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Trabalho nos ares. Viagem em tempos de pandemia

Trabalho nos ares. Viagem em tempos de pandemiaFoto: CorreioWeb

Piloto de um Airbus A330, Rogério Albernaz fazia, antes da crise sanitária, quatro voos por mês, para Portugal e EUA

Mariana Machado E Thaís Umbelino - Correioweb - 08/08/2020 - 10:31:23

Apesar da diminuição drástica do movimento em aeroportos, desde a chegada da covid-19, no Brasil, há quem precise encarar terminais e voos, mesmo se expondo ao risco de contrair o novo coronavírus. Especialistas alertam: pegar o avião, só em caso de necessidade

Ao embarcar, Millena viu-se surpresa ao perceber o avião com todos os assentos ocupados. “Eu esperava um voo vazio, mas a aeronave era pequena. Não tinha nenhuma cadeira vaga”, ressalta. A fila para o embarque chamou a atenção. “As pessoas não respeitavam o distanciamento. Inclusive, na hora de descer do avião, os funcionários da companhia pediam para o desembarque ser em filas, mas ninguém respeitava, e os corredores ficaram lotados”, denuncia a jovem.

Amanda Corcino viajou ao lado de uma pessoa que não queria usar máscara (Arquivo Pessoal)
Amanda Corcino viajou ao lado de uma pessoa que não queria usar máscara

Amanda Corcino, 24, sofreu com a falta de conscientização de outros passageiros em uma viagem que fez. “A pessoa que estava ao meu lado não queria usar máscara, e o comissário teve que ficar pedindo para ele colocar o tempo inteiro, mas era só o funcionário sair que o rapaz tirava a proteção”, reclama a analista de marketing. Apesar disso, o voo para visitar a família no Rio de Janeiro valeu a pena. “Meu avô paterno faleceu em maio, durante a pandemia. Infelizmente, não consegui ir ao enterro dele, mas, como ele havia sido cremado, houve uma cerimônia para jogar as cinzas no mar”, conta Amanda.

Especialistas reforçam a importância contínua do uso de máscara e álcool em gel durante todo o percurso da viagem. “O grande problema talvez nem seja dentro do avião, mas, sim, o deslocamento. A partir do momento que a pessoa não tem controle do ambiente e está em um local onde há muitas outras ao redor, fica-se mais exposta”, alerta a infectologista do Hospital Águas Claras, Ana Helena Germoglio. “Talvez, a pessoa só devesse viajar em caso de extrema necessidade e não ficar arrumando motivos ou desculpas. A recomendação é ficar em casa”, insiste a médica.

Queda e recuperação

Os primeiros registros de brasileiros infectados pelo novo coronavírus foram daqueles recém-chegados de viagens internacionais. Aeroportos e companhias aéreas foram os primeiros a adotar medidas de segurança e protocolos de higienização, como forma de prevenção da doença. Com o agravamento da pandemia no país, uma das consequências mostrou-se na redução drástica do número de voos. Segundo levantamento da Confederação Nacional dos Transportes (CNT), a queda no transporte de passageiros no setor aéreo, em abril, chegou a 95%. O presidente da entidade, Vander Francisco Costa, explica que, passados quatro meses, percebe-se os primeiros sinais de recuperação. Em Brasília, o aeroporto, que chegou a ter queda no movimento de passageiros de mais de 50%, prevê aumento gradativo no fluxo de pessoas.

A Associação Brasileira das Empresas Aéreas (Abear) também contabiliza o recuo do setor. De acordo com o presidente, Eduardo Sanovicz, em abril, a redução do volume de passageiros nos terminais chegou a 92%. “Neste cenário, operamos com 8% da malha. Hoje, em agosto, estamos chegando a 27% e temos a previsão de dobrar até o fim do ano, chegando em 60%, próximo ao Natal”, avalia. “Para isso, é necessário que melhore o cenário de combate à crise, considerando variáveis importantes: que o país tenha uma política efetiva, que a gente tenha um mínimo de estabilidade quanto às atividades econômicas e que haja o mínimo de segurança”, pondera. “Também, é preciso considerar o câmbio, uma vez que a aviação brasileira tem 51% do custo dolarizado”, acrescenta Eduardo.

A entidade preparou, aos primeiros sinais da chegada do vírus, um painel de ações adotadas para enfrentar a situação, incluindo revisão de contratos e custos e diálogos com os governos estaduais e federal. Além disso, a Abear lançou um guia de orientações para que os passageiros viajem com segurança (Veja Cuidados).

