USP firma acordo com escola coreana referência que formou diretor de 'Parasita'

Morre porco clonado em projeto da USP para transplante de órgãos em humanos

USP firma acordo com escola coreana referência que formou diretor de 'Parasita'
USP firma acordo com escola coreana referência que formou diretor de 'Parasita'

Eduardo Moura-são Paulo, Sp (folhapress) - 10/08/2026 09:07:37 | Foto: Reprodução Instagram

Dos K-dramas aos filmes aclamados pela crítica, o sucesso mundial do audiovisual coreano é reconhecido internacionalmente. Quando o assunto é indústria cinematográfica, a Coreia do Sul é, para muitos, uma bússola.

"O modelo sul-coreano costuma ser usado como um indicador de sucesso, como uma política a ser seguida", afirma a pesquisadora Marina Rossato, da Universidade de Liège, na Bélgica.

No cinema, um marco importante foi "Parasita", de Bong Joon-ho, o primeiro filme não falado em inglês a ganhar o Oscar de melhor filme, em 2020.

A Academia Coreana de Artes Cinematográficas -ou Kafa, na sigla em inglês- escola que formou Joon-ho e muitos outros cineastas de renome na Coreia do Sul acaba de firmar um acordo com a Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo que prevê projetos de intercâmbio, pesquisa e formação de jovens cineastas. A assinatura do acordo coincidiu com a visita ao Brasil do presidente sul-coreano, Lee Jae Myung.

A parceria foi anunciada durante a abertura da 15ª Mostra de Cinema Coreano no Brasil, realizada no Centro Cultural São Paulo, o CCSP, que neste ano dedica sua programação à Kafa.

A mostra, organizada pelo Centro Cultural Coreano no Brasil, exibe gratuitamente até 14 de agosto longas e curtas produzidos por alunos e ex-alunos da escola.

A escola surgiu num momento de abertura do país. No final dos anos 1980, a Coreia do Sul se preparava para se despedir de uma ditadura e de uma censura ferrenha.

Naquela altura, a política cultural do país seguia uma linha dura. Havia um número mínimo de filmes que uma produtora deveria lançar por ano para poder continuar funcionando. Já para poder atuar como diretor, o cineasta precisava trabalhar por anos como assistente de um diretor sênior. Só depois tinha a chance de estrear seu próprio filme.

"A Kafa quebrou isso. Jovens talentos entravam, aprendiam na prática e, se fizessem um bom curta-metragem, podiam estrear direto em um longa, sem passar por anos como assistente. Isso atraiu mentes jovens e brilhantes das melhores universidades, que viam o cinema como um espaço de liberdade de expressão", diz Joh Keun-shik, diretor-executivo da Kafa.

Os novos talentos, por sua vez, começaram a atrair investimento para a indústria do cinema.

"Nos anos 1980, filmes com mensagens políticas contrárias ao governo eram totalmente proibidos, e era quase impossível retratar os lados sombrios da sociedade. Os cineastas lutaram continuamente pela liberdade de expressão. Conforme o regime militar acabou e entramos na transição democrática, isso mudou", diz o diretor.

Ainda que alguns não concordem com a direção para a qual a bússola coreana aponte, não há como negar que a Coreia do Sul escolheu um objetivo e chegou lá.

Para a pesquisadora Marina Rossato, a estratégia adotada pelo país asiático teve como prioridade o desenvolvimento comercial da indústria. O modelo ajudou a consolidar um mercado doméstico forte e a projetar no exterior o cinema sul-coreano, mas também produziu um ambiente altamente concentrado.

O modelo, muito calcado na iniciativa privada e num ambiente econômico de alta concentração, acaba privilegiando obras com potencial comercial -o que não é um cenário ideal para o cinema independente
"O conteúdo é muito concentrado entre produções de Hollywood e blockbusters locais", diz Rossato. Na avaliação da pesquisadora, o sistema oferece pouco espaço para filmes independentes e para a diversidade de obras, uma consequência do peso dos grandes conglomerados privados que dominam a produção e a distribuição.

Com a pandemia e o avanço do streaming, "os investidores, que são geralmente privados, parassem de investir em novas produções e até segurassem filmes e não os liberassem para a distribuição, com medo de não ter a renda prevista. Isso causou uma grande crise em que o apoio à produção independente foi reduzido ainda mais", diz Rossato.

O desafio brasileiro é definir qual política audiovisual pretende construir. "Eu não vejo uma discussão sobre os objetivos da política audiovisual no Brasil. Mais do que copiar a Coreia do Sul, "precisamos discutir que cinema queremos desenvolver, qual o papel da diversidade cultural e como transformar o audiovisual em uma política de Estado", afirma.

