Trump transforma soberania brasileira em prática comercial desleal

O jornal também afirma que a família Bolsonaro atua no cenário como aliada de Trump, quadro que o editorial chama de preocupante

Trump transforma soberania brasileira em prática comercial desleal
Trump transforma soberania brasileira em prática comercial desleal

Ana Gabriela Oliveira Lima-são Paulo, Sp (folhapress) - 17/07/2026 12:02:05 | Foto: Ricardo Stuckert / PR

O jornal britânico The Guardian afirmou em editorial desta terça-feira (14) que o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, transforma atos de soberania brasileira em "prática comercial desleal".

A publicação cita o sistema de pagamento via Pix e a responsabilização de plataformas digitais por conteúdos antidemocráticos e discriminatórios como ações de soberania do governo Lula (PT), mas diz que as medidas são vistas pelo presidente dos Estados Unidos como atos contrários a seus interesses e, por isso, são classificadas como desleais.

O jornal também afirma que a família Bolsonaro atua no cenário como aliada de Trump, quadro que o editorial chama de preocupante.

"O Brasil construiu um sistema público de pagamentos e reivindicou jurisdição sobre plataformas tecnológicas americanas. Trump reinterpretou essa soberania brasileira como discriminação comercial injusta. É tão previsível quanto preocupante que o bolsonarismo esteja disposto a compactuar com isso", afirmou a publicação no editorial.

O texto faz menção à decisão de junho de 2025 do STF (Supremo Tribunal Federal) de responsabilizar plataformas digitais por publicações de usuários relacionadas a discursos de ódio e conteúdo antidemocrático.

A decisão da corte é mencionada como resposta "às mentiras online que ajudaram a alimentar a tentativa fracassada de golpe de extrema direita de Jair Bolsonaro em 2023". O ex-presidente está em prisão domiciliar
A publicação aponta que a medida da corte, com impacto em empresas como o X (ex-Twitter), do empresário Elon Musk, esteve atrelada ao tarifaço dos Estados Unidos sobre importações brasileiras, "reclamando que os juízes haviam obrigado empresas de tecnologia americanas a remover material 'político'".

Nesta quarta-feira (15), o país anunciou uma nova leva de tarifas a produtos brasileiros, alegando práticas comerciais injustas que passam por motivos de atrito antigos, como as tarifas brasileiras sobre a importação de etanol, até queixas com o Pix.

A nova medida se deu depois que o senador e presidenciável Flávio Bolsonaro (PL-RJ) foi aos Estados Unidos, há cerca de uma semana, defender, nas palavras do jornal, que práticas consideradas desleais do Brasil eram "culpa do presidente Luiz Inácio Lula da Silva".

O editorial do The Guardian menciona que Flávio pediu a suspensão das tarifas até as eleições, sob o argumento de que assumiria o poder em breve.

"Com a decisão da Casa Branca [de aplicar tarifas] prevista para quarta-feira, foi um ato de audácia extraordinário [de Flávio]. Ele não estava apenas fazendo lobby contra as tarifas. Estava se apresentando para ser o presidente brasileiro preferido de Trump. [Flávio] Bolsonaro é menos carismático que seu pai, mas compartilha o mesmo anti-esquerdismo simplista, as políticas punitivas de lei e ordem e as guerras culturais da extrema direita", afirmou a publicação.

Lula é citado no texto como um dos políticos "mais bem-sucedidos deste século" e candidato à frente nas pesquisas eleitorais. O jornal também lembrou a trajetória dele como líder sindical e suas ações de redistribuição de renda, apontando que elas reduziram a pobreza extrema no Brasil.

A proposta do petista de responsabilização das plataformas é citada pelo jornal como tentativa de "combater a desinformação antidemocrática", na contramão do que quer Trump, que, segundo a publicação, "rejeita a proposta de Lula pela soberania brasileira" e "acredita que os EUA deveriam ter jurisdição sobre a esfera informacional do país".

O jornal também destacou a oposição do governo americano de que o Brasil tenha autonomia sobre seu sistema financeiro e infraestrutura de pagamentos, em referência ao Pix.

"Outra questão de soberania diz respeito a quem controla o sistema financeiro brasileiro e se uma infraestrutura de pagamentos pública bem-sucedida, fora do controle americano, pode existir na América Latina", aponta o jornal The Guardian.

