O ponto delicado não está apenas na prisão em si, mas no que ela pode destravar. Paulo Henrique Costa já vinha aparecendo como personagem central das tratativas
Por João Zisman - 16/04/2026 10:10:40 | Foto: Divulgação
A prisão de Paulo Henrique Costa muda o ambiente porque retira o caso BRB-Master da zona já conhecida da crise financeira e o recoloca, com força renovada, no terreno penal e político. O ex-presidente do BRB foi preso nesta quinta-feira, 16 de abril, no âmbito da Operação Compliance Zero. Segundo a Polícia Federal, a investigação apura se ele recebeu cerca de R$ 140 milhões em imóveis de Daniel Vorcaro em negociações envolvendo o Master e o BRB. A própria Celina Leão reagiu dizendo tratar-se de assunto de Justiça. A frase é correta, mas não contém o alcance institucional do que está colocado.
O ponto delicado não está apenas na prisão em si, mas no que ela pode destravar. Paulo Henrique Costa já vinha aparecendo como personagem central das tratativas. Michel Temer disse ao Correio que Ibaneis Rocha não tratou diretamente do BRB com Vorcaro e atribuiu as negociações a Paulo Henrique. Em janeiro, a acareação entre Vorcaro e Costa no STF já havia mostrado versões opostas sobre a origem e a qualidade das carteiras. Se a prisão apertar a margem de defesa do ex-presidente do banco, a hipótese de colaboração premiada deixa de ser exercício de bastidor e passa a ser um risco concreto para todos os que estavam acima, ao lado ou ao redor da operação. Risco não é desfecho, mas também não é detalhe.
É nesse ponto que o problema deixa de ser retrospectivo e passa a pressionar o presente imediato do governo. Celina assumiu o comando do DF em janeiro de 2023, durante o afastamento de Ibaneis após o 8 de janeiro, em cenário de altíssima tensão institucional. A diferença agora é mais dura. Naquele momento, operava como substituta emergencial. Hoje responde como governadora titular, de fato e de direito, diante de uma crise que combina banco público, Polícia Federal, mercado, Banco Central e pré-eleição. A natureza da responsabilidade mudou.
A promessa de solução em até 30 dias, anunciada após reunião com Gabriel Galípolo, continua de pé no calendário político, mas a prisão de Paulo Henrique Costa altera o ritmo e o humor do processo. O governo informou que há investidores interessados nos ativos do BRB e que uma proposta de cerca de R$ 15 bilhões foi formalizada para aquisição de parte das carteiras incorporadas do Master, com pagamento parcialmente à vista e o restante atrelado aos próprios ativos. O fundo Quadra Capital aparece como protagonista dessa frente. O problema não é a existência de interessados. É a disposição de fechar negócio sob incerteza crescente.
Diligência, apetite e precificação não caminham na mesma velocidade quando quem estruturou essas operações passa a responder preso, mesmo fora do comando do banco. O negócio pode avançar. Mas a combinação de pressa, desconto pequeno e confiança alta deixa de ser trivial.
O mesmo raciocínio vale para a venda das carteiras de empréstimos a estados e municípios. Itaú confirmou interesse, o BTG já vinha avaliando ativos e o mercado acompanha. Quando grandes instituições passam a olhar o mesmo balcão, há valor ali. Mas há também leitura clara de fragilidade. A prisão não interrompe automaticamente essas tratativas, mas desloca o eixo de negociação. Quem compra passa a ter mais tempo. E quem vende passa a ter menos margem.
No processo eleitoral, a pergunta relevante não é se a prisão produz um ponto de inflexão imediato. Ainda não é possível afirmar isso. A questão mais honesta é saber se o eixo da conversa mudou. E mudou. O caso volta ao centro, reativa conexões políticas, reposiciona responsabilidades e impõe uma agenda que não estava no planejamento de quem tenta construir narrativa de reorganização.
Celina não é vítima desse processo, tampouco protagonista de uma solução pronta. Está no lugar onde as decisões precisam ser tomadas sob pressão e com pouca margem de erro. Já operou em ambiente de tensão institucional e conhece o custo de conduzir cenários adversos. O que está colocado agora não é um teste de resistência pessoal, mas de precisão política e financeira.
A questão mais séria talvez não esteja em medir dano imediato, mas em entender como esse episódio será absorvido ao longo do tempo. Se o governo conseguir organizar uma saída consistente e, ao mesmo tempo, manter o controle do processo, o episódio tende a ser incorporado como parte de um ajuste mais amplo. Se isso não acontecer, o tema deixa de ficar restrito ao passado recente do banco e passa a influenciar diretamente a leitura do presente. Entre uma coisa e outra, há menos espaço para improviso do que para acerto fino.
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