Sociobiodiversidade no prato, territórios tradicionais conservados e protegidos: O clima agradece

Produtos comercializados pela Central do Cerrado, utilizados nas refeições servidas no restaurante da sociobio na COP30

Sociobiodiversidade no prato, territórios tradicionais conservados e protegidos: O clima agradece
Sociobiodiversidade no prato, territórios tradicionais conservados e protegidos: O clima agradece

Por silvana Bastos - Portal Bdf - 05/01/2026 06:53:11 | Foto: Joaquim Cantanhêde

Riqueza de produtos, saberes e sabores é desconhecida por grande parte dos brasileiros.

Você já parou para pensar o quanto os eventos climáticos extremos afetarão a sua segurança alimentar e nutricional?

Ainda pouco falado, o aumento da insegurança alimentar no mundo como efeito do aquecimento global é um importante tema e requer ações imediatas para prevenir o caos nos sistemas alimentares, que mais uma vez vai afetar primeiro e mais intensamente as populações vulnerabilizadas. Cientistas do IPCC (Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas) alertam sobre os riscos crescentes de escassez de alimentos gerados pelas quebras de safra devido a secas, inundações, estresse térmico em plantas e animais, aumento de pragas e doenças, além da perda de qualidade nutricional.

Esses impactos ganham mais potência ao encontrar o sistema alimentar mundial baseado na produção de poucas espécies em escala industrial – segundo estudo da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO), apenas nove espécies de plantas cultivadas respondem por 66% da produção agrícola total e por mais de 90% das calorias consumidas.

Você pode estar se perguntando: essa monotonia alimentar é necessária? A resposta é não! Os agricultores tradicionais conhecem e cultivam mais de 6 mil espécies alimentares, que estão presentes nos sistemas agroecológicos de produção e também na biodiversidade manejada nos territórios conservados por essas populações.

Mas, por que essa diversidade não está em nosso prato todos os dias?

Quando analisamos o Brasil, esse quebra-cabeças ganha peças difíceis de encaixar. Nosso país é o quarto maior produtor mundial de alimentos, gerando importantes divisas para a economia. A agricultura, por ser uma atividade dependente de um regime climático equilibrado e de outros fatores naturais de produção, a sustentabilidade ambiental deveria ser prioridade e compreendida como condição essencial pelos agricultores e pelas políticas agrícolas.

No entanto, os estudos demonstram o contrário: a produção agropecuária, o desmatamento e os incêndios florestais respondem por 70% das emissões brasileiras de gases causadores do aquecimento global, retroalimentando os riscos de sustentabilidade da agricultura, ou seja, ao mesmo tempo que afeta, a agricultura brasileira é afetada pelas mudanças do clima.

A boa notícia é que um outro caminho é possível, ladrilhado por sistemas alimentares biodiversos, inclusivos e sustentáveis, embora as políticas públicas ainda estão distantes de apontar para essa direção. Basta analisar a aplicação dos recursos do Plano Safra, principal política de crédito para a produção de alimentos do país, destina menos de 1% dos recursos disponíveis para as cadeias de valor e economias da sociobiodiversidade.

Como esse caminho é possível

O Brasil é campeão em diversidade de espécies vegetais e animais do mundo e também é a terra de diversos povos originários e comunidades tradicionais. Diversidade, conhecimento tradicional e modos de vida sustentáveis juntos resultam na imensa sociobiodiversidade brasileira.

Essa riqueza presente na diversidade de produtos, saberes, sabores e na alta qualidade nutricional é desconhecida por grande parte dos brasileiros, é pouco presente no mercado, ou ainda, possui preços inacessíveis. Tudo isso são barreiras transponíveis e a potência do Brasil nos convida a debater e a exigir o direito à alimentação adequada proveniente de um novo sistema alimentar que valoriza e viabiliza a chegada dos alimentos da sociobiodiversidade em nossa mesa.

Aos poucos alguns desses produtos vem ganhando seu lugar à mesa, como a castanha do Brasil e o açaí, mas ainda temos um universo alimentar a descobrir e inserir em nossas refeições alimentos como pequi, bacaba, mangaba, cagaita, murici, bacuri, uxi, uvaia, pinhão, babaçu, baru, jatobá, umbu… ter pães fabricados com farinhas jatobá, macaúba, baru, babaçu, licuri … tudo produzido em sistemas agrícolas agroecológicos e extrativistas, produtores também de conservação da biodiversidade, das águas e de outros serviços da natureza.

As economias da sociobiodiversidade oferecem ao mundo respostas, produtos e serviços para a transformação dos sistemas alimentares, com mais biodiversidade e qualidade nutricional no prato, mais resistentes aos riscos climáticos e maior capacidade adaptativa aos impactos do clima na produção de alimentos, descritos acima. Além disso, a sociobioeconomia reconhece a importância dos modos de vida sustentáveis de povos indígenas, povos e comunidades tradicionais na luta em defesa de direitos e proteção dos seus territórios, na inclusão socioprodutiva de famílias vulnerabilizadas, no reconhecimento do protagonismo das mulheres nas cadeias de valor e no engajamento das juventudes junto aos seus territórios.

Como uma chama de esperança, a experiência do restaurante da Sociobiodiversidade na Conferência do Clima em Belém comprova que esse caminho é possível. Estruturado na Zona Azul, área oficial da conferência, o restaurante da Central do Cerrado em consórcio com a Rede Bragantina de Agroecologia, forneceu quatro mil refeições diárias, durante os 13 dias da COP30 a um preço de R$ 40, incluindo um copo de suco de frutas nativas e uma sobremesa.

 Luis Carrazza (ao centro, de laranja) secretário executivo da Central do Cerrado durante o funcionamento do Restaurante da Sociobiodiversidade na COP30.

Luis Carrazza (ao centro, de laranja) secretário executivo da Central do Cerrado durante o funcionamento do Restaurante da Sociobiodiversidade na COP30 | Crédito: Joaquim Cantanhêde

Refeições elaboradas com alimentos produzidos de forma agroecológica ou provenientes do extrativismo sustentável dos biomas brasileiros, adquiridos de mais de 80 associações e cooperativas comunitárias de todo o país. No prato, arroz e feijão, hortaliças, frutas dos biomas, carnes e peixes de manejo tradicional, doces artesanais, farinhas, molhos, pimentas. A sociobiodiversidade na prática, nutrindo quem discutia justamente soluções para a superação da crise climática e o futuro do planeta.

Essa experiência deixou um legado: demonstrou, na prática, que o Brasil pode e deve ser referência mundial em sistemas alimentares mais sustentáveis e ricos em sociobiodiversidade.

O Instituto Sociedade, População e Natureza se orgulha em fazer parte dessa história: apoia o processo de fortalecimento organizacional da Central do Cerrado, desde a sua fundação, e de centenas de organizações agroextrativistas que diariamente trabalham na esperança de serem reconhecidas pela sociedade e pelo Estado brasileiro como agentes de transformação e soluções climáticas, fundamentais, para a revolução necessária do sistema alimentar mundial.

*Silvana Bastos é coordenadora do Programa Sociobiodiversidade do Instituto Sociedade, População e Natureza (ISPN) .

** Este é um artigo de opinião. A visão da autora não necessariamente expressa a linha editorial do Brasil de Fato DF.

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Editado por: Clivia Mesquita

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