O Pix é citado pela publicação como "fácil de usar", "popular" e garantidor de uma infraestrutura digital que reduz a dependência de redes controladas por estrangeiros, ameaçando os lucros dos cartões Visa e Mastercard.

O jornal termina sinalizando que pagamentos também são dados e podem se tornar "ferramentas de vigilância e pressão", e que infraestruturas de pagamento nacionais podem se tornar infraestruturas de desenvolvimento soberano de IA. "A verdadeira ofensa não é o protecionismo, mas a autonomia", disse a publicação sobre as ações do governo petista.

Indicado a novo embaixador dos EUA diz que eleições no Brasil serão 'livres e justas'

ISABELLA MENON-WASHINGTON, EUA (FOLHAPRESS) - O indicado do presidente Donald Trump para ser o novo embaixador no Brasil, Daniel Peréz, foi sabatinado em uma audiência no Senado dos EUA nesta quinta-feira (16).

Pérez, que é deputado estadual da Flórida, falou sobre interesses econômicos em comum com os Estados Unidos, como os minerais críticos, citou presença de organizações criminosas transnacionais "que ameaçam a comunidades americanas" e, em entrevista a jornalistas, afirmou acreditar que o Brasil terá eleições "livres e justas".

Cumprida a audiência, Peréz ainda precisa ser aprovado em votação do comitê de Relações Exteriores e, na sequência, em plenário. Como o Congresso entra em recesso a partir de agosto, ele poderia ser aprovado nas próximas duas semanas ou a partir de setembro.

Durante a sessão, ele foi questionado pelo senador democrata Tim Kaine sobre as novas tarifas de 25% aplicadas pelos EUA ao Brasil. Pérez afirmou que, como a medida foi divulgada na noite da quarta-feira (15), ele ainda não conseguiu se inteirar sobre o assunto.

Kaine retrucou que os Estados Unidos possuem um superávit com o Brasil e, se o governo Lula decidir retaliar, os produtos americanos podem sofrer ainda mais. Depois, em entrevista a jornalistas, Pérez disse que o superávit do Brasil com os EUA é um fato, mas reiterou que ainda precisa entender melhor as novas sobretaxas.

O republicano destacou que o Brasil possui vastas reservas de minerais críticos, "essenciais para os interesses econômicos e segurança nacional dos EUA" e que o país enfrenta desafios de segurança.

Segundo ele, há "organizações criminosas transnacionais que ameaçam comunidades americanas até a crescente presença de potências externas que disputam influência na região", e a "forma como os Estados Unidos atuam em relação ao Brasil é fundamental para esse esforço [de combate ao crime] na América Latina".

Pérez não citou explicitamente as facções a que se referia. Em maio, os EUA decidiram classificar o CV (Comando Vermelho) e o PCC (Primeiro Comando da Capital) como organizações terroristas.

Além da interrupção de "atividades de organizações envolvidas no tráfico e no crime transnacional", Pérez disse que as principais prioridades de sua atuação serão a proteção dos cidadãos americanos no Brasil e a promoção de interesses nacionais em comércio e investimentos.

Motivo de atrito com os EUA há anos, o etanol também foi um dos tópicos questionados na audiência –o produto foi uma reclamação do USTR (Escritório do Representante do Comércio dos EUA), que considera as tarifas de 18% aplicadas pelo Brasil muito altas.

Pérez foi questionado sobre o assunto pelo senador republicano Pete Ricketts, que celebrou o novo tarifaço contra o Brasil -ele disse ser um mecanismo para manter a "concorrência justa em todo o mundo".

Pérez respondeu que não é especialista no tema, mas que "existe um desequilíbrio e não se limita ao etanol". "Acho que há um desequilíbrio também nos setores de energia e infraestrutura quando se trata da relação entre Brasil e Estados Unidos", disse.

Para o indicado de Trump, parte desse problema está ligado "com presença e proximidade".

"Se eu for confirmado e puder ir ao Brasil, estar presente no país, acredito que a relação entre o setor privado -e não apenas entre os governos- pode ser fortalecida. O setor privado dos Estados Unidos, o governo brasileiro, o setor privado brasileiro e os cidadãos brasileiros podem aprofundar esses laços", disse ele.

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