No aeroporto Internacional de Brasília Juscelino Kubitscheck, a chegada da pandemia trouxe a menor movimentação de passageiros já registrada em 25 anos (Veja gráfico). Mas, a previsão é de que, a partir de julho, o terminal experimente uma recuperação. “A retomada vai continuar gradual e, na melhor das hipóteses, ela começa a se estabilizar no ano que vem. O mais provável é que, para alcançar níveis pré-pandemia, a gente deve levar, talvez, até 2024”, acredita Rogério Coimbra, diretor de Assuntos Corporativos da Inframerica, concessionária que administra o aeroporto.

Cuidados

Orientações para fazer uma viagem segura

ANTES

» O check-in pode ser feito no site ou aplicativo de celular da respectiva companhia aérea. Caso precise ser presencial, é necessário respeitar o distanciamento de 2 metros das outras pessoas enquanto aguarda na fila. Adesivos no chão sinalizam onde esperar.

» No momento do embarque, passageiros devem formar fila apenas quando o grupo ao qual pertence (indicado no bilhete) for chamado, mantendo distância segura dos demais.

» É permitida entrada com álcool em gel de até 500ml. As companhias aéreas disponibilizam recipientes de álcool em gel dentro das aeronaves. O álcool líquido é proibido.

DURANTE

» O uso de máscara é obrigatório ao longo de todo voo, lembrando que ela deve cobrir completamente nariz e boca.

» Serviço de bordo: água é servida sob demanda e, dependendo da companhia, os lanches podem ser entregues ao final da viagem. Em trajetos mais longos, podem ser oferecidas comida em embalagem individual, fechada e previamente higienizada.

» Assim como o avião, banheiros são higienizados a cada fim de viagem, mas é importante que, antes e depois do uso, o passageiro limpe as mãos com água e sabão ou álcool em gel.

DEPOIS

» O desembarque é feito por fileiras, e não há necessidade de o passageiro ficar em pé. Deve-se aguardar sentado até que o comissário o chame.

» Para a retirada das bagagens, os usuários devem respeitar o distanciamento social. O indicado é que após a remoção da esteira o objeto seja higienizado.

(Fonte: Abear)

Trabalho nos ares

Piloto de um Airbus A330, Rogério Albernaz fazia, antes da crise sanitária, quatro voos por mês, para Portugal e EUA (Arquivo Pessoal)
Piloto de um Airbus A330, Rogério Albernaz fazia, antes da crise sanitária, quatro voos por mês, para Portugal e EUA

Se fazer tarefas do dia a dia usando máscara não é tarefa simples, imagine pilotar um avião. Essa tornou-se a realidade das equipes de bordo, como uma das adoções para segurança. Mas, a maior mudança é a redução das decolagens. Rogério Albernaz, 49, comanda o Airbus A330 da Azul, o maior avião da companhia. Antes da pandemia, fazia cerca de quatro voos por mês, com destino aos aeroportos de Porto e Lisboa, em Portugal; e Orlando e Fort Lauderdale (Miami), nos Estados Unidos. “Essas duas fronteiras estão fechadas, então o avião que eu voo não está podendo ir para o exterior. Por outro lado, a demanda de carga, com o problema da pandemia aumentou, e a empresa colocou esta aeronave para ir a Manaus e Recife, como cargueiro, saindo de Campinas (SP)”, explica.

O comandante Celso ajudou a trazer milhões de máscaras para o Brasil (Latam/Divulgação)
O comandante Celso ajudou a trazer milhões de máscaras para o Brasil

Dessa forma, o piloto paulista de nascimento, mas brasiliense de coração, tem conseguido passar mais tempo com a família no apartamento onde mora, no Sudoeste. Ele se diz otimista com o futuro. “Não tive medo (do vírus) quando vi os primeiros casos. Eu me cuido, uso bastante álcool (em gel), máscara e tento manter distância”, afrima. “Nas vezes que voei durante a pandemia, foi tranquilo. É uma guerra que estamos enfrentando e é muito difícil ficar completamente isolado em casa. Muitos falam em novo normal, mas não acredito nisso. Claro, é um grande aprendizado.”

Para o Celso Giannini, piloto chefe da Latam, o apoio da família tem sido de grande ajuda no período. “É preciso tranquilizá-los de que, ao retomar de uma programação de voo, todos os cuidados foram tomados durante a ausência e exposição ao risco. Existe uma apreensão adicional em todos, mas a compreensão e parceria quando chego em casa me motivam a continuar voando em tempos difíceis”, analisa.

Comandante do Boeing 777, uma das rotas feitas por Celso inclui a China. Entre maio e julho, o piloto participou de três operações para trazer ao Brasil cargas de milhões de máscaras protetoras. “Em média, trazíamos 70 toneladas de carga dentro das cabines, com somente 20 pessoas realizando o carregamento das caixas. Às vezes, em 50 minutos, todo o trabalho tinha sido feito. Isso colaborou para realizarmos os voos de forma pontual”, declara o piloto, que destaca o papel da aviação para transporte de insumos e profissionais da saúde.

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