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A comida como linguagem

A comida como linguagemFoto: Comunicação Armazém do Campo - SP

Preparar e servir comida, na maioria das sociedades humanas, envolve um processo complexo

Por Joana Monteleone - Brasil Fato - 20/12/2020 - 15:39:59

Já é voz corrente entre os estudiosos e pesquisadores de História da Alimentação que o ato de comer se equivale ao da linguagem. Cozinhar, servir e compartilhar a comida em grupo tem significados e simbolismos que os assemelham às diferentes línguas criadas e usadas por homens e mulheres ao longo da história.

Preparar e servir comida, na maioria das sociedades humanas, envolve um processo complexo, que precisa ser decodificado, entendido e ressignificado por quem dele participa. Aqui, neste artigo, eu queria explorar mais de perto essa semelhança entre a linguagem e a alimentação, entender as influências, os cruzamentos e as interferências que sofrem as línguas e as cozinhas e como isso é essencial para a humanidade.

Podemos pensar que na cozinha os ingredientes são como as palavras, que são as estruturas da língua, e que, essas mesmas palavras e ingredientes combinados de uma determinada maneira, formam frases ou pratos. As palavras, e os ingredientes, são arrumados de acordo com regras que podemos chamar de gramática ou livros de receitas. Vai ser a sintaxe que dará sentido ao ato de comer em grupo, regulando a maneira de se servir a mesa. E finalmente é algo parecido com a retórica que regula os comportamentos de homens e mulheres à mesa. É uma analogia complicada, eu sei. Mas podemos pensar nela de outras maneiras mais simples e que fazem parte do nosso dia a dia para chegar à mesma conclusão dos estudiosos.

Quando viajamos para um lugar diferente uma das primeiras coisas que fazemos é experimentar a comida local. E o mesmo acontece com restaurantes de especialidades nacionais que encontramos em nossas cidades. Temos restaurantes italianos em que comemos pizza, ou japoneses em que comemos sushis, ou americanos com seus hamburguers. Podemos conhecer um lugar pela comida que experimentamos ali. E é infinitamente mais fácil comer algo de uma determinada localidade do que aprender a língua do lugar. Assim, comendo determinada comida de uma região podemos dizer que já experimentamos seus códigos sociais, sua identidade, que conhecemos seu povo e suas maneiras de viver.

Muitas vezes, é a comida que auxilia na intermediação entre culturas diferentes, abrindo portas, derrubando preconceitos. Jantares diplomáticos, tréguas de paz, feiras, mercados, restaurantes, bares e botecos são instituições que criam empatia e que derrubam barreiras entre os povos, aproximando as pessoas. Constituem a língua gastronômica de um determinado lugar. Derrubam barreiras ao aproximar as pessoas.

Os sistemas culinários, assim como a linguagem, estão sujeitos a toda sorte de intervenções, acréscimos, influências. Uma língua nunca está morta e vive de invenções, de interferências, de acréscimos, de cruzamentos. Ainda que gramáticos conservadores queiram afirmar purismos ou a nefasta influência estrangeira e das gírias, abreviações ou neologismos, as línguas incorporam palavras, as criam, as fundem e... falam. No dia a dia da fala, a gramática e o dicionário são estáticos e tendem a correr atrás do que já acontece na prática.

Com a cozinha acontece o mesmo. Não existe uma cozinha pura ou original – ela está sendo constantemente reinventada, modificada, sofrendo influências, contaminações e interferências de todo tipo. É o que a cozinha tem de maravilhoso. Chegamos assim ao tema de identidade e da troca na cozinha. Palavras que parecem opostas, mas que se complementam ali, no fazer cotidiano. Afinal, a defesa de uma determinada identidade gastronômica parece se contrapor à necessidade das trocas de ingredientes. Mas são as trocas, as experiências, vivências e necessidades que fazem com que a cozinha e as línguas tenham o que mais importa na vida, a conexão entre as pessoas.

Edição: Rogério Jordão

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