×
ContextoExato

Contexto Exato

Brasil - Brasília - Distrito Federal - 20 de agosto de 2022

Alimento e cura: O poder ancestral do óleo de Batiputá

Alimento e cura: O poder ancestral do óleo de Batiputá

Foto: O óleo do Batiputá possui propriedades curativas, é utilizado na preparação de alimentos e em rituais do povo Tremembé da Barra do Mundaú - Frame do VT

Povo Tremembé da Barra do Mundaú compartilha sua cultura e espiritualidade com as novas gerações

Camilla Lima - Portal Brasil De Fato Fortaleza, Ce - 31/07/2022 - 09:53:53

O fruto é pequenininho, mas a potência do óleo que se extrai dele ultrapassa gerações. Batiputá o nome, planta nativa da Barra do Mundaú, no Ceará, que há mais de 300 anos vem sendo utilizado pelo Povo Tremembé: “para nós é reconhecido como o óleo milagroso que pra tudo serve, tudo cura. Então a gente diz que o óleo do batiputá é o óleo que alimenta e cura. Ele identifica quem somos porque ele é uma forma importante de conexão com o território sagrado, ele é uma forma importante de nos identificar enquanto povo naquele território”, explica a jovem liderança indígena, Mateus Tremembé.

Pelos seus poderes curativos e espirituais, o óleo de Batiputá é usado em vários dos rituais da etnia, mas com o tempo, o Povo Tremembé descobriu também o sabor marcante e a acidez do óleo que virou ingrediente indispensável na culinária da comunidade. Como nos conta deliciosamente, Mateus: “a gente colhe o feijão, cozinha o feijão. Depois coloca uma colherzinha da banha do batiputá, coloca uma farinha e ali você faz um “molequezinho” (amassando com a mão) do feijão maduro e come, é uma delícia! O peixe frito no óleo de batiputá não tem comparação com o peixe frito em óleo industrializado, porque ele tem um sabor especial, ele tem um cheiro especial’’.

Confira VT da matéria

Só que com o passar dos anos, seu uso foi diminuindo entre as novas gerações que já não participavam mais do ritual de confecção do óleo. Foi aí, que o Mateus Tremembé resolveu tornar o fruto objeto de pesquisa, com a ideia não só de resgatar a sabedoria ancestral sobre o uso do óleo de batiputá, mas também de perpetuá-la: “anteriormente à pesquisa, o óleo de batiputá era preparado somente pelas mulheres mais velhas e pelos homens mais velhos da aldeia, os agricultores. Não tinha a participação da juventude nesse processo, e isso me preocupou bastante porque eu já tinha 24 anos, na época, e me preocupava porque eu não sabia fazer o óleo do batiputá, minha mãe e meu pai sabiam, mas eu não sabia, isso não era uma obrigatoriedade, que o jovem soubesse fazer esse beneficiamento”, explica.

A pesquisa foi elaborada junto com profissionais da Escola de Gastronomia Social, do Governo do Ceará, que adentraram o território indígena para ajudar a sistematizar o processo de extração e pensar maneiras de (re)unir as gerações em torno desse ritual. “Quando o Mateus chega no laboratório da escola, certamente ele pensa uma relação entre tradição e inovação, em como fazer os jovens do território compreenderem a importância do óleo do batiputá e fazerem a manutenção. A gente deu todo o suporte, eles se organizaram, fizeram a plantio, fizeram o colheita e hoje eu diria que a gente conseguiu fazer com que o saber, que era um saber centralizado entre os mais velhos, pudesse, de forma sistematizada, ser colocado em evidência entre os mais jovens”, pontua a coordenadora de Cultura Alimentar da escola, Vanessa Moreira.

Saberes perpetuados que significam não só um resgate da ancestralidade, mas também um ato de resistência, como salienta o ecólogo Jerônimo Villas Bôas, um dos mentores do Mateus no laboratório da Escola: “momentos como esse, em que uma jovem liderança, uma figura como o Mateus traz luz para um elemento simbólico e significativo da cultura, da biodiversidade e da espiritualidade dos Tremembé, eu acho que é sempre um momento em que se alivia uma perspectiva das tensões e permite que eles olhem pra dentro do próprio território. Os Tremembé lidam com uma série de desafios pra permanecer naquele território, é uma luta política e todos os mecanismos possíveis de valorização, de sistematização do conhecimento e que garantam que os jovens sigam entendendo a razão de existir naquele território e a amplitude do que significa aquele território, eles são fundamentais”.