15ª MOSTRA DE CINEMA COREANO
- Quando Até sexta-feira, dia 14
- Onde CCSP - r. Vergueiro, 1.000, Liberdade, Centro
- Preço Grátis, ingressos distribuídos uma hora antes de cada sessão
- Link: https://www.instagram.com/kccbrazil/

Cartas de ministros do STF não buscavam pressionar, diz professor após concurso anulado na USP

BRUNO LUCCA-SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - A defesa de Rafael Campos Soares da Fonseca, cujo concurso para professor da USP foi anulado após a apresentação de cartas assinadas por ministros do STF (Supremo Tribunal Federal), integrantes do STJ (Superior Tribunal de Justiça) e outras autoridades, diz que recorrerá da decisão.

Um pedido de reconsideração deve ser levado à Congregação da Faculdade de Direito, responsável pela decisão, e também há possibilidade de recurso ao Conselho Universitário, órgão máximo da instituição.

Em manifestação enviada neste sábado (8) à Folha, os advogados afirmam que a anulação, decidida na última quinta-feira (6), não encerra a discussão na esfera administrativa e justificam as cartas como "espontâneas".

Fonseca é filho do ministro do STJ Reynaldo Soares da Fonseca.

As cartas apresentadas por Fonseca são o principal ponto de controvérsia em torno do processo seletivo. Segundo a defesa, "os documentos não tinham como objetivo pressionar ou influenciar os integrantes da banca, mas atestar a trajetória profissional e acadêmica do candidato".

O edital não previa a apresentação de textos de recomendação. Os advogados dizem que elas foram enviadas espontaneamente.

No concurso -para professor doutor do Departamento de Direito Econômico, Financeiro e Tributário da Faculdade de Direito da USP-, Fonseca foi aprovado após as etapas de prova escrita, prova didática, avaliação do projeto de pesquisa e análise do memorial. Foi no memorial que incluiu as cartas.

O memorial, documento usado para avaliar a trajetória dos concorrentes, deveria narrar a carreira acadêmica e destacar as cinco produções consideradas mais relevantes, acompanhado de elementos do currículo.

Foi nesse espaço destinado que Fonseca decidiu incluir as indicações. Embora não fossem exigidas, afirma a defesa, elas foram entregues de forma pública e transparente como elementos destinados a comprovar fatos relacionados à carreira acadêmica e jurídica do candidato.

O material tinha peso considerável dentro do memorial: eram dez cartas, que ocupavam 24 das 152 páginas do documento. Entre os signatários estavam quatro ministros do STF -André Mendonça, Dias Toffoli, Edson Fachin e Gilmar Mendes-, dois ministros do STJ, Ribeiro Dantas e Gurgel de Faria, e o então procurador-geral da República, Paulo Gonet, além de outras autoridades.

A candidata Élida Graziane Pinto, procuradora do TCE-SP (Tribunal de Contas do Estado de São Paulo), que também disputava a vaga, contestou o resultado e apontou possíveis violações aos princípios da impessoalidade, da isonomia e da moralidade administrativa.

Para ela, os documentos não eram manifestações genéricas sobre o candidato. Os signatários relatavam experiências profissionais e acadêmicas que tiveram com Fonseca.

O professor trabalhou como assessor em gabinetes do STF e foi orientado por Gilmar Mendes em seu mestrado na UnB (Universidade de Brasília). Em uma das cartas, Mendes também relatou ter recomendado Fonseca para uma vaga de professor no IDP (Instituto Brasileiro de Ensino, Desenvolvimento e Pesquisa), instituição da qual é sócio.

Na avaliação do memorial, 1 dos 5 integrantes da banca, o professor Gilberto Bercovici, atribuiu nota zero a Fonseca. Os outros quatro votaram pela aprovação, resultado que levou o candidato a superar os demais cinco concorrentes.

A defesa afirma, porém, que Fonseca foi aprovado a partir de um processo conduzido dentro das etapas regulares e que sua trajetória acadêmica, atuação docente e experiência jurídica foram avaliadas pela banca.

Morre porco clonado em projeto da USP para transplante de órgãos em humanos

ANA BOTTALLO-SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - No fim de julho, pesquisadores do Centro de Ciência para Desenvolvimento de Xenotransplante da USP (XenoBR) realizaram a eutanásia do primeiro porco clonado pelo grupo. O animal fazia parte do projeto que pretende gerar clones de suínos geneticamente modificados para produzir órgãos que possam ser utilizados no transplante em humanos.

O animal nasceu em 24 de março deste ano em Piracicaba, a 160 km da capital paulista. Ele estava saudável e sem intercorrências da clonagem, segundo Ernesto Goulart, pesquisador do Centro de Estudos do Genoma Humano e de Células-Tronco (CEGH-CEL) do Instituto de Biociências da USP e um dos coordenadores do projeto.

