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Um roteiro em meio ao sol e aos vinhedos da Toscana, na Itália

Um roteiro em meio ao sol e aos vinhedos da Toscana, na ItáliaFoto: Estadão

Poucas regiões da Europa são capazes de oferecer uma combinação tão afinada de geografia e clima aprazíveis, patrimônio artístico a perder de vista e gastronomia inigualável - incluindo ótimos vinhos

Estadão Conteúdo - 03/11/2019 - 23:33:50

O arquiteto Oscar Niemeyer costumava dizer que, para ser boa, a arquitetura deveria provocar surpresa. A frase veio instantaneamente à minha cabeça assim que chegamos ao estacionamento da Vinícola Antinori (Via Cassia per Siena, 133, situada no vilarejo de Bargino, a cerca de 30 quilômetros de Florença). Afinal, me deparar com um pátio de estacionamento subterrâneo, frio e soturno, tendo como uma única entrada de luz o vão de uma grande escada helicoidal ao centro, não era exatamente o que eu poderia esperar de uma das vinícolas mais conceituadas de toda Itália.

Mas bastou que a portas do elevador de acesso ao primeiro plano se abrissem – é possível subir pela escada também – para que o impressionante edifício subitamente se revelasse. De fato, visto ao longe, de sua pequena estrada de acesso, é difícil ter noção do tamanho e da complexidade da construção. Uma ampla marquise de concreto, que tem seu traçado curvo reproduzido também no piso, foi nosso primeiro ponto de parada. Lá, enquanto avistávamos os vinhedos logo à frente e as instalações administrativas da vinícola ao fundo, ficamos conhecendo melhor o projeto e seu objetivo primordial que era de se diluir na paisagem toscana, tornando-se invisível.

Projetado em 2005 pelo arquiteto florentino Marco Casamonti, do escritório Archea Associati Studio, o edifício só foi concluído em 2012, após seis anos de obras, e foi construído quase que totalmente debaixo da terra, a um custo estimado de mais de 80 milhões de euros. “A ideia foi acompanhar o traçado das colinas, não se impor a elas. Por outro lado, isso não deixa de ser funcional, uma vez que o vinho pode ser produzido e conservado em caves subterrâneas, usando refrigeração natural”, conta a arquiteta Lara Tonnicchi, do Archea Associati, que nos acompanhou na visita. “A própria coloração terracota da obra ajudou na tarefa de disfarçar a obra. Além do ferro oxidado, parte da terra retirada para a implantação do edifício foi usada como matéria-prima na confecção do concreto da construção”, revela ela.

Na sequência, ao adentrarmos a sede administrativa, teve início nossa visita à vinícola propriamente dita, com um giro pelo depósito das barricas de carvalho, com seu teto em formato de arco e suas paredes cobertas de tijolos de terracota, encaixados, um a um, em uma estrutura de ferro. Como ele se encontra 18 metros abaixo do nível do solo, a temperatura é naturalmente baixa, dispensando refrigeração artificial. Em seguida, conhecemos o setor dos tanques metálicos de fermentação e, de lá, antes de dar início à degustação de alguns dos principais vinhos da casa, partimos para uma pequena visita ao museu e à biblioteca da Antinori.

Logo na entrada, uma tela com a árvore genealógica da família, do século 16 e pintada a óleo, atesta que a família Antinori está instalada na região há mais de 600 anos. Giovanni di Piero, o primeiro deles, em 1385 já se ocupava de transformar uva em vinho. De lá para cá, se sucederam 26 gerações. “A última delas, com Piero Antinori à frente, foi responsável pela construção das atuais instalações”, explicou Lara, enquanto nos mostrava outra raridade: uma prensa de vinho usada no século 19, desenhada na escola de Leonardo da Vinci, e recuperada pelos Antinori. Ao lado dela, em meio a obras de arte de várias épocas, um rico acervo de livros e documentos atestava a vocação vinícola do clã ao longo dos séculos.

Supertoscanos

As estrelas da vinícola são os supertoscanos, vinhos tintos do Chianti Classico que não respeitam as regras de elaboração dos vinhos da região. Quem começou a produção dessas bebidas foi o visionário marquês Piero Antinori. O primeiro rótulo era uma mistura da uva símbolo da Toscana, a sangiovese, com cepas francesas (proibidas na região) como a cabernet sauvignon e cabernet franc. Mesmo com a qualidade superior, ele perdeu o direito à classificação Chianti Classico e seu produto foi rebaixado à categoria de vino da tavola (vinho de mesa). Por outro lado, em pouco tempo seu vinho foi reconhecido em todo mundo como uma bebida excepcional. Nascia assim o primeiro supertoscano, o Tignanello.

Provando os supertoscanos

Uma vez dentro da Antinori, era impossível não aproveitar a oportunidade de conhecer os famosos e desejados vinhos produzidos por lá. A vinícola oferece vários tipos de degustação (que podem ser agendadas pelo site antinori.it ) de acordo com a quantidade e qualidade dos rótulos servidos.

A modalidade indicada para iniciantes inclui três vinhos e custa 32 euros por pessoa; para experts, há uma modalidade com sete grandes vinhos, 2h30 de degustação e número de participantes restrito a 10 pessoas (160 euros).

No nosso caso, escolhemos a opção para iniciantes, que inclui dois supertoscanos: o Tignanello, claro, justamente o rótulo que mais me agradou, e o Solaia. Um legítimo chianti, o Marchese Antinori Chianti Classico Riserva 2011, também fez parte da seleção.

De volta à marquise, e com o sol já a pino, pegamos a escada e seguimos rumo à cobertura para, na última etapa de nossa visita, conhecer as instalações onde as uvas são recepcionadas e os cachos macerados.

Com o avançar das horas, porém, o restaurante da vinícola, o Rinuccio 1180 , logo ao lado e com diversas mesas ao ar livre posicionadas de frente para os vinhedos, já havia se transformado no foco principal de toda nossa atenção.

Uma vez instalados, para bem acompanhar um Villa Antinori branco, um corte de trebbiano com chardonnay (5 euros, a taça), refrescante na medida, resolvemos abrir mão de clássicos da culinária local, como a famosa Bisteca à Fiorentina com feijão e espinafre (18 euros).

Optamos por um menu mais leve, construído com base em queijo pecorino e vegetais. De entrada, salada de pera e nozes. Como prato principal, ravióli alho e óleo, acompanhado de purê de abóbora amarela (respectivamente, 10 e 12 euros). Uma escolha, diga-se de passagem, que não poderia ter sido mais bem sucedida para encerrarmos nosso dia sob o sol da Toscana.

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