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Brasil - Brasília - Distrito Federal - 28 de junho de 2022

2021: O ano da convivência?

2021: O ano da convivência?Foto: DANIEL TEIXEIRA/ESTADÃO

José Renato Nalini

José Renato Nalini - Estadão Conteúdo - 01/01/2021 - 09:45:21

O que se escreveu sobre 2020 dá para formar bibliotecas. Todos sentiram o impacto desse ano fatídico. Confinamento, distanciamento, medo e perplexidade. Acenou-se com o “novo normal”, após a eficácia da prometida imunização. Denominação também estranha: o “novo normal” é um emblemático anormal.

Os otimistas acenam com verdadeira conversão dos homens. Assumindo-se frágeis e finitos, levados cruelmente a se despedir da vida, alguns de maneira precoce, os sobreviventes seriam mais sensíveis, solidários e humanos.

A verdade é que o mundo está precisando mesmo de correção de rumos. A polarização de posições ideológicas gerou um clima inamistoso, de ofensas prodigalizadas pelas redes sociais. O conceito amigo/inimigo de Carl Schmit ressurgiu potencializado e deteriorado. É interessante recuperar o eixo do pensamento de filósofos contemporâneos que já se preocupavam com o grau de qualidade do convívio entre as pessoas. Dentre eles, destaca-se Julián Marias (1914-2005), que escreveu um “Tratado sobre a convivência”, cujo subtítulo é “concórdia sem acordo”.

Coincidentemente – ou não será a lógica de Deus, como dizia Bernanos? – ele inicia sua reflexão com “a verdade vos tornará livres”, algo que o Brasil tem ouvido com certa frequência. Para ele, a verdade é a própria condição da liberdade. Pois o erro – e, pior ainda, a falsidade – conduz à servidão. “Grande parte dos males deste mundo, aqueles que são em princípio evitáveis – porque dependem dos comportamentos humanos e não da estrutura da realidade – procede das más relações com a verdade, que podem chegar à aversão por ela, a leva-la a ser considerada o inimigo que deve ser evitado ou destruído”.

Outra consequência da verdade é a concórdia. “Convém não confundí-la com a unanimidade, nem mesmo com o acordo. A diversidade do humano, a índole conflituosa, exclui a homogeneidade, a unanimidade, que sempre é imposta, precisamente à custa da verdade, do seu desconhecimento ou falsificação”.

As diferenças não podem causar a impossibilidade de convívio. É preciso não esquecer os elementos comuns, que fundamentam a possibilidade de convivência. Se viver não é fácil, o ser humano “não tem outra solução senão acertar; sua vida é permanente insegurança; não dispõe de um sistema eficaz de instintos que orientem e regulem seu comportamento; tem projetos, sendo necessário decidir se são ou não factíveis e se são conciliáveis com os dos outros homens. Por essa razão, o erro, tão raro na vida animal, é a ameaça constante da vida humana. Por isso, o homem não pode senão pensar, usar a razão, que nem sempre possui em grau necessário, mas de que – e isto é decisivo – precisa, sem a qual não pode viver humanamente”.

Parece o óbvio, mas não é. Os tempos atuais são de uma profusa explosão de irracionalidades. Que vão do negacionismo ignorante, à mais insensata teimosia. A pasmaceira parece conviver com o absurdo e sequer se preocupa com o diagnóstico dessa patologia, cujos sintomas impregnaram a rotina brasileira.

A História é o relato factual dos vitoriosos. Nem sempre ela registra a opressão dos dissidentes, que não são reconhecidos, nem vêm respeitadas suas diferenças. Isso dificulta a possibilidade de convivência.

O remédio para a situação de blindagem compartimentada entre idiossincrasias é reconhecer a inteligência como algo dotado de raízes morais. A ideia é de Julián Marias: “sem uma considerável dose de bondade se pode ser “esperto”, mas não verdadeiramente inteligente. E, mais que a uma preocupação moral, isso corresponde a uma evidência intelectual: a de que inteligência consiste sobretudo em abrir-se à realidade, deixar que ela penetre na mente e seja aceita, reconhecida, possuída”.

Até porque, “esperteza”, na nossa cultura, é algo que em geral coincide com a maldade. Fala-se tanto em “transparência”, um princípio republicano. É exatamente o contrário do subterfúgio, da atuação do capcioso que, melifluamente, se esconde sob aparência inocente, mas inocula veneno em suas relações. A transparência reclama às pessoas de bem não sejam intransigentes, nem intolerantes. Mas é o que mais se vê na política, um terreno minado, em que abundam as arapucas e outras armadilhas.

Intransigência e intolerância não deveriam residir na política. Pois política “consiste em entender-se com os olhos discrepantes, ceder o que é devido, ou ao menos aconselhável, buscar o conselho e a cooperação das diversas parcelas de um país”. Uma nação continental como o Brasil tem inúmeras realidades. Históricas, regionais e locais. O bom artífice de uma política saudável deveria promover o convívio entre os diferentes, não açular a ira fundamentalista dos fanáticos.

Uma constatação empírica é a de que a maioria dos brasileiros quer paz, quer crescimento sustentável, quer proteção da natureza, quer educação e saúde de qualidade, quer saneamento básico e quer um governo que atenda às suas expectativas. O fenômeno da opressão dessa maioria por núcleos minoritários de ânimo exacerbado, irados e violentos, não condiz com a vocação tupiniquim.

A lucidez que prevalece em inúmeros espaços brasileiros tem o dever de imaginar o ano 2021 como o período em que se vai viver após à peste. É preciso estar consciente de que é hora de semeá-lo de projetos factíveis, vê-lo como cenário de uma nova humanidade convivente, para que nele se concretize o ideal possível da felicidade entre os viventes.

*José Renato Nalini é reitor da Uniregistral, docente da pós-graduação da Uninove e presidente da Academia Paulista de Letras – 2019-2020

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