Após constatar que ele havia atingido a maturação sexual -período em que os órgãos já ficam em tamanho adequado para captação para seres humanos-, a equipe decidiu eutanasiá-lo em 28 de julho, aos quatro meses e quatro dias.

O porco pesava 84 quilos, ante 1,75 kg ao nascer, e era mantido em uma unidade experimental na Cidade Universitária, no Butantã, zona oeste de São Paulo.

"O nascimento do primeiro porco clonado foi um marco que validou o esforço da equipe e provou que a técnica de clonagem desenvolvida do zero funcionava", afirma Goulart.

Segundo o pesquisador, a etapa foi bem-sucedida, o que também foi evidenciado pelo nascimento de um segundo clone -este morreu pouco depois.

A decisão de eutanasiar o primeiro porco foi motivada também pelos custos de mantê-lo no biotério, de acordo com Goulart. Os ensaios iniciais previam sobrevida do animal de até sete meses.

"Tudo envolve custos, precisamos manter uma equipe, pagar insumos, manter a infraestrutura. E o projeto está em um momento em que precisamos fazer essa contenção de gastos para conseguir sobreviver até alguma liberação de recursos de projetos já aprovados, mas cujos pagamentos ainda não foram liberados", diz ele.

"Acredito que a gente acelerou um pouco [eutanásia], mas sem nenhum prejuízo aos dados principais da pesquisa nem à integridade e bem-estar do animal."
A falta de verba pode afetar também alunos de pós-graduação envolvidos na pesquisa, afirma Mayana Zatz, geneticista do CEGH-CEL. "Tivemos muitos alunos na equipe que saíram porque as bolsas acabaram. Algumas vão até dezembro, mas muitos deles já estão procurando outras oportunidades."
FONTES DE RECURSOS
Com apoio de agências federais e estaduais, como CNPq, Ministério da Saúde, Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação, Fapesp e USP, a equipe avalia que a demora na liberação de recursos já aprovados pode pôr a pesquisa em risco. O animal -o primeiro porco clonado da América Latina, segundo os cientistas-, representa uma etapa na trajetória brasileira em direção aos xenotransplantes.

Estados Unidos e China já realizaram xenotransplantes, técnica que consiste no transplante de órgãos entre espécies diferentes.

"Esse tipo de pesquisa científica inovadora e com potencial de retorno para a sociedade leva muito tempo. Não é algo que em quatro anos temos um resultado. Os EUA e a China estudam há 30 anos, e nós conseguimos, em seis, gerar clones saudáveis", afirma Goulart.

Um dos desafios para o transplante de órgãos suínos em humanos é a rejeição imunológica. Para tentar contorná-la, pesquisadores utilizam edição genética para inativar genes suínos associados à rejeição e inserir genes humanos.

No projeto brasileiro, essa etapa ainda não começou e aguarda recursos, diz o pesquisador. "O próximo passo essencial é clonar embriões que já tenham passado pela edição genética." O grupo também busca certificações de organismos geneticamente modificados na CTNBio (Comissão Técnica Nacional de Biossegurança).

Em nota, a Fapesp afirma que apoia o projeto desde 2022, com vigência prevista até maio de 2027. "Todos os apoios previstos no termo de outorga do projeto estão sendo honrados pela Fapesp, incluindo 32 bolsas de pesquisa. Não há contingenciamento", diz a agência. Segundo a fundação, a coordenação solicitou recursos adicionais, pedido que está em análise.

O Ministério da Saúde é responsável pelo apoio de três projetos em andamento associados à pesquisa. A pasta declara, em nota, que já liberou R$ 6,15 milhões de um total aprovado de R$ 11,6 milhões.

"Os valores são repassados via CNPq, que é o parceiro operacional, conforme previsto na chamada pública e de acordo com o andamento das etapas científicas. A liberação é condicionada ao cumprimento do cronograma de metas, à aprovação das prestações de contas das etapas já executadas e à disponibilidade orçamentária do exercício vigente", diz a pasta.

ACERVO DE MUSEU
Depois da eutanásia, o corpo do porco foi encaminhado ao MZUSP (Museu de Zoologia da USP), na zona sul de São Paulo, onde será taxidermizado e incorporado ao acervo expositivo.

"Quando eles nos procuraram, ficamos muito felizes e honrados", afirma Isabel Landim, diretora da Divisão de Difusão Cultural do MZUSP.

A expectativa é que o animal esteja em exposição até o fim deste ano. Além do espécime taxidermizado, o espaço deve apresentar materiais sobre sua importância para a ciência brasileira.

"Queremos desmistificar a ideia de que a ciência é 'imediata' e ilustrar que o processo científico é lento, complexo, cheio de tentativas e erros", diz Landim.

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