

Não é coincidência que as trabalhadoras domésticas sejam majoritariamente mulheres negras, periféricas e economicamente vulneráveis. O trabalho doméstico ainda reproduz, em pleno século XXI, uma lógica herdada da casa-grande, onde mulheres pobres são vistas como corpos disponíveis para servir, obedecer e suportar abusos.

Quando uma trabalhadora doméstica é violentada, humilhada ou agredida, estamos diante de uma expressão concreta do racismo estrutural, do patriarcado e da desigualdade social brasileira. É a violência de classe atingindo quem está na base da sociedade. É a tentativa permanente de negar humanidade, dignidade e direitos às mulheres trabalhadoras.

A violência se torna ainda mais revoltante diante do fato de a vítima estar grávida de cinco meses. Uma mulher gestante deveria receber proteção integral do Estado e da sociedade. Agredir uma trabalhadora grávida significa colocar em risco duas vidas. É uma violência brutal que ultrapassa qualquer limite moral, humano e civilizatório.

O relato da vítima, que afirmou ter tentado proteger a própria barriga durante os ataques, expõe a dimensão do terror vivido por tantas mulheres pobres dentro dos espaços onde deveriam apenas trabalhar dignamente.

Causa ainda mais indignação o fato de a agressora ser advogada, uma profissional que conhece as leis, os direitos humanos e os princípios mínimos de proteção à dignidade da pessoa humana. Ainda assim, escolheu agir com extrema violência, abuso de poder e crueldade.

O conhecimento jurídico deveria servir à defesa da vida, da justiça e dos direitos fundamentais, jamais à perpetuação da violência contra uma trabalhadora vulnerável. O comportamento relatado demonstra não apenas agressividade física, mas um profundo sentimento de impunidade e desumanização da trabalhadora doméstica.

Solidariedade feminista e de classe

Manifestamos nossa total solidariedade à companheira agredida, à sua família e ao bebê que ela carrega. O trabalho doméstico é exercido hegemonicamente por mulheres, muitas delas chefes de família, pobres, negras e historicamente excluídas dos espaços de poder e proteção social.

Quando uma trabalhadora doméstica é violentada, todas nós somos atingidas. A violência contra uma mulher trabalhadora é também uma violência contra toda a classe trabalhadora feminina. Nos estados mais pobres do Brasil, onde a desigualdade social se aprofunda, essas mulheres vivem múltiplas vulnerabilidades: de gênero, raça, classe e território.

Por isso, nossa solidariedade é feminista, classista e coletiva.

Como denunciar violência e abusos

O Sindicato reforça a importância de denunciar qualquer tipo de violência, ameaça, humilhação, assédio moral, exploração ou agressão sofrida no ambiente de trabalho doméstico.

As denúncias podem ser realizadas através da:

-Polícia Militar (190);

-Central de Atendimento à Mulher (180);

-Delegacias da Mulher;

-Ministério Público do Trabalho;

-Sindicatos locais da categoria;

-Defensoria Pública;

-Delegacias comuns em casos de violência física e ameaça.

Nenhuma trabalhadora deve enfrentar a violência sozinha. Nossa luta é todos os dias!

O Sindicato Estadual dos Empregados Domésticos do Estado da Paraíba reafirma que a luta das trabalhadoras domésticas é diária. Lutamos por dignidade, respeito, direitos, valorização profissional, proteção social e condições humanas de trabalho.

Não aceitaremos que mulheres pobres continuem sendo tratadas como vidas descartáveis dentro das casas de patrões e patroas. Não aceitaremos que a exploração e a violência sigam sendo naturalizadas contra aquelas que sustentam, com seu trabalho, milhares de lares brasileiros.

Exigimos rigorosa apuração dos fatos, punição exemplar da agressora dentro dos parâmetros da lei e justiça para a trabalhadora violentada, para que crimes como este jamais se repitam.

Respeito às trabalhadoras domésticas já!

Sindicato Estadual dos Empregados Domésticos do Estado da Paraíba ( sindicatodomesticaspb )

João Pessoa, 07 de maio de 2026

Mobilização das trabalhadoras domésticas na Paraíba

O Sindicato Estadual dos Empregados Domésticos da Paraíba relacionou o caso do Maranhão à realidade vivida diariamente por trabalhadoras domésticas em diversas regiões do país. Recentemente, no dia 27/04, a entidade realizou uma mobilização em João Pessoa em referência ao Dia Nacional da Trabalhadora Doméstica. A ação ocorreu nas primeiras horas da manhã, em frente à Companhia Brasileira de Trens Urbanos (CBTU), com distribuição de panfletos em ônibus e trens utilizados pela classe trabalhadora. A atividade teve como objetivo conscientizar as trabalhadoras sobre direitos trabalhistas e denunciar situações de exploração e informalidade enfrentadas pela categoria.

De acordo com a entidade, muitas trabalhadoras domésticas ainda desconhecem direitos garantidos por lei, como carteira assinada, férias remuneradas, décimo terceiro salário, recolhimento do Fundo de Garantia do Tempo de Serviço – Fgts – e jornada regulamentada.

Trabalho doméstico no Brasil

Dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (Pnad Contínua), do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), indicam que o Brasil possui mais de cinco milhões de trabalhadores domésticos. A maior parte da categoria é formada por mulheres negras em situação de vulnerabilidade econômica.

Especialistas e organizações ligadas aos direitos humanos apontam que o trabalho doméstico no país carrega marcas históricas relacionadas à escravidão, ao racismo estrutural e à desigualdade social. Entidades sindicais e movimentos feministas defendem maior fiscalização das relações de trabalho doméstico e políticas públicas voltadas à proteção das trabalhadoras.

Além da informalidade, denúncias envolvendo assédio moral, violência psicológica, cárcere privado e agressões físicas têm sido registradas em diferentes estados brasileiros. Casos semelhantes ao ocorrido no Maranhão costumam provocar debates sobre racismo estrutural, violência de gênero e relações de poder dentro do ambiente doméstico.

O Sindicato das Trabalhadoras Domésticas da Paraíba afirmou, na nota, que continuará acompanhando o caso e cobrando responsabilização dentro dos parâmetros legais.

Editado por: Cida Alves

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