Autora Eva Baltasar escreve com bússola para encontrar o que ainda não descobriu

Poeta e romancista, Baltasar se consolidou como uma das vozes mais singulares da literatura catalã contemporânea

Autora Eva Baltasar escreve com bússola para encontrar o que ainda não descobriu
Autora Eva Baltasar escreve com bússola para encontrar o que ainda não descobriu

Fernanda Mena-paraty, Rj (folhapress) - 04/08/2026 16:15:28 | Foto: A escritora catalã Eva Baltasar - David Ruano/Divulgação

"Não sou uma escritora mapa. Sou uma escritora bússola." A frase de Eva Baltasar parece uma definição de método, mas é antes uma declaração de desobediência. A autora catalã, que lança no Brasil o terceiro volume de um tríptico, diz não escrever para confirmar uma ideia que já tem na cabeça, mas para descobrir o que ainda não sabe.

"Eu nunca sei o que vou escrever. Não sei qual será a história, nem para onde ela vai me levar. Simplesmente me entrego ao processo", diz ela em Paraty, onde foi destaque da Flip. "Às vezes sigo numa direção e descubro que não há nada ali. Acontece de destruir meses inteiros de trabalho."
É a partir desta incerteza que nasce "Mamute", terceiro romance da trilogia traduzida pela editora Dublinense e iniciada com "Permafrost", de 2018, e continuada com "Boulder", de 2020, finalista do prestigioso International Booker Prize.

Poeta e romancista, Baltasar se consolidou como uma das vozes mais singulares da literatura catalã contemporânea. Seus livros acompanham mulheres que não são nomeadas, narradas em primeira pessoa, que vivem situações limite e são repletas de desejos, desconfortos e de uma urgência em escapar das formas preconcebidas de existência feminina.

Em "Mamute", essa fuga ganha contornos radicais que bebem na biografia da autora. A protagonista abandona a cidade e se desloca para uma região rural, onde a sobrevivência passa a depender do contato direto com a terra, com os ciclos naturais e com o próprio corpo. Longe de tudo, ela tenta descobrir o que sobra quando as convenções da vida urbana contemporânea são retiradas.

"Sempre parto de paisagens da minha própria vida. A matéria-prima é sempre alguma coisa que vivi. Mas 'Mamute' é o livro que mais se aproxima da minha experiência", diz.

"Quando eu tinha 26 anos, morava em Barcelona e era mãe solo da minha primeira filha. Tinha um trabalho muito precário na universidade e dividia apartamento. Um dia, quando minha filha tinha dois anos, larguei tudo e fui viver numa região muito isolada."
No romance, a protagonista deixa a cidade em busca de solitude numa casa antiga numa região inóspita, onde o acesso é difícil e o único vizinho é um pastor de ovelhas. Apesar de se relacionar com mulheres, ela responde a um chamado interno para gestar uma vida e procura engravidar.

A casa onde Baltasar viveu por três anos era remota como a da protagonista de "Mamute", mas ainda mais precária: não tinha sequer eletricidade.

Na literatura de Baltasar, a solidão não aparece como ausência, mas como oportunidade de autoconhecimento e campo de investigação em que suas personagens confrontam aquilo que normalmente evitam.

E a natureza, tão presente em seus enredos, surge fora das páginas como inspiração.

"Eu escrevo boa parte dos meus romances no bosque. Mas não é que eu escreva com o computador no bosque. Para mim, escrever não é estar com o computador ou com a caderneta, mas é deixar que o romance venha até mim."
"Dedico duas ou três horas por dia a caminhar pelo bosque com meu cachorrinho. E ali o romance acontece. Chego em casa e escrevo. Boa parte do processo é estar na natureza. A rua não me serve."
Essa entrega ao desconhecido ajuda a explicar uma das marcas mais reconhecíveis de sua obra: uma fronteira borrada entre autora e criação. "Há coisas minhas em todos os romances, mas não é a minha vida, impossível. Eu não tenho 400 anos, e em 48 não dá para viver tudo aquilo."
Suas personagens, assim como ela, relacionam-se preferencialmente com mulheres, e a autora diz criar uma relação de arrebatamento com elas.

"Eu me apaixono [pelas protagonistas] porque elas despertam em mim uma enorme curiosidade", afirma. "A vida do romance começa a contaminar a minha própria vida. Começo a sentir sintomas de apaixonamento. Perco a fome. Durmo muito pouco. É uma química real."
Neste processo, Baltasar diz que precisa compreender suas protagonistas por inteiro para tornar suas decisões coerentes. "O que acho mais interessante é que, por meio delas, consigo mergulhar no meu próprio inconsciente, nas regiões mais escuras, onde vivem os monstros. E é muito seguro fazer isso como escritora, mas também como leitora", diz.

A autora diz considerar o ato da escrita um aprofundamento íntimo e que não há intenção política por trás dos retratos crus que fez sobre maternidade e sexualidade, mas afirma gostar quando seus escritos ganham essas interpretações.

"Cada leitor pode acrescentar uma camada diferente de leitura. Algo que era apenas um dado natural da vida para mim pode se transformar numa ferramenta política", afirma. "Essa nunca foi a minha intenção, mas acho extraordinário quando isso acontece. O livro cresce e segue o caminho que precisa seguir."

Mamute
Preço: R$ 69,90 (96 págs.)
Autoria: Eva Baltasar
Editora: Dublinense

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