Mateus divide ainda algo potente diante do futuro e do resguardo da sabedoria ancestral de seu povo: “eu acredito que a importância de se preservar está, sobretudo, na sustentabilidade e no acreditar no amanhã, acreditar no futuro. E nós, enquanto Povo Tremembé, acreditamos que essa tradição precisa permanecer viva porque ela é a conexão nossa com o passado, mas sobretudo com o futuro, o futuro que nós acreditamos, e que nós queremos!”.

Ele lembra um ditado que lhe foi compartilhado pelo seu avô: “os troncos velhos da aldeia da Barra do Mundaú sempre falam que - nós somos os daquele tempo e os daquele tempo são os de hoje -, então se nós somos os daquele tempo precisamos consumir o que os daquele tempo consumiam para que nossa identidade, nossa espiritualidade e nossa ancestralidade permaneça viva’’.

Edição: Camila Garcia

Comentários para "Alimento e cura: O poder ancestral do óleo de Batiputá":

Deixe aqui seu comentário

Preencha os campos abaixo:
obrigatório
obrigatório
Últimas Notícias
Toffoli chama de 'suicidas' empresários que teriam defendido golpe no WhatsApp

Toffoli chama de 'suicidas' empresários que teriam defendido golpe no WhatsApp

Desigualdade emperrou chegada da vacina contra a Covid-19 em regiões mais pobres do Brasil

Desigualdade emperrou chegada da vacina contra a Covid-19 em regiões mais pobres do Brasil

Número de candidaturas no DF é menor que em 2018

Número de candidaturas no DF é menor que em 2018

“Trabalho para o ACNUR porque acredito no que estou dizendo”

“Trabalho para o ACNUR porque acredito no que estou dizendo”

Vale prevê mais 13 anos para eliminar barragens como Brumadinho

Vale prevê mais 13 anos para eliminar barragens como Brumadinho

STF veta lei mais branda a condenados, mas admite em processos não julgados

STF veta lei mais branda a condenados, mas admite em processos não julgados

Canadian planeja fábrica de US$ 9 bilhões na China para fabricação de polissilício

Canadian planeja fábrica de US$ 9 bilhões na China para fabricação de polissilício

Cochilos diurnos frequentes aumentariam risco de hipertensão e AVC

Cochilos diurnos frequentes aumentariam risco de hipertensão e AVC

Atenção! A Varíola do Macaco é completamente diferente da Covid-19

Atenção! A Varíola do Macaco é completamente diferente da Covid-19

Campanha Agosto Lilás e os 16 anos da Lei Maria da Penha

Campanha Agosto Lilás e os 16 anos da Lei Maria da Penha

Vocês não estão sós: Vitória brasileira no Festival de Locarno tem recado para artistas do país

Vocês não estão sós: Vitória brasileira no Festival de Locarno tem recado para artistas do país

Debate insosso: Correio Braziliense e TV Brasília se esforçaram, mas o elenco não ajudou

Debate insosso: Correio Braziliense e TV Brasília se esforçaram, mas o elenco não ajudou

Justiça Federal cancela liminar e maior porta-aviões do Brasil não poderá voltar ao país

Justiça Federal cancela liminar e maior porta-aviões do Brasil não poderá voltar ao país

RD Congo: Uso de fake news está causando mortes, diz comandante da Missão

RD Congo: Uso de fake news está causando mortes, diz comandante da Missão

Internacionalização do PCC: Como enfrentar o avanço do 'profissionalismo de gestão' da facção?

Internacionalização do PCC: Como enfrentar o avanço do 'profissionalismo de gestão' da facção?

Datafolha: Lula tem 51% dos votos válidos contra 35% de Bolsonaro

Datafolha: Lula tem 51% dos votos válidos contra 35% de Bolsonaro

Adeus aos sacoleiros: O Brasil virou o Paraguai dos paraguaios?

Adeus aos sacoleiros: O Brasil virou o Paraguai dos paraguaios?

“Vandalismo”: Senado aprova projeto que altera área da Floresta Nacional de Brasília

“Vandalismo”: Senado aprova projeto que altera área da Floresta Nacional de Brasília

Para evitar rejeição, candidatos omitem partido na propaganda

Para evitar rejeição, candidatos omitem partido na propaganda

Recenseadores do IBGE denunciam ameaças e violência em entrevistas do Censo 2022

Recenseadores do IBGE denunciam ameaças e violência em entrevistas do Censo 2022

Vereador Gabriel Monteiro é cassado pela Câmara do Rio por quebra de decoro

Vereador Gabriel Monteiro é cassado pela Câmara do Rio por quebra